Chapitre II Synthèse, croissance Czochralski et caractérisation des cristaux de LMO
II- 4-1. Orientation et usinage des monocristaux de LMO
A droga é um dos maiores sectores económicos de actividade da sociedade capitalista e é, ao mesmo tempo, um drama humano profundo para cada uma e todas as pessoas toxicodependentes, seus amigos e familiares. Porque a indústria e o marketing da droga não vão parar de produzir e vender, pois isso é próprio da lógica capitalista que os inspira, a droga torna-se uma ameaça para todas as famílias, especialmente numa conjuntura histórica em que os problemas de integração dos jovens na vida adulta e activa são cada vez maiores e mais graves.
Tal como em caso de guerra, em que o nosso lado não controla as acções inimigas, tudo o que parece restar fazer é abrir tendas hospitalares de campanha - como são os centros de desintoxicação – e penalizar fortemente a deserção – atacando os nossos que se passam para o inimigo, seja passando droga seja consumindo-a. Ora, esta guerra, já todos sabem há muitos anos, está perdida. Mas por inércia, preguiça e falta de autoridade, tudo continua a processar-se como se de uma guerra de facto se tratasse.
De preferência mais cedo que mais tarde, este estado de coisas tem de mudar. Mas, para que não fique tudo na mesma, não se deve mudar à toa. Por exemplo: há por aí quem queira transformar a guerra entre uma indústria fora-da-lei e a polícia numa guerra clínica contra uma doença que atacaria um conjunto de pessoas com tendência inexplicada para se tornarem toxicodependentes. Sabendo nós o que são e para que foram usados os hospitais psiquiátricos, como sabemos o que é a mafia de bata branca que explora o desespero das famílias que não sabem como ajudar os seus entes queridos, devemos bater-nos contra a ideia de deixar a clínicos especializados responsabilidades que são de toda a sociedade, até porque a ciência nada de eficaz descobriu para tratar males que aqui nos ocupam.
A ACED poderia ser um espaço de afirmação e de livre expressão daqueles, vítimas actuais da t9oxicodependência, mas que são tratados como desertores – para quem vê as coisas como uma guerra – ou doentes – para os que preferem pensar tratar-se de problemas clínicos. Uma das técnicas de auto- ajuda conhecida é a organização de grupos de toxicodependentes anónimos. Deles talvez pudéssemos esperar a produção de debates aprofundados sobre problemas do foro psicológico, mas também a abordagem de acções concretas a favor dos toxicodependentes: desde tomadas de posição públicas nos debates sobre matérias que lhes dizem respeito até à organização de centros de acolhimento para famílias e indivíduos em risco e em crise.
Julgo que propor iniciativas cívicas e responsabilizantes a pessoas excluídas é a melhor forma de as reintegrar, o que exige também, naturalmente, rigor e controlo éticos das acções. A ética de que falamos não é uma já (per)feita
na cabeça de um sábio qualquer ou destilada por uma seita. É a ética democrática e liberal, de que todos devemos ter as mesmas oportunidades e, caso não as saibamos ou queiramos aproveitar a determinada altura da vida, não devemos por isso ser excluídos da sociedade em geral. A ética que proponho não é uma moral para impingir aos drogados, uma moral para drogados. É uma moral para a sociedade que os excluí, para que ela reconheça a sua insensatez ao virar as costas a um problema que, fazendo cada vez mais vítimas, não é racional continuar a considerar como problema do foro pessoal e privado. Essa nova moral não se implementará sem que haja quem faça dela uma bandeira. Se forem os drogados os que têm interesse objectivo em serem tratados de outra maneira pela sociedade em geral, talvez possam ser eles mesmos a pegar a bandeira.
Da mesma forma que os prisioneiros tomaram o lema POR UMA RECLUSÃO COM DIREITOS, confrontando os carcereiros com o desprezo pelas leis com que organizam o cárcere e as autoridades com a sua condescendência desigual para uns e para outros, talvez faça sentido propor aos toxicodependentes uma palavra de ordem do tipo DROGA COM CIDADANIA.
Não se trata só de uma guerra, nem só de uma doença. É também uma economia global, uma sociedade em risco, uma cultura democrática, a autoridade dos estados que estão em causa. A droga é um fenómeno total, que precisa ser legalizado para que possa ser exposto aos olhos de todos, em vez de ser tabu, campo de especialistas, sejam eles estrategas, padres ou médicos.
Fala-se da hipótese de Portugal poder, unilateralmente, decidir legalizar o comércio das drogas. O grande óbice é o facto de se tornar um paraíso para os drogados, i.e. que em Portugal se concentrariam os desertores da humanidade contra a droga e os doentes da fraqueza perante o canto da sereia das drogas.
Se se encarar isso não como uma calamidade mas como uma oportunidade, oportunidade de desenvolver a indústria de recuperação de toxicodependentes e de desenvolver recursos de participação cívica e de cidadania, pode ser esta uma situação como aquela que há quinhentos anos tiveram os nossos avós. A oportunidade de mostrar ao mundo caminhos novos de civilização. Se este projecto for levado a sério, de dentro das cadeias, onde já se encontram concentrados consumidores e tráficos que alimentam a sua dupla exclusão social, podem sair novos marinheiros destas novas e tão necessárias descobertas.
ANTÓNIO PEDRO DORES
DA VIOLÊNCIA
Cadastrado
Uma vez, aos sete anos,
Partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.
Dez anos depois, conduzindo um carro, Não parou num cruzamento de rua
Onde havia um sinal de stop.
Dois anos depois, teve uma briga Num bar, e partiu a cabeça a um amigo
Com uma garrafa de cerveja.
Quando se recusou a combater no Viet-Nam, O seu cadastro provava como desde a infância,
Sempre manifestara sentimentos Nitidamente de traidor à pátria.
12/Agosto/1969 Jorge de Sena