Corrales367 refere que:
É um interessante paradoxo que os judeus fossem o primeiro e último dos grupos imigrantes em chegar a Cuba. Descenderam das caravelas inclusive antes de Colombo. Continuariam a fazê-lo durante séculos, ocultos e sem rostos, e
364 CHANG, Federico. La migración china en Cuba. Asociaciones y tradiciones, pp. 123. 365
Idem. Ibid., pp. 141. 366
Idem. Ibid., p. 134-135. 367
Maritza Corrales Capestany (La Habana, 1948) é formada em História da arte pela Universidade de La Habana (1972). Pesquisa sobre a presença hebraica em Cuba. Tem participado em vários eventos internacionais e nacionais, bem como apresentado conferências sobre a referida temática em Israel, México, Espanha, Estados Unidos. Tem publicado vários textos e é membro de várias instituições dedicadas à investigação de temas relativos à sua especialização.
somente se fariam visíveis na difícil década dos anos 20 do passado século [...] quando já existia uma numerosa população de espanhóis, chineses e árabes368. Há duas maneiras clássicas de se referir aos judeus que imigraram para Cuba: Judeus sefarditas e asquenazes. Os primeiros, originários de Sefard, nome dado pela tradição hebraica à península ibérica; os segundos, da parte central e oriental da Europa. Asquenazes é um qualificativo usado pela tradição rabínica para identificar judeus provenientes da referida latitude. Em Cuba, entre 1898 e os primeiros 40 anos do século XX, verifica-se a chegada de, pelo menos, quatro ondas migratórias hebraicas identificadas como: os americanos, os turcos, os polacos e refugiados.
Denominou-se americanos ao grupo integrado, majoritariamente, por asquenazes, romenos e alemães, que, por volta de 1898, chegou a Cuba procedente dos Estados Unidos integrando o exército de intervenção ou representando empresas tanto estadunidenses quanto européias envolvidas no comércio do açúcar e do tabaco.
Os turcos, sefarditas do Império Otomano, chegaram entre 1908 e 1917, num momento de crescimento da economia cubana. O êxodo de seus lugares de origem para a Ilha caribenha deveu-se, entre outras razões, à revolução dos jovens turcos (1908), à Guerra dos Bálcãs (1912-1913) e à Primeira Guerra Mundial (1914-1917).
Os chamados polacos, que também eram asquenazes como os americanos, constituíram o mais numeroso e importante grupo. Estes advieram de diferentes países da Europa oriental, no final de uma época conhecida como a Dança dos Milhões, justo depois de detido o crescimento econômico em Cuba e logo após o governo dos Estados Unidos ter emitido as leis migratórias de 1921, 1922 e 1924, que obstaculizavam o ingresso de imigrantes nesse país.
Os apelidados de refugiados formavam um grupo misto, procedente da Europa Ocidental (Alemanha e Áustria), porém, asquenazes, chegaram entre 1933 e 1948, devido à expansão do nazismo e como resultado do ciclo de deslocamentos ocorridos depois da Segunda Guerra Mundial369.
Quanto ao assentamento desses quatro grupos, Corrales afirma que se caracterizaram, “numa primeira etapa, por um elevado grau de concentração em Havana,
368
CORRALES CAPESTANY, Maritza. Cuba: Paraíso recobrado para los judíos. In: CHAILLOUX LAFFITA, Graciela (coord.). De dónde son los cubanos, p. 167.
369
que depois se estenderia às capitais de Villa Clara, Camagüey e Oriente”370; posteriormente, num segundo momento, “por um movimento normal de imigração interna regressiva desde povos do interior para a capital do país”371. Segundo a autora, entre outras razões, isto se deveu à necessidade de aceder a estudos superiores e à impossibilidade de realizar matrimônios endogâmicos, acrescentando que esse agrupamento em Havana “será especialmente certo para os americanos e os refugiados e, num início, também para os polacos”372. No entanto, os turcos “continuariam se deslocando para o leste pela rota do açúcar [...]. Será nas cercanias do porto e da ferrovia onde primeiramente se assentarão turcos e polacos”373.
Judeus passaram à cultura cubana elementos que por desconhecimento das especificidades da tradição judaica têm-se assimilado como ibéricos374. Culturalmente, os polacos foram o grupo mais ativo, pois trouxeram da Europa uma forte tradição
idishista, típica do bundismo375, socialista e não-sionista. A partir dos anos 20 do século XX publicam livros em idioma idish narrando as suas opiniões a respeito da vida em Cuba; mostram, através de seus escritos, a sua admiração por personalidades paradigmáticas cubanas376; organizam conferências sobre personagens relevantes da história cubana e hebraica; fazem exposições de livros, artes plásticas e obras de teatro; fundam jornais, programas radiais e editam revistas, entre outras atividades377.
Quanto aos asquenazes pode-se afirmar que desde sua chegada a Cuba se focaram na criação de instituições culturais, que lhes permitiram superar as saudades de suas tradições e de seu idioma. Por isso, a criação de:
370
CORRALES CAPESTANY, Maritza. Cuba: Paraíso recobrado para los judíos, pp. 178, 179. 371 Idem. 372 Idem. 373 Idem. 374 Idem. Ibid., p. 174. 375
União de trabalhadores judeus em Lituânia, Polônia, Rússia. Partido Socialista Judeu fundado em 1897, em Vilna, por um grupo de trabalhadores e intelectuais judeus de Rússia. Cf. Bund em Encyclopaedia Britannica 2003 e em CHAILLOUX LAFFITA, Graciela (coord.). De dónde son los cubanos, p. 225. 376
Por exemplo, manifestaram sua admiração por personagens tais como: Hatuey, o cacique condenado a morrer na fogueira por dirigir atos de rebeldia contra os colonizadores espanhóis, e que rechaçou a proposta de um sacerdote de aceitar o catolicismo; Antonio Maceo Grajales, um dos generais cubanos que lutou contra o regime espanhol nas guerras independentistas; Juan Gualberto Gómez (1854-1933), escritor, General da guerra de independência de Cuba contra Espanha, que lutou pela igualdade de todas as pessoas; José Julián Martí Y Pérez (1853-1895), se lhe conhece como o Apóstolo de Cuba, poeta, escritor, diplomata, fundador do Partido Revolucionário Cubano e mártir, que converteu-se em símbolo das lutas de independência de Cuba contra Espanha.
377
uma ampla rede de instituições de ajuda aos imigrantes com escolas para ensinar espanhol e ofícios, uma Associação Feminina (1926) com creches para crianças órfãs e mães trabalhadoras, uma casa de atenção a jovens solteiras [...].
Preocupados pelas doenças que mais lhes afetaram [...] fundam o Comitê Protetor de Tuberculosos e Doentes Mentais (1927) [...].
Pela importância concedida [...] à transmissão da tradição, da cultura e da educação entre os hebraicos surgem várias escolas, entre 1924 e 1946, [...] o Colégio Autônomo do Centro Israelita, o religioso Takjemoni, o esquerdista Sholem Aleijim y o sionista Yavne378.
Judeus também foram muito influentes na economia e na política. Quanto à economia, Corrales enfatiza que:
Entre nossos historiados existe a tendência de se referirem de maneira apologética aos benefícios de determinadas migrações como a chinesa e, fundamentalmente, a espanhola, obviando o fato de que, desde o ponto de vista econômico, na realidade não o foram tanto, já que estes grupos [...] repatriavam uma parte considerável de sua poupança379.
Mas, no caso da migração judaica o panorama era totalmente diferente, pois era um grupo que “carecia de vinculação política com o passado nacional, que não repatriavam suas poupanças e que marcaria com seu selo particular o fazer mercantil da Ilha”380. A autora acrescenta que:
Ao aceitar a idéia de fazer sua América em Cuba como terra substituta de promissão [...], este grupo transita do comercio ambulante ao pequeno estabelecimento de produtos altamente diversificados. Posteriormente, à loja mais especializada (peles e confecções) e aos armazéns de venda atacada. E depois, ao negócio de importação-exportação [...], à produção industrial e, por último, às profissões [...]. Surge assim, em 1942, a Primeira Indústria Cubana de Diamantes S.A. No final da guerra, já havia 48 fábricas381.
Quanto à política, judeus foram muito influentes na formação do partido comunista. A vida destes imigrantes em Cuba definiu-se
pelo incessante contraponteio entre suas duas principais tendências ideológicas: os comunistas [...] e os sionistas [...]. Delas saíram 4 dos 13 integrantes da reunião de fundação do Partido Comunista de Cuba (PCC) em agosto de 1925, os primeiros mártires da ditadura de Machado382, o único combatente judeu- cubano na Guerra Civil espanhola, os voluntários do movimento kibutziano383.
378 CORRALES CAPESTANY, Maritza. Cuba: Paraíso recobrado para los judíos, p. 192. 379 Idem. Ibid., pp. 186,187. 380 Idem. 381 Idem. Ibid., pp. 189 e 195. 382
Para informações acerca de Machado, cf. capítulo 3, p. 143, nota rodapé # 422 da presente pesquisa. 383
Maritza Corrales Capestany explica que o termo é relativo à palavra Kibutz: Coletiva. Colônias difundidas no Israel, entre 1909 e 1910, sobre a base cooperativa e comunal, na qual a propriedade privada não é aceita. CHAILLOUX LAFFITA, Graciela (coord.). De dónde son los cubanos, p. 227.
[...] os primeiros em participar da política oficial do país [...] e na luta contra Batista384 e [...] os principais capitais385.
Corrales, referindo-se à religiosidade judaica, destaca que judeus e cubanos têm “uma profunda vocação pela formulação de idéias políticas, a criação de movimentos culturais e questionamento de todo símbolo, terreno ou celestial, vinculado forçosamente com a autoridade e o poder”386. Por isso assumiam “o religioso mais como um componente sócio-cultural do que teológico”387. Inicialmente a vida judaica em Cuba girou em torno de duas instituições: a sinagoga e o cemitério. O papel concedido à sinagoga poderia levar à interpretação equivocada de que judeu equivale sempre a membro de determinado sistema religioso, o qual não é estritamente certo388. Nesta perspectiva, religião “qualifica a uma comunidade com autoconsciência de pertença a um mesmo grupo que nem sempre tem a mesma crença, mas que tem elementos comuns nos quais crê”389.
Judeus, como chineses, encontraram sérias dificuldades para enterrar seus mortos, pois o monopólio da morte encontrava-se nas mãos da Igreja Católica Romana. A respeito desta questão, Corrales explica que: “Será a realidade da morte – pela fatal coincidência de que um deles falecera [...] – o que lhes levou a se associarem [...]. Assim [...] decidiram comprar um terreno no município de Guanabacoa390 para um cemitério”. A autora aclara que “foi difícil obter permissão para a fundação do cemitério [...]. A autorização foi finalmente concedida, em 1907, pela oportuna intervenção da Embaixada norte-americana e do governador provisional, Charles Magoon”391.
As adversidades sociais enfrentadas pelos judeus em Cuba foram bem diferentes das encaradas por outros grupos de imigrantes, como os chineses, os haitianos ou os anglo-antilhanos. Isto se deveu, em grande medida, a que:
Na sociedade cubana da República os espaços excludentes, por razões de classe social e raça, já estavam atribuídos e, apesar de que parte dos hebraicos adotou certo distanciamento do entorno social pela sua tendência endogâmica e seu
384 Para informações sobre Fulgencio Batista, cf. capítulo 1, p. 31, nota rodapé 24 da presente pesquisa. 385
CORRALES CAPESTANY, Maritza. Cuba: Paraíso recobrado para los judíos, p. 191. 386 Idem. Ibid., pp. 180, 181. 387 Idem. 388 Idem. 389 Idem. 390
Atualmente Guanabacoa é um município da capital do país, Ciudad Habana. 391
sistema educacional, não existe no âmbito popular uma clara percepção de sua
otredade que dificultara suas possibilidades de mobilidade social392.
Muitos judeus, devido às mudanças sociais ocorridas em Cuba a partir de 1959, emigraram para diferentes países393. Quanto ao grupo que ficou, pode-se afirmar que, depois do intenso processo de integração deste grupo à vida de Cuba e de sua fecunda interação nessa sociedade, estes “judeus são, sem dúvida, cubanos”394; e que a cubanidade é “o resultado dessa singular mistura de espanhóis, africanos, chineses, árabes e judeus”395. No seguinte item se destacaram alguns aspectos da visão de mundo da revolução cubana, que surge em meio a esse leque de influências culturais espanholas, africanas, haitianas, anglófonas, chinesas, árabes e judaicas.