João: Um de cada vez! Assim não é possível! Vamos manter a ordem! Chico: Não podemos ficar de braços cruzados João! Parece que você está esquecido quanto custa para da raiz do que plantamos, do nosso suor, da planta de nossas mãos colocarmos o alimento na mesa!
Tião: É o individualismo que nos tem feito perder. Todos nós. Tem gente aqui baixando os preços das frutas em surdina da noite! Pessoas aqui de dentro que eu sei! E nós pagamos os mesmos impostos. Isto não é justo!
João: Você não tem como provar Tião! Não se pode acusar ninguém sem provas. O nosso plantio tem nos dado lucros suficientes para dividirmos e vivermos de maneira honesta e digna. O mês passado as sobras das sementes que compramos redistribuímos. Precisamos trabalhar juntos e não em desavença.
Tião: De que dignidade você fala?! De que dignidade você fala João?! Responde! Meu filho está crescendo João e seu sapato já não cabe mais no seu pé. E eu não tenho nem condições de comprar um novo pra ele. Você sabe o que é ir para a escola com o sapato apertado nos pés, ficar cheio de calos, porque seu pai não tem condições de lhe dar um?! Você não sabe João! Você não sabe o que é a terrível consciência que seu filho terá seus pés prejudicados quando adulto e não poder fazer nada para impedir!! Isso é dignidade João?! Eu não aguento mais esta sua complacência com as pessoas João! Eles estão indo pra frente e nós para trás! Trabalhando como burro de carga! Outro assunto é a deslealdada com o nosso ofício. Ou se é agricultor ou não se é. É só você perguntar quantos aqui trabalham também na pescaria. Ou se é agricultor ou se é pescador! Temos que fortalecer a nossa entidade!
João: Um de cada vez! Assim não é possível! Vamos manter a ordem! Soledade: Eu trabalho com a pesca a noite e isto não me faz deixar de ser agricultor. Nós somos uma vila praieira e vivermos do plantio e da pesca não é prejuízo algum. Pelo contrário, garante a sobrevivência dos nossos filhos na época de falta de chuva.
João: Soledade tá certo Tião. Mesmo com o apoio do governo não temos como ter água suficiente para garantir o sustento de todos. A pesca é uma das soluções e também faz parte das nossas origens. Meus pais eram pescadores, meus avós também. E muitos de vocês mais jovens aqui, tem ainda seus pais pescando. Eu passei a minha juventude toda a puxar redes em alto mar Tião. Não é só porque trabalho hoje com a roça e a venda das minhas frutas que me faz esquecer o
passado e muito menos a minha origem. Eu sou pescador Tião e vou ser sempre! Damasceno: João, também a emigração é preocupante. Tem pessoas que falam deixar a vila por causa da queda das barreiras. O mar tem invadido algumas áreas costeiras João. As plantações de coco de Floriano estão ameaçadas e tem mais gente preocupada. Precisamos recuar as nossas plantações João ou ficamos sem ter como plantar.
Tião: Mas João parece que não quer enxergar! Os nossos problemas estão aqui e os pescadores estão a se dar bem a nossas custas. Quantos de nós aqui que lutamos apenas com a agricultura participam das suas reuniões? Porque eles não querem! Preferem manter-se em uma casta fechada. Mas João acha fácil abrir aqui as porta para eles!
João: Um de cada vez! Vamos manter a ordem!
Cortês: Isto é uma calunia! Alguns agricultores tem trocado seus lucros por redes e mantimentos de pescas para a associação dos pescadores e estes também tem contribuído na compra de fertilizantes para as plantações. Isto já foi assunto de reuniões dos quais pude participar e estas pessoas estavam presentes. As portas estão abertas.
Tião: Olha aí João! Eu falei que tem gente ganhando as nossas custas para dar-se bem. Está vendo agora que não precisou nem ir muito longe para você ver o motivo da queda dos preços na calada da noite!
Cortês: Não me venha com as suas acusações Tião! Eu tenho direito de ir e vir e isto não quer dizer que sou desleal e desonesto.
Tião: Não falo de você Cortês. Embora não concorde com a sua atitude de andar por aquelas bandas da praia. Falo dos outros!
João: Não podemos ir contribuindo para gerar discriminações Tião. Onde estamos agora? Em um artesanato. Dividimos com eles este espaço. Nem por isto eles nos veem como ameaça.
Tião: Eles são artistas é diferente.
João: Por que diferentes? Porque não concorrem em produção conosco no mercado?
Tião: Essas pessoas estão tentando passar a gente para trás João!
João: Essas pessoas podem ser desinformadas Tião e podem estar apenas
tentando sobreviver. Não esqueça que somos muitos e maioria muito pobres e não podemos resolver os problemas de todos. Eu e você estudamos, temos uma visão melhor do mundo, mas a maioria das pessoas aqui não tem ofício algum Tião, agem por pura necessidade de sobrevivência. As escolas que temos aqui não ensinam aos jovens a saberem sobre a vida Tião, somente ensinam o que eles querem que eles saibam e nada mais. Ensinam fora do contexto das crianças. As crianças e jovens não tem voz nas escolas Tião, eles não aprendem a partir dos problemas do seu dia-a-dia. Não buscam entender melhor sobre as pessoas e sobre o local onde vivem. E por isto viram adultos tristes e alienados. Não podemos os culpar Tião por agir assim, mas tentar transformar algumas coisas e não vai ser na desunião que iremos conseguir. Temos que estar juntos para fazermos pela nossa terra e esta é aqui, a nossa vila, no plantio e no mar e com as pessoas que amamos. Irmos embora não resolverá os nossos problemas.
Tião: Não adianta não é João você não compreende a gravidade da situação, prefiro me retirar, depois com mais calma conversaremos e espero que os acontecimentos revelem o que estou falando ou prove a mim mesmo que eu estou errado. Agora não tenho mais nada a dizer. Boa noite a todos.
João: Espera um pouco Tião! Com calma depois conversaremos. Antes quero que conheçam alguns amigos que conheci recentemente e que chegaram com a vontade e determinação de construir através do trabalho artístico uma escola diferente. Momery venha aqui e traga seus amigos!
Montgomery: Olá João! Senhor Tião muito prazer. Esta é a Carmen e este o Pedro. Antônio, Pietro, já havia apresentado não é mesmo João? Estamos nos sentindo muito felizes por estarmos aqui e compartilharmos com vocês este momento. Amanhã, estaremos nos apresentando na praça. Ficaremos satisfeitos com a presença de todos vocês. Obrigada João pela atenção e espero
fortalecermos a nossa amizade.
João: Eu que agradeço e sejam bem-vindos! Mas quero também apresentar a vocês alguns artesãos que com a sua arte falam um pouco da África pelos olhos do arquipélago de Cabo Verde. Este é o Alves, a querida Norma, o amigo Ítalo, Maria das Neves e Sião.
Carmen: Olá amigos! Meu nome é Carmen e para nós será grande prazer se puderem dividir conosco as suas experiências. Vamos desenvolver as nossas atividades na Cabana, nome que demos a nossa escola diferente. Se quiserem estar conosco nesta equipe um tanto indisciplinar será muita satisfação. Trabalharemos com adultos, jovens e crianças. Mas não estaremos presos à cabana, o nosso desejo é trabalharmos para além dela e aprendermos juntos contando histórias, só que de uma forma diferente, construindo uma narrativa, ou seja, das experiências de cada um e que envolve evidentemente as suas memórias e histórias de vida.
Norma: Que ótimo! Acho que falo também em nome dos meus amigos. Vivemos aqui há algum tempo, longe da nossa terra natal e a saudade é muito grande. Quando você nos fala de memórias me alegra o coração, pois é uma maneira de resgatarmos o que ficou esquecido em um tempo bem distante daqui.
Montgomery: Sabe Norma. Em nosso trabalho temos como propulsores o seguinte lema: “Como se come o pão e se fica conhecendo quem fez a farinha?”
João: Falando em pão já está na hora do jantar. Até amanhã na praça! Encerramos hoje por aqui a nossa reunião. Boa noite!