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Nos anos 80, a antropóloga norte-americana Gayle Rubin alertava sobre como tempos de guerra, de transição urbana, e, acredito que posso adicionar, mudanças na sociabilidade através da revolução tecnológica e comunicacional, podem gerar grandes tensões, ansiedades sociais e intensidades emocionais. Para a antropóloga, esses contextos históricos tem em comum as disputas sobre comportamentos sexuais, deslocando as ansiedades e descarregando as tensões e emoções. O MDV3D Second Life se tornou terreno empírico para compreensão dessas tensões e disputas.

Conforme a edição de 1999 sobre Sexualidade do Oxford Reader, organizado por Robert A. Nye, a crueldade e violência nas relações sexuais são tão velhas quanto a humanidade, mas somente no final do século XIX essas perversões sexuais receberam nomenclatura. Marquês de Sade morreu em 1814, mas sua reputação se perpetuou através das estórias que escreveu combinando prazer e dor nas relações sexuais. Richard Von Krafft- Ebing em seu famoso livro Psychopathia sexualis foi quem cunhou o termo “sadismo” para descrever atos extremos de crueldade como patologias sexuais. Assim como o termo “sadismo”, Krafft-Ebing cunhou o termo “masoquismo” com base em outro escritor, o alemão Sacher-Masoch que através do romance Vênus das Peles (1870) explorou o mundo da dominação sexual, dor e humilhação.

A medicina e a psiquiatria multiplicaram as categorias de má conduta sexual através de um mapa bastante fiável da hierarquia moral das atividades sexuais, o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM) elaborado pela primeira vez em 1952 pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) incluiu os “desvios sexuais” na subcategoria “perturbações sociopáticas da personalidade” (no qual constava também homossexualidade, travestismo, pedofilia, fetichismo e sadismo sexual, incluindo estupros, ataques sexuais e mutilações).

O termo masoquismo aparece apenas no DSM II. No DSM III, em 1980, é introduzido o termo “parafilias” no grupo dos “transtornos psicossexuais” e após uma longa luta política, foi no DSM III que a homossexualidade foi removida do registro de transtornos mentais, ainda que o fetichismo, sadismo e masoquismo, travestismo, exibicionismo, voyeurismo e pedofilia permanecessem como disfunções psicológicas (Rubin, 1984).

O DSM IV trouxe 27 transtornos sexuais através da classificação “transtornos sexuais e de identidade de gênero”, subdivididos entre “disfunções sexuais”, “parafilias” e “transtornos de identidade de gênero”. No DSM V, publicado em 2013, a APA despatologizou o sexo “bizarro” - incluindo cross-dressing, fetiches e BDSM -. Agora o que hora era classificado como “parafilia” é considerado "interesses sexuais incomuns", enquanto que pedofilia ou sexo sem consentimento, ou ainda aquele que causar danos deliberadamente a si mesmo ou a outrem, pode ser diagnosticado com um transtorno parafílico.

A revolução sexual do século XX trouxe consigo uma noção de luta identitária de comunidades com agenciamentos sexuais específicos. Surgem nesse contexto os movimentos feministas, LGBT, BDSM, entre outros. Em tempo, os termos utilizados estão atualizados e são resultados da autoconstrução das comunidades na busca de reconhecimento e legitimação.

Durante as transformações sexuais ocorridas nos últimos séculos, bem como a sexualidade entendida como parte da construção do sujeito, o termo “sadomasoquista” foi positivado por uma comunidade autodeclarada enquanto praticantes de BDSM. Conforme Facchini e Machado (2013, p. 199), a

apropriação com sentido erótico da categoria sadomasoquismo e/ou a adesão ao acrônimo BDSM têm se feito presentes no Brasil desde pelo menos o início da década de 1980. Num primeiro momento, essa presença pode ser notada por meio da produção de literatura erótica e pela comunicação de praticantes em revistas e classificados eróticos. Com o desenvolvimento da internet e de ferramentas de interação mediadas por computadores, têm se multiplicado sites, blogs, salas de bate papo, listas de discussão, comunidades em redes sociais e espaços de interação presencial, como grupos, festas ou clubes, revelando os contornos do que os adeptos chamam de meio, comunidade ou, eventualmente, de movimento. Tais contornos são delineados pela articulação entre práticas eróticas – que estiveram situadas entre as antigas “perversões” delimitadas na constituição da psiquiatria e seguem

classificadas como “parafilias” – e a adesão a um rígido conjunto de regras relacionadas à sanidade, à segurança e à consensualidade.

Períodos históricos em que a sexualidade é mais contestada e politizada tem como consequência a renegociação do domínio da vida erótica. O BDSM é uma comunidade que tem crescido muito nas ultimas décadas, e a internet tem sido fundamental na difusão das ideias, práticas, comportamentos e estéticas englobadas por essa subcultura.

É notória a importância da luta por legitimação que os adeptos dessas práticas sexuais enfrentam, ganhando força de representação político-identitária. Surge uma subcultura que se voltou contra a definição psiquiátrica da sua sexualidade através de políticas de afirmação identitárias. Com seus objetivos definidos, a principal regra de consensualidade/ consentimento se destaca como critério de diferenciação entre formas de sexualidade sadias e patológicas.

Para compreender o BDSM enquanto comunidade, é necessário saber que se trata de sexualidades fora da norma, são corpos, prazeres, desejos e sexualidades que estão na margem, como podemos ver no famoso circulo encantado de Rubin (1984).

Mesmo com a despatologização do BDSM, a cruzada moral do final do século XIX deixou um legado social, um imaginário na cultura popular de que a variedade erótica pode ser perigosa e doentia. A organização da sexualidade boa e a má dificilmente estão diferentes na atualidade do que na esquematização proposta por Rubin nos anos 80.

O círculo encantado está dividido por dois círculos concêntricos. O círculo interior como sexualidade abençoada, ou seja, a sexualidade heterossexual, dentro do casamento/em uma relação, monogâmica, procriativa, não-comercial, entre duas pessoas, na mesma geração, sem pornografia, privada, baunilha (usado para indicar o sexo convencional ou pessoas que não estão envolvidas em BDSM), ainda prevalece sobre a sexualidade condenada, ou seja, homossexual, fora do casamento ou casual, promíscua, não-procriativa, comercial, sozinho ou em grupo, entre diferentes gerações, em público, com pornografia, com objetos, sadomasoquista. A ideologia sexual é uma mistura de ideias de pecado sexual, conceitos de inferioridade psicológica, anticomunismo, histeria de massa, xenofobia (Rubin, 1984), etc.

Apesar de toda a luta político-identitária, interesses e prazeres por vezes não são assumidos, nem compreendidos, devido a esse entendimento popular que a cruzada moral dos séculos XIX e XX empreendeu. Em decorrência disso, a comunidade BDSM organizada desenvolveu regras e controles sobre as práticas em vias de buscar a despatologização e sua legitimidade, assim como a afastamento do que não é aceito enquanto sexualidade consensual.

Empreendimento que trouxe críticas à comunidade BDSM a respeito de um aspecto moralista quanto à sexualidade e as transgressões.

Em suma, diversas práticas fetichistas compõem o universo desse coletivo em conjunto com o sadomasoquismo erótico (SM). Imobilização, disciplina, dominação e submissão, adoração de partes do corpo (podolatria como expoente), escatologia, entre outros

kinks (bizarros). Em termos gerais as comunidades BDSM tem como práticas centrais os

jogos de representação, de humilhação física e psicológica e violação, sendo o uso da dor um estímulo erótico entre os adeptos do SM. No quesito regras, o aspecto de maior importância é o consentimento de ambas as partes. São cenas/jogos que fazem uso de manuais e contratos para gestão dessas sexualidades e decorrentes relações.

Comportamentos regrados nas comunidades BDSM inworld se originam do aprendizado de uma moralidade construída ao longo do tempo através da busca por legitimação que os sujeitos engajados na luta político-identitária empreenderam. The

Dominion Femdom e The Velvet Thorn Femdom parecem ser comunidades mais próximas aos

grupos da RL por seus constantes debates sobre os riscos reais de suas práticas.

Ainda assim, não podem ser compreendidas da mesma forma que comunidades RL, pois toda sociabilidade nesse ambiente online se constrói com diferentes alicerces, ou seja, por meio de reconFigurações de práticas, técnicas, prazeres e regras.

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