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Déroulement de la procédure d’enquête

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A metodologia que oferece mais insumos para esta investigação é a Hermenêutica de Profundidade (HP). A HP, conforme descrita por Thompson (2011), é uma maneira de “interpretação da ideologia” por meio das formas simbólicas (THOMPSON, 2011, p. 378). Para ele, “interpretar a ideologia é explicitar a conexão entre o sentido mobilizado pelas formas simbólicas e as relações de dominação que este sentido ajuda a estabelecer e sustentar” (THOMPSON, 2011, p. 379). Essa metodologia, o autor também denomina como hermenêutica da vida quotidiana ou de interpretação da doxa, expressão utilizada para se referir à construção da crença ou opinião popular em oposição ao saber “verdadeiro”, a episteme. Isso é possível por meio da análise em três níveis.

A primeira é a análise sócio-histórica. Por meio dela, é possível examinar “os padrões de posse e controle dentro das instituições dos meios de comunicação”, “as relações entre instituições de comunicação e outras”, “as técnicas e tecnologias empregadas na produção e transmissão”, “o recrutamento de pessoal” e “os procedimentos rotineiros” (THOMPSON, 2011, p. 393). Em um esquema, Thompson sugere que a investigação se preocupe com as situações espaço-temporais da formação da mensagem, com os campos de interação entre os atores comunicacionais envolvidos, com as instituições sociais compreendidas, bem como com a estrutura social na qual ela se enquadra, e com os meios técnicos de transmissão dela. O objetivo, nessa fase, é “reconstruir as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas” (THOMPSON, 2011, p. 366).

No nosso caso, é preciso apresentar o quadro da rivalidade entre Grêmio e Inter pela imprensa, desde o primeiro clássico, em 1909, passando pela definição do dérbi como Grenal, nas décadas de 1920 e 1930, até chegarmos ao momento atual. Além disso, explicaremos como a imprensa, de maneira geral, construiu um padrão discursivo típico do jornalismo esportivo gaúcho e brasileiro e como o portal Gaúcha ZH, em particular, passou a segmentar as narrações torcedoras nos aplicativos Gremista ZH e Colorado ZH, orientando sua mensagem para um público engajado específico. Essa mudança, surgida após uma Copa do Mundo no Brasil e com anseios tecnológicos próprios, representa não apenas uma estratégia comunicacional, mas um posicionamento discursivo essencial para compreendermos a importância dada pelo veículo à oposição entre os dois clubes.

O segundo passo, dentro da HP, é a análise formal ou discursiva, nas quais pelo menos cinco modos analíticos são oferecidos por Thompson: semiótica, análise de conversação, análise sintática, análise narrativa e análise argumentativa. Eles variam conforme o objetivo

ou circunstância da investigação científica, mas podem ser aplicadas simultânea ou complementarmente. Nossa escolha para este trabalho recai na análise discursiva, que é entendida pelo autor como “a análise das características estruturais e das relações do discurso”, sendo discurso entendido aqui como “as instâncias de comunicação correntemente presentes” (THOMPSON, 2011, p. 371). Ao contrário da semiótica, que se preocupa mais com os símbolos contidos na mensagem, a análise discursiva se preocupa com a formação de sentido entre um processo comunicacional que vai desde uma conversação informal a um editorial ou programa de televisão.

Dentro da análise do discurso, Thompson ressalta alguns métodos de interpretação, como a análise de conversação. O princípio desse método ou técnica é “estudar instâncias da interação linguística nas situações concretas em que elas ocorrem” (THOMPSON, 2011, p. 372). Outra possibilidade é a análise sintática, que, segundo o autor “se preocupa com a sintaxe prática ou a gramática prática […] que atua no discurso do dia a dia” (THOMPSON, 2011, p. 372). Uma terceira possibilidade é a análise da estrutura narrativa, que possui “um enfoque bastante comum nos campos da análise literária e textual, no estudo do mito e, em menor proporção, no estudo do discurso político” (THOMPSON, 2011, p. 373). Por fim, a análise argumentativa se foca nas “formas de discurso, como construções linguísticas supraproposicionais, que podem abranger cadeias de raciocínio que podem ser reconstruídas de várias maneiras” (THOMPSON, 2011, p. 374).

Esta dissertação sustenta-se sobre a Análise de Discurso (AD) de Charaudeau (2004a; 2004b; 2015; 2016) e Pêcheux (1990; 1995). Em Charaudeau, dois conceitos são importantes. O primeiro é a identificação das visadas discursivas contidas em cada discurso. Essas visadas, que o autor denomina enjeu, “correspondem a uma intencionalidade psico-sócio-discursiva que determina a expectativa do ato de linguagem do sujeito falante e por conseguinte da própria troca linguageira” (CHARAUDEAU, 2004a, p. 5). Isso pressupõe que, em um contrato comunicacional, o emissor ou o sujeito comunicante tem uma intenção em relação ao seu receptor ou destinatário com seu ato. Logo, a primeira etapa de nossa análise será identificar as visadas presentes no circuito, sejam elas de informação, demonstração, incitação, prescrição, solicitação, instrução ou outra. Outro conceito são os modos de organização dessas visadas, ou seja, de entender qual delas dentro do contrato comunicacional é a dominante. Isso significa que podemos ter, ao mesmo tempo, mais de uma visada contida no processo, mas que a maioria delas está subordinada a outra ou outras. Em uma notícia jornalística, por exemplo, podemos ter situações de demonstração, prescrição e instrução simultaneamente. No entanto, elas podem estar subordinadas à visada de informação que

busca esclarecer determinado assunto a um público que o desconhece. Para isso, importa-nos demasiadamente apoiarmo-nos na ideia de antecipação de Pêcheux (1995). Segundo ele, o que for emitido pode ser aceito ou rejeitado, mas está concebido a partir de conhecimentos anteriores do destinatário, o que funda a estratégia discursiva a ser adotada. Antecipar-se no processo comunicacional não quer dizer que esse será o efeito resultado ao final dele. Porém, ele sugere que um efeito tal no destinatário seja esperado pelo comunicador, o que influenciaria diretamente na construção de uma recepção ideal por parte do emissor. Em nossa pesquisa, esta identificação é importante para buscarmos compreender como é construída a referenciação de um clube em relação ao outro e por que a estimulação da rivalidade pela narração emocional, que torce pelo fracasso alheio, é essencial na construção da identidade do torcedor. Não alcançaremos, porém, à reação da audiência, visto que isso se daria por outra metodologia. Além do mais, se todos os integrantes do público fossem vulneráveis às estratégias do emissor e não pudessem reagir ao estímulo emocional, haveriam ardis infalíveis, o que não se sustenta logicamente.

A última fase da Hermenêutica de Profundidade é chamada de interpretação/reinterpretação. Ela se difere da análise formal ou discursiva, pois, segundo Thompson, “ela procede por síntese, por construção criativa de possíveis significados” (THOMPSON, 2011, p. 375). Segundo ele, essa fase:

Transcende a contextualização das formas simbólicas tratadas como produtos socialmente situados, e o fechamento das formas simbólicas tratadas como construções que apresentam uma estrutura articulada. As formas simbólicas representam algo, elas dizem alguma coisa sobre algo, e é esse caráter transcendente que deve ser compreendido pelo processo de interpretação (THOMPSON, 2011, p. 375-376).

Portanto, ao mesmo tempo que é um processo de interpretação, é um processo de reinterpretação feito por sujeitos que não são isentos ou alheios ao campo simbólico. Thompson destaca que “os seres humanos são parte da história, e não apenas observadores ou espectadores delas” (THOMPSON, 2011, p. 360), por isso há a necessidade de reinterpretar a análise, a fim de minimizar os conflitos intrínsecos a ela. Quando classificamos algo como novo, isso acontece porque reconhecemos o que houve anteriormente, e não podemos comparar com algo que ainda não surgiu. Para avaliarmos as mudanças discursivas adotadas por Gaúcha ZH com os novos aplicativos, compararemos o método narrativo atual com o sistema neutro de Uol Esportes, praticado há mais tempo e compartilhado por outros portais. É essencial que uma observação mais afastada dos objetos seja feita posteriormente para que não haja presunção de certo ou errado, mas, a compreensão de algo maior, que é a assimilação do jornalismo como construtor da realidade social.

Na investigação social, o objeto de nossas investigações é, ele mesmo, um território pré-interpretado. O mundo sócio-histórico não é apenas um campo-objeto que está ali para ser observado; ele é também um campo-sujeito que é construído, em parte, por sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas quotidianas estão constantemente preocupados em compreender a si mesmos e aos outros, e em interpretar as ações, falas, e acontecimentos que se dão ao seu redor (THOMPSON, 2011, p. 358).

Afinal, as ciências sociais, como a comunicação e o jornalismo, são disciplinas interpretativas, de verdades efêmeras. O conhecimento é construído. Logo, essa metodologia nos dá a liberdade para a leitura de um processo construído por métodos mais empíricos e pragmáticos. Além disso, a HP reconhece o texto como algo mais complexo do que somente o registro verbal. A linguagem, de acordo com essa metodologia, abarca inúmeras partículas, conscientes e inconscientes, que interferem na elaboração de um significado. A isso Thompson (2011) denomina “formas simbólicas”.

O estudo das formas simbólicas é fundamental e inevitavelmente um problema de compreensão e interpretação. Formas simbólicas são construções significativas que exigem uma interpretação; elas são ações, falas, textos que, por serem construções significativas, podem ser compreendidas. Esta ênfase fundamental sobre os processos de compreensão e interpretação retém seu valor hoje. Pois nas ciências sociais, como em outras disciplinas relacionadas com a análise das formas simbólicas, a herança do positivismo do século XIX é forte (THOMPSON, 2011, p. 357).

Nesse caso, embora sejam de suma importância, não serão analisadas apenas as palavras ou o texto verbalizado nas narrações, mas também as pontuações, a hierarquia da diagramação, as figuras de linguagem, os cognomes, os tempos verbais, a quantidade total dos termos usados e os termos repetidos. Enfim, tudo que produza sentido na “narração torcedora” às três narrativas.

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