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Tive oportunidade de conversar e observar adeptos de diferentes práticas, que no universo do Second Life fazem parte da comunidade BDSM22, como Femdom23, Gor24, Canibalismo, sexo com animais, além das historicamente englobadas pela comunidade.

Ainda dentro de cada prática há variedades de representações, alguns adeptos preferem dominação, outros servidão, assim como aqueles que se interessam pelas dinâmicas de disciplina, imobilizações, castigos, ou então os que preferem a penetração - seja com pênis, brinquedos, plugs, punho - vaginal, anal ou oral, como parte da performance, mantendo a centralidade do sexo genital. Há também os que sentem necessidade de provocar ou submeter- se a dor e violações, humilhações e violências físicas severas podendo chegar à morte e canibalismo.

Existem formas variadas de excitações eróticas através de disciplina, punição, humilhação e dor. As mais recorrentes em minha pesquisa foram spanking, conforme um de meus interlocutores “a arte de bater e/ou apanhar” (Master Z, 2013), prática que também pode ser interpretada como castigo/punição por indisciplina, assim como castigos utilizando instrumentos e utensílios de tortura, entre eles, chicotes, açoites, e máquinas que remetem às práticas medievais de tortura, também o uso de ferramentas de outras naturezas25 com finalidade de causar dor e excitação para os participantes desses jogos eróticos.

Dominação e imobilização através de cordas, algemas, braçadeiras, camas de látex são bastante recorrentes, assim como o uso de coleiras nos submissos. Disciplina e obediência em público, em clubes e através do chat aberto são práticas frequentes. Também seguir ordens, mesmo as consideradas absurdas pelos servos, como ser obrigado a fazer sexo com animais, ou então assistir o Mestre ou a Dominatrix ter relações sexuais com outras pessoas e limpar os

22 Refiro-me a uma noção de comunidade BDSM dentro do Second Life estabelecida em relação dicotômica com os não-praticantes de BDSM do mesmo ambiente.

23 Consiste na inversão de papéis no qual uma mulher assume a postura de dominante. O Femdom é um jogo que consiste na feminização do homem. O submisso é feminizado com o uso de roupas, lingerie, maquiagem e sapatos femininos. A cena pode envolver a prática de penetração do submisso.

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As práticas BDSM que envolvem a temática GOR, não dizem respeito a toda comunidade GOR do SL, que está muito mais ligada a um RP da obra literária de ficção criada pelo filósofo e escritor John F. Lange. 25 Saltos de sapatos, utensílios domésticos, entre outros utensílios que podem ter seu uso reelaborado.

fluidos que permanecem em seus corpos, prática essa referida como cuckold e definida como o “prazer de ser corno” (Cuckold Slave, 2014), entre outras.

E há também a humilhação verbal, muito importante para os adeptos, principalmente através da qualidade da escrita como narrativa dos eventos sexuais.

Assim como para um dominador o prazer está ligado a punir, humilhar, machucar, para o escravo o prazer está em ser humilhado, pisado, amarrado, disciplinado e obedecer incondicionalmente seus mestres. Os títulos como Mestre, Mistress, Lady, Dominatrix, Rainha, Dom, Domme, são muito utilizados no Second Life, para dominadores/as. Os escravos são comumente chamados por nomes que os envergonhem, mas também são referidos como servos, escravos, submissos quando mencionados.

O viewer que possibilita a entrada no mundo virtual apresenta uma ferramenta bastante utilizada no meio BDSM, denominada RLV (Restrained Life Viewer). É um mecanismo que possibilita que outros usuários/residentes possam controlar a experiência do avatar com qual interage, satisfazendo o prazer que o dominador sente em controlar o escravo, e do escravo em estar sob controle. Há também dominadores que exigem a senha da conta no SL de seus escravos, a fim de fazer modificações na aparência dos avatares e também gerenciar os contatos.

Outro aspecto que se fez evidente em minha pesquisa é o compromisso que os praticantes de BDSM têm com a consensualidade e segurança, deixando claro que todo o jogo faz parte de representações combinadas previamente, que satisfaçam ambas as partes.

Sobre a estética BDSM nesse mundo, se fazem presentes o látex, couro, correntes entre outras vestimentas com referência medieval. Assim como as roupas, os instrumentos de tortura variam entre ferramentas medievais e modernas, sempre mantendo o apelo estético obscuro e a técnica que possibilita diferentes formas de tortura em cada instrumento.

Em termos de ambientes, muitos foram pensados e construídos pelos residentes praticantes de BDSM e se tornaram palco para as práticas. Locais com diferentes apelos estéticos, desde castelos a prédios modernos com um charme decadente e underground. O estilo medieval é bastante recorrente, o luxo dos tecidos (seda, veludo, etc) e castelos em referência às obras de Masoch, assim como as masmorras reportando às estórias de tortura e carrascos do Marquês de Sade.

Após observar por pouco mais de três anos as dinâmicas sociais dos praticantes de BDSM nesse universo, percebi cinco formas prevalecentes de sociabilidades que agrupam praticantes e práticas. É necessário ter em vista que essas divisões não excluem a transição de sujeitos entre os diferentes grupos, mesmo porque a possibilidade de mudança identitária é

bastante evidente, não só pela possibilidade de transformações no avatar de um usuário ou utilizações de outros avatares alternativos, mas também porque os residentes, por vezes, transitam entre gostos e práticas e, portanto, grupos, comunidades e ambientes.

Para entender a sociabilidade BDSM no mundo virtual é preciso fazer um duplo esforço. O primeiro de contextualizar o sadomasoquismo erótico na história da humanidade e seus novos agenciamentos possibilitados pela internet e universos online. E o segundo diz respeito à percepção de que as comunidades BDSM não podem ser apreendidas como uma unidade, tendo em vista que as práticas englobadas pelo acrônimo podem estar presentes em diversas relações e sujeitos que não se dizem praticantes de BDSM, assim como uma gama de agenciamentos sexuais podem ser considerados constituintes das relações nessa comunidade, mesmo não fazendo parte das práticas englobadas pela sigla.

Portanto, para pensar esses agenciamentos eróticos no Second Life, detive-me na autodeclaração dos adeptos e nas suas compreensões de BDSM, que podem estar ou não de acordo com o que foi construído durante as últimas décadas em torno de uma moralidade da comunidade BDSM fora do Second Life.

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