As relações de cuidado também podem ser marcadas por situações conflituosas a ponto de levarem cuidadores, familiares ou contratados, a cometerem maus tratos e violência contra idosos. Por outro lado, os cuidadores também estão sujeitos a sofrerem abusos por parte dos idosos. É importante ressaltar que a co-residência entre diferentes gerações no mesmo grupo doméstico não é sinal imediato de relações amistosas e equilibradas.
Em Caminha, a ex-diretora de um Centro, Magda, comentou como familiares muitas vezes se encontram, na vida adulta, na “posição” de cuidador de um idoso, quando já somam uma série de responsabilidades próprias dessa etapa da vida. Para ela, isso acabava por gerar uma sobrecarga e um estresse que é negativo para todos: “há nessas circunstâncias a possibilidade de se cair em situações de violência, de maus tratos. Então é importante encontrar um equilíbrio entre aquilo que é importante para o cuidador e aquilo que é importante para quem é cuidado”. Magda comparou a atuação de homens e mulheres cuidadores ao falar do período em que trabalhou no Apoio a Vítimas de Violência Doméstica (serviço que será mencionado mais adiante). Ela disse ter observado que, em relação aos principais cuidadores, quando se trata de homens, a atitude é “exemplar”: “muitas vezes, a sociedade acaba por ser tão exigente com as mulheres, que são chamadas a tantas tarefas concomitantes, e elas nem sempre tem o perfil de personalidade para essa tarefa e acabam por, nem sempre, ser as melhores cuidadoras”. Magda falou que encontrou muitos casos de homens que eram cuidados pelas esposas ou pelas irmãs e sofriam maus tratos:
Dentro daquilo que era uma relação de poder, onde o homem tinha o poder de estar no mercado de trabalho, de ter dinheiro e até, do ponto de vista da relação, era mais agressivo, quando, por idade ou doença, perde esse poder, quem cuida passa a ter uma relação diferenciada, onde o poder é invertido. Tive muito mais [casos de] mulheres agressoras, física e psicologicamente, em torno de fenômenos de negligência e coisas terríveis, do tipo: deixar de limpar, deixar de trocar a fralda, não levar ao médico, dar comida fria, trancar em casa, levar no carro no banco de trás. Coisas terríveis, às vezes simbólicas, não deixar pegar em dinheiro, não deixar escolher a roupa, privá-los de momentos de convívio social por vergonha... encontrei muito mais situações desse tipo provocadas por mulheres que por homens (Magda, ex-diretora de Centro, Caminha).
Quanto aos homens cuidadores, mesmo os casados, a postura era, como ela disse, “exemplar”. Não encontrou muitos homens “maltratantes”. Mesmo aqueles que tinham um histórico de maus tratos com suas esposas ao longo da vida, quando elas perdiam a saúde, eles deixavam de maltratá-las. Magda disse que em muitos casos, tanto mulheres quanto homens
agressores, o comportamento pode ser explicado pela baixa formação ou pela superproteção. Ela destacou que esse problema não é restrito aos cuidadores informais, mas também aos cuidadores profissionais, que têm uma formação técnica:
Dentro do desgaste que é cuidar, muitas vezes quando as cuidadoras formais estão a tratar de um idoso que tem problemas de comunicação ou um quadro demencial, ao invés de tentar estimular a comunicação ou ficar em silêncio, estão a conversar com a colega que está a prestar cuidados, ignorando completamente o idoso. Isso sem perceber. O corpo técnico precisa se vigiar, ter consciência (Magda, ex-diretora de Centro, Caminha)
O Centro de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica onde Magda trabalhou presta um serviço de acompanhamento das vítimas de violência doméstica de qualquer gênero e grupo etário -- idosos, adultos e crianças. Embora sua sede funcione em uma das IPSS que acompanhei, em Caminha, o atendimento abrange outros 10 concelhos do distrito de Viana do Castelo. Inicialmente era um projeto com prazo de três anos, mas os numerosos casos encontrados justificaram sua permanência e por isso continuava funcionando na ocasião em que realizei o trabalho de campo. A assistente social com quem conversei, Noêmia, começou a participar do projeto em março de 2011. Ela me informou que a procura tinha aumentado significativamente ao longo dos anos e as situações envolvendo idosos eram mais frequentes, principalmente mulheres idosas, em comparação com outros segmentos populacionais. Semanalmente havia uma média de cinco sinalizações e o serviço oferecia apoio psicológico (tanto às vítimas quanto aos agressores), jurídico e social. Faziam intervenções durante crises – quando a vítima busca apoio na GNR ou no hospital – e a equipe era acionada para avaliar as necessidades da vítima: se quer regressar à casa, elaboravam um plano de segurança com medidas de precaução; também podiam direcioná-la à casa de algum outro familiar, caso ela não desejasse retornar à casa. Quando não havia “retaguarda familiar”, direcionavam a vítima para centros de acolhimento de urgência, uma pensão ou uma casa abrigo.
Noêmia explicou que os casos são encaminhados ao Ministério Público, responsável por averiguar as situações de violência doméstica e encaminhar as punições juridicamente. Em relação aos idosos, ocorriam casos em que a família não reconhecia como maus tratos abandonar o idoso com Alzheimer sozinho em casa por muito tempo durante o dia, por exemplo, e os profissionais do Centro de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica procuravam conscientizar esses familiares em relação às situações consideradas de negligência, recomendando que os idosos fossem encaminhados a um Lar. Quando se constatava que a
negligência era intencional, o Ministério Público era acionado para retirar o idoso desse domicílio e encaminhá-lo à instituição apta a fornecer os cuidados que ele necessitava.
Como esclareceu Noêmia, as denúncias de violência doméstica ocorrem tanto por telefone, de forma anônima, como por vizinhos que buscam o serviço e pedem o anonimato. Antes da equipe especializada abordar a família, a Seguridade Social é acionada para uma visita de avaliação para identificar se a denúncia procede. A assistente social informou que são situações complicadas, porque os denunciantes podem interpretar mal aquilo que observam, ou mesmo haver intrigas entre eles e a família denunciada, e antes de ser tomada alguma providência, é necessário confirmar se há fundamento na denúncia de violência doméstica. A equipe especializada só é acionada de fato quando há confirmação desse tipo de situação. O atendimento é mais rápido quando a própria vítima faz a denúncia.
Noêmia também afirmou que vem se constatando a necessidade de ampliar o raio de ação desse serviço por conta do crescente número de casos que estão sendo identificados. Quando o serviço funcionava ainda no formato de projeto, o atendimento era direcionado exclusivamente às vítimas, mas com a implementação por tempo indeterminado, observou-se a necessidade de atender também aos agressores, pois, em grande parte dos casos, as vítimas desejam manter a relação e viver no mesmo domicílio, apenas querem que os agressores modifiquem seus comportamentos violentos. Além disso, a maioria das vítimas não busca uma punição legal para os agressores, pelos laços afetivos que os envolvem, segundo me explicou a assistente social.
Como os casos de maus tratos envolvendo idosos estão se tornando a cada dia mais numerosos, ela acreditava que seria necessário fazer ajustes no formato do atendimento, levando em conta as especificidades desse segmento. A articulação com o Ministério Público precisava ser mais facilitadora, pois muitas vezes os idosos já não tinham condições de fazer escolhas ou tomar atitudes para se proteger das agressões. Conforme me disse Noêmia: “vítimas com Alzheimer, por exemplo, muitas vezes não são capazes de relatar em primeira pessoa os maus tratos que sofrem. Precisamos criar estratégias mais ágeis nesses casos”. Ela também destacou casos onde filhos e netos tem problemas de dependência de drogas e batem nos idosos – grande parte desses agressores dependem economicamente da renda desses familiares idosos. Também há situações de negligência, onde se observa que o idoso recebe uma aposentadoria com valor suficiente para lhe garantir boas condições de vida e que poderia ser cuidado por alguma instituição especializada, mas os familiares preferem ficar com esse rendimento e abandonam o idoso “à própria sorte”. Segundo a assistente social, estes são os casos mais frequentes, mas também são encontradas situações de maus tratos físicos e psicológicos.
Cristina, cuidadora do apoio domiciliário, me falou de uma família onde o pai sofria de alcoolismo e batia na esposa diante dos filhos. Segundo ela, é possível que esses filhos repitam situações de violência quando formarem suas famílias ou quando tiverem que cuidar dos pais idosos: “os filhos vão lembrar-se de tudo isso, dos maus tratos que sofreram e que assistiram”. Ela me disse que há muitos casos como esse em Caminha, e como não sabia minha opinião (afinal estava, de certo modo, dizendo que algumas pessoas são maltratadas na velhice porque maltrataram no passado seus atuais cuidadores), Cristina me perguntou: “não achas? Tudo se reflete na velhice. Colhemos na velhice o que plantamos na vida”. A cuidadora disse que muitos idosos se queixam dos filhos, que são ingratos, que são maus, mas ela tenta sempre ver o outro lado do problema, tenta analisar se, de repente, não é o idoso que provoca as situações de conflitos: “os filhos têm obrigação de tudo. É obrigação. Porque eles têm que fazer... e eu tento explicar que não pode ser assim, os filhos têm que trabalhar, têm os filhos deles pra criar e não podem largar tudo para tomar conta dos pais. É difícil”. Entretanto, quando perguntei diretamente se conhecia casos de idosos que frequentavam ou eram atendidos pelo apoio domiciliário e que sofriam maus tratos em seus domicílios, ela se esquivou dizendo que não sabia de nada do tipo.
Uma cuidadora contratada que conheci em Caminha e que não tinha vínculo empregatício com nenhuma instituição (como era o caso das cuidadoras do apoio domiciliário), Zuleide, estava vivendo uma situação complicada quando nos conhecemos, conforme mencionei em seu perfil, no Capítulo 2. Estava cuidando de uma idosa que ela descobriu sofrer de Alzheimer quando a levou ao médico, depois de uma queda na rua. O filho, que a contratou para o serviço de acompanhante da idosa às noites, não contou a Zuleide que a mãe tinha essa doença. Após a queda, o quadro de saúde da idosa piorou muito. Zuleide explicou que ela era muito geniosa e agora, demente, se machucava de propósito. A cuidadora contratada se preocupava com a reação do filho ao ver as marcas roxas nos braços e pernas da mãe, porque ele podia duvidar que ela estivesse se machucando sozinha.
Em Salvador, em uma das aulas do curso de cuidador, a professora abordou as dificuldades do cuidador contratado em lidar com a negligência da família em relação aos parentes mais velhos e dependentes, o que podia causar revolta e desejo de denúncia às autoridades por parte das cuidadoras. Aproveitei a oportunidade para perguntar a professora como ela achava que a cuidadora devia proceder ao constatar abandono e maus tratos por parte dos familiares do idoso que cuida. Eliana relatou o caso de uma vizinha sua que sofria maus tratos por parte do genro, que também batia na esposa. Antes da idosa sofrer uma queda, ela era muito ativa, alegre e gostava de beber. O genro reprovava seu comportamento e batia nela. Era
uma situação que toda a vizinhança parecia ter conhecimento. A professora foi chamada quando ela já estava vivendo acamada, após a queda, pois estava sofrendo com escaras. Na casa, todos estavam desempregados e a única fonte de renda era a aposentadoria dessa senhora que passou a sofrer de depressão profunda, deixando de se comunicar ou fazer qualquer coisa por conta própria. Eliana explicou que não denunciou essa situação pois o sujeito agressor andava armado e toda a família dela vivia a poucos metros dessa casa. Por medo de represálias ou piorar a situação de mãe e filha, que viviam sob a violência desse homem, ela decidiu não se envolver: “não fiz nada, mas acredito muito em Deus e que cedo ou tarde as pessoas acabam pagando pelo mal que fazem”142.
A professora afirmou que é muito complicado se envolver nessas situações pois apesar da boa intenção, pode haver repercussões dramáticas quando alguém resolve denunciar esses casos. Muitas alunas manifestaram opiniões de que deveria ser feita a denúncia, mas a professora demonstrou não ser uma grande entusiasta desse tipo de coisa, especialmente por causa das repercussões na vida da cuidadora, que pode se tornar alvo de violência também e perder o emprego. Ela nos falou sobre a necessidade de profissionais da área de saúde aprenderem a gerenciar conflitos e evitar enfrentamento143. Eliana prosseguiu, em sua própria
defesa, explicando que o agressor já maltratava a esposa há mais de 20 anos, “e se ela não tomou uma atitude, não sou eu quem vai tomar. Era a mãe dela”. Disse que deu conselhos à filha da idosa sobre largar o marido, sair de casa e coisas do tipo. Também apelou para justiça divina ou karma: “o genro batia nela porque ela saía de casa. Agora a idosa não quer, não pode e a filha é que não pode sair e precisou largar o emprego pra ficar com ela o dia inteiro. A dinâmica da vida vai dando as respostas”.
142 No caso dessa senhora que vivia acamada e alheia a tudo, fechada em seu mundo, Eliana nos contou que ela
vivia em uma pequena cidade no interior da Bahia, em uma casa grande e confortável, e a filha a trouxe para Salvador com a desculpa de que levaria a mãe ao hospital para fazer exames. A idosa passou a morar numa casa muito pequena com a filha, o genro e os netos, em um bairro periférico da capital, e acabou se tornando arrimo de família, pois sua aposentadoria passou a ser o único rendimento garantido do grupo doméstico. Logo surgiram problemas com o genro que não admitia que a sogra saísse para beber – e gastar seu dinheiro – e passou a bater nela. Eliana disse que o que podia fazer era conseguir uma vaga para a idosa em um asilo, mas a filha logo perguntou se o cartão com o qual faz as retiradas da aposentadoria ia junto, deixando claro o motivo de ainda mantê-la em casa.
143 Tive a impressão de que aquele foi um momento bem delicado para a professora. Sem querer, coloquei ela em
uma sinuca de bico. E ela foi muito sincera, hesitando muito ao longo da narrativa. Procurou um modo de justificar sua atitude de não denunciar um caso de maus tratos e violência sofrida por uma senhora, sua vizinha, e recomendou que as cuidadoras de idosos sejam cautelosas nessas delicadas situações pois não há como saber quais as consequências ao interferir na vida alheia. Fiquei um pouco penalizada por fazê-la admitir aquilo, porque tratava-se de algo que não era muito coerente com sua conduta nos casos que contou – lembro que ela disse que o cuidador não pode ser omisso. Revelava algo que, pareceu-me, ela gostaria de manter nas sombras, procurando formar cuidadoras engajadas. Mas, ao mesmo tempo, admitia não ter denunciado o crime que estava sendo cometido numa casa próxima à sua. De certo modo, Eliana estava cuidando da sua própria família, tratando ela como prioridade numa situação onde avaliava perdas e danos.
Eliana contou que a idosa que era alegre, divertida e adorava uma farra, agora vivia acamada, precisando de cuidados o tempo inteiro. Não falava (por vontade própria), tinha uma escara que nunca cicatrizava: “essa senhora que cantava e descia até o chão... Essa pessoa ativa se tornou uma marionete, dependente completamente da filha que tirou ela de sua casa, no interior”. O genro agressor mudou de comportamento depois que a idosa ficou acamada: “Hoje não precisa mais bater nela”. O tom com que a professora relatava o desencadeamento dos acontecimentos deixava clara sua interpretação de que as pessoas, todas, estavam sendo punidas de alguma forma por terem feito mal àquela senhora (talvez até a idosa também fosse encarada como alguém que expurgava seus pecados de uma vida meio devassa para alguém daquela idade, não sei). A professora concluiu seu relato destacando que é um castigo assistir alguém que você ama definhando na cama, dia após dia, extremamente magra, frágil e dependente. Os conflitos anteriores à queda já não aconteciam, mas a idosa, morrendo aos poucos diante de seus algozes, dependentes de sua aposentadoria, era sofrimento considerável, um tipo de pagamento pelos erros cometidos.
As situações de maus tratos e violência relatadas por meus interlocutores, entretanto, não se referiam exclusivamente aos idosos. No ambiente doméstico, as cuidadoras também eram vítimas de maus tratos e violências cometidas por idosos que sofriam com doenças mentais. Algumas alunas mencionaram idosos que maltratavam cuidadores, batendo, xingando, beliscando, humilhando as cuidadoras contratadas. A professora mencionou o caso da idosa que ela cuidava, Aleluia, que sofria de Alzheimer e batia, cuspia e xingava os cuidadores. Eliana disse que muitos já desistiram do emprego, mas que a idosa nunca fez nada disso com ela. Uma das alunas contou que o idoso que ela cuidava era muito hostil. Ele sofria de Alzheimer e Parkinson e costumava agredir as cuidadoras com mordidas e cuspidelas durante o banho: “Ontem ele me deu dois tapas na cara. Hoje ele puxou meus cabelos”. A professora, então, comentou: “Tá vendo, gente? Tem que ter muita paciência”. Em todas as aulas tornava-se mais e mais evidente que paciência e resignação eram habilidades indispensáveis ao ofício de cuidador de idosos.