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O convívio diário e as práticas cotidianas de cuidado também estão relacionadas a situações onde a intimidade e a sexualidade dos idosos ganham destaque. Apresento a seguir algumas perspectivas de meus interlocutores sobre como eles encaram questões relacionadas a estes temas e as principais dificuldades encontradas para cuidar dos idosos quando a intimidade e a sexualidade dos mais velhos vem à tona.

Em Itaparica, conversando com Everaldo, cuidador familiar, ele me falou das dificuldades que encontrou para cuidar do pai quando ele foi internado no hospital: o idoso se recusava a comer, queria levantar da cama e tomar banho sozinho, por vergonha dos filhos. Essa “vergonha” era encarada por ele como algo natural e até mútuo. Achava ainda mais complicado tratar da mãe e quem a levava ao ginecologista e lidava com “esses temas” (envolvendo a intimidade do corpo da mãe) era a irmã, Elvira. A ACS Antônia, de Itaparica, contou um caso dramático envolvendo seu avô e a vergonha que ele sentia em compartilhar problemas relacionados a sua intimidade. Ela me disse que sempre foi muito cuidadosa e por estar sempre atenta ao avô, descobriu que ele estava com algum problema de saúde sério quando começou a observar pingos de sangue no chão da casa. O avô gostava muito de se banhar com ervas e acreditava que elas podiam lhe curar. Depois de muito investigar, Antônia descobriu que o avô havia se machucado com o zíper da calça e não contou a ninguém. O machucado no pênis inflamou por falta de cuidados básicos. Foi ela quem percebeu e falou com a tia que era preciso levar o idoso ao médico. Mas a tia não insistia nisso, porque ele se recusava: “quando foi pro médico, teve que cortar tudo. Aí ele caiu em depressão e surgiram mais problemas. Ele morreu de hipoglicemia, o açúcar dele baixou todo”.

No curso de cuidador, em Salvador, questões relacionadas à intimidade dos idosos eram recorrentes. Diversos comentários com teor semelhante indicavam que ser capaz de lidar com o nojo -- sem maus tratos ou demonstrações de repulsa ao lidar com situações escatológicas -- parecia se constituir uma competência do cuidador, uma habilidade que merecia ser reconhecida. Olívia falou que cuidava de “seu idoso” integralmente. Explicou que ele tinha problemas graves para evacuar e ela lidava diariamente com excrementos e secreções. Contou que no princípio tinha muito nojo mesmo, mas à medida que se apegou ao idoso, passou a não se importar e não sentia mais nojo algum. Quando ela falou sobre isso, fiquei com a impressão

de que a construção de vínculos afetivos podia promover, ao longo da convivência, uma ressignificação de práticas de cuidado. Essa impressão ficou ainda mais vívida quando a professora comentou, em uma das aulas, que o momento do banho era uma oportunidade do cuidador conferir a integridade do couro cabeludo, sinais de escara, edemas ou qualquer machucado no idoso. Eliana, ao explicar o procedimento, enfatizou ser indispensável fazer tudo com carinho e zelo. “Quem não gosta de um cafuné?”, ela sintetizou, acrescentando que o contato físico pode ser estimulante para o idoso e para o cuidador também, pois o nível de intimidade que a atividade exige é também a oportunidade de quem cuida expressar respeito e carinho pelo idoso. Por outro lado, Eliana adverte que, se mal executada, a tarefa pode ter efeitos desastrosos e se tornar um martírio para ambos. Quando uma aluna perguntou se era apropriado usar luvas, Eliana respondeu: “fica a seu critério. Porque tem gente que não gosta de contato. Eu gosto de contato, então quando não precisa, eu não uso. Também acho que quando pode dispensar a luva, é bom perguntar ao idoso o que ele prefere, porque ele pode não gostar de contato”. Sobre o banho, a professora ressaltou, ainda, a importância do cuidador informar sobre tudo o que pretende fazer:

Procure conversar, antecipar o que fará no corpo do idoso, porque afinal ele está sendo invadido em sua privacidade, sua intimidade... Também é bom conversar abobrinha, bobagens, pra distrair ele. Faça desse momento algo prazeroso e relaxante para vocês, idosos e cuidadores (Eliana, professora do curso, Salvador)

Tive a sensação de que o auxílio prestado pelo cuidador durante o banho, seja qual for o nível de dependência do idoso, era um momento crucial para estreitar ou esgarçar laços. Ao mencionar a última região a ser higienizada, as partes íntimas, a professora esclarece:

A polêmica das genitálias é a seguinte: antes de qualquer coisa a gente deve perguntar ao paciente o que ele prefere. Muitos preferem se limpar sozinhos. Então procure saber. Se o idoso quiser preservar sua autonomia, entregue a bucha ou toalha para que ele faça sozinho e ajude no que puder (Eliana, professora do curso, Salvador).

As orientações dadas pela professora do curso me remeteram aos comentários feitos por uma ex-diretora de Centro, em Caminha, Magda. Ela também falou sobre a relação com o corpo dos idosos, como muitas vezes os cuidadores familiares nunca tiveram acesso a esse corpo e precisavam agora cuidar. Ela me disse que “relações de pudor” dentro da família muitas vezes tornam mais fácil um cuidador externo realizar tarefas relacionadas ao corpo dos idosos. Magda

usou como exemplo a relação dela com o pai, que ela cuidava, e comentou como era difícil lidar com essa questão de tratar do corpo do pai em situações de intimidade:

Veja que quando estou a trabalhar, ajudo as outras cuidadoras a realizar essas atividades de higiene pessoal e na minha relação familiar acaba por não ser tão fácil. Os laços familiares deixam tudo mais complicado nesse sentido. Acaba por ser um dilema e depende muito de como as famílias se organizam para cuidar, porque às vezes há algum parente que tem uma relação de maior proximidade, mas não consegue fazer certas atividades, ou a relação ser de tamanha proximidade que implica fazê-lo. Vai depender da história de vida das famílias, dos padrões de comunicação, das barreiras que são os limites e fronteiras e da forma como se partilha a intimidade nas várias fases do ciclo de vida (Magda, ex-diretora de Centro, Caminha)

Foi interessante observar que, aparentemente, uma tênue linha separava questões relacionadas à intimidade e à sexualidade dos idosos nas perspectivas das interlocutoras. Zuleide, cuidadora contratada de Caminha, contou que há mais de 20 anos cuidou de um casal de vizinhos, proprietários de um café, e acabou saindo desse serviço porque não queria dar banho no homem. Nas primeiras tentativas, usava luva e o idoso dizia coisas como “esfrega- me bem por baixo”. Isso a deixava constrangida e ela falou com os filhos que agradeceria se eles fossem dar banho no pai. Mas eles não quiseram e ela decidiu largar esse trabalho. A idosa, esposa do idoso “assanhado”, mostrou-se triste com sua partida. No curso de cuidador, as alunas falavam de situações parecidas e, em Salvador, chamavam esses comportamentos mais audazes dos homens idosos de “gaiatice”. Esse assunto foi abordado logo no primeiro encontro, pois muitas alunas queriam saber como proceder nos casos onde o idoso tratava a cuidadora com uma conotação sexual. A professora respondeu que havia situações em que medicamentos alteram a libido dos idosos (o que podia explicar alguns comportamentos) e que ereções durante o banho eram muito comuns e deviam ser tratadas com um misto de seriedade e indiferença, já que muitas vezes era algo involuntário.

Ainda sobre as discussões envolvendo a sexualidade dos idosos durante o curso de cuidador, destaco uma tarefa de pesquisa sobre “HIV em idosos”. Muitas alunas não contiveram a surpresa diante do tema e demonstraram um certo estranhamento que, suponho, resultava da premissa de que velhos não tinham vida sexual ativa e, portanto, não constituíam um “grupo de risco”. Digo isso porque, entre as expressões de surpresa (“como assim, HIV em idoso?”), uma aluna perguntou: “é por causa das transfusões de sangue, né pró?” A pergunta dela pareceu condensar as opiniões da turma sobre a AIDS não ser transmissível exclusivamente através da relação sexual, portanto idosos devem se contaminar de outras formas. A professora explicou que tem se tornado cada vez mais numerosos os casos de idosos soropositivos que foram

contaminados por seus parceiros sexuais devido ao uso de medicamentos voltados para tratar disfunção erétil. Quando as alunas entenderam que os homens idosos estavam “na ativa” graças ao Viagra, e que isso estava aumentando a incidência de casos de HIV entre eles (e suas esposas), o espanto (e horror) pareceu geral.

Olívia, cuidadora contratada e aluna do curso, narrou episódios onde o idoso que ela cuidava, de 63 anos, era retratado como alguém cuja sexualidade era exacerbada “para a idade”. Ela nos contou uma vez que ele tinha hábito de assistir a filmes pornôs: “a neta acorda 4h da manhã e coloca filme pornô pra assistir com ele”. Pulularam interjeições de espanto e os comentários maliciosos entre as alunas. Umas delas, entretanto, perguntou: “o que é que tem ele assistir esses filmes?”, mas a maioria demonstrou reprovação: “e a família deixa?” ou “e se essa menina psicopata querer estuprar o velho?”. Olívia, que claramente condenava aquele hábito, nos contou:

A primeira vez que ele me pediu pra botar esses filmes, eu disse: ‘eu não boto. Se você quiser que outra pessoa bote pra você assistir, tudo bem, mas eu não boto’. E ele: ‘Ah, você agora é crente e não pode fazer isso, não pode fazer aquilo’. Eu disse: ‘Graças a Deus! Quando eu não era crente, eu já não gostava dessas porcarias, imagine agora! Vê se eu vou botar pro senhor ficar assistindo e ficar aí na cama, doido?’ Aí nunca mais ele me pediu. Mas a neta coloca e ainda assiste com ele (Olívia, cuidadora contratada, Salvador).

Olívia também contou que não era só a neta quem apoiava o idoso: o filho comprou um notebook para ele baixar filmes de “adultos” e ainda pagava tv por assinatura com o canal da Playboy. Uma das alunas comentou: “resumindo, ela não está indo pra lá pra cuidar dele, ela está indo pra se divertir, né?”. Olívia também falou que o idoso que cuidava era “vidrado” em figuras femininas e tinha uma numerosa coleção de filmes pornôs e por tudo isso ela procurava se preservar: “eu antes só trabalhava de short, agora só uso vestidão”. Ela disse que esse idoso demonstrava interesse sexual tanto nas cuidadoras cotidianas, como nas prestadoras de serviço, como a fisioterapeuta. Ele assediava essas mulheres e quanto maior o contato íntimo – por conta das práticas de cuidado –, maior a ousadia dele, que manifestava ereções com frequência, especialmente na hora do banho. Algumas funcionárias abandonaram o emprego por causa desse comportamento lascivo dele. Por fim a professora completou: “tem jeito não, os homens são assim, né?”