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CHAPITRE 2 : DEGRADATION ACCELEREE D’UNE GDL COMMERCIALE PAR

2.3 R ESULTATS ET DISCUSSIONS

2.3.2 Observations MEB

Neste artigo (1) desenha-se o tipo ideal pós-anarquista, tendo por base o trabalho de Saul Newman. O objetivo é apresentar e discutir as principais características do pós-anarquista estudado por New- man. O artigo é um contributo original, porque nenhum dos principais autores pós-anarquistas, por exemplo, Saul Newman, Todd May, Lewis Call e Richard Day, criou um tipo ideal pós-anarquista.

O que é um tipo ideal e por que razão construí-lo para estudar o pós-anarquismo? Como Weber (2012:24) explica, um tipo ideal é um conceito teórico e abstrato e também um “recurso metodológico”. Como conceito abstrato, o objetivo é construir uma figura “racional e teleológica”: reunir um conjunto de ações que constituam e deem a conhecer uma determinada figura (Weber, 2012:24). Segundo We- ber (2012:24; Aron, 1963), como “recurso metodológico”, o tipo ideal permite (i) caracterizar padrões particulares e individuais e (ii) verificar até que ponto as “ações concretas” de um tipo (ideal) particular são influenciadas por “irracionalidades”. Por outras palavras, o tipo ideal, sendo uma construção ra- cional, contrasta com as irracionalidades ou espontaneidades de uma situação concreta ou de um determinado indivíduo (Aron, 1963). As irracionalidades ultrapassam ou ‘transgridem’ sempre o tipo ideal. E esse contraste ou ‘transgressão’ entre a construção teórica e as espontaneidades é o objetivo do tipo ideal weberiano. Essa transgressão é necessária e fundamental porque nos ajuda a conhecer e a sentir melhor o mundo à nossa volta. Por essa razão, para Weber, o tipo ideal é uma ferramenta ou um instrumento e não um modelo de realidade.

Tendo em conta o que ficou dito, neste artigo, o tipo ideal pós-anarquista é também visto como um instrumento ou uma ferramenta, uma medida ou um termo de comparação teórico e racional.O pro- pósito deste tipo ideal é fazer com que a sua “univocidade” racional facilite o conhecimento das lutas reais dos movimentos. sociais. E isso acontecerá quando essa “univocidade racional for ultrapassada pelos desejos, vontades, emoções, irregularidades e irracionalidades dos ativistas desses movimentos e grupos (Aron, 1963:28; Weber, 2012:24).

Por outro lado, este tipo ideal não é uma generalização ou um conceito geral. É antes o resultado de uma análise indutiva – uma síntese –, e é também, à la Foucault, uma proposta estética. A ideia é esculpir a figura do pós-anarquista e, ao mesmo tempo, estudá-la discutindo as suas principais carac- terísticas.

O que é o pós-anarquismo? Começando por estudar a palavra, pós-anarquismo deriva de anarquia que, por seu turno, vem do grego anarkhos que significa “sem governantes”. Para uma melhor com- preensão, hifeniza-se a palavra ‘an-arquia’: ‘an’ quer dizer ‘não’ ou ‘sem’ e ‘arquia’, que deriva de arkê, significa “governantes” ou “governo”. Arkê significa também o ‘primeiro princípio’, a ‘primeira ver- dade’. O pós-anarquismo é sinónimo de an-arquia ou desconstrução an-árquica (Newman, 2011: 53). O pós-anarquismo visa interrogar a arké, os princípios, a autoridade dos conceitos e as essências (Newman, 2011: 53).

O prefixo “pós” de pós-anarquismo faz alusão às suas raízes pós-estruturalistas e também pós-mo- dernistas. Segundo Newman, o pós-anarquismo é muito influenciado pelos autores franceses da teoria crítica do século XX, por exemplo, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, entre outros, que também foram inspirados por Friedrich Nietzsche. (Frank, 1989:20, Call, 2002:23). Saul Newman (2011: 63) explica ainda que o prefixo ‘pós’ “não significa depois ou para além”. De acordo com New- man (2011: 63), “o pós-anarquismo mantém-se fiel ao projeto igualitário e libertário do anarquismo clássico”.

Evren (2011: 5) adianta que o ‘pós-anarquismo’ é “uma tentativa de criar o equivalente teórico do movimento antiglobalização”. Segundo Newman, os movimentos antiglobalização são propostas anar-

quistas reais, que surgem no âmbito da política radical. Para Evren, esses movimentos são o anar- quismo dos dias de hoje. Segundo Evren (2011: 3; Graeber, sd; 2002), “a alma deles é anarquista; as suas características não-autoritárias, a rejeição dos partidos tradicionais de esquerda e a opção pela ação direta constituem o espírito do socialismo libertário”.

O artigo está estruturado em torno de três hipóteses: (i) o pós-anarquismo é constituição de espaço; (ii) a constituição de espaço é uma luta; (iii) constituir espaço é sobreviver. O estudo gira à volta do conceito de espaço. Os conceitos de necessidade, movimento e luta são também fundamentais.

O pós-anarquista Saul Newman é o principal autor deste artigo; Michel Foucault e Pierre-Joseph Proudhon são autores secundários. Importantes são também os contributos de Todd May, Lewis Call, Richard Day, David Graeber e John Holloway.

Como ficou dito, o objetivo do artigo é desenhar o tipo ideal pós-anarquista, discuti-lo, caracterizá- -lo, e também apresentar a minha própria interpretação sobre o pós-anarquismo, analisando de forma crítica a perspetiva de Saul Newman. O propósito é ainda compreender o que são o anarquismo, o ativismo e o horizontalismo no início do século XXI. A construção do tipo ideal vai permitir identificar as principais características do anarquista atual, inclusive do ativista dos movimentos antiglobalização, tal como Saul Newman as apresenta (Evren, 2011: 5).

A construção da figura do pós-anarquista será dividida em três partes. Primeiro serão desenhadas as pernas, depois o tronco e, em seguida, a cabeça (ver imagem 1).

Imagem 1

Ao desenhar as pernas, será discutido o conceito pós-anarquista de movimento – as lutas; ao esculpir o tronco, será estudado o conceito de trabalho ou o espaço de trabalho pós-anarquista – a sobrevivên- cia – e, finalmente, ao desenhar a cabeça, será analisada a caminhada ético-espiritual do pós-anar- quista – o espaço.

Na secção seguinte, começaremos, então, por desenhar as pernas da figura em estudo. AS PERNAS | O movimento ou as lutas

Imagem 2 O ANARQUISTA AQUI E AGORA

O pós-anarquista vive aqui e agora; interessa-se e deixa-se envolver pelas questões do seu tempo. Newman (2011: 106) pergunta: “não é evidente que há um enorme distanciamento por parte das pessoas comuns face aos processos políticos formais, um ceticismo esmagador... em relação às elites políticas, que supostamente deveriam governar segundo os interesses das pessoas?” Newman (2011: 106) acres- centa: “Não há, ao mesmo tempo, uma óbvia preocupação das elites por esse distanciamento crescente, que deixa transparecer uma crise de legitimidade?” A resposta é desde já: sim, há. No entanto, para responder de forma mais aprofundada a estas questões, dá-se início aqui a um conjunto de breves secções. O objetivo é chamar a atenção para os principais conceitos e ideias que caracterizam o pós- anarquista, mostrando como ele tenta superar a distância entre governantes e governados.

Não à biopolítica: Uma das consequências dessa “distância” entre as elites políticas e as pessoas é o surgimento da biopolítica. Newman (2011:106) salienta: “como medida defensiva ou preventiva”, as elites políticas tornam o Estado “mais draconiano”; vivem “obcecadas com a vigilância e com o con- trolo”; tentam exercer a autoridade do Estado “através da guerra e da segurança” e “através de uma política de medo e de medidas de exceção”. Newman (2011: 155) pergunta: “não somos todos assaltados pelo desejo de quebrar essas correntes que nos prendem, de escapar desses confins, de vaguear de forma livre e selvagem em pleno estado de natureza? O desejo de escapar à domesticação não surge como uma poderosa fantasia social?” O pós-anarquismo consiste nesse desejo ou sonho poderoso.

Imagem 3

Desejo e sonhos: O pós-anarquista deseja escapar dessas “gigantescas prisões de alta tecnologia”, da denominada biopolítica e realizar a “fantasia social”. E a fantasia ou solução pós-anarquista é a iden- tificação aqui e agora da política radical com o anarquismo, tal como ocorre, por exemplo, nos movi- mentos antiglobalização. O pós-anarquista de Newman segue o exemplo desses movimentos. O seu sonho é a construção de espaços autónomos aqui e agora.

Espaços além do Estado – movimentos: Tal como a minha primeira hipótese refere: o pós-anarquismo é constituição de espaço. Esse é o propósito do pós-anarquista: construir-se a si mesmo ou construir o seu espaço coletivamente. O espaço (2) pós-anarquista significa pessoas que se relacionam entre si, livres de hierarquia, verticalidade e opressão (Newman, 2011: 9 e 36). A receita pós-anarquista é articular as construções anarquistas utópicas com as nossas democracias ou trabalhar para além das nossas de- mocracias e radicalizar ou democratizar a democracia (Newman, 2011: 96). O pós-anarquista pretende tornar a democracia mais anárquica, construindo espaços autónomos para além do Estado.

Para os pós-anarquistas, “autónomo” significa para além do Estado ou algo que se constrói sem a ajuda da sua soberania. Newman (2011: 35 e107) define o Estado como “uma instituição violenta e do- minadora”; é “uma estrutura que sustenta e intensifica outras hierarquias e relações de poder e de exploração, incluindo as relações económicas”. O Estado pressupõe violência, repressão, domínio, hierarquias e exploração. Inversamente os espaços autónomos são relações horizontais entre pessoas livres e iguais, que existem para além da esfera do Estado.

O pós-anarquista constrói esses espaços e supera o Estado (i) criticando os limites do Estado (ii) em articulação com os outros à sua volta. Essas são também as tarefas dos “novos movimentos e lutas radicais emergentes”. O objetivo de Newman (2011: 168) é mostrar que as lutas radicais são espaços autónomos. Para Newman, o pós-anarquismo situa-se ao nível dos movimentos sociais (3). E esses movimentos ou espaços permitem-nos refletir sobre o Estado, sobre a política atual e realizar a “fan- tasia social” ou os nossos sonhos coletivamente aqui e agora (Newman, 2011: 168).

A utopia aqui e agora – vozes outras: Através dos “espaços autónomos” Newman (2011: 96 e161-163) desenvolve também o conceito de utopia: sonhos ou fantasias ou a utopia aqui e agora. Embora utopia signifique um ‘não lugar’, os espaços autónomos são a realização concreta dos nossos sonhos ou ima- ginários. Tal como o desejo foucaultiano, o desejo ou sonho pós-anarquista não é algo negativo: uma falta ou uma carência. É sobretudo um movimento construtivo e afirmativo – uma luta, um combate (Newman, 2011: 177). De acordo com Newman (2011: 1 e 2), o pós-anarquismo é uma “fantasia social”, que já existe, por exemplo, através dos movimentos antiglobalização.

Por sua vez, como Newman (2011: 155) explica, esse “desejo” é também um “tipo de utopia” (4). O desejo é um “imaginário antipolítico, que significa liberdade e autonomia”. E esse “imaginário” é um dispositivo “poderoso”, que possibilita criticar a situação política contemporânea (Newman, 2011: 155). Para o pós-anarquista, a utopia é “um ponto de fuga”, que nos permite escapar às condições de vida e às imposições da atualidade (Newman, 2011: 162).

A utopia é a ferramenta que pemite “perfurar” ontologicamente o nosso quotidiano; interrompê- -lo, introduzindo “um momento de heterogeneidade e de singularidade”: a nossa criatividade ou as nossas criações (Newman, 2011: 162). A utopia é o poder “disruptivo”, que o pós-anarquista possui para transgredir o “status quo ontológico” e criar o seu próprio mundo aqui e agora em articulação com os outros (Newman, 2011: 162). A utopia é o dispositivo pós-anarquista contra a repressão e a opressão; é o caminho da liberdade.

Por essa razão, o utopismo pós-anarquista vai além de “visões” sem ligação à realidade. Como alguns anarquistas e também Proudhon advertiram, uma sociedade não autoritária não é uma inevitabilidade (Newman, 2011: 40). O objetivo do pós-anarquista não é instituir “uma sociedade anarquista” ou pro- vocar uma mudança de regime (Newman, 2011: 162). O utopismo pós-anarquista tenta trazer à luz do dia “o submundo” que existe aqui e agora ou as “vozes outras” ou os “espaços outros” de Foucault,

que são manifestações do desejo (Newman, 2011: 39 e 156). O pós-anarquismo é uma política real e alternativa, que se opõe ao Estado, vivendo “fora” dele: a utopia aqui e agora (Newman, 2011: 4).

O TRONCO | o poder para criar espaço

Imagem 4 O TRABALHO PÓS-ANARQUISTA

O crítico, o resistente, o ativista: A crítica ou a insurreição é a principal atividade do pós-anarquista ou o seu principal instrumento de trabalho (Newman, 2011: 49). A crítica perturba a ordem estabelecida ou o conhecimento vigente, por exemplo, a “verdade universal ditada pelo discurso científico” e pelo socialismo científico. Para os pós-anarquistas, “o conhecimento não pode ser dissociado do poder” e da ordem vigente: o aqui e agora (Newman, 2011: 49). A crítica mostra as relações pontuais entre poder e conhecimento (Newman, 2011: 49); o pós-anarquista combate-as e desvela-as. Essas relações poder- conhecimento são sempre subjetivas e são entendidas como “choques de interpretações” e como “lu- tas em torno de significados e conhecimento”. (Newman, 2011: 49). O pós-anarquista é um crítico, um resistente ou um ativista; para ele, trabalhar é criticar, resistir ou agir.

O local de trabalho pós-anarquista: Para Newman (2011: 169), a ação (política) (5) pós-anarquista cria espaço “entre a sociedade e o Estado”. Por outras palavras, esse espaço “entre” a sociedade e o Estado é o espaço pós-anarquista (Newman, 2011: 169). Criar espaço é o trabalho do pós-anarquista. Esse es- paço “entre” a sociedade e o Estado é o seu local de trabalho. E é também “o local apropriado para a política”, onde o pós-anarquista constrói “espaços autónomos”. (Newman, 2011: 9). Assim, os espaços de trabalho pós-anarquistas, fora do Estado, são “comunidades” “descentralizadas” e “livres” (New- man, 2011: 9 e 36).

Uma atividade ética e poderosa: Para Newman (2011: 169), a existência ou a proliferação de tais comu- nidades autónomas, para além do Estado, dissolve ou, pelo menos, enfraquece a soberania do Estado. No entanto, o objetivo do pós-anarquista não é combater o Estado diretamente. A intenção do pós- anarquista é principalmente percorrer um caminho ético (6), que indiretamente enfraquece o Estado ao construir ‘espaços outros’ (Evren, 2011: 5). Para os pós-anarquistas, trabalhar é ter uma atividade ética em vez de uma atividade política. Como Newman (2011: 176) exemplifica, essa é também a tarefa dos movimentos anticapitalistas: construir formas éticas de política para além do Estado a partir “de múltiplos pontos” e de diferentes maneiras.

Segundo Newman (2011: 169), a construção desses espaços alternativos entre a sociedade e o Estado cria um tipo de trabalho alternativo, e trabalhadores que têm “duas funções”: (i) romper “as relações sociais, identidades e funções existentes” ou criar um “momento de ‘des-identificação’”. Para os pós- anarquistas, “des-identificação” significa outro tipo de sujeito, de relacionamentos ou de espaços; (ii) notar que “as tarefas da política radical não são redutíveis à política formal, por exemplo, ao derrube do Estado” (Newman, 2011: 169).

Para os pós-anarquistas, trabalhar de forma alternativa é construir espaços que são formas “dester- ritorializadas” de poder (Newman, 2011: 169). Esses espaços “desterritorializados” pressupõem o con- ceito de poder pós-anarquista, que é semelhante ao de Foucault (1976: 122). De acordo com Newman (2011: 6), o poder pós-anarquista são relações entre pessoas – o outro lado do espaço ou do movimento. O poder pós-anarquista está em todo o lado e atravessa o corpo humano; é ubíquo (Newman, 2011: 174). Por essa razão, para os pós-anarquistas, há sempre relações de poder na sociedade e nunca se transcende o poder por completo (Newman, 2011: 6). Os desejos ou críticas pós-anarquistas são mani- festações desse poder. O poder pós-anarquista é uma energia ou necessidade a priori, que faz com que nos relacionemos com os outros. Mesmo os espaços autónomos são manifestações de poder porque são relações (de poder) entre pessoas.

Por outras palavras, apenas um “envolvimento ativo no poder” permite “transcender” ou modificar esse campo de relações de poder. (Newman, 2011: 8). O pós-anarquista é um trabalhador poderoso; envolve-se ativamente no poder, assumindo em permanência “práticas de liberdade” (práticas éticas).

O pós-anarquista trabalha ou atua num contexto constituído por práticas de liberdade múltiplas. Para Newman, o pós-anarquista é um trabalhador livre e o poder é a sua matéria-prima. E como trabalha o pós-anarquista?

Trabalho circular: O pós-anarquista foge circularmente de ‘poder para poder’ (7) para não se deixar oprimir. E, de imediato, cria novas relações de poder ou espaços à sua medida – espaços de pessoas livres e iguais. E, se esses espaços se tornarem de novo opressivos, o pós-anarquista foge outra vez, e assim sucessivamente.

Imagem 5 [Esta é a mundivisão circular do pós-anarquista. Os seus espaços funcionam circular- mente: nascem, desenvolvem-se, morrem, nascem e assim sucessivamente]

Esta é a atividade ou o trabalho pós-anarquista. Como Newman (2011: 169) lembra, a política radical é permanentemente “confrontada com a tarefa de analisar, mapear e contestar” formas de poder des- territorializadas.

De acordo com Newman (2011: 8 e 169), as lutas atuais – ou o trabalho radical – contra o capitalismo são constituídas por outro tipo de relações de trabalho. Essas relações baseiam-se, como demonstro em cima, noutra concepção de poder, noutra maneira de agir e em “formas de dominação diferentes”: vitórias, derrotas e estratégias, ganhos e inversões de poder. (Newman, 2011: 8 e 169). Essas relações de trabalho alternativas são precárias e sempre renováveis – não são relações de exploração, mas rela- ções entre pessoas livres e iguais. A anti-política possui sobretudo uma visão circular do trabalho (ou do poder). As lutas pós-anarquistas não pretendem alcançar um objetivo. Como Nietzsche ensina, o trabalho pós-anarquista é um divertimento permanente (um prazer), porque a sua vida é uma luta constante e circular pela sobrevivência. O pós-anarquista inventa-se todos os dias de acordo com as necessidades do momento – “des-identificação”.

As suas caminhadas são trabalhos em mutação constante ou formas nómadas de liberdade. Newman (2011: 174) reconhece “a reversibilidade das relações de poder”, mesmo daquelas que são esmagadoras. O pós-anarquista concorda com Foucault: o poder é repressivo, mas também constitutivo (Foucault, 1976: 122; Newman, 2011: 141); o poder pós-anarquista é sobretudo criativo.

Trabalho coletivo: Os trabalhos pós-anarquistas são uma resistência e criação contínuas que implicam o outro. O objetivo é sobreviver de forma harmoniosa com o outro. O trabalhador pós-anarquista é “um sujeito igualitário e coletivo” (Newman, 2011: 105). Para os pós-anarquistas, somos todos sujeitos iguais porque somos todos pessoas com poder; o meu poder é o mesmo poder do outro; somos seres coletivos porque o nosso poder é relacional (May, 2008: 124).

O pós-anarquista reivindica a “igualdade-liberdade” que “implica a inextricabilidade da liberdade e da igualdade” (Newman, 2011: 144). O pós-anarquista recusa “a oposição entre liberdade individual e liberdade coletiva e igualitária” (Newman, 2011: 144). Para os pós-anarquistas, “o constrangimento de uns implica o constrangimento de outros” (Newman, 2011: 144). Igualdade e liberdade são defendidas na “mesma medida” (Newman, 2011: 20 e 179). Segundo os pós-anarquistas, “eu sou livre… apenas na condição de os outros também serem livres, sendo que quanto maior for o número de pessoas livres à minha volta, e quanto mais profunda, maior e mais ampla for a sua liberdade, mais profunda e maior será a minha liberdade” (Newman, 2011:20,21). Para o pós-anarquista, igualdade e liberdade pressu- põem o “mutualismo”, como Proudhon defende (Newman, 2011: 21).

Trabalhador não-liberal e não-marxista: O pós-anarquismo pressupõe novos tipos de trabalhadores, que diferem dos tipos liberal e marxista (Newman, 2011: 21 e 116-7). De acordo com os pós-anarquistas, há uma diferença entre “a leitura radical da igualdade-liberdade” e “a leitura liberal”, que diz: “todo o homem tem a liberdade de fazer tudo o que queira, desde que não viole a liberdade dos outros” (Newman, 2011: 21). Para o pós-anarquista, essa é a doutrina do “laissez-faire” (Newman, 2011: 21). E

NASCIM ENTO DESENV OLVIME NTO MORTE

embora o pós-anarquismo “partilhe com o liberalismo a suspeita em relação ao Estado e a insistência na liberdade individual”, existem algumas diferenças significativas entre as duas posições, sobretudo porque “o liberalismo subordina o político à economia (ao mercado), à moralidade e à lei” (Newman, 2011: 10 e 17). O liberal não é um insurreto nem um trabalhador coletivo porque o “mercado” e os “interesses privados” têm a última palavra. No liberalismo, existem ainda os “direitos humanos uni- versais” e o “humanitarismo” que o pós-anarquista critica como sendo uma “nova forma de imperia- lismo” (Newman, 2011: 11 e 17; Franks, 2008: 141). Para o pós-anarquista, a luta liberal contra o Estado não é suficiente, porque o liberalismo aceita “o Estado como guardião” da liberdade. (Newman, 2011: 11).

Em termos de marxismo, o pós-anarquista critica, por exemplo, a noção de proletariado porque é “uma categoria socioeconómica” no âmbito do sistema industrial. (Newman, 2011: 116-7). O pós-anar- quista é mais do que uma “categoria socioeconómica”. Ele é principalmente um ser ético e espiritual, como desenvolvo mais à frente. Em segundo lugar, o trabalhador marxista é “uma subjetividade revo- lucionária politicamente constituída por uma vanguarda revolucionária cujo objetivo (é) a ditadura do proletariado”. (Newman, 2011:116-7). Segundo a teoria marxista, o proletariado é uma “classe trabalha- dora disciplinada e unida” ou uma “identidade coerente e uniforme”. (Newman, 2011: 120). Em contra- partida, o pós-anarquista é um sujeito autónomo, crítico e transgressivo, que rejeita a “ditadura”; não necessita de mestres – vanguardas e partidos – nem de uma subjetividade uniforme (Franks, 2008: 143).

Segundo os pós-anarquistas, o proletariado é composto por “lutas e identidades múltiplas, hetero- géneas e muitas vezes conflituantes – artesãos que defendem os modos tradicionais de vida e de trabalho, trabalhadores que se revoltam contra a opressão e a disciplina do sistema fabril”. Para os pós-anarquistas, outros grupos, como “os camponeses e o lumpemproletariado também deveriam ser considerados revolucionários” (Newman, 2011: 117). O “lumpenproletariado (ou subproletariado)” são “os pobres globais”, os precários ou “aqueles completamente excluídos do emprego e do mercado” (Newman, 2011: 117).

Para os pós-anarquistas, o sujeito revolucionário não tem forma (Newman, 2011: 117). Por isso, criti- cam o conceito de classe. No entanto, consideram que as classes ainda existem porque as “desigual- dades económicas, as privações, as exclusões e os antagonismos” são assuntos muito importantes para a política radical (Newman, 2011: 117).

Não aos rótulos e não ao feminismo: Newman discute também as categorias em termos de género e feminismo. Os pós-anarquistas criticam a rotulagem de género, que consideram um controlo estatal e capitalista sobre as pessoas e os trabalhadores. Newman lembra que “os pedidos de reconhecimento por parte de grupos minoritários” tornam-nos com frequência mais dependentes do Estado, “permi- tindo ao Estado estender o seu poder sobre as (suas) vidas”.

O mesmo acontece com o feminismo. De acordo com Newman (2011: 117), “a reivindicação de direitos por parte de certos grupos feministas tem sido apenas um reafirmar do seu estatuto de vítimas que exigem a proteção do Estado”. Para os pós-anarquistas, as lutas das trabalhadoras feministas são so- bretudo o assumir da mulher como empregada do capitalismo, como objeto ou como assalariada (New- man, 2011: 118).

Não ao capitalismo: Segundo Newman (2011: 118), o pós-anarquista propõe “novos modos de subjeti- vação política”, que desafiam a subordinação das pessoas ao capital. Esses novos modos de subjetiva- ção política questionam as “relações, as práticas e as instituições autoritárias” capitalistas, e incluem as lutas do ‘eu’ contra “as identidades e os papéis que nos são impostos pelo Estado” (Newman, 2011:118-9). A subjetivação radical é “o processo” que leva o sujeito a ‘criar-se a si mesmo’ ou a criar o seu espaço (Newman, 2011:118-9).

Trabalhador criativo: Os pós-anarquistas propõem “uma experimentação ativa, ou mesmo utópica” do ‘eu’, ao nível da “expressão artística” – por exemplo, através da cultura e da poesia. (Newman,