Quanto ao estado civil dos entrevistados, as surveys fizeram a mesma pergunta tanto em 2012 quanto em 2017. Dessa forma, foi possível observar se houve alguma mudança nesse aspecto da vida dos 115 entrevistados do estado do Paraná. No primeiro ano da pesquisa do Perfil do Jornalista Brasileiro, tanto a maioria dos homens entrevistados quanto a maioria das mulheres eram solteiros(as). Esse dado vai ao encontro da percepção sobre o perfil do jornalista em todo país, na época, e converge com outras pesquisas já mencionadas no início dessa análise.
O que é visto de mudança na amostra de respondentes das surveys de trajetórias profissionais no estado paranaense é justamente que, com o avanço da idade após os 31 anos, houve um aumento de jornalistas casados. Esta é primeira percepção imediata dos dados, embora as entrevistas qualitativas permitiram perceber que há uma diferença sentida pelas jornalistas mulheres sobre a abordagem de outros homens quando são casadas ou são solteiras. Assim, como essa pesquisa busca levantar as diferenças de gênero na profissão, são frisados os depoimentos das entrevistas quanto ao fato de serem solteiras ou casadas.
Gráfico 4 – Estado civil por sexo em 2012
Fonte: Autoria própria (2019).
Portanto, em 2012, dos(as) respondentes do Perfil do Jornalista Brasileiro no Paraná, 54,76% dos homens eram solteiros e 65,75% das mulheres eram solteiras. Homens casados somavam 30,95% e mulheres casadas chegavam a 20,55%. Em relação à união estável, homens eram 14,29% e mulheres 9,58%.
Já em 2017, quando os entrevistados voltaram a responder à survey sobre seu estado civil, é possível perceber uma redução no grupo de solteiros. Enquanto em 2012 cerca de 50% dos homens estavam solteiros, em 2017 esse número caiu para 26,19% dos respondentes. No caso das mulheres também houve uma diminuição: cerca de 65% delas eram solteiras em 2012 e cinco anos depois eram 38,36%.
Consequentemente, em cinco anos aumentou o número dos entrevistados que estavam casados: em 2012, 30% dos entrevistados homens estavam casados e, em 2017, se tornaram 42% deles. No caso das mulheres, em 2012, cerca de 20% delas estavam casadas e em 2017 o dado subiu para 41%.
Gráfico 5 – Estado civil por sexo em 2017
Fonte: Autoria própria (2019).
No caso dos que responderam estar separados ou divorciados, em 2012, nenhum homem respondente estava nesse estado civil, enquanto as mulheres separadas e divorciadas compreendiam 1% no mesmo ano. Em 2017, 4% dos entrevistados homens afirmaram ter se separado; e o número de mulheres separadas ou divorciadas ficou em cerca de 2% das respondentes para as duas opções.
Também foi notado aumento do número de pessoas que afirmaram estar em uma união estável. Em 2012, cerca de 14% dos respondentes homens estavam em uma relação estável, sendo que o número passou para 26% em 2017. No caso das mulheres, em 2012 cerca de 9% das respondentes estavam em uma relação estável e em 2017 este número cresceu para cerca de 13%.
A entrevistada 5, atualmente editora-executiva de um telejornal, conta que já foi convidada para mudar de sucursal várias vezes e isso pode significar ascensão dentro da empresa. Apesar de considerar que ascendeu relativamente rápido, ela faz um paralelo entre sua trajetória profissional e a de um colega homem. Eles entraram praticamente juntos na empresa e hoje ele é chefe da entrevistada. Segundo ela, os fatos de ele ser solteiro e ter mobilidade favoreceram seu crescimento profissional, uma vez que ela, por ser casada, acaba escolhendo lugares que sejam melhores para ela e o marido.
Eu não quis, e acabei não indo, e aí ele sempre, sempre esteve um passinho à minha frente por causa disso, porque ele realmente foi, mas ele também fez outras coisas
que eu também não faria, por exemplo, ele foi editor executivo em outras sucursais. Eu hoje em dia sou casada né, tenho família também, ele é solteiro, tem mais essa facilidade, digo isso porque eu tive um convite pra sair daqui já, em abril fui chamada pra ir pra uma sucursal no norte do Estado, e eu não fui, assim, porque eu realmente, ai menina, é isso né, não ia compensar para o meu marido. Ele não ia conseguir, a gente ia ficar, ter menos dinheiro do que a gente tem agora, enfim, então assim, essas coisas então...
[...]
Ligia: Então você acha que o fato de você ter um relacionamento estável, ter sido casada, isso de fato influencia na tua decisão no ambiente de trabalho? Influenciou um pouco, influencia sim. [...] Eu também me considero uma pessoa que ascendi muito rápido, mas ele já está num cargo que eu acho que ele teve esse desprendimento e claro, talvez não seja isso, provavelmente tenha outras qualidades que eu não tenho, mas eu acho, eu na verdade depois que eu neguei eu fiquei muito mal, no sentido de medo de nunca mais ninguém me chamar, sabe, dessa sensação de que ‘nossa, nunca mais ninguém vai me chamar, nunca mais vou crescer na empresa’, então, eu tive essa sensação assim, eu estava muito certa da minha decisão no momento, tanto porque eu conhecia a praça, e eu não, assim pessoas, pessoas mesmo, de não ter muita proximidade, e já tinha isso também. (ENTREVISTADA 5).
Quanto ao embate relativo à mobilidade e à disponibilidade para a empresa, a entrevistada 5 relata que suas colegas de empresa, jornalistas, também vivenciam e, antes de aceitar propostas, pensam em seus filhos. Como mencionado acima, essa acaba sendo uma pressão interna para as mulheres e um dilema pessoal, tanto que a entrevistada 5 levou cinco meses para se sentir melhor depois de não aceitar o convite da empresa.
Vou falar assim que elas, elas chegaram a ser convidadas esses tempos atrás pra ir também para a sucursal em que eu estava, mas elas não foram porque elas têm filhos, aí é outro nível que eu nem consigo imaginar. Elas são casadas e com filho aqui e não querem tirar o filho daqui. Uma já é separada, mas ela tem filho aqui perto e ela não consegue levar os filhos, não ia dar pro marido ver e enfim, então é, realmente né tem todo esse peso. (ENTREVISTADA 5).
A entrevistada 1 tem outro agravante, ela trabalha diretamente com o marido, que tem o cargo de assessor de imprensa, enquanto ela tem o cargo de editora na assessoria de comunicação de um clube de futebol. Os seus relatos tangem ao problema de ser apresentada como “a mulher do fulano”, desqualificando sua função e seu cargo dentro da empresa. Ela relata que, enquanto estava grávida, passou por um dos momentos que a deixou mais fragilizada.
Eu estava no centro de treinamento e chegou o novo treinador, eu já grávida e barrigudona, estavam apresentando: ah esse aqui o fulano, esse é o fulano, a essa aqui é a mulher do beltrano, cara ele era o novo treinador, como assim a mulher do beltrano, o que a mulher do beltrano está fazendo aqui dentro, como assim. Nesse dia, eu não falei nada, não falei nada para ninguém, nem pro meu marido e fui embora, voltei pro estádio, fui chorando no caminho, porque para mim foi muito chocante. Porque assim, sem brincadeira, eu tenho três pós-graduações, eu faço um milhão de cursos, eu estou sempre antenada, eu me considero um pilar do nosso departamento, sei o meu valor dentro do departamento. Sei que foi um período muito difícil que eles ficaram sem mim, agora na licença, mas tipo pô, mas como assim a mulher do beltrano, mas não falei nada. Cheguei no estádio, me perguntaram se eu estava me sentindo bem, eu disse: não, estou de boas, já vai passar. No outro dia eu cheguei no supervisor de futebol, eu cheguei: ‘porra você me apresentou como mulher do fulano’. Ele: ‘cara, nem me liguei’. Eu acho que é bem isso, as pessoas nem se ligam se vai te atingir ou não. A partir desse momento, com esse novo treinador, ele nunca me respeitou como profissional. Então por exemplo, eu tinha que chegar lá com ele para fechar algumas pautas, porque a gente distribuía mensalmente pautas específicas, eu tinha que lá fechar com ele: ‘oh treinador então veja nós estamos pensando em fazer assim, assim assado’, e ele: ‘ah ta, ta, então depois a gente vê’. Qualquer um outro que chegasse, por exemplo o meu marido, ele chegava e em dois minutos estava tudo fechado. Então aconteceu comigo e foi muito recente, foi uma coisa bem triste que me aconteceu, porque me fez pensar que eu não tenho valor nenhum na verdade. Parece que eu só sou respeitada aqui dentro, tanto como profissional quanto como mulher, porque eu tenho selo de casada. (ENTREVISTADA 1).
A entrevistada 3 comenta que nunca se sentiu coagida a casar ou ter filhos na empresa em que trabalha há anos. Editora, ela acredita que o fato de não sofrer com alguns tipos de comentários diz respeito à sua postura contestadora, ou seja, de responder imediatamente à altura qualquer comentário que pareça desagradável. Ela ainda reconhece que, mesmo sendo solteira, sempre namorou e acredita que homens se respeitem entre eles.
E sobre comentários inconvenientes, pode ter a ver com o fato que eu sempre namorei muito. E eu sempre estou namorando, estou solteira, mas namorando. Então quando eu entrei na empresa eu tinha um namorado, que era jornalista e depois deixou de ser jornalista, mas ele também entrou na mesma época que eu lá e tinha uma coisa: ah a namorada do fulano, porque existe o respeito do homem para o homem, às vezes não para mulher. Mas daí também a postura, porque tinha os caras lá, que convidavam as meninas para ir em bar para ficar fazendo pergunta constrangedora de cunho sexual, os caras faziam isso, assim. E é só você não ir. Esse negócio de ter aparecido lá com o namorado e eu nunca me relacionei com colega de trabalho. Não porque eu tenha algo, nossa nunca vou fazer isso, mas só simplesmente porque não aconteceu e porque não tive interesse. Mas eu acho que em outros tempos lá na empresa, bem antes de eu entrar, que tinha mais gente solteira, era um ambiente que rolava mais uma pegação, tinha mais esse tipo de comentário. Quando eu entrei tinha muita gente casada ou namorando, eu mesma namorava, então era menos. Mas eu já fui alvo de comentários machistas de homem que você não esperava que fizesse o comentário. Homem insinuando: ah porque você fica tão perto dele? assim como se você tivesse tendo um caso, o que não estava acontecendo. O que era mais bizarro era que a postura da pessoa em questão era sempre em relação a mim e nunca em relação ao homem. Ele vinha fazer comentários para mim como se eu fosse uma destruidora de lares, em compensação ele nunca fez um comentário pro cara. Se duas pessoas estão tendo um caso, o caso é das duas. Mas o comentário vinha só pra mim e aí aquela coisa que eu enquadro: nossa não tô entendendo. (ENTREVISTADA 3).
A partir das declarações das entrevistadas é possível perceber que: a) os comportamentos das mulheres no ambiente de trabalho são mais observados e comentados; b) se elas tiverem um relacionamento é como se houvesse uma validação de seu profissionalismo, não atribuído à capacidade da mulher, mas ao marido ou namorado; c) mulheres sofrem com pressão ao conciliar oportunidades de trabalho com os relacionamentos amorosos; e d) elas acreditam que a solução pode estar em seus comportamentos de resposta direta e intolerante com “brincadeiras”.
A respeito de precisarem conciliar trabalho e família, as mulheres enfrentam essa “corda bamba” ao longo de suas carreiras. O fato de assumirem demandas domiciliares contribui para se sentirem mais sobrecarregadas, além de perceberem que administram múltiplas atividades no ambiente de trabalho (como ver-se-á nos depoimentos).
3.4 MULHERES JORNALISTAS: ENTRE O TRABALHO, O CANSAÇO E O