1.1A investigação narrativa e a associação da objetividade com a subjetividade
A epistemologia moderna surge tomando conta de toda a comunidade científica e divulgando que o surgimento de qualquer ciência deveria relacionar-se com a “objetividade” do método científico. Assim, as ciências humanas só poderiam denominar-se dessa forma, ou seja, ter esse status, se efetivassem sua pesquisa extinguindo o subjetivo: quanto menos subjetivo e mais objetivo for, mais científico se é. Relegava-se, então, o aspecto subjetivo e baseava-se nas regras da lógica para controlar essa “vergonhosa” subjetividade (Geraldi, 2004).
No entanto, descobre-se que a dita “objetividade” baseada nos pressupostos das ciências naturais não é tão “objetiva” quanto se pensava23, a partir de então uma pergunta é colocada: se nem mesmo a natureza é precisa, por que a humanidade teria que ser? As ciências humanas corriam atrás de uma objetividade, para tentar mostrar que poderiam ser tão precisas quanto as ciências naturais24; quando se demonstra que até mesmo a “matemática precisa” é encontrada como uma exceção na natureza, a ciência passa a constituir-se não na performance, mas na diferença, na descontinuidade.
Foucault (1979) associa o surgimento das ciências humanas ao poder disciplinar que forma o indivíduo como produto do poder e como objeto do saber. Desta forma, a formação de saberes acerca do sujeito formou um importante dispositivo de conhecimento e produção do sujeito, mas também menosprezou um pouco os seus próprios saberes (produzidos pelo poder), legitimando só os pertencentes à ciência. O que ele destaca é que não há como existir uma ciência neutra, pois não há uma verdade única: a verdade é produzida historicamente no conjunto de discursos que não são em si nem verdadeiros nem falsos. Desta forma, todo saber é político, tem sua gênese em relações de poder e assegura o exercício de um poder.
23 Podemos perceber isto na observação de vários autores, assim como no seguinte trecho: “A teoria quântica e a microfísica obrigam a uma revisão muito mais radical da idéia de trajetória contínua e previsível. A procura da precisão esbarra num limite devido não ao seu custo, mas à natureza da matéria. Não é verdade que a incerteza, isto é, a ausência de controle, diminui à medida que a precisão aumenta: ela aumenta também” (Lyotard, 1989, p. 113).
24 Esta negação dos aspectos subjetivos nas ciências humanas deixaria de lado demasiados aspectos do quotidiano humano que poderiam tornar mais compreensíveis vários acontecimentos.
A percepção de que as ciências humanas são atreladas ao poder abriu horizontes para investigações interpretativas concentradas nas “formas de vida” social, nos discursos e na cultura25 (dentre elas a investigação narrativa), que possibilitam compreender os textos/contextos mais amplos ao estudar as formas pelas quais organizamos em padrões narrativos nossas memórias, intenções, estórias de vida ou nossas “identidades26 ”.
A subjetividade que se pretende analisar nas narrativas deixa de “escapar por entre os dedos” a partir do momento que se desmistifica a objetividade, o mito das grandes narrativas da historia (como progresso universal/linear/inevitável) e o mito da superioridade da ciência como forma de conhecimento da realidade. Como mostra Madeira (2003) a consciência humana não pode ser explicada em termos objetivos, porque a subjetividade tem na sua base a interação social, mas também existem fenômenos de reificação social que interferem na construção do sujeito sobre si mesmo, assim tanto uma orientação estritamente objetivista quanto estritamente subjetivista são reducionistas.
A complexidade do mundo permite-nos afirmar que é impossível conhecer a totalidade, pois esta será sempre o resultado de um processo de interpretação histórica e contextualizada. Um/a investigador/a tem como encargo analisar/interpretar o quotidiano sempre o relacionando com a sua individualidade27, mas esta interpretação também é feita pelo próprio investigado. Por isso, Geraldi (2004) destaca que o melhor modo de compreender as apreensões docentes é abrindo-se às falas dos mesmos.
Bruner (1990, pp. 26-27) explica que a desconfiança frente à subjetividade tem a ver com a alegada discrepância entre o que as pessoas dizem e o que elas realmente fazem. Entretanto, a investigação do subjetivismo deve basear-se não apenas no que as pessoas realmente fazem, mas no que elas dizem fazer e no que dizem que as levou a fazer o que fizeram (ou que também motiva os outros a fazer). Deve referir-se ao que as pessoas dizem ser os seus mundos.
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Entendemos a cultura como um repertório de práticas, de representação, de símbolos, de crenças, de objectos, de rituais, de memórias, de tradições, de identificações e de concepções da subjetividade que uma pessoa tem que saber ou acreditar de forma a agir de forma aceitável para os membros de uma sociedade (ver Nunes, 1995), mas a cultura também deve ser compreendida como uma luta em torno de significados, identidades e narrativas (ver Giroux & Mclaren, 1996).
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Identidade é considerada de forma relacional, ou seja, como uma construção social que se releva da representação, ela relaciona a subjetividade com a sua construção no interior de quadros sociais que visam posicionar os indivíduos e orientar (sem determinar) as suas representações e as suas escolhas. A identidade tem eficácia e produz efeitos. Analisaremos melhor este termo no capítulo II.
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Partilhamos esta opinião e realçamos a sua pertinência quando ouvimos ou lemos as observações dos professores, os vários sincretismos das suas respostas, além de algumas contradições que nos permitem verificar que as próprias pessoas confrontam-se a si mesmos nos seus pensamentos e ações a todo o momento. Os indivíduos formam explicações e conduzem-se por motivações que, às vezes, parecem- nos chocar, mas são as suas formas de lidar com o mundo que a eles é apresentado.
Ensinaram-nos a tratar essas “ditas” explicações como não merecedoras de confiança, e até de um certo modo, como “inverdadeiras”. Mas nem são “inverdadeiras” nem indignas de pesquisa, pelo contrário, elas necessitam de um maior estudo das narrativas dos indivíduos.
1.2Do trabalho e experiência, aprende-se a ciência: narrar também é científico
Quando se pede às pessoas que narrem a sua experiência, a sua história, buscamos chamar a atenção para o fato de que nosso objeto de estudo ganha relevo na prática e não nos “laboratórios” (não diante de condições controladas), pois a concretude das coisas é complexa e impossível de dominar. Muitas indagações feitas a estes tipos de estudos voltam-se a esta natureza complicada dos mesmos.
No que diz respeito a estes questionamentos, abrimos uma discussão relacionando a narrativa à ciência. Importa-nos encontrar Lyotard (1989) quando este analisa a condição do saber nas sociedades, o estado de cultura que modificou as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes, esta nova condição de saber que se situa em relação à crise das grandes narrativas28 em um novo discurso de legitimação.
Para este autor, a crise e a incredulidade em relação a todas as metanarrativas demarcam o surgimento do “pós-moderno”29, pois na sociedade
28 Ou metanarrativas que seriam as bases da modernidade, expondo e explicando as linearidades da história, suas causalidades e as conseqüências (marcando até mesmo um herói que “liberta/salva” o povo de algo), como, por exemplo, o surgimento do mercantilismo e do capitalismo.
29 Pós-modernidade é um termo utilizado por vários autores para designar as transformações paradigmáticas que afloram na ciência moderna, onde a complexidade do quotidiano passa a ser percebida como além das dicotomias. Contudo, entendemos que esta designação é inadequada (pois é utilizada pela falta de outro termo melhor), pois esta leva-nos a pensar em uma transposição de um tempo (o moderno) para outro (o pós-moderno). No entanto esta ruptura ainda não ocorreu, somente alguns pensamentos modificaram-se, mas a base do pensamento moderno ainda está presente na sociedade. Optamos por tratar como pós-moderno, embora saibamos que esta discussão de diferenciações merece maior relevância (ver Martins, 1999, p. 16).
contemporânea a metanarrativa perdeu sua credibilidade, as disciplinas são refutadas e não cessam de deslocar suas fronteiras, o saber passa a não ser só preso a um poder excludente, pois refina-se para as diferenças (para incluir os indivíduos, embora com determinados objetivos). O saber muda de estatuto tornando-se produtivo para ser vendido, perdendo a sua finalidade em si mesmo, cai no nível de ideologia, de instrumento de poder (Lyotard, 1989).
Foucault (1979) descreve os saberes como elementos de um dispositivo de natureza essencialmente estratégica, seu aparecimento aconteceria a partir de condições de possibilidades externas aos próprios saberes. Ou seja, os saberes surgem diante de determinadas condições histórico-sociais.
Para Lyotard, assim como para outros autores, o saber científico não significa a totalidade do saber, ele sempre esteve em competição com outra espécie de saber: o narrativo. Para ele a sabedoria não deriva somente da ciência, as idéias de um “sábio” seguem um método científico, antes de tudo, o sábio é alguém que conta estórias/narrações com o compromisso de verificá-las.
As narrativas encontram-se legitimadas pelos critérios de competência definindo o direito de dizer e de fazer na cultura (quem é autorizado para tal). Nenhum conhecimento está livre do uso da narrativa30, pois as narrativas são utilizadas em justificativas pelas autoridades de legitimação que usam as “metanarrativas” que têm justificação científica, o que acaba por depreciar alguns saberes habituais do povo.
O saber científico está envolto em toda uma pragmática que regula a aceitabilidade do enunciado31 enquanto ciência. Face a esta dinâmica de legitimação do saber científico, o conhecimento não fica acessível a todos os indivíduos, dele aparecem as profissões/especializações e as disciplinas que asseguram lugar às instituições. Isto traz à tona o problema da discriminação de outros saberes “indignos” de confiança (como o narrativo), pois não seriam científicos. Todavia, Lyotard (1989) chama a atenção para o fato do saber cientifico não ser oposto ao narrativo: eles são diferentes. Por serem diferentes, não se pode negar um pelo outro, nem se pode categorizar
30 Lyotard exemplifica a seguir “o saber científico não pode saber e fazer saber que ele é o verdadeiro saber sem recorrer a outro saber, a narrativa” (1989, p. 64).
31 Provando e refutando enunciados contrários, precisando analisar os referenciais precedentes (a bibliografia), além de ter capacidade de memorização e investigação do novo. Essa aceitação deve ser validada por um “par potencial31” (com os mesmos conhecimentos para entender o enunciado), o que torna necessário formar os pares para poder provar um saber científico (Lyotard, 1989).
cientificamente o saber narrativo como selvagem ou primitivo. Eles não estão submetidos às mesmas regras de legitimação do saber.
O autor entende legitimação como o processo pelo qual alguém está autorizado, ou seja, tem o poder de prescrever as condições explícitas para que um enunciado faça parte deste discurso, sendo tomado em consideração pela comunidade científica: “saber e poder são as duas faces de uma mesma questão: quem decide o que é saber e quem sabe o que convém decidir? A questão do saber na era da informática é, mais do que nunca, a questão do governo” (Lyotard, 1989, p. 26). O poder não se situa nas mãos de uma só pessoa, no entanto, os sábios são usados para aumentar o poderio de acordo com o que é interessante. Continuamos, então, sob a influência de uma legitimação de saber, resta conhecer qual saber será validado.
Para Lyotard (1989), a legitimação na atualidade só pode vir da prática de linguagem e da interação comunicacional. Na mesma linha deste pensamento, afirmamos com este trabalho a necessidade do diálogo na expressão docente e na afirmação dos seus posicionamentos, além da potencialidade de divulgação das idéias dos mesmos frente a outros referenciais.
Saber algo acerca da sociedade é escolher a forma de interrogá-la (que nos fornece respostas de acordo com esta). Bruner (1990, p. 107) lembra-nos que “quando “confirmamos” a nossa teoria mediante “observações”, ideamos procedimentos que irão favorecer a plausibilidade da teoria”. Desta forma, nossa escolha de um arcabouço teórico está diretamente envolvida com os resultados que serão oferecidos, ou seja, enxerga-se com os olhos da teoria selecionada.
Ao analisar Lyotard (1989) percebemos que precisamos de levar em consideração as individualidades para dar conta das narrativas que se ocupam de influenciar a sociedade. Não podemos esquecer que com as grandes narrativas em decomposição32, há outro tipo de narrativa que responde às necessidades atuais, devemos nos deter em um outro tipo de legitimação, a pequena narrativa, pois esta “continua a ser a forma por excelência assumida pela invenção imaginativa e, antes de mais, na ciência”.
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Elas perderam suas capacidades heurísticas, porque ao invés de explicarem “tudo” demonstram-se cada vez mais parciais, Lyotard (1989, p. 121) explica que os dados do problema da legitimação do saber estão hoje suficientemente esclarecidos para o nosso propósito, por isso nega o recurso às grandes narrativas. Isso não nos faz abandonar o estudo das grandes narrativas (não advogamos a dicotomia), mas entender que outras questões importantes não são por elas explicadas.
A pequena narrativa está em toda parte33, por isso utilizaremos nesta investigação uma teoria que ofereça formas de análise das estórias de cada um e da complexidade humana. Busca-se uma interligação do individual com o social, pois o sujeito não seria nem totalmente determinado pela sociedade, nem completamente livre para fazer suas escolhas. A nossa atual condição, que apresenta uma crise de paradigmas do conhecimento, traz a necessidade de salientar as subjetividades. A narrativa torna-se, então, uma forma de compreender a realidade social e individual.
Escolhe-se, neste caso, a investigação narrativa para apreciar o estudo da individualidade/subjetividade frente às influências sociais, pois ela admite que os indivíduos falem de si mesmos enquanto seres sociais. A investigação narrativa permite que através das estórias que os atores narram possamos interpretar seus ditos e as relações sociais, conectando estes conhecimentos que estiveram quase sempre cindidos dos conhecimentos legitimados.