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Opportunity to build into the programme ad-hoc surveys which should be paid

OSSOS [PARTE UM]

(2017)

Amigues que auxiliaram e patrocinaram

esse processo: Valdelia Borges, Júlio César, Juan, Rogério.

ENDEREÇAMENTOS DA PRECÁRIA:

[Células]

A performance preencheu a sala do Solar Bela Vista com memórias maternas, através de áudios sobrepostos e não lineares que trocamos durante meses via

Whatsapp. Os áudios me foram enviados

com a finalidade de serem redigidos, para se tornarem um livro das suas memórias.

Ela mesma não faria essa tarefa, por não saber escrever da forma que é esperado na “norma culta”. Disse-me não se sentir segura, porque não havia terminado o ensino formal. Minha mãe nomeou a performance/livro com o título Enquanto me

calei envelheceram meus ossos. Explicou que

por muito tempo arquivou histórias em si, que acabaram por germinar células ruins em seu corpo. Consequentemente ela passou por diversas operações cirúrgicas para retirar tumores e cânceres. Um processo que durou anos de sua vida e toda a minha infância/adolescência. A performance foi uma forma de expurgar do corpo essas histórias, que eram palavras carregadas de abusos e tormentas, mas também de força e resiliência. Foi também uma forma de não germinar mais células ruins e o “envelhecimento [precoce] dos ossos”.

[Objetos]

A performance pela primeira vez misturou, tão profundo, os caminhos abstratos da memória com a vulnerabilidade de se colocar para o olhar do outro. Pude vivenciar a estranheza em mim mesma, não mais no outro, no transeunte da rua, (como eu estava acostumada). Foi um grande incômodo expor feridas a um público que buscava encontrar um show de moda. Atrás

de cada vestimenta flutuam memórias/ histórias. Trajava um vestido branco que sugeria ser de casamento em um corpo lido como masculino. Esse vestido também remetia a elementos descritos por minha mãe. Ele fora feito especialmente para essa ação pelo estilista Júlio César [Um homem que me viu na rua após uma das ações de ID entidade [parte dois]. Convidou-me para seu show para performar e, assim, todos os anos após esse encontro, ele continua a me convidar e patrocinar todas as minhas ideias para seu show. Misturamos os olhares criativos e costuramos uma amizade].

[Lugar]

O espaço Solar Bela Vista também remonta, em sua arquitetura, a história de um país colonizado e que até hoje mostra as feridas deixadas no social. O meu corpo ficou instalado entre feridas maternais e sociais. Expondo-me em vestido branco como sobrevivente ao peso das memórias. Afetos que não eram meus, mas que certamente me implicavam.

Enquanto me calei envelheceram meus ossos

[Parte Dois], 2017 Performance - Natal/RN

Galeria do Departamento de Artes (UFRN) Exposição coletiva - Corpo e Espaço Duração 01 hora

Link de acesso ao áudio da Performance:

< https://soundcloud.com/nat-ferreira/enquanto- me-calei-envelheceram-meus-ossos/s-v5jSR >

Enquanto me calei envelheceram meus ossos

[Parte Dois], 2017 Performance - Natal/RN

Galeria do Departamento de Artes (UFRN) Exposição coletiva - Corpo e Espaço Duração 01 hora

Link de acesso ao áudio da Performance:

< https://soundcloud.com/nat-ferreira/enquanto- me-calei-envelheceram-meus-ossos/s-v5jSR >

ENQUANTO ME CALEI

ENVELHECERAM MEUS

OSSOS [PARTE DOIS]

(2017)

DEVIRES PRECÁRIOS:

• Separar uma mesa e duas cadeiras na galeria do Departamento de Artes da UFRN; • Levar um caderno pequeno sem pautas, um lápis, o celular com fones de ouvidos e os áudios separados da minha mãe, tudo sobre a mesa;

• Sentar em uma das cadeiras, e aguardar o público entrar;

• Atender as pessoas uma de cada vez; • Para cada pessoa explicar que são áudios soltos e que podem ser ouvidos até quando a pessoa quiser;

• Utilizar o caderno para desenhar o retrato da reação da pessoa, enquanto ela ouve os áudios;

• Quando a pessoa decidir parar de ouvir, explicar do que se trata os áudios e pedir para a pessoa escrever algo na folha ao lado do seu retrato desenhado.

Amigues que auxiliaram e patrocinaram

esse processo: Júlio César, Juan, Rogério.

ENDEREÇAMENTOS DA PRECÁRIA:

[Lágrimas]

Nessa configuração da segunda parte, tornei a performance mais intimista, atendendo uma pessoa por vez. As reações do outro, ao ouvir os áudios, foram mais incisivas, porque as pessoas ouviam sozinhas com os fones de ouvido e eu me tornei a plateia de suas reações. Diferentemente de me expor para uma plateia grande, essa configuração me proporcionou outros vínculos afetivos e trocas de memórias, além de perceber, no outro, os traços do corpo e rosto se movimentarem durante os áudios, enquanto eu desenhava o retrato de cada um. Narrar as memórias para um total desconhecido pode produzir atravessamentos profundos no imaginário do Outro. Colocou-me em uma postura de recepcionar as reações, como lágrimas,

olhares ensimesmados e as palavras que essas pessoas devolviam à experiência, escrevendo ao lado do retrato delas feito por mim. Eu consegui atender 09 pessoas nesse dia. As memórias, através dos áudios, podem se tornar delírios-vivos quando compartilhadas, assim como produz o cinema (uma projeção de luz que geram imagens), e nos atravessam afetos. Somos movidos por um imaginário feito de afetos, nessa ação a performance se posicionou nesse lugar: entre o real e ficcional.

Minha Avó me ensinou a costurar um boneco, quando eu era feita por inteiro de sonhos e pouca idade. Ela passava a agulha e a linha, entrementes confabulava sobre a sua meninice, confessou que tinha que confeccionar à mão seus próprios brinquedos na época. Foi ela quem me apresentou a fotografia da sua irmã, minha tia-avó, que nunca conheci ao vivo. A fotografia era recente: exibia um quarto. No centro da imagem, entre mobílias antigas, uma cama de casal revestida por uma manta branca de crochê, da qual só se via as bordas sobressalentes pelos lados da cama. Sobre a manta repousavam atentas centenas de bonecas antigas, de vários tipos e formatos e, em meio a elas, minha tia-avó sentada, uma negra de pele escura, magra, que parecia esconder milhares de histórias sob suas rugas. Em seu colo acalentava algumas, dentre tantas, bonecas brancas e rosadas. A memória que me narraram sobre a imagem foi que, aquela senhora do interior baiano, nunca teve parceiros amorosos, nem filhos, tinha cerca de 85 anos quando foi captada na foto, e que todos os anos ela dava uma festa de aniversário para as bonecas. Convidava sua vizinhança para cantarem parabéns juntas e comerem o bolo e os docinhos. Uma festa com direito a bexigas, fitilhos e chapeuzinhos coloridos para as visitas. Festejo em comemoração àquelas centenas de corpos inanimados de porcelana, pano, borracha e plástico.

Arremedos, 2017

Exposição Individual - Natal/RN Galeria Sesc Cidade Alta

Link de acesso ao vídeo-performance: < https://youtu.be/3v9hBssJJws >

Arremedos, 2017

Exposição Individual - Natal/RN Galeria Sesc Cidade Alta

Link de acesso ao vídeo-performance: < https://youtu.be/3v9hBssJJws >

TEXTO

ILUMINAÇÃO

VÍDEO PERFORMANC

DESCRIÇÃO:

100 bonecos feitos de feltro vermelho suspensos, um vídeo-performance “O Amante” exibido em um televisor ao fundo (Link na ficha técnica), toda a sala envelopada/pintada de branco (incluindo chão, teto e objetos), texto adesivado na parede oposta ao vídeo performance. Na entrada ficaram à disposição pedaços de papel pardo, carvão e canetas. O público podia intervir com o carvão em todo o espaço branco da galeria e escreverem bilhetes, para serem deixados dentro dos bonecos.

ENDEREÇAMENTOS DA PRECÁRIA:

[Narrativas de solidão]

Esse trabalho começou com o vídeo-performance feito na praia de Ponta Negra, “O Amante”. A performance foi um impulso de sobrevivência, pós o término de um relacionamento amoroso de 05 anos. O processo de suprir a ausência de alguém,

passa pela nossa capacidade de nos recontar memórias, no silêncio de nós mesmas. Esse momento é quando pairamos em narrativas de solidão. O título do vídeo performance no singular faz menção ao quadro Les

Amants (1928)3 [Os Amantes], do surrealista

René Magritte. A pintura apresenta um casal

que parece estar se beijando, porém, seus rostos estão cobertos por um tecido branco. Na performance costuro um boneco de feltro vermelho na praia, estou interligada a câmera por uma linha rubra de crochê que, enrolada ao meu rosto, forma uma máscara. O áudio do vídeo é um recorte dos desabafos narrados durante esse período de vida.

A ação de costurar o boneco, relembrar e preencher vazios, feita na praia para o vídeo performance, fez-me querer buscar referenciais ancestrais. Desembarquei na curiosidade pelos rituais vodus que tem origem no Benin, país do continente africano, mas a religião sofreu sincretismos nas Américas. Vodu, mais do que um ritual religioso, pode ser chamado de uma filosofia de vida, em que não há separação entre a matéria e o espírito, sagrado e profano, sagrado e temporal.

ARREMEDOS (2017)

Amigues que auxiliaram nesse processo:

Estrela Santos, Maíra Sara, Isaac Luna, Ivan de Melo. Na imagem [página 87] aparece Laíza Ferreira, presente na Vernissage da exposição.

3- Pintura: óleo sobre tela, atualmente o quadro é parte do acervo da National Gallery of Australia. Acessado em 02/02/2020, através do link: < https://artsearch. n g a . g o v . a u / d e t a i l . cfm?irn=148052 >

Como a matéria e o mundo espiritual são híbridos, o vodu carrega o poder de transformar o derredor (POSPERE; GENTINI, 2013). No vídeo-performance o boneco, que chamei de vodu, foi como uma tentativa de busca difusa por ancestralidade, uma reverência a uma cultura refratada pela diáspora africana no Brasil. Na performance a ação de costurar não só faz uso de signos, como um boneco com silhueta humanoide esquemática, mas é uma ação processual de reconstrução, unir pontos, reencontrar memórias com os pés no mar.

Os 100 bonecos suspensos e toda a branquitude da galeria criaram uma instalação imersiva de manifestação de um imaginário coletivo, onde coabitaram ideias, reivindicações e manifestações diversas, através das palavras-desenhos deixadas. O corpo coletivo ganhou um protagonismo e exibiu sua diversidade. Essas manifestações tinham duas instâncias: pública e privada, o público escolhia se preenchia as paredes, chão, teto ou objetos da galeria, ou se escrevia bilhetes e os escondiam dentro dos bonecos.

Casamento I, 2017

Performance - Natal/RN

Estádio Arena das Dunas - Festival MADA Convidado para ato Beijaço

Link de acesso a notícia:

< http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/ beijaa-o-no-festival-mada-protesta-contra-cura- gay/393684 >

Casamento II, 2017

Performance - Natal/RN

Com Shana Precária / Maíra Sara Dentro do ônibus (56) - Via Costeira

Casamentos III, 2018

Performance - Natal/RN

Fórum Des. Miguel Seabra Fagundes Casamento civíl com Juliana Marta Participação de Juliana Valverde

CASAMENTOS (2017-18)

ENDEREÇAMENTOS DA PRECÁRIA:

Casamentos (I, II, III) foram

performances não programadas, aconteceram sem que houvesse um planejamento prévio das ações, por esse motivo não há Devires Precários descrevendo as ações, como nas demais performances. Casamentos (I, II, III) foram celebrações à amizade como um símbolo máximo de amor. A amizade como um modo de vida político, que prioriza a coexistência e celebra a expansão das diferenças, reposicionando as relações para um lugar que flui o bem-estar, ao invés de calcificar padrões e matar as singularidades das alteridades. Já o amor como um agir conjunto: uma coprodução de subjetividades, ou construção coletiva de coexistência. Através da empatia, um afeto que cria uma abertura ou “espaço” para um outro em si mesmo.

Casamento I

Foi um ato que aconteceu no palco do Estádio Arena Das Dunas, durante o evento musical MADA. Casais não normativos formados, na maioria, no momento, para

fazer um beijaço4 a convite da banda

Plutão Já Foi Planeta5, dentre os convidados

também estava a dragqueen Kaya Conky6.

Posicionamos o beijo como uma carícia libertária contra a repressão dos políticos conservadores, que em nome de sua religião estabelecem moldes sociais aceitáveis (ou não) a moral pública. De tal maneira que fundamenta seus preconceitos ao status de pecado, mas não só, implementam e fomentam ideologias/decretos/PECs/ leis para bloquear qualquer manifestação afetiva e de direitos de pessoas não enquadradas em seus padrões morais, na tentativa de borrar e uniformizar as diferenças e singularidades de cada sujeito. A banda parou a música durante o show para que fosse feito o ato. Algumas das pessoas participantes subiram no palco portando máscaras desses políticos, rasgaram-nas e, assim, os casais/trios se beijaram por um minuto no palco e depois trocavam de par/ trio (quem estivesse disponível para isso). Depois de beijar algumas pessoas, eu com o mesmo vestido (feito por Júlio César), assoprei purpurina na direção do público imenso do evento.

Casamento II

Aconteceu na abertura da exposição “Arremedos” e no ônibus da linha 56 (Via Costeira), que tem rota circular entre os bairros Cidade Alta e Ponta Negra, Natal/ RN. Durante a abertura da exposição eu e Maíra Sara [Solar Shana Precária], convidamos pares, ou trios, com os presentes no Sesc Cidade Alta, cerca de 20

Amigues que auxiliaram processo: Júlio

César, Rafael Dumaresq, Maíra Sara, Juliana Marta, Juliana Valverde, Carmen Rivera, Rita Cavassana, Mariana Cunha, Pablo Roberto, Sofia Bauchwitz, Estrela Santos, Paola Oliveira, Isaac Luna...

4 - Notícia no Tribuna do Norte sobre o acontecimento, acessado em 02/02/2020, através do link: < http://www. tribunadonorte.com. br/noticia/beijaa-o-no- festival-mada-protesta- contra-cura-gay/393684 > 5 - Banda potiguar, formada em 2013, com estilo pop rock brasileiro, com a vocalista Natália Noronha. Acesso em 02/02/2020, site oficial da banda, através do link: < http://plutaojafoiplaneta. com/sobre/ >

6 - Drag Queen cearense, que ficou famosa pelo hit “E aí bebê”, lançada em Natal/RN. Acesso em 02/02/2020, através do link: < https:// www.instagram.com/ kayaconky/?hl=en >

com a possibilidade de nos reencontrarmos. Nossas madrinhas de honra, ou testemunhas, foram Sofia Bauchwitz e Pablo Vieira. Amigas apareceram no cartório também para participar da cerimônia. E alegramos a fila de espera das outras famílias também no aguardo da chegada da juíza. As funcionárias, principalmente as responsáveis da limpeza, convidaram- me para “um café” em uma área restrita para funcionários, contaram-me sobre suas vidas, antes me perguntaram se eu estava “pagando promessa” apontando para o vestido, “não” respondi sorrindo, mas que “perante a lei seria uma promessa”. Juliana Marta estava em Portugal na data do casório, por esse motivo Juliana Valverde a substituiu perante à juíza, por meio de uma procuração.

pessoas, e marchamos, como nos rituais das cerimônias de casamento ocidental. Em fila caminhamos pelos espaços do Sesc Cidade

Alta e abrimos a galeria para a exposição,

entrando em casais/trios. Durante a ação pessoas, que estavam no espaço, também foram se agregando a fila e marchando também. Pós a abertura da exposição, enquanto retornávamos para casa, dentro do ônibus, decidimos continuar a cerimônia, dessa vez ali em trânsito, para os amigos e passageiros presentes.

Casamento III

Foi um casamento oficial no cartório - Fórum do município do Rio Grande do Norte. Acordado por um pacto de divisão total de bens. Durante o período eleitoral em 2018, com a possibilidade de o país ser governado por uma direita conservadora, cristã, racista/machista/homofóbica..., representada pelo então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (o que realmente veio a acontecer no ano seguinte). Fui pedida em casamento por uma amiga com cidadania portuguesa, Juliana Marta. Ela, com sua mudança de residência para terrenos internacionais já agendada, decidiu deixar a mesma possibilidade para mim, através de acordos internacionais de “reagrupamento familiar”. Uma amizade que cria ferramentas de re-existências outras. Entrelaça-nos de forma a furar as barreiras das linhas imaginárias, que delimitam fronteiras, cruzando oceanos. E atualmente nos liga através da saudade, mas