Muito antes do início de nosso trabalho com a AD, demos aulas de inglês em cursos livres de idiomas. Nessa época, costumávamos usar uma atividade para ensinar sentenças condicionais que consistia numa espécie de jogo de tabuleiro no qual os alunos precisavam responder a perguntas como “O que você faria se ganhasse na loteria?” ou “Se o gênio da lâmpada lhe concedesse apenas um desejo, o que pediria?”. Uma das perguntas do jogo que costumava gerar maior debate era: “Se você sofresse um acidente e pudesse escolher, preferiria ficar cego ou surdo?”. A maioria dos alunos demonstrava receio de perder a visão. Anos depois, já trabalhando com AD, passamos a perguntar a alunos, familiares e amigos qual dos cinco sentidos eles acreditavam ser o mais importante e o porquê. Nossa sondagem confirmou o que já havíamos constatado nas aulas sobre condicionais: para a maioria de nossos contatos a visão era o sentido mais valorizado.
Nossa enquete informal não teria maiores consequências se nossos resultados não fossem confirmados por dados de natureza mais concreta. Em matérias intituladas como
Blindness biggest fear for many Americans (em português Cegueira maior medo de muitos americanos) e The worst that could happen? Going blind, people say (em português O pior que poderia acontecer? Ficar cego, dizem)108, os resultados de uma pesquisa conduzida por uma equipe da Johns Hopkins University School of Medicine em 2016 nos Estados Unidos revelaram que 88% dos mais de dois mil entrevistados consideravam uma boa visão essencial para uma boa saúde e que 47% dessas pessoas acreditavam que a perda da visão traria o maior prejuízo para o seu dia-a-dia. Segundo o estudo, a maioria dos americanos considerava a perda da visão pior que a perda de um membro, da memória, da audição, da fala e do que
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A primeira matéria pode ser acessada através do site: <https://www.webmd.com/eye- health/news/20160804/blindness-biggest-fear-for-many-americans>. A segunda, através do site: <https://www.nytimes.com/2017/02/20/well/the-worst-that-could-happen-going-blind-people-say.html>. Acesso em: 24 dez. 2018.
doenças como a AIDS. Esse, no entanto, não parece ser um fenômeno recente. Segundo Barasch, até Leonardo da Vinci teria manifestado uma opinião semelhante: “Quem é que não desejaria perder os sentidos da audição, olfato e tato antes de perder a visão? Pois aquele que perde a visão é como alguém expulso do mundo, que não o vê mais, nem nada que nele existe. E uma vida como essa é irmã da morte” (BARASCH, 2001, p.115, tradução nossa).109
A perda da visão parece ser, na realidade, um receio tão comum e universal que merece uma denominação específica na lista de fobias humanas: escotomafobia (em inglês scotomaphobia). Com uma busca rápida na internet é possível encontrar um número razoável de fóruns, especialmente em inglês, no qual pessoas que sofrem do problema fazem depoimentos e buscam apoio. Esse dado é particularmente revelador quando se percebe que não há registro de nenhuma fobia relacionada à perda de outro sentido humano.
Teóricos que se debruçam sobre a questão da deficiência visual estão familiarizados com a temática. O medo da perda da visão é mencionado, por exemplo, por Beck como uma das possíveis justificativas para o fato da cegueira ter sido tão socialmente marcada na Idade Média:
A desconfiança nascida do ato de se cegar como forma de castigo foi apenas parte do que causou desdém pelos cegos na Idade Média. Wheatley argumenta que grande parte da animosidade em relação aos cegos na França resultou da simpatia e respeito demonstrados para com essas pessoas na forma de caridade e esmolas, ambos incentivados e exigidos pelo sistema social perpetuado pela Igreja Católica. Jonathan Beck assume uma postura diferente. Ele argumenta: “a 'ambiguidade' do cego [na Idade Média]... está enraizada no terror humano primordial da separação em suas várias formas: mutilação, castração, aniquilação. Todas as quais apontam não para a ‘crueldade’, mas para o medo" (164). [...] Os videntes alienam e ridicularizam o que temem a fim de evitarem a lembrança de que seus olhos são também vulneráveis. (BECK, 1993, p.164 apud SILVERMAN JR., 2011, p. 62, grifo do autor, tradução nossa)110
Silverman Jr. (2011) traz uma possível explicação para esse temor, ao mesmo tempo em que argumenta que o receio da perda da visão também era comum durante o Renascimento: “Por causa da frequência de doenças, das más condições de higiene, da taxa de infecções e inúmeros outros fatores, nenhum homem ou mulher durante o Renascimento estava a salvo da
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Texto de partida: “Who is there who would not wish to lose the senses of hearing, smell, and touch, before losing sight? For he who loses his sight is like one expelled from the world, when he does not see it any more, not anything in it. And such a life is a sister to death.”
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Texto de partida: “The distrust born out of blinding as a punishment was only part of what caused disdain for the blind in the Middle Ages. Wheatley has argued that much of the animosity towards the blind in France resulted from the sympathy and respect developed for the blind in the form of charity and alms encouraged and required by the social system, perpetuated by the Catholic Church. Jonathan Beck takes a different stance. He argues,” the ‘ambiguity’ of the blind person [in the Middle ages]… is rooted in the primordial human terror of separation in its various forms: mutilation, castration, annihilation. All of which point not to ‘cruelty’ but to fear”(164). […] The sighted alienate and ridicule what they fear in order to separate themselves from the reminder that their eyes are just as vulnerable.”
deficiência. Como a morte, a deficiência poderia afetar qualquer um a qualquer momento” (p. 65-66, tradução nossa).111
É compreensível que o ser humano tenha medo da morte, de doenças e também de ter de se adaptar ao novo ao enfrentar um quadro de deficiência. No entanto, o que poderia justificar um medo tão visceral da cegueira em particular? Um medo que parece ter atravessado diferentes momentos históricos e persistir até os dias de hoje? Parte da explicação pode residir na própria evolução humana. Uma porção significativa de nosso córtex cerebral, a sede da inteligência, é dedicada ao processamento visual.112 Antropologistas argumentam que a vida entre as árvores, como aquela dos ancestrais humanos, exigiu o desenvolvimento de uma visão mais apurada do que a dos animais terrestres e que essa tendência teria apenas se intensificado com a evolução dos hominídeos:
Como um animal diurno ereto sobre suas patas traseiras, o ser humano primitivo desenvolveu o seu sensórium de modo a dar à visão a capacidade de diferenciar e assimilar a maioria dos estímulos externos de um modo superior aos outros quatro sentidos. O olfato, que é tão imperativo para os animais quadrúpedes, foi reduzido em importância, uma transformação decisiva que Freud conjectura ter sido o próprio fundamento da civilização humana. (JAY, 1994, p.5-6, tradução nossa)113
A visão, portanto, parece exercer um papel muito relevante no modo como nos relacionamos com o mundo que nos cerca.114 No entanto, acreditamos que as raízes do medo da cegueira não sejam meramente fisiológicas, mas muito mais de ordem cultural. O córtex visual, como veremos mais adiante, pode exercer funções outras que não apenas o processamento de imagens. Além disso, a plasticidade do cérebro humano nos garante a
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Texto de partida: “Because of the frequency of disease, poor hygienic conditions, the rate of infection, and numerous other considerations, no man or woman in the Renaissance was safe from disability. Like death, disability could call on any one at any moment.”
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No passado, acreditava-se que apenas o córtex visual seria responsável pelo processamento de imagens. Hoje, sabemos que mais de 30 áreas no cérebro dos primatas, incluindo o homem, estão envolvidas com diferentes aspectos do processamento visual como, por exemplo, a percepção de movimento, de profundidade e de cor (RAMACHANDRAN; ROGERS-RAMACHANDRAN, 2008). Matéria publicada online: RAMACHANDRAN, Vilaynur S.; ROGERS-RAMACHANDRAN, Diane. When blindness is in the mind, not the eyes: patients with unusual visual deficits provide insights into how we normally see. Scientific American Mind, 2008. Disponível em: <https://www.scientificamerican.com/article/when-blindness-is-in-the-mind/>. Acesso em: 05 set. 2018.
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Texto de partida: “As a diurnal animal standing on its hind legs, the early human being developed its sensorium in such a way as to give sight an ability to differentiate and assimilate most external stimuli in a way superior to the other four senses. Smell, which is so imperative for animals on all fours, was reduced in importance, a fateful transformation that Freud was to conjecture was the very foundation of human civilization.”
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Isto não quer dizer que temos a melhor visão entre os animais. Os felinos têm uma visão noturna bastante superior à nossa e as aves conseguem ver objetos pequenos a distâncias exponencialmente maiores. Segundo Correia Filho (2007): “Enquanto a retina humana tem aproximadamente 200 mil células visuais por milímetro quadrado, a maioria das aves tem três vezes mais do que isso. Gaviões, abutres e águias têm um milhão, ou mais. Também dispõem de lentes excepcionalmente flexíveis, que permitem um foco rápido, capacitando-os para um vôo em meio a uma floresta fechada ou entre arbustos”. Matéria publicada online: CORREIA FILHO, João. A construção do mundo através dos cinco sentidos. Revista Planeta, 2007. Disponível em: <https://www.revistaplaneta.com.br/a-construcao-do-mundo-atraves-dos-cinco-sentidos/>. Acesso em 03 ago. 2018.
possibilidade de adaptação à vida sem o uso de um ou mais sentidos. Acreditamos, portanto, que as raízes da escotomafobia estão no modo pelo qual historicamente passamos a valorizar a visão em detrimento dos demais sentidos. Como o visocentrismo é uma das bases da sociedade ocidental, nada mais natural que a possibilidade da perda da visão possa nos causar tanto temor.
Em sua obra Worlds of sense: exploring the senses in history and across cultures, Constance Classen (1993) demonstra como a clássica divisão do sensórium humano em cinco sentidos é uma construção cultural que foi desenhada de modo mais ou menos arbitrário. Platão não estabelecia uma divisão muito clara entre sentidos e sentimentos. Em uma de suas listagens podemos encontrar visão, audição, olfato, percepção do quente, percepção do frio, prazer, desconforto, desejo e medo. Não havia referência, portanto, ao paladar, e o tato era restrito às sensações de calor e frio. Aristóteles, para por fim aos debates entre os filósofos quanto a questão, declarou haver uma relação intrínseca entre os sentidos e os elementos (terra, ar, fogo, água e éter ou quintessência) e, por isso, determinou que haveria apenas cinco sentidos. Além disso, ele também os ranqueou, dando à visão a primazia, seguida, respectivamente, da audição, olfato, paladar e tato. Para Aristóteles, a visão seria o sentido mais primorosamente desenvolvido e o mais relevante para as necessidades da vida. Outro argumento usado para justificar essa hierarquia seria o de que ela seguiria a posição dos órgãos do sentido no corpo humano, com os olhos no topo, seguidos das orelhas e assim por diante.
Cremos, no entanto, que a explicação mais plausível para essa valorização da visão reside na forte associação entre o ato de “ver” e o de “conhecer” entre gregos e romanos. A palavra ideia, por exemplo, tem origem no vocábulo grego idein, que significa “ver” (MARTINS, 2006). O uso que fazemos de diversas metáforas visuais para denotar processos de natureza mental demonstra o quanto somos herdeiros dessa tradição. Classen (1993) cita como exemplos os termos ingleses “point of view” (ponto de vista), “overview” (visão geral/síntese), “observation” (observação), “clear” (claro/inteligível), “dim” (obscuro/impreciso), “enlighten” (esclarecer/elucidar), “reflect” (refletir), “focus” (foco) e a expressão “I see” (literalmente “Eu vejo”) usada no sentido de “I understand” (“Eu entendo”).115
A teórica também pontua que palavras como “bright” e “brilliant” (brilhante) só passaram a ser usadas no sentido de “inteligente” a partir do período do Renascimento, ou
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Os exemplos citados têm como base o idioma inglês porque foram retirados de uma obra escrita nessa língua. Entretanto, priorizamos aquelas palavras e expressões que, ao traduzidas, pudessem demonstrar como a ligação entre visão e razão também está presente na língua portuguesa. Até mesmo o verbo “ver” parece poder ser usado com o sentido de “entender” em expressões como “Não faça mais isso, viu?”.
seja, um momento histórico de ascensão do visocentrismo. Classen (1993) demonstra, inclusive, que até mesmo a palavra “intelligent” (inteligente) nasce de uma raiz tátil-visual, uma vez que se origina da palavra latina intelligere, formada por inter- (entre) e legere (escolher). Aquele que é inteligente, portanto, é aquele que é capaz de perceber/observar e escolher o que é melhor.
A etimologia de palavras como “consider” (considerar) e “theory” (teoria) também são bons exemplos da forte associação entre visão e conhecimento. O verbo “consider” (considerar) tem origem no termo latino considerare, literalmente “com as estrelas”, ou seja, “observar atentamente”, como os antigos olhavam para o céu em busca de respostas. Já a palavra “theory” (teoria) nasce da grega theoria, que significa “contemplação, especulação, olhar para algo” (CLASSEN, 1993).
Marilena Chauí em seu texto Janela da alma, espelho do mundo realiza um trabalho semelhante ao empreendido por Classen (1993) ao expor a natureza visual de várias metáforas presentes em português:
Raras vezes despertam atenção as palavras de nosso cotidiano. Ali estão, disponíveis, costumeiras. [...] Aceitamos discordâncias dizendo que cada qual tem direito ao seu ponto de vista ou à sua perspectiva, sem causar-nos estranheza o crermos que a origem das opiniões dependa do lugar de onde vemos as coisas e sem que nos detenha a palavra “perspectiva”. Se pretendemos assegurar que algo é efetivamente verdadeiro, dizemos ser evidente e sem sombra de dúvida, porém não indagamos por que teríamos feito a verdade equivalente à visão perfeita – já que não pensamos com os olhos – nem por que teríamos associado dúvida e sombra, associação que transparece quando enfatizamos nossa certeza com um “mas é claro!”. [...] Também não nos parece curioso falar em investigação para designar tanto a atividade do cientista quanto a do policial (detetive, em inglês, se diz private
eye) e não indagamos se ambos teriam algo a ver com um olhar que espia, espreita e
espiona. Aliás, não nos surpreende usarmos a expressão “ter (ou não ter) algo a ver” ao pretendermos afirmar (ou negar) relações entre coisas, pessoas ou fatos. Nem que, laconicamente, declaremos necessária uma consequência dizendo: “logo se vê” ou “está-se vendo”. (CHAUÍ, 1998, p. 31-32, grifo do autor)
Apesar de prestarmos pouca atenção à relação que espontaneamente fazemos entre “ver” e “conhecer”, a ligação entre visão e razão no pensamento ocidental é tão forte que o ato de “ter uma ideia” é representado pela metáfora de uma lâmpada que se acende; como nossa experiência enquanto leitores de histórias em quadrinhos cedo nos ensina. Esse momento de compreensão súbita, de esclarecimento que se faz luz, também pode ser descrito pelo termo “insight”, uma palavra tomada de empréstimo do inglês e que é formada pelo prefixo in- (em ou dentro) e o vocábulo sight (vista) e que significa literalmente “ver de dentro” ou “olhar por dentro”.
A etimologia, portanto, nos ajuda a perceber a forte associação entre visão e conhecimento, nascida ainda na Antiguidade Clássica. Contudo, se essa associação já estava
presente entre gregos e romanos, ela tornou-se ainda mais forte com o advento da ciência moderna, isto é, a ciência que articulava o método de observação e experimentação com o uso de instrumentos como o telescópio e o microscópio. A partir de então, a visão foi alçada ao posto de “sentido da ciência” e passou a nos fornecer a maioria de nossos modelos do universo (mapas, gráficos, tabelas, diagramas, etc.).116 Acreditava-se à época que o distanciamento garantido pela visão, ao isolar o espectador daquilo que é observado, tornava possível a tão aspirada objetividade científica.117 Contudo, esse visocentrismo crescente não teve seu alcance limitado apenas à área do saber científico.
Segundo Classen (1993), teóricos como Marshall McLuhan e Walter Ong discutiram o fenômeno do visocentrismo e atribuem grande importância ao advento da escrita e da imprensa nesse processo. A invenção do alfabeto teria marcado o início da transformação de uma cultura dominada pela audição para uma cultura dominada pela visão, pois com a criação da escrita a visão teria passado a ser o mais importante meio para a aquisição de conhecimento.118 Essa transformação teria se intensificado com a invenção da imprensa, o advento das escolas públicas e o aumento dos níveis de escolaridade até ao ponto de termos nos transformado numa sociedade na qual há um claro predomínio da imagem. Classen (1993) cita a análise da moderna cultura de consumo feita por Stuart Ewen para exemplificar o estágio visocêntrico no qual nos encontramos. Segundo o teórico, os produtos e valores da sociedade moderna seriam, antes de tudo, consumidos pelos olhos, uma vez que nos encontramos cercados, por exemplo, pela TV, pelos anúncios de revistas, por outdoors, logos de empresas e vitrines de lojas. Classen não menciona referências de Ewen à internet, mas a
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Silverman Jr. (2011) chama atenção para um dos dilemas dos filósofos naturalistas: descrever o que ninguém antes jamais havia visto. Esses homens tiveram que criar modelos para descrever o “novo mundo” descoberto através do telescópio e do microscópio.
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É possível que essa supervalorização da visão e sua associação à capacidade de conhecer e pensar possa explicar a resistência enfrentada por Haüy quando da fundação de sua escola para pessoas cegas em 1784: “Bem instrutivo [...] é o facto de ele ter tido necessidade de travar uma árdua luta para persuadir a sua sociedade de que era possível conferir educação às crianças cegas e instruí-las para o exercício de uma profissão. Nos primeiros tempos que precederam a formação da escola, Haüy foi recorrentemente acusado de estar a criar ilusões desnecessárias às crianças, fazendo-as acreditar que poderiam estudar e realizar-se como as demais. Inclusive, aquele que foi o Ministro da Fazenda francês entre 1783 e 1787, Charles Calonne, chegou a acusar o filantropo de forjar as cerimónias onde eram exibidos os conhecimentos e capacidades adquiridas pelas crianças cegas, tal era o cepticismo que então vigorava”. (MARTINEZ, 1992, p.71 apud MARTINS, 2006, p. 62)
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É interessante notar que durante a Idade Média, também denominada de Idade das Trevas, apesar da visão continuar a ser valorizada, sua hegemonia foi abalada pela importância atribuída à audição. Nesse período, conhecido por seus baixos níveis de letramento, a audição ganha destaque por ser o sentido através do qual era possível entrar em contato com a “Palavra de Deus”. A título de ilustração, Classen (1993) relata a alegoria presente na obra Anticlaudianus de 1183 de autoria de Alain de Lille. No texto, os cinco sentidos são descritos como cinco cavalos que puxam uma carruagem levando Prudência ao paraíso. Visão lidera, uma vez que é o animal mais veloz, seguido por Audição, Olfato, Paladar e Tato. No entanto, a carruagem não consegue alcançar o paraíso desse modo. Então, Prudência, persuadida por Teologia, retira todos os arreios de Audição e segue apenas com ele para o paraíso.
criação da rede mundial de computadores intensificou ainda mais o processo e hoje convivemos com redes de compartilhamento de fotos e vídeos como o instagram e o youtube, assim como fenômenos como a quase onipresença das selfies e dos smartphones.119
Em sua obra, Classen (1993) também apresenta argumentos próprios para ilustrar essa tendência visocêntrica da sociedade ocidental e, para tanto, realiza um passeio pela história da jardinagem, dando destaque à rosa, a flor por excelência. Como as flores são geralmente apreciadas devido ao seu perfume e beleza, a propensão atual de valorização do aspecto visual de um jardim em detrimento do aromático seria mais um exemplo do crescente visocentrismo da cultura hodierna.
Segundo Classen (1993), após a queda do Império Romano, a prática da jardinagem ficou inicialmente restrita aos monastérios e conventos. Nesses ambientes, inclusive por razões de ordem prática, os aspectos olfativos e gustativos das plantações tinham preponderância em relação ao visual. Rosas e outras flores eram cultivadas para fins culinários, medicinais e religiosos (produção de incenso, por exemplo) e plantadas em meio a hortaliças como alho e cebola. Seu cheiro e gosto, portanto, eram mais importantes que sua aparência. Além disso, como esses jardins eram cercados por muros, o ambiente fechado intensificava os aromas; algo que era ainda mais acentuado pela prática de se plantar ervas aromáticas junto à face interna das paredes muradas.