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Afinal, qual foi o João Marques Miranda que resultou da pesquisa realizada? O homem bom e cordial propagado pelo mito familiar? O empreendedor inteligente, que soube aproveitar um momento de crise para obter sucesso financeiro e angariar poder político? O empresário trabalhador e honesto, que realizou ações em prol da comunidade? Ou simplesmente um membro de uma elite local descompromissada, interessado apenas em usufruir das benesses que a sua condição de homem rico e poderoso poderiam lhe proporcionar?

Como visto, ao longo deste trabalho, as informações coletadas nas análises das fontes escritas foram poucas e resultaram apenas em pequenos fragmentos, que tiveram que ser complementados pelos conhecimentos transmitidos nos depoimentos orais, para revelarem algum fundamento que possibilitasse a obtenção de conclusões.

Nesse sentido, as fontes orais foram fundamentais na pesquisa. Mas, não bastou apenas entrevistar pessoas, coletar dados e construir relatos. Foi necessária muita atenção nos ensinamentos disseminados pelos teóricos da História Oral para que o trabalho tivesse algum valor acadêmico quando concluído.

Observou-se então, em várias ocasiões, a manifestação de um processo de reconstrução que, como comentado diversas vezes, em capítulos anteriores, corresponde a um fenômeno preconizado pela historiadora Juliana Pinto Carvalhal204, com base na análise das ideias de Halbwachs, no qual as lembranças expressas nos depoimentos orais são criadas como representações de um passado construído a partir da internalização de uma memória histórica de um determinado grupo.

Dessa maneira, verificou-se que foram relatados fatos, pelos depoentes, criados no âmbito de um mito, originado em histórias transmitidas por diferentes

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CARVALHAL, Juliana Pinto. Maurice Halbwachs e a questão da Memória In: Revista Espaço Acadêmico, nº 56, Jan2006. Disponível em:

87 gerações de um mesmo grupo familiar. Com o tempo, esses acontecimentos passaram a compor uma memória comum, constituindo lembranças que foram expressas como um passado real nas entrevistas. No entanto, como previsível, muitos desses episódios não puderam ter a sua veracidade totalmente comprovada quando da realização da análise, efetuada com base no cruzamento com as demais fontes pesquisadas e com a bibliografia encontrada. Dessa forma, é possível que, no futuro, caso sejam realizadas novas pesquisas, o resultado final seja diferente.

Como exemplo, pode-se citar a ascendência mestiça e pobre de João Marques Miranda, que pelo mito familiar foi originária de um passado europeu, negro e indígena. Nesse aspecto, as características físicas, a existência de um censo comprovando a elevada frequência de mestiços na região e as histórias sobre o apelido dado ao seu pai demonstraram existir alguma coerência nos fatos relatados. Porém, a inexistência de um robusto suporte documental, aliado a outras fontes, como fotografias ou escritas epistolares, não permitiu, neste trabalho, que se chegasse a uma conclusão definitiva sobre esses fatos.

Tanto é assim, que ainda restam dúvidas sobre o status social dos pais de João Marques Miranda, haja vista que comprovadamente seus filhos tiveram acesso à educação formal e fizeram parte de uma minúscula elite alfabetizada, condição que, devido ao isolamento e as características locais, só era alcançada por quem usufruísse de algum privilégio na sociedade cururupuense, independentemente da condição mestiça a que estavam submetidos.

Da mesma forma, a dimensão política e social da vida de João Marques Miranda e a sua importância para a sociedade cururupuense, que está atualmente materializada no nome de uma rua e de uma escola pública, não pôde ser totalmente esclarecida na pesquisa realizada, principalmente pela deficiência das fontes, que se mostraram muito pobres em relação a esse tema, não permitindo a realização de um contraponto adequado ao relatado nos depoimentos orais.

Nessa perspectiva, procurando contornar esses problemas e, ao mesmo tempo, ampliar o conhecimento sobre a região, utilizou-se, nas análises efetuadas neste trabalho, o conceito de micro-história, que é aquele, segundo o Professor

88 Almir de Carvalho Bueno, no qual, por meio da análise de indícios, estuda-se um determinado caso, procurando “iluminar questões mais gerais”205

.

Logo, apesar da deficiência das fontes, foi possível apresentar um panorama abrangente das condições econômicas, socais e políticas vivenciadas por João Marques Miranda, aspectos que constituíram o seu “espaço de experiência” e “horizonte de expectativas”206

, e que foram determinantes para a definição dos rumos que escolheu seguir.

Assim, foi nesse sentido que foram conduzidas as buscas por vestígios em documentos, jornais e relatos orais que levassem a uma compreensão das permanências, conflitos e tensões vivenciadas pela sociedade cururupuense no espaço temporal definido na pesquisa, pois, obtendo sucesso nessa empreitada, seria também, possível identificar, para aquela população, sujeitas a aquelas experiências, quais eram as diferentes expectativas de futuro que poderiam almejar.

Dessa forma, identificaram-se diversos fatos que, comprovadamente, influenciaram na trajetória de vida de João Marques Miranda, como as revoltas tenentistas da década de 1920 e os seus reflexos no Maranhão. Foi então,

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BARROS, José Costa D'Assunção. Sobre a Feitura da Micro-História In Revista OPSIS, vol. 7, nº 9, jul-dez 2007.(publicação não paginada). Disponível em:

https://revistas.ufg.emnuvens.com.br/Opsis/article/view/9336/6428#.V1DvWeSvjm0. Acesso em 25mai2017.

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Vide os estudos do historiador alemão Reinhart Koselleck e as categorias meta-históricas por ele criadas, como formas de percepção do tempo, conhecidas como “espaço de experiência” e “horizonte de expectativas”. Essas categorias, relacionadas à maneira como o passado e o futuro devem ser trabalhados pelo historiador, podem ser compreendidas da seguinte forma: “(…) a experiência como sendo os acontecimentos do passado que foram incorporados e que podem ser lembrados. Esse passado, que foi trabalhado racionalmente e transmitido a cada geração, desenvolveu nos indivíduos e instituições determinados comportamentos que presentificam o passado; seja pela memória (re)vivida nas suas permanências, seja pelas fontes históricas tratadas pelo historiador. Se na experiência encontramos aspectos de cunho pessoal e interpessoal carregado de subjetividade compartilhados com toda a comunidade; na expectativa encontramos os mesmos aspectos, pois a esperança, o medo e a inquietude se referem a um elemento de projeção do amanhã, de

transformações que trazem o futuro em expectativa para o presente, tal qual a experiência traz o passado para esse mesmo presente”. PRADO, Solange Faria. Espaço de experiência” e “horizonte de expectativas”: relações de poder na colônia de ingleses no sul da província do Espírito Santo no Oitocentos. Cadernos de História, v. 17, nº 27, 2016, p.330. Disponível em:

http://periodicos.pucminas.br/index.php/cadernoshistoria/article/view/P.2237- 8871.2016v17n27p327/10442. Acesso em 25maio2017

89 conhecendo esses cenários, se tornou possível vislumbrar quais eram as possibilidades que estavam disponíveis e, dessa maneira, presumir qual era o grupo político que João Marques Miranda provavelmente pertencia naquela época.

Análises semelhantes foram efetuadas para diversos outros aspectos, cabendo novamente ressaltar que não foi possível chegar, muitas vezes, a conclusões definitivas, ou que sejam irrefutáveis por novos estudos que venham a ser realizados. Mas, apesar desses percalços, os objetivos inicialmente estabelecidos, que constam no Projeto de Pesquisa que dimensionou este trabalho, foram atingidos e, portanto, o resultado final foi satisfatório.

Dessa forma, retornando a questão colocada, no início deste texto, sobre qual foi o João Marques Miranda que resultou da pesquisa, conclui-se que a melhor resposta, a partir das análises efetuadas, seria entendê-lo como “um homem do seu tempo e de seu lugar”. Portanto, um indivíduo plenamente adaptado ao modo de vida do local onde nasceu e passou toda a vida. Uma região afastada de centros urbanos mais desenvolvidos, onde ainda eram adotados valores e costumes semelhantes aos praticados no século XIX, e que estava passando por um momento de profunda crise econômica e conturbações políticas.

Nesse sentido, o mito familiar do sucesso pessoal mostrou-se verdadeiro. João Marques Miranda, com inteligência, soube aproveitar as oportunidades surgidas na sua trajetória e teve a perspicácia de fazer escolhas, dentre as disponíveis, que lhe permitiram angariar prestígio social e poder econômico e político, capazes de provocar, após a sua morte, iniciativas que vieram a perpetuar o seu nome em logradouros públicos da sua cidade.

Finalmente, é importante também ressaltar outro aspecto, diferente do que pautou esta análise até o momento. A forma romantizada e carinhosa como todos os depoentes falaram a seu respeito nas entrevistas, mostra que o seu sucesso não foi apenas material. Ele, ao longo da sua vida, também soube cativar corações e mentes, transmitindo um legado de admiração e respeito, que vem se perpetuando, ao longo do tempo, por diferentes gerações de sua família.

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REFERÊNCIAS