Olhar para a Educação Infantil, enxergá-la em sua complexidade e sua singularidade significa buscar entendê-la em suas características de formação de crianças entre o 0 e os 6 anos de idade, constituindo espaços e tempos, procedimentos e instrumentos, atividades e jogos, experiências, vivências...em que o cuidar possa oferecer condições para que o educar possa acontecer e o educar possa prover condições de cuidado, respeitando a criança em suas inúmeras linguagens e no seu vínculo estreito com a ludicidade. (ANGOTTI, 2006, p. 25).
O que a autora declara sobre a maneira como a Educação Infantil precisa ser observada (e vivenciada) implica na constituição de saberes, os quais, especialmente, durante a formação inicial devem abarcar espaço significativo. Tenho a compreensão ante ao que Angotti (2006) expressa, de que analisar os entendimentos que as estagiárias produziramsobre a docência na Educação Infantilno decorrer do estágio, não compõe ser uma tarefa simples; tampouco, enveredarei de forma pormenorizada no tema. No entanto, com base nos dados coletados durante a pesquisa, acredito ser pertinente elencar as perspectivas das
interlocutoras da pesquisa em face do que consideram acerca da docência voltada para as crianças pequenas.
Nessa direção, apresento no excerto abaixo, as ideias de Ana e sua relação com a docência, a qual se remetia aos saberes necessários para atuar como professora na Educação Infantil. Segundo a interlocutora,
“Primeiro, pra ser uma professora de Educação Infantil tem que ter alegria. Deixar seus problemas de lado e não trazer para sala de aula. Depois, tem que ter carinho e dedicação pelo trabalho. Você precisa transmitir para os seus alunos confiança senão eles não vão querer aprender. Digo isso porque na minha infância eu tive uma professora assim e eu nunca me esqueci dela! Ela era uma professora muito boa!” (02/12/2015).
As declarações de Ana ressaltam as experiências anteriores à formação inicial como marcas importantes na construção do que a estagiária entende ser saberes essenciais ao trabalho docente da professora de Educação Infantil. É uma relação pontuada por estudiosos e que estes a consideram intrínseca à profissão de professora.
Na medida em que as estagiárias expõem as suas percepções sobre o fazer docente na Educação Infantil, igualmente, apresentam algumas das maneiras como o estágio não obrigatório contribui nos seus respectivos percursos formativos. Como adverte Pimenta e Lima (2012),
No que se refere especialmente aos estagiários, importa verificar até que ponto o estágio possibilitou avanço no sentido da construção de sua identidade e profissionalização docente, para colaborar no processo de melhoria das condições de escolarização de seus futuros alunos. (PIMENTA e LIMA, 2012, p. 230).
Ao reconhecer esta afirmação das autoras, sigo o estudo mostrando as colocações de Zoé e Bia acerca do que consideram saberes necessários a profissão de professora da Educação Infantil.
De acordo com Zoé a professora deve ter “muito interesse porque tem muitos professores que não se interessam e tem que se envolver muito no mundo deles (crianças), trabalhar de acordo com a realidade deles (crianças)”. Verifica-se que a perspectiva da estagiária está permeada pela compreensão de que a realidade que circunda o universo infantil é diferente da que cerca o mundo adulto. Essa perspectiva da estagiária se aproxima do que Oliveira
(2010) discorre no que tange a importância da relação entre a professora e a criança. A autora ressalta que,
Os signos não são criados ou descobertos pelo sujeito, mas o sujeito deles se apropria desde o nascimento, na sua relação com parceiros mais experientes que emprestam significações a suas ações m tarefas realizadas em conjunto. As interações adulto-criança em tarefas culturalmente estruturadas, com seus complexos significados, criam “sistemas partilhados de consciência” culturalmente elaborados e em contínua transformação.(OLIVEIRA, 2010, p. 132).
Levando em consideração a fala de Zoé e as ideias de Oliveira (2010) é possível constatar que um dos entendimentos que a estagiária constituiusobre a docência se refere à importância do contato entre professora e criança, tendo a professora o entendimento do contexto particular que possui a infância e atuando com base neste.
Em contrapartida, na perspectiva de Bia a docência na Educação Infantil exige “ter bastante disciplina. Autoridade tem que ter também. Só isso!” A visão da interlocutora parece estar arraigada no controle das crianças: um dos vieses do cuidar. Esta colocação da estagiária chama a atenção tendo em vista que durante as observações, particularmente a que foi realizada na turma onde esta interlocutora atua, presenciei uma situação peculiar.
Os elementos que compõem o ser professora na educação infantil, os quais ultrapassam os conhecimentos acadêmicos.
Em determinado momento ao final da aula, a estagiária precisou se ausentar da sala para resolver uma questão de interesse particular e desse modo saiu cerca de 30 minutos antes do término do horário. A professora neste ínterim teve que buscar uma criança que “fugiu” da sala solicitando assim para que a pesquisadora “olhasse” a turma. Foi um momento breve, porém representativo em face do que posteriormente à estagiária apresenta como saberes requeridos à profissão, bem como frente às observações da atuação desta com a turma. Em diversos momentos observei as crianças buscando a estagiária como referencial, especialmente no tocante a realização das atividades da rotina. Em outras ocasiões, verifica-se que era a professora que buscava junto à estagiária a orientação para realização determinado momento na rotina, como se esta tivesse realizado o planejamento.
Obs: Opto apenas neste excerto em não colocar data haja vista se tratar de uma cena a parte que aconteceu dentro um registro já apresentado na dissertação.
Quadro 13: Elaboração própria
Diante da referida cena atento para o que Mesquita-Pires (2007) aborda em face da formação inicial docente de educadoras de infância. Ressalto a importância de trazer as considerações desta estudiosa devido à observação da situação
supracitada no excerto Diário de campo envolver as representações sobre o modelo de formação.
De acordo com a autora,
(...) a formação inicial configura-se como um período socializador onde o formando estabelece contactosdirectos com as organizações, aacção educativa e o grupo profissional, ao qual se prevê que venha a aderir no futuro, apropriando-se de normas e valores que lhe são inerentes. É natural que o contacto com a prática profissional clarifique as virtualidades e as fragilidades do modelo de formação a que estão sujeitos. (MESQUITA-PIRES, 2007, p. 129).
É necessário pensar como situações semelhantes a que estão descritas na cena se inserem na configuração da profissional da Educação Infantil no decorrer do seu percurso formativo inicial, sobretudo, no que se refere aos saberes e posturas que esta irá integrar.
Os relatos das estagiárias pontuam a importância de uma relação, na qual o contato com a prática é essencial em face de compreender que saberes se estabelecem para elas como constituintes da sua atuação enquanto professora na Educação Infantil. Outro aspecto a considerar diz respeito ao que Sampaio (2015) discute em seu estudo acerca da relação entre a teoria e a prática. Desse modo, me reporto à autora quando estadeclara que,
(...) entendo as educadoras como sujeitos que traçam seu caminho de relação com as teorias e orientações de maneira própria e muito diversa, não como fruto de uma vontade absoluta do sujeito, já que somos sujeitos imersos na nossa cultura, mas a partir do seu vivido entrelaçado com o que recebem de diversas fontes, através de variados canais, em um processo no qual a atuação do/no coletivo e o diálogo são fundamentais. (SAMPAIO, 2015, p. 114).
Ante ao exposto, observo o que as interlocutoras da pesquisa expressaram uma relação com a docência, apresentando, particularmente, como estas percebem a constituição dos saberes que entendem ser necessários para a docência na Educação Infantil. Enquanto, Liz expressava que era preciso “ter muito conteúdo”,enfatizando os conhecimentos acadêmicos como indispensáveis; Ana manifestava o quanto as marcas da experiência como discente acompanham, sobretudo, àqueles que elegem a docência sua profissão.
Pude perceber que Zoé e Bia ao colocarem sobre suas perspectivas com relação aos saberes o fizeram imersas no que vivenciavam durante a prática no
estágio não obrigatório. Saliento que essa constatação se deu como resultado do que estas estagiárias relataram, somada à minha observação realizada nas turmas em que referidas interlocutoras atuavam.
Dando continuidade, e atentando para o que foi até o momento abordado na dissertação, destaco a fala de Formosinho (2009), no tocante ao que as instituições de ensino, sobretudo, voltada para formação de professores devem conter em si.
Para este autor,
A assunção de uma cultura profissional de formação pressupõe considerar os estudantes, para além de alunos das disciplinas curriculares, como futuros ou potenciais professores, o que implica propor-lhes diferentes estratégias de aprendizagem. (FORMOSINHO, 2009, p. 107).
O pensamento de Formosinho (2009) é extremamente pertinente, principalmente, por contemplar a proposição de diferentes estratégias de aprendizagem na formação de professores. Esta premissa acentua o quanto a conexão entre a teoria e a prática se faz basilar, em especial, no contexto demarcado como é a docência na Educação Infantil.
Ainda, com base no que foi afirmado por Formosinho (2009) a respeitodas estratégias de aprendizagem, apresento o que Liz manifesta relativo à experiência do estágio não obrigatório. Em seu discurso a interlocutora relata que o estágio “não é bem remunerado. Mas, a pessoa está aqui e se ela tá aqui ela está querendo aprender!” Levando em consideração o que a interlocutora da pesquisa expõe observo que, embora seja primordial que se tenham estratégias de aprendizagem, para as estagiárias é imperativo a percepção de que estão imersas, antes de tudo, num contexto de aprendizagem. Nessa perspectiva, atento ao que afirma Mitjáns Martínez (2008b) fundamentada nas concepções de Carl Rogers (1986) sobre aprendizagem significativa.
Rogers (1986) considera que a aprendizagem pode se dividir em dois tipos ao largo do continuum que expressa sua significação. Um tipo de aprendizagem em que apenas participa a mente, que se efetua do “pescoço para cima” sem participação de emoções e das significações pessoais e sem importância para a pessoa como um todo, e um outro tipo de aprendizagem que é sugestiva, significativa, experimental e na qual participa a pessoa total. (Mitjáns Martínez, 2008b, p. 88).
É preciso deixar claro que os escritos de Mitjáns Martínez (2008b) estão direcionados para o exame da problemática da criatividade no trabalho pedagógico e da criatividade na aprendizagem. Todavia, ao constatar que na docência na Educação Infantil a inteireza da educadora é uma realidade tendo em vista que a mesma atua em um contexto complexo e dinâmico, julgo significativo pontuar a problemática da aprendizagem. Pois, as estagiárias estão imersas no tipo de aprendizagem que Rogers (1986) entende como experimental, estão ali na sua completude ao passo que são mulheres, graduandas, esposas; que foram crianças, alunas, dentre outras várias conjunturas.
Também, como já fora enfatizado na fala de Liz, essas mulheres escolheram o estágio não obrigatório como um campo importante de aprendizagem para o que entendem ser necessário na atuação como professoras na Educação Infantil. Para completar essa abordagem, pontuo ainda que o próprio caráter indissociável que caracteriza a Educação Infantil quanto ao educar e cuidar denota o sentido de aprendizagem significativa.
Em busca de uma compreensão acerca da formação inicial docente de graduandas dos cursos de Pedagogia enquanto estagiárias no contexto do estágio não obrigatório em um CMEI, que este capítulo foi tecido. Assim, procurei elencar algumas ideias no que concerne a docência na Educação Infantil, dando atenção ao contexto histórico de cada um desses temas, e, sobretudo, examinando os mesmos sob a perspectiva do que as estagiárias pronunciavam.
Vale salientar que a dissertação não toma as relações sociais como o objeto central de investigação. No entanto, como bem explana Dubar (1997), sobre a construção de identidades sociais e profissionais, “o indivíduo nunca a constrói sozinho: ela depende tanto dos julgamentos dos outros como das suas próprias orientações e autodefinições. A identidade é um produto de sucessivas socializações.” (DUBAR, 1997, p. 05).
Pelo que foi exposto, este capítulo buscou fomentar importantes reflexões concernentes à docência na Educação Infantil. Reconheço que uma variedade de aspectos ainda poderiam ser contemplados na tecitura desta dissertação. Mas, diante das proposições centrais desta pesquisa, me detive em focar nas questões direcionadas para a marca do feminino e do contexto histórico, a infância e os entendimentos construídos acerca do fazer docente na educação voltada para as crianças pequenas.
Isto posto, me encaminho para as considerações finais desta pesquisa, onde recapitulo de uma maneira geral, cada parte do caminho trilhado na construção da dissertação. Nessa direção, convido ao leitor para um encontro com algumas das imagens em claro/escuro que foram constituídas no decorrer do percurso, dando ênfase para dois pontos: a questão de partida e os objetivos propostos no início da empreitada.
Figura 7 – Dançarinas em azul, Edgar Degas (1895)
7. Das imagens reveladas e das que ainda ficaram ocultas (Considerações