ENDEREÇAMENTOS DA PRECÁRIA:
[Eu Transito]
O primeiro termo do título dessa performance é um verbo no presente do indicativo, essa temporalidade diz de um deslocamento de um corpo que se propõe estar de acordo com seus desejos, se re- fazendo e desconstruindo convenções de dentro para fora, ou vice e versa, criando lugares partindo da troca de afetos que se dá com os Outros (enquanto a parceira da performance, o espaço na cidade e a
DEVIRES PRECÁRIOS:
• Cada performer - separar previamente objetos que lembrem um ao outro, levar em uma mala, sem mostrar para ninguém; • Encontrar-se em frente ao Shopping Via Direta, na avenida Senador Salgado Filho e atravessar as vias até o canteiro central; • Entre duas árvores, nos galhos, amarrar uma corrente e no chão estender um tecido; • Sentar sobre o tecido
• Uma de cada vez abrir a mala, pegar um dos objetos, explicar o motivo da escolha e pendurar na corrente, até acabar os objetos; • Levantar e se abraçar;
• Recolher o tecido e as malas, deixar somente a corrente e os objetos pendurados; • Atravessar de volta as duas vias.
Amigues que auxiliaram no processo da
performance: Maíra Sara, Pedro Bardini, Pedra OrYgem e Séfora Silva.
vivência/experiência no local). Estabelecer relações com um espaço, é um embate com a matéria e seu estado corpóreo, com a organização espacial e seu contexto político.
A performance possibilita uma certa autonomia, ou um pretexto para se apropriar dos locais da cidade (local enquanto espaço genérico - um sítio). E assim afirmá-lo enquanto lugar: um sítio preenchido de afetos. Os lugares habitados por afetos ampliam nosso Mapa Cognitivo (Castro Aguirre, 1999), esse mapa é nossa memória atualizada pelas relações que estabelecemos com a arquitetura, o sítio, os afetos e imaginário urbano. O piquenique de objetos/memórias foi uma forma de transformar esse espaço da cidade o preenchendo com a intimidade da amizade. Suspendemos as propriedades preestabelecidas do lugar e criamos um núcleo nosso e público ao mesmo tempo: “a performance tem a mobilidade que outras linguagens das artes visuais não possuem: atua sobre o espaço de maneira evidente, alterando suas funções”. (CIOTTI, 2014. p. 19)
A performance pontuou nossa inquietação com a existência de espaços condicionados e de pouco acesso aos pedestres, que servem para demarcar o trânsito na cidade. No contexto de Natal/ RN os lugares de convivência gratuitos são escassos, para além dos espaços turísticos
produtos da gentrificação. É uma cidade povoada por muitos shoppings. A Ação foi feita no canteiro entre dois deles de diferentes corporações, construídos um de frente para o outro em uma das avenidas principais da cidade. A avenida possui mais de 06 faixas para carros com uma divisão central: o canteiro. Para chegarmos nesse local traçamos estratégias antes e durante a performance, que consistiu em calcularmos o melhor ponto para a travessia dessas vias, que nos tomou muito tempo, tanto na ida quanto no retorno pós a ação.
O canteiro é como um canto esquecido, quase inacessível e periférico, habitado por seres outros, micro vidas que, dentro do urbano, vivem quase na invisibilidade. No canteiro formigas desenhavam linhas tortas, nas calçadas as pessoas traçavam linhas semelhantes. As pequenas árvores ali estavam cobertas por uma fina camada preta, provavelmente da poeira e da fumaça gerada pelos automóveis. As árvores ali são “bonsais” urbanos, já que são podadas continuamente para não excederam em tamanho e ultrapassarem o canteiro com seus galhos e raízes. Veículos muitos aos resmungos e esbaforidos, de variados tipos e tamanhos, passavam por todos os lados nas vias, que ilhavam o canteiro. Permanecer ali nos exigia um estado de grande atenção, já que estávamos entre muitos acontecimentos simultâneos e constantes.
[Objetos]
Um dos itens que levei para trocar com Maíra foi um estêncil feito com uma chapa de raio X. Exibia vazada a palavra
MAR, que cortei com um bisturi. Maíra uma
vez me disse que todas as suas irmãs tinham nomes que começavam com Mar, menos o dela: Ma. Ela trabalha com pinturas urbanas e estêncil. Achei que, dessa forma, entregar um estêncil com essa palavra vazada, remetia a essas situações: seu nome, seu trabalho e a ausência de um Mar. Maíra, por sua vez, dentre outros itens, trouxe um sapato de salto alto da cor vermelha, disse que lembrava minhas performances em um coletivo que participei na universidade. Ressaltou em sua fala a minha mania de elegância e o quanto fui importante na sua vida emocional para se libertar dos seus receios/travas vividos. E fomos assim nos comemorando, através de objetos, ao criar ou reforçar memórias de nós, em meio ao caos de acontecimentos do lugar. Poetizamos nossas vivências com objetos, que foram embrulhados por acontecimentos e que ao pendurarmos expúnhamos ao caos nossa forma de amar/amizade.
[Cidade]
Em resposta aos poucos lugares de lazer sem custo, os jovens/ adolescentes ocupam o estacionamento de um supermercado da rede Carrefour, nesse espaço se encontram à noite para confraternizarem, subvertendo a função do lugar pelo encontro. O estacionamento
TRANSITO-NO-NÃO-TRÂNSITO
(2016)
é extremamente vigiado pelos seguranças do estabelecimento, que restringem o uso de bebidas alcoólicas e passam frequentemente monitorando as pessoas presentes. A apropriação da cidade para a criação de um momento de diversão foi um dos motivadores dessa performance. Serviram também de base para ocuparmos a cidade de outra maneira, atualizando as funções dos lugares com o afeto da amizade.