O território de Santa Rosa dos Pretos, hoje, tem 20 quilombos e 15 cabeceiras de igarapés que compõem o Simauma. E saber disso, ou seja, da memória do lugar é importante para que os jovens possam andar no território com mais propriedade, porque sabem contar o que significa cada coisa ou costume. O saber andar na comunidade também faz parte do processo de territorialização de uma identidade étnica.
Libânio nos contou que existem só de um lado do território, 12 igarapés57 que correm para o Rio Itapecuru (muitos desses igarapés estão hoje assoreados). Eles são:
• Igarapé Istirão Grande; • Grota de Hermínio; • Raimundo Santana;
• Benedito Grande (que é de Paulo, avô de Severina mãe de santo); • Grota de André (passava atrás da casa de Binidito do Sítio Velho);
• Grota do Campestre (é porque tinha uma lagoa, na frente da casa de Zé Alberto);
• Zé Moreno (grota), fica em Alto São João;
• Grota da Bacabeira (fica dentro da fazenda de Lesbão);
• Igarapé Fugido, conhecido como igarapé de Jânio ou Bueiro de Jânio (Bueiras são os tubos de cimento das empresas);
• Igarapé Leréu, fica em Picos I onde morava um Cearense que tinha em engenho;
• Genipapeiro, fica bem no limite de Santa Rosa com Oiteiro.
Fugido, Bananeira, Carema são os igarapés maiores que recebem os igarapés
menores.
Um dos caminhos que nos possibilitam incorporar o que está sendo dito no território tem sido as conversas, as narrativas orais dos mais velhos e de pessoas de referências na comunidade.
Um transe que conecta o passado ao presente, um passado colonizador e modernizador que, ao violentar a terra, faz sangrar comunidades inteiras. Lugares que ganham visibilidade quando acionados no processo de manutenção do território e que tornam o passado tão presente como as coisas do presente.
Nas conversas com algumas pessoas mais velhas do quilombo, podemos perceber que, com o passar dos anos, as coisas, as relações, o lugar foram mudando,
57 Conhecer os lugares dos igarapés que, em sua maioria, recebem nomes de antigos moradores da
comunidade foi possível graças ao trabalho que eu, a professora Cíndia Brustolin, Mateus Tainor, Josicléa Pires (Zica), Emílio do Jornal Vias de Fato e Sabrina Felipe estamos realizando por meio do projeto “Vale Quanto Pesa”, financiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos que se iniciou em março de 2018 e tem prazo de conclusão para março de 2019.
como, por exemplo, o andar mais de légua até chegar em um outro povoado. O andar mais de légua está também relacionado com o acordar o dia58.
Hoje em dia, poucas são as pessoas que ainda vão acordar o dia, isso porque os caminhos antigos estão desaparecendo, muito por conta de tanta destruição, desmatamento e assoreamento dos igarapés ou por conta da passagem de ferrovias e rodovias. Segundo seu Libânio, “antes as pessoas andavam muito de pé, hoje pra ir bem aí em Monge Belo as pessoas só vão se for de moto ou de carro, quase ninguém anda tanto, como a gente andava”. Monge Belo é um território quilombola vizinho de Santa Rosa dos Pretos, de carro demora-se cerca de uns 20 minutos para chegar.
Todavia, o lugar afetado/danificado pelos grandes empreendimentos continua vivo, não mais como antes, mas está lá. Alguns dos lugares e momentos que seu Libânio aciona em suas memórias não voltam mais, mas ainda podem ser revividos de outras formas se os igarapés, a cultura do tambor, as matas, o respeito para com os mais velhos não for invalidado em nome da modernidade, de verdades eurocêntricas.
O lugar, quando rememorado, possibilita às pessoas atingidas reivindicar uma cidadania que o tempo todo vem sendo negada e violada por parte principalmente dos acordos do Estado com empresas nacionais e multinacionais, que estão se instalando no Maranhão através de políticas modernizadoras que, além de exportarem recursos naturais para fora do Estado, exportam vidas humanas.
Seu Libânio, quando fala, grita por liberdade para todas as comunidades quilombolas, expressa tudo aquilo que acredita e já vivenciou durante esse tempo de luta, de luta contra a escravidão e pela permanência no quilombo, pois quando fala todo o seu corpo fala com ele.
A memória só é possível porque foi o corpo que estava lá. Estava lá presente na hora de resistir, de manifestar, na hora da bala, das formações com outros movimentos sociais e comunidades, na hora do tambor, no fazer a roça, na pesca.
A memória e o corpo são elementos indissociáveis do processo de construção das identidades étnicas, que não são fixas. Não falamos das comunidades como corpos heteronormativos e sim de corpos que são dinâmicos. Segundo dos Anjos (2017), o ser, a identidade e a relação com o outro são construídos não apenas de modo simbólico, mas também de modo ontológico aberto, no qual os seres não existem em estados fixos, mas em variações contínuas e no qual só podem existir aparecendo de diferentes
maneiras. Um exemplo são os caboclos que só existem em suas modulações, porque os campos, os lugares, os grupos são diferentes.
Segundo dos Anjos (2017) “a possibilidade de existir das comunidades, dos subalternos anda atrelada ao desejo de desfazer o jogo colonial”. O operar por meio de cosmologias e ontologias afro-brasileiras como o Tambor de Mina é a possibilidade de encontrar, na prática, uma forma que, para além de explicar, dê visibilidade para a fala do quilombola, mesmo diante de constantes rótulos e estereótipos que ainda aprisionam o corpo negro e determinam seu lugar nas relações sociais. O desfazer o jogo colonial que por muito tempo nos mostrou uma única história, uma história vinda de cima para baixo (a colonização) é assegurar geometrias e potências outras que estão no tom de voz, no corpo e na terra.
Assim,
A ideia potente é a de que há uma filosofia prática operando para produzir distinções, diferenças, portanto que está constantemente a desfazer o jogo colonial de um continum híbrido. Isso me permite justamente pensar que os brasileiros etiquetados como mestiços não são impotentes diante do rótulo. Esses geômetras da diferença têm uma potência, uma filosofia, uma contra feitiçaria que está operando o tempo todo. Eles estão fazendo outras experimentações que não aquelas da reinscrição contínua das suas agências prementes na ordem dos discursos nacionais. E talvez seja importante (DOS ANJOS, 2017, p. 215).