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Vers la 3 ` eme dimension

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as cenas performáticas da combinação destas frases. Farão as improvisações todos juntos

mesmo que inicialmente individualmente para posteriormente trabalhando em duplas e em

conjunto inter-relacionar os fragmentos da história buscando construir sentidos.

2.12. As improvisações e a construção das frases corporais

Margarida: Bom dia! Vamos iniciar as nossas improvisações? Lembro que fiquei devendo a vocês de ler a minha frase. Vamos a ela? Vou ler de uma forma diferente, já vou ler improvisando construindo uma cena performática e depois gostaria de ouvir de vocês o que perceberam. Aqui está a minha frase, que irá se transformando em uma sequencia de frases corporais, vejam:

“Existe algo entre essas paredes que não sei bem o que é”. “Algo me lança, me empurra, me joga de um lado a outro”.

“Um movimento, uma agitação, algo turbulento, batidas, sons, corpos, tudo se mistura e ao mesmo tempo se desprende, joga-se, escorrega, quem sou? Não sei. Sou uma, mas vários ou várias, quem sou? Quem sou nisso tudo?”.

Margarida: Então? Posso agora ouvir vocês?

Iago: Possa ser que eu esteja enganado, mas acho que depois do que vi da sua improvisação da cena performática, percebi que você sempre preenche de ações prévias as suas falas. É como se antes de falar você tivesse que construir um sentido para a fala a partir de ações que são improvisadas.

Bethy: Também percebi desta forma, mas acho que estas ações prévias antes das falas podem ser construídas de múltiplas maneiras diferentes.

Margarida: Sim. Estas ações podem ser construídas de múltiplas maneiras e dependerão dos sentidos elaborados por cada um de nós durante o processo de improvisação. Alguém poderia me dizer o que para vocês seria construir sentidos? Henrique: Para mim, construir sentidos seria encontrar uma razão de ser para aquilo que vamos construindo.

Margarida: E como encontramos esta razão de ser Henrique? Miguel pode falar. Miguel: Acho que esta razão de ser estaria relacionada aos nossos sentimentos, tudo aquilo que nos vai de certa forma nos mobilizando internamente.

Margarida: E como isto seria mobilizado internamente Miguel?

Miguel: Acho que existe uma conexão com o que vamos construindo externamente ao nosso corpo. O que eu quero dizer é que as sequencias de ações de alguma forma se conectam com o nosso interior. Acho que passamos a nos sensibilizar

mais ou menos, com o que vamos construindo e isto vai dando a nós mesmos a possibilidade de escolher se uma determinada sequencia de ação tem ou não uma razão de ser para o que vamos dizer a partir das nossas falas.

Margarida: Henrique?

Henrique: Acho que esta razão de ser estaria diretamente relacionada a associações que vamos construindo a partir das nossas memórias e isto se refletiria em nosso corpo.

Bethy: Eu tenho uma dúvida Margarida. Margarida: Pois não Bethy.

Bethy: Como saberemos qual é a ação correta a ser feita anteriormente a nossa fala?

Margarida: Não existe uma ação correta Bethy. Você irá experimentar algumas sequencias de ações, ou melhor, construir sequências de ações e escolherá uma delas, aquela que você sinta que seja a que contenha como bem disse Miguel e Henrique, uma razão de ser para a sua fala. E isto é construído. Não vem pronto. Fortunato: Mas Margarida em alguns momentos você nem se moveu, então não tinha ação nenhuma. Como faremos neste caso?

Margarida: Ótima pergunta Fortunato. Mesmo na aparente imobilidade sempre existirá ação. A ação de que nós estamos falando não pode ser um movimento vão, digo sem propósito algum, ela precisa ter sempre uma intenção e é o que o pedagogo e diretor teatral Konstantin Stanislavski (2005), chamava de ação física ou psicofísica. Em que toda ação interior implica uma ação exterior e vice-versa. Maria: Explica melhor Margarida. Não compreendo.

Margarida: Darei um exemplo a vocês. Jequitibá você pode me ajudar? Jequitibá: Claro Margarida.

Margarida: Escolha somente uma fala sua. Preencha anteriormente de ações. Depois fale o que escolheu da sua frase. Mas quero que faça isso na total imobilidade. Dá para fazer?

Jequitibá: Dá sim Margarida. Posso começar? Margarida: Pode sim.

Jequitibá: Bem Margarida o fragmento da frase que escolhi foi: “Eu também quero!”.

Maria: Acho que agora compreendi! Jequitibá não se moveu, mas dava para ver em seu rosto o que ele sentia. Quando ele grita: “Eu também quero!” antes ele já foi construindo algo dentro dele. Então íamos conseguindo ver a partir do seu olhar o que ele via e mesmo sem se mover. É como se ele visse coisas muito boas que o fazem dizer depois de tudo “Eu também quero!”.

Margarida: É isso Maria. O que você acha que vê a partir do olhar de Jequitibá são as imagens mentais que ele cria e que aos poucos vai o fazendo acreditar nestas imagens que vão se tornando cada vez mais reais em sua imaginação. Isto vai se tornando cada vez mais visível nas reações do seu corpo mesmo na total imobilidade. Então quando ele fala que quer “aquilo” que vê, nós vemos com ele a partir da sua imaginação. Isto é o que chamamos de ação interior. Assim, estaremos sempre em nossas improvisações trabalhando com as ações exteriores e interiores e aguçando a nossa imaginação. Essas ações atuam mutualmente e por isto são chamadas de ações psicofísicas

Maria: Mas Margarida e se não conseguirmos fazer tão bem como Jequitibá? Margarida: Isto não deve ser a nossa maior preocupação Maria. A técnica como

um fim em si não é o nosso propósito. Ela existe e precisamos conhecê-la, mas apenas para transgredi-la.

Iago: Mas como transgredimos uma técnica Margarida?

Margarida: Ainda não sei Iago, mas no momento certo iremos descobrir. O que quero dizer para vocês é que para tudo que fazemos existe uma técnica, até mesmo para atravessarmos uma rua. Não é mesmo? Senão corremos o risco de sermos atropelados. Mas ela não é o fim, o nosso propósito neste meu exemplo da pessoa ao atravessar a rua, pode ser salvar uma vida do outro lado ou encontrar com um amigo que já faz tempos que não se vê. Então são as nossas intenções e reações em relação aos outros e que nos geram sentimentos e emoções que irão importar e como poderemos refletir sobre tudo isto e aprendermos juntos. Não será a forma do fazer, o como fazer, que estará mais nos interessando. Mas as reações do fazer e de como isto afeta e é afetado pelas nossas trocas e interações e que sentido damos a elas, afetando o entendimento que temos sobre nós mesmos e sobre os outros.

Vamos assim, contando uma história, ao mesmo tempo, que a construímos. Uma história que diz respeito as nossas próprias experiências na construção desta mesma história, uma “narrativa”. Vamos consequentemente buscando pouco a pouco construir conhecimento.

Que tal agora experimentarmos todos juntos? Mesmo que cada um vá criando suas sequencias de ações individualmente.

Bartolomeu: Eu prefiro ficar somente observando Margarida. Você faz alguma objeção a isso?

Margarida: Sem problemas Bartolomeu. Cada um deve prosseguir no seu próprio tempo e ritmo de aprendizado. Não se sinta constrangido por isto. De certa forma isto é bom porque você pode desenvolver outras percepções nos observando e não deixará de estar aprendendo e partilhando conosco as mesmas dúvidas e

aprendizados. É apenas outro momento do aprender, mas que se completa com o nosso nas cenas performáticas.

Bartolomeu: Minha nossa! Durante as improvisações do pessoal consegui ver vários fragmentos de histórias, embora ainda desconectados.

Margarida: Muito boa observação Bartolomeu. As sequencias foram construídas individualmente. A partir de agora iremos fazer as improvisações inter-

relacionando os fragmentos de cada um, ao de todos.

Bartolomeu: Um trabalho um tanto complicado não é Margarida? De um caos de ações, construir uma organização de partes que passam a compor um todo. Margarida: Aparentemente sim Bartolomeu, mas não construiremos tudo de uma vez. Inicialmente trabalharemos em duplas criando relações entre as nossas frases corporais. E depois iremos relacionando todas as frases corporais coletivamente buscando construir sentidos. É um processo de ida e também de volta naquilo que vamos fazendo. De apagar quando necessário e também construir novamente o caminho, elaborando outros sentidos. Teremos então várias cenas performáticas cujos elementos serão agrupados, selecionados e até mesmo podendo ser eliminados. No nosso próximo encontro trabalharemos com estas relações, tentando perceber os sentidos que estaremos elaborando para a construção da história. E também sabermos quem somos e quem estamos elaborando ou nos elaborando como personagens nesta escrita ficcional.

Gostaria que vocês percebessem que a literatura que vamos construindo, ou seja, o texto literário nasce das imagens a partir das frases escritas a partir dos acervos dos museus, que podemos chamar de “frases geradoras”, e perpassa agora as

imagens também corporais. Estas imagens a partir das improvisações retornam literatura, uma literatura corporal feita de cenas performáticas e que vão compondo o que chamamos de “matriz performática”.

Uma poética que nasceu das percepções de cada um, das inquietações, a partir das imagens dos acervos, que eram paradoxalmente invisíveis, até o momento em que alguém se apropria da imagem, se apodera da mesma e a enxerga a partir do afeto do seu corpo, construindo também a “frase geradora”. A partir daí este alguém é tocado pela imagem do artefato artístico. Mas esta imagem do artefato artístico permanece inalterada. O trabalho é então numa próxima etapa iniciado no corpo, a peça que antes tocara agora é tocada, transformada, torna-se densa, a cada ação gera e vai desencadeando afetos, pulsão e novas imagens que agora surgem do corpo que fala, a partir das improvisações. Os espaços então se multiplicam, ampliam-se, soltam-se das paredes, dos tetos, das esculturas de barro, das pinturas, das fotografias, que fazem parte dos acervos. Nos leva a espaços “outros”. Nestes espaços “outros” vamo-nos encontrando com novas situações, contextos diversos e somos levados para outro tempo. Um tempo que transita entre passado, presente e futuro. Daí vão surgindo os problemas, a busca por um sentido, a construção de sentidos.

Bartolomeu: Sabe Margarida depois de te ouvir falar me lembrei da frase de Miguel e da sua improvisação. “Se Jesus estendeu a mão por que me negas?”. Margarida: Estas frases Bartolomeu, denominamos de “frases geradoras”. Mas pode continuar.

Bartolomeu: Desta “frase geradora” de Miguel fiquei refletindo sobre qual sentido poderíamos construir a partir daí. Então, assim como os santos das esculturas de mãos estendidas acolhem, o santo agora homem representado por Miguel em sua ação performática também estende a mão e sente-se rejeitado. Quantos de nós já não nos sentimos assim? Não é mesmo? O mais interessante é que das esculturas Miguel chegou às ações, chegou a um corpo rejeitado, relegado. Fiquei observando a improvisação e me perguntando. Quem é esse corpo? Quem são os outros corpos? Quem são estes que estão junto com ele. É como você nos disse Margarida, é como se as imagens tivessem saltado das esculturas e gritado “por que me negas?!”

Em sua improvisação Miguel sacudiu, empurrou aquele que o desprezou. Isto me tocou profundamente. O sentido de acolhimento, não correspondia mais ao clamado do santo. Contrapunha-se ao próprio santo. Houve um momento em que Miguel e Jequitibá pareciam falar de coisas semelhantes, mesmo em suas

sequencias ainda individualizadas. Mas de alguma forma começavam já a entrar em conexão. Assustei-me quando de repente grita Jequitibá: Vai-te Satanás! Um grito, um clamado que surgia de ambas as improvisações individuais. Mas Miguel parecia contraditoriamente nem se incomodar e bem calmamente diz: “Se não acreditamos naquilo que vemos a obra perde o seu valor”. Parecia algo como uma magia que surgia do momento, do acontecimento e que não dava para ser

previsível, simplesmente aconteceu. E me senti muito feliz de ter presenciado este momento.

Margarida: O seu depoimento foi bonito Bartolomeu e muito pertinente. O ator também precisa acreditar em suas ações para que os outros acreditem e acho que a conexão estabelecida entre Miguel e Jequitibá os levou a isso. Terminaremos por hoje com os sentimentos que vem das palavras de Bartolomeu e de todas as questões e sensações que para cada um de nós deste depoimento possa emanar. Completarei as palavras de Bartolomeu com um breve relato:

Cristo de cabelo pixaim? Uma agitação. Posso ouvir gritos que saem das paredes. Por que eu e você não podemos voar? O velho do quadro, Jequitibá crer ser ele, mas o velho também o vê e tem a certeza de que também já foi um dia assim. Passa a carruagem de fogo, ao olhar o Papai Noel o menino grita: Eu também quero! Um santo sem braço. Mas o que danado é isso?! Será que o que vejo é o mesmo que você vê?!

As esculturas saltaram das paredes dos acervos e ganharam através das “frases geradoras”

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