Em sua tese, Leite (2015) observou as mudanças do perfil do jornalista brasileiro, com foco no estado de São Paulo. A pesquisadora, supracitada nesta dissertação, recorre aos dados da RAIS de 2013 como levantamento para identificar as particularidades desse grupo profissional. Em São Paulo, estado com maior número de jornalistas, a autora identificou 9.830 homens e 9.873 mulheres atuantes nesta função no ano de 2013. O nível de escolaridade era de 84,64% das mulheres com ensino superior incompleto, enquanto os homens compreendiam 77,61% (LEITE, 2015, p. 71).
Assim como revelam outras pesquisas sobre a formação dos jornalistas realizadas até agora no país, as mulheres têm um nível maior de instrução e o mesmo acontece com respondentes do Paraná em 2012. No caso dos jornalistas homens respondentes, 50% deles tinham somente ensino superior, cerca de 35% dos respondentes eram especializados e cerca de 14% deles tinham mestrado, naquele ano não constou respondentes com doutorado.
No caso das mulheres, quase 37% delas contavam com a graduação, 42,47% das respondentes eram especialistas, 15% delas tinham mestrado e 5% doutorado. Cinco anos depois foi perguntado novamente aos 115 respondentes o respectivo grau de instrução. Em 2017, o número de homens e mulheres curso superior caiu, 33,33% e 20,55%, respectivamente. Profissionais com especialização passou a ser 40,48% dos homens e 52% das mulheres jornalistas; homens com mestrado eram 23,81% e mulheres correspondiam a 20,55%. Homens com doutorado (em 2012 não havia porcentagem neste sexo) passou para cerca de 2% e o índice de mulheres permaneceu em torno de 5% — sendo que nenhum
homem respondente ingressou no pós-doutorado e o número de mulheres passou a ser 1,37% das respondentes.
É possível perceber através das entrevistas que, de maneira geral, as mulheres buscam se qualificar mais com o objetivo de sair da profissão e para legitimar a posição que ocupam no mercado de trabalho. Interessante notar que, no que se refere ao pedido de ausência das atribuições ao empregador, a fim de se dedicar à especialização, há uma inversão de percepção: homens pedem com mais segurança e são atendidos, enquanto para as mulheres a situação acaba sendo um drama na rotina do ambiente do trabalho.
Também há uma sinalização interessante relatada por uma das entrevistadas, que trabalha em uma empresa pública, em relação ao comportamento masculino no que se refere à busca por qualificação. “Eu sinto que os homens tem muita mais facilidade em pegar e tacar o foda-se e ir atrás dessas questões da carreira, eu tenho colegas mulheres que estão há muito tempo paradas nisso e todos os homens correm bastante, pedem afastamento, ficam de licença. ah é meu direito.” (ENTREVISTADA 4).
Os gráficos e as impressões das entrevistadas no Paraná, nos dois períodos considerados, constam a seguir:
Gráfico 12– Grau de instrução por sexo 2012
Fonte: Autoria própria (2019). Gráfico 13 – Grau de instrução por sexo 2017
Fonte: Autoria própria (2019).
Em 2017, há uma expansão na entrada de homens nos cursos de pós-graduação, por isso é importante contextualizar aqui a respeito expansão dos cursos de pós-graduação no país e no estado do Paraná. O aumento no número de cursos nesse período de 5 anos pode configurar um crescimento na oportunidade de qualificação profissional dos e das jornalistas.
Almeida (2018) fez um mapa das pós-graduações em Comunicação e Jornalismo no país. Segundo a pesquisadora, é de difícil ter consenso sobre qual seria o primeiro programa, mas sabe-se que o desenvolvimento de pesquisa na área de Comunicação tem mais de 45 anos. Não surpreende que os primeiros cursos de pós-graduação tenham iniciado no eixo Rio- São Paulo, sendo eles os da “USP (1972, mestrado e 1980, doutorado), UFRJ (1972, mestrado e 1983, doutorado), UnB (1974, mestrado e 2003, doutorado), PUC-SP (1978, mestrado e 1981, doutorado) e UMESP (1978, mestrado e 1995, doutorado)” (ALMEIDA, 2018, p. 79).
De acordo com a autora, nos anos 2000 mais que dobra o número de programas de Pós-Graduação em Comunicação no país, quando surgiu o primeiro da área no Paraná. Começou em uma instituição privada de ensino (UTP) com mestrado em 2000 e doutorado em 2009. Em seguida, inicia o mestrado em Comunicação da UFPR, em 2010, e em 2013 o mestrado em Jornalismo da UEPG.
Em seu levantamento, a pesquisadora esclarece que ao longo dos anos houve um aumento da produção de teses e dissertações, o que também pode sugerir o aumento do ingresso de mulheres na pós-graduação no Paraná, por exemplo.
A explicação para esses saltos na produção acadêmica é a de que, além do surgimento de novos programas a partir da década de 1990 (1990 - 6 programas; 1999 - 13 programas), os anos de 2001, 2002 e 2003 apresentam produção atípica. No ano de 2001, o programa de Comunicação da UFRJ publicou 69 dissertações e 34 teses. No ano de 2002, o programa de Ciências da Comunicação da USP publicou 141 dissertações e 60 teses; e no ano de 2003 o programa de Comunicação e Semiótica da PUCSP publicou 121 dissertações e 53 teses. No decorrer dos anos 2000 essa produção vai sendo descentralizada com novos programas surgindo em todas as regiões do país. [...] também é notória a tendência de crescimento da área para a década de 2010, já que em seus seis primeiros anos 87,14% da produção da década passada já foi publicada. (ALMEIDA, 2018, p. 86).
Um dado interessante levantado pela pesquisadora é que desde 1980 as mulheres são responsáveis pela maioria das publicações de dissertações e são maioria entre publicadores de teses na área de comunicação a partir de 1990.
A entrevistada 1 afirma que as mulheres buscam se aperfeiçoar muito mais e também entende o fenômeno como um modo de justificar, de alguma forma, o fato de ocuparem os espaços em que estão. Ela foi questionada se seus colegas homens estudam tanto quanto ela.
Não, não, nem um pouco. Tanto que é que uma das grandes brigas com o meu marido é que ele estacionou, fez a faculdade, fez a pós e parou. Eu falei assim: em quase nove anos de clube eu fiz 12 cursos, incluindo as três pós-graduações.O pai dele, que é o outro assessor de imprensa, que está lá dentro há mais tempo (que é o rapaz que ganha o mesmo tanto que eu, mas está há mais tempo lá), eu acho que ele fez uma pós e um curso de inglês. A nossa repórter fez a graduação, já fez mais três cursos e mais uma pós. Acho que é muito do nosso perfil querer ir atrás, mas por outro lado, o meu chefe que é coordenador é um entusiasta dos estudos, ele já fez um milhão de cursos também assim, ele inclusive fez outra faculdade, fez direito, fez mais uma pós, ele começou a dar aula em uma pós-graduação. O caso dele é bem perfil, o caso meu e da repórter, a gente tenta se justificar. A gente tenta ter um pilar de apoio na nossa formação, para ser mais um argumento de a gente conseguir mostrar do porque a gente está lá. (ENTREVISTADA 1).
Logo, a entrevistada 2, por exemplo, que cursa Mestrado Acadêmico (na época da entrevista), conta que sempre quis se aperfeiçoar, mas esse era um problema na empresa em que trabalhava.
Aí durante a gravidez eu terminei a pós-graduação [especialização], que é uma coisa que eu gosto, política, e era o que tinha disponível num horário que eu podia fazer. Então, eu acordei, não está legal o jeito que estou vivendo e isso foi em 2010 e em 2012 eu tinha intenção de cursar o mestrado, mas no jornal não tinha hora para sair e as aulas eram à noite. Eu cobria política e não tinha o menor interesse da empresa e eu não pude continuar. Em 2014, já com dois empregos e com dois filhos eu pensei vou voltar, quero muito, aí eu vinha para a aula e dormia e eu roncava na aula e então eu não avancei. Em 2015 eu tentei de novo, aí foi bonito, comecei a fazer as leituras e tudo. Aí chegou no fim do ano, eu fui escalada para cobrir férias e dobrar a escala e foi uma filha da putisse [SIC]. Porque quando eu fui contratada, nós incentivamos, a gente paga bolsa, a gente paga adicional, eu nunca vi e eu descobri a empresa realizava congressos nacionais todos os anos e nós nunca fomos nem avisados e nem convidados. Então era um incentivo virtual que não se concretizava na prática. Então não era interesse da empresa, não era só eu, mas outras pessoas queriam estudar e não conseguiram. Então quando eu adoeci e entrei no processo de estresse e fui pra terapia, na terapia você é obrigado a olhar dentro de você, mesmo que te dê enjoo. Porque você está abandonando coisas que você quer? Até a sensação de estar afastada foi demorada, nossa eu sou um peso morto, por mais que eu trabalhe eu tinha a sensação de que não era trabalho. Uma das coisas que eu percebi é que tinha que colocar as coisas na minha cabeça e fazer. E mestrado sempre foi algo que eu quis fazer, mas assim eu não tenho vontade de voltar para a redação. [...] Não sei se eu consigo continuar estudando [fazer um doutorado], mas talvez não seja possível, porque demandaria mudar ou ficar muito tempo fora de casa, e pra mim é algo que é meio inviável, porque tenho dois filhos pequenos, mas já pensei em sair do país pra fazer um complemento de estudos, mas levar eles comigo, seria um curso pós mestrado, não está descartado, mas depende de muita coisa. (ENTREVISTADA 2).
Com a intenção de entender que tipo de universidades os entrevistados tiveram acesso para seus estudos acadêmicos, ponderou-se pertinente trazer a pergunta feita aos jornalistas que atuavam no Paraná em 2012. De acordo com o gráfico, é possível observar uma porcentagem muito próxima entre homens e mulheres que utilizaram o serviço privado
de educação, sendo 46,34% deles e 47,95% delas, respectivamente, tendo variação um pouco maior pela adesão das mulheres. Nas instituições de ensino federal, os homens representaram um acesso maior, correspondente a 24,39% dos entrevistados, enquanto as mulheres equivaleram a 17,81%. Já nas instituições de ensino estadual a porcentagem é maior entre as mulheres, sendo 34,25% das jornalistas respondentes, em comparação aos 26,83% dos homens, o que notadamente aparenta uma distância significativa entre os sexos. Em instituições conhecidas como “municipal” de ensino, cerca de 2% dos homens passaram para formação acadêmica.
Gráfico 14 – Ensino superior por sexo 2012
Fonte: Autoria própria (2019).
As informações a respeito de escolaridade, idade, renda, área de atuação, jornada, entre outros elementos analíticos abordados na caracterização do trabalho das jornalistas, oferecem condições para o reconhecimento de lógicas de desigualdade presentes no exercício da profissão. Nos próximos tópicos será abordada a diferença de percepção entre homens e mulheres jornalistas quanto ao assédio no ambiente de trabalho, aspecto que acentua discriminações de gênero no âmbito da profissão.