PARTIE III. PRESENTATION GENERALE DE JAIDA
III. ORGANES D’ADMINISTRATION ET DE DIRECTION
Para Jeremy Black, o conceito de Revolução Militar não teria sido inventado por Michael Roberts, mas sua tese foi importante por relacionar questões militares e a formação do Estado: o surgimento de armas de fogo, exercícios e treinamentos que exigiram soldados profissionais e exércitos maiores em vez de fortificações culminaram na necessidade de apoio administrativo, financeiro e logístico (BLACK, 2005, p. 32-33).
Black contesta a tese de Roberts primeiro rebaixando elementos de sua explicação como: exércitos maiores, maior gasto militar, novas táticas, inovações em armamentos e até mesmo a trace italienne de Parker, porque todos tinham antecedentes medievais e que o papel da tecnologia e da arma de fogo neles era limitado, exemplificando o caso de cercos do século XV que, ao invés de armas de fogo, dispunha-se de disponibilidade de boa infantaria para as invasões (Black, 2005, p. 35).
Segundo, Black enfraquece a importância das armas de fogo, alegando que elas tiveram grande desenvolvimento durante o século XV, e que o XVI, por sua vez, pode ser considerado como de grande estabilidade. Além disso, as armas de fogo não foram o caso de uma tecnologia nova que substituiu necessariamente uma antiga. A adoção das armas de fogo seria uma questão prática e econômica: A besta exigia menos treinamento do que o arco longo, mas a besta era cara, pois era feitas com arco de aço e isso era algo caro e que exigia habilidades especiais; já o arcabuz não utilizava o aço, apenas ferro, logo, custava bem menos que as bestas;
Terceiro, Black indaga a própria utilização da pólvora, questionando porque ela causou efeitos revolucionários na Europa e não na China, onde fora inventada.
Quarto, ele afirma que a pólvora possibilitou diferentes formas de projeteis portáteis de armas e de artilharia e que a técnica de armamento de projéteis em massa não era nova. No entanto Black não aprofunda a questão, mas é possível contra argumentar Black, que mesmo não sendo inovações de fato realizadas por Gustavo Adolfo, o que importa para a tese de Revolução Militar de Roberts é o caráter das sucessivas transformações decorrentes dela. Da mesma forma o uso de drones para caçada humana não foi uma novidade dos EUA e sim de Israel – em um determinado momento histórico –, mas tomou um contexto bem mais amplo quando os EUA a colocaram em prática e a expandiram de forma vertiginosa no Oriente Médio. Isso talvez responda a terceira questão apontada por Black anteriormente, uma vez que a pólvora não só causou pouco impacto na China antiga como na China moderna, pois é o uso político que se faz da arma que torna uma determinada utilização revolucionária. Assim, se a China possui drones tão avançados quanto os EUA isso não quer dizer que eles venham a desempenhar o mesmo que os drones estadunidenses.
Quinto, e mais importante, ele critica a via única, “mono-causal”, nos escritos sobre a revolução militar e seus impactos, “assim como um degrau de determinismo tecnológico”. (BLACK, 2005, p. 36). No caso da pólvora, ele a vê como agente da transformação naquele período, mas não como uma causa em si, até porque, como exemplifica Black, não havia aproveitamento eficaz do potencial energético da pólvora, já que os canhões não eram fortes o suficiente para fazer uso adequado dela, permanecendo assim, até o século XV, cuja mudança veio com o surgimento do pó enlatado, por volta de 1420, que segundo Black proporcionava a energia necessária, mas sem os perigosos picos de pressão.
Diante das deficiências técnicas dos armamentos e da falta de eficiência da pólvora, além do mau uso ao disparar, Black então questiona por que o arcabuz (tipo de espingarda inicialmente muito pesada e de recarga demorada) se disseminou a partir de 1460, chegando à conclusão, contrária à de Roberts, de que não foi por causa de sua
aceitação instantânea de capacidade esmagadora, mas para o uso do arcabuz em um nicho específico e por um grupo específico: milícia que guardava muralhas da cidade, uma função protegida que compensava por sua vulnerabilidade em campo de batalha (BLACK, 2005, p. 37)75.
Black sustenta que as armas de fogo eram de recarga demorada, mas que as melhorias nas armas de fogo, por volta do século XVI, teriam reduzido o treinamento dos soldados em
75 Tradução livre: “[…] instant acceptance of overwhelming capability, but to the use of the harquebus in a particular niche and by a specific group: militia who guarded city walls, a protected role that compensated for their battlefield vulnerability.”
manuseio e recarga, levando a facilitar a substituição do arco longo pelos mosquetes (BLACK, 2005, 38).
O ponto mais relevante da crítica de Black à Revolução Militar e com consequências significativas para o uso de Drones hoje em dia recai na motivação política por trás das mudanças militares. Black ressalta a força da nobreza e a importância que ainda permanecia na cavalaria e nos oficiais nobres. Assim, ressalta Black, “[...] a força, incluindo novas formas militares, foi empregada por governantes a fim de avançar seu poder e impor sua autoridade”. (BLACK, 2005, 43)76.
A questão colocada por Black incide na capacidade do governo de se auto sustentar, ou seja, havia a necessidade dos governos de uma boa governança, sobretudo de oferecer um sistema eficiente de policiamento doméstico, bem como de outros serviços para manter sua integridade. Assim, Black entende que existiram adaptações de ideias já existentes para atender às necessidades locais e, mais que isso, que o surgimento dos Estados e sociedades absolutistas veio a ser uma solução para a crise de meados do Século XVII, mas que foi um tempo de relativa estabilidade que mais a frente iria enfrentar as crises do Século XVIII.
Para Leandro Gonçalves, Black retira o foco dos aspectos tecnológicos da Revolução e realça o caráter da disciplina dos exércitos europeus. Para Gonçalves, “[...] foi a mudança social de longa duração, transformadora, mas não revolucionária, que possibilitou o melhor uso da tecnologia e não, como pensavam outros, que tivesse sido a tecnologia quem tornasse possível a mudança social” (GONÇALVES, 2015, p.22).
Este debate sobre a força motriz por trás das mudanças militares e sociais e sobre quem interfere no outro é também visto por outros autores como algo relativo, tendo-se então a história militar sendo composta de espaços intercalados de mudança militar e depois de mudança social, seguida novamente por outra mudança militar. Esta seria a grande questão das causas das mudanças nos Estados ou do ambiente estratégico, que também consta em Bobbitt:
[...] será o Estado que muda, acarretando alterações nas estratégias por ele empregadas? Ou seriam as mudanças no ambiente estratégico que forçam os Estados a reorganizarem-se, a fim de lhe dar com os novos desdobramentos? (BOBBITT, 2002, p. 66).
Se levarmos em conta essa análise, surge a questão: estariam os drones impulsionando mudanças sociais? Ou, ao contrário disso, eles já seriam o resultado de mudanças sociais de longa duração?
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Tradução livre: “[...] force, including new military forms, was employed by rulers in order to advance their power and enforce their authority.”