As relações sociais e práticas do dia a dia obedecem a certas lógicas e, por isso, produzem sentido. Isso significa dizer que nada é tão aleatório que não possa ser programado e, assim, construído. No caso da mídia é a mesma coisa. Um simples ato de comunicação, uma simples troca de informação está submetida a certos regulamentos que compõem a própria ação. Comunicar depende de quem está comunicando, por que meio, a quem, sob qual contexto e com qual propósito. Ainda, se a mensagem está na linguagem adequada, se obedece a determinada etiqueta social, se o momento é oportuno ou indesejado. Ou seja, creditar ao acaso a responsabilidade por qualquer ato comunicacional é inautêntico e inverídico.
A prática jornalística, especificamente a construção de narrativas, que é o que nos preocupa neste trabalho, também depende desses elementos. Como uma forma simbólica passível de interpretação, ela carrega, em seus procedimentos de apuração e redação, uma tentativa de efeito objetivado pelo autor da mensagem, seja ele um repórter de televisão, um comunicador de rádio ou um editor de jornais e revistas. Há uma instância receptora considerada ideal a quem essa mensagem é construída. Porém, embora esteja presente nos estudos de emissão e recepção, muitas incertezas ainda recaem sobre a quem o narrador direciona sua mensagem. No nosso caso, para quem ele está narrando os acontecimentos em uma transmissão esportiva. Mais ainda, de que maneira ele constrói sua matéria para transmiti-la. Quem é o público ideal deste jornalista?
Partindo da ideia de Charaudeau (2015), de que “a informação é [...] a transmissão de um saber, com a ajuda de uma determinada linguagem, por alguém que o possui a alguém que se presume não possuí-lo” (CHARAUDEAU, 2015, p. 33), pressupomos que o jornalista está em posição de poder em relação à audiência. Ele outorga a si mesmo a capacidade e a responsabilidade de transmitir determinada informação a quem não tem ou imagina não tê-la. Logo, há um jogo de cena em que as duas instâncias performam suas ações: alguém que supõe que o outro não saiba algo passando a ele o que este supõe não possuir. Em relação à mídia de referência, isto é mais evidente. Uma edição de um jornal e até mesmo uma única reportagem contêm uma quantidade tamanha de dados que possuem uma miríade de significados. Seria ingênuo acreditarmos que essa mensagem está vazia de sentido, que é absolutamente isenta e, mais ainda, que não haja qualquer intencionalidade na elaboração dela. Ao mesmo tempo, não queremos suspeitar que todo discurso de informação, como é o texto jornalístico em sua essência, possui um caráter manipulador explícito. Apenas evidenciamos que, na encenação do discurso jornalístico, a construção dos significados não acontece de maneira unilateral, e seus efeitos, embora previstos na elaboração da mensagem, não podem ser controlados.
Nas mídias, os jogos de aparência se apresentam como informação objetiva, democracia, deliberação social, denuncia do mal e da mentira, explicação dos fatos e descoberta da verdade. Entretanto, e por isso mesmo, os discursos de explicação não podem pretender à verdade absoluta e menos ainda à profecia. Nenhuma sociedade evolui pela simples ação das palavras de ordem – ainda que fossem provenientes de um sistema totalitário; de predições – ainda que fossem baseadas em análises científicas; ou de profecias – ainda que tivessem a força das crenças religiosas (CHARAUDEAU, 2015, p. 29).
Nesse momento, essa discussão ganha importância à medida que a maioria das instituições percebe a importância de serem mediatizadas. Antes restrita a um grupo onipotente e legitimado, a transmissão das informações na contemporaneidade é feita por diversas pessoas e por diversos meios. A profusão com que essas maneiras cresceram fez com
que os meios de comunicação de massa, em especial a imprensa de referência, buscassem novas estratégias para obter a atenção do público. O que, mais uma vez, corrobora nossa presunção de que a construção de um discurso não é asséptica nem isenta.
Comunicar, informar, tudo é escolha. Não somente escolhas de conteúdos a transmitir, não somente escolha das formas adequadas para estar de acordo com as normas do bem falar e ter clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolha de estratégias discursivas (CHARAUDEAU, 2015, p. 39).
Se entendermos a construção dos significados como algo interligado em rede, proveniente de vários lugares e repassados a vários outros, podemos concluir que essas estratégias discursivas são essenciais ao processo de significação. Não são a própria mensagem, mas afetam o conteúdo à medida que interferem na forma como ele é transmitido. Por isso, a importância de ressaltarmos o enquadramento da informação na produção jornalística. De maneira especial, atentarmos a quais os critérios utilizados para dar vulto a um acontecimento e alçá-lo ao status de notícia.
A informação não existe em si, numa exterioridade do ser humano, como podem existir certos objetos da realidade material (uma árvore, a chuva, o Sol) cuja dignificação, certamente, depende do olhar que o homem lança sobre esses objetos, mas cuja existência é independente da ação humana. A informação é pura enunciação. Ela constrói saber e, como todo saber, depende ao mesmo tempo do campo de conhecimentos que o circunscreve, da situação de enunciação na qual se insere e do dispositivo no qual é posta em funcionamento (CHARAUDEAU, 2015, p. 36).
Charaudeau (2004a) chamou essa intenção pretendida pelo enunciador (no nosso caso, o jornalista) de visada discursiva. Ela se refere ao propósito objetivado pelo emissor na construção da mensagem. Entretanto, ele destaca que essa característica deve ser percebida sempre pelo viés de quem enuncia, mas, ao mesmo tempo, ser legitimada por quem recebe.
As visadas correspondem a uma intencionalidade psico-sócio-discursiva que determina a expectativa (enjeu) do ato de linguagem do sujeito falante e por conseguinte da própria troca linguageira. As visadas devem ser consideradas do ponto de vista da instância de produção que tem em perspectiva um sujeito destinatário ideal, mas evidentemente elas devem ser reconhecidas como tais pela instância de recepção (CHARAUDEAU, 2004a, p. 5).
Há várias visadas que variam conforme sua circunstância. Em geral, há uma visada principal, apesar de que as estratégias aceitem a presença de mais visadas em uma mesma construção textual. No jornalismo, a visada de informação (ou seja, de transmitir a informação de quem a detém para quem não a possui) é dominante, embora para cada matéria possam ser utilizadas visadas de instrução (em reportagens de segurança), de incitação (principalmente dentro do gênero argumentativo das seções de opinião), de demonstração (ao utilizar-se dos exemplos estatísticos, por exemplo), entre tantas outras. Para Charaudeau, há uma visada dupla mais ou menos recorrente, quer seja:
De informação, para responder à exigência democrática que quer que a opinião pública seja esclarecida sobre os acontecimentos que se produzem no espaço público; de incitação, para responder à exigência de concorrência comercial que quer que este discurso se enderece ao maior número e, desse modo, procure captá-lo (CHARAUDEAU, 2004a, p. 6).
Essa incitação é, para o autor, uma maneira mais ou menos natural de equilibrar as forças sociais. Toda construção comunicacional carrega um grau de tentativa de convencimento do outro de que sua mensagem é autêntica e importante. Conforme Charaudeau, “toda sociedade precisa gerir as relações de força que se instauram na vida coletiva à custa de discursos persuasivos cuja finalidade não é o 'verdadeiro', mas o 'crer verdadeiro'” (CHARAUDEAU, 2016, p. 145). O que não deve ser perdido de vista é que a relação entre emissor e receptor obedece a um “contrato comunicacional”, segundo o qual “todo domínio de comunicação propõe a seus parceiros um certo número de condições que definem a expectativa (enjeu) da troca comunicativa, que sem o seu reconhecimento não haveria possibilidade de inter-compreensão” (CHARAUDEAU, 2004a, p. 6-7). Isso sugere que, mesmo que discorde ou rechace o conteúdo, o destinatário reconhece no enunciador o direito de utilizar quais forem as formas de construir sua mensagem. Essa distinção é importante para que compreendamos que, de outra forma, não haveria como um jornalista captar sua audiência se utilizasse os mesmos recursos e estratégias dos outros. Uma mesma receita para produzir seu conteúdo seria fatal ante a concorrência e, provavelmente, acabaria por destruir um dos valores do jornalismo, que é a pluralidade e a independência.
Se a situação de comunicação midiática desse diretamente instruções de forma, todos os jornais, mais ou menos, se pareceriam. Se eles são diferentes, é em razão da escolha das formas (ao mesmo tempo reveladoras de certos posicionamentos). Mas se eles são reconhecidos ao mesmo tempo como jornais de informação, é porque eles respeitam o essencial das restrições discursivas de descrição e de comentário do acontecimento, através de um trabalho que utiliza procedimentos de ordem narrativa, descritiva e argumentativa adequadas. Daí podemos ver igualmente que estes procedimentos também não são tipos discursivos; eles são aquilo que diz o termo de procedimento: um instrumento a serviço da realização das restrições discursivas (CHARAUDEAU, 2004a, p. 7).
Em um ensaio no qual relata sua experiência em redações jornalísticas, o historiador Robert Darnton (1990) questiona a construção imagética do destinatário ideal dos jornalistas. Para ele, mesmo que as empresas de comunicação determinem seu nicho de mercado e estabeleçam sua audiência de acordo com pesquisas de opinião e recepção, os produtores das notícias não objetivam esse público na elaboração de suas pautas.
Nunca escrevemos para as “imagens das pessoas” invocadas pela ciência social. Escrevíamos uns para os outros. Nosso principal “grupo de referência”, como se poderia dizer na teoria da comunicação, encontrava-se espalhado em torno de nós na sala de redação, ou “buraco da cobra” como dizíamos. Sabíamos que os primeiros a cair em cima de nós seriam nossos colegas, pois os repórteres são os leitores mais vorazes, e precisam conquistar seu status diariamente, ao se exporem a seus colegas de profissão (DARNTON, 1990, p. 78).
É preciso ressaltar que a opinião do autor é originada de sua experiência prática e elaborada em um ensaio empírico. Porém, é válido destacar que a idealização do público na construção de uma reportagem é algo menos trabalhado tanto pelas pesquisas em comunicação como nas teorias do jornalismo em relação a outros domínios do campo. E mesmo que tenha sido concebida pelo autor em tempos de comunicação massiva, essa ideia ainda é válida na era das redes sociais. Algumas práticas da profissão ainda se sustentam da mesma forma, como a relação entre jornalistas e fontes, por exemplo. Darnton acredita que “o noticiário corre em circuitos fechados: é escrito sobre e para as mesmas pessoas, e às vezes em código privado” (DARNTON, 1990, p. 92), o que atrapalharia a construção desse público ideal. Se acrescentarmos a isto isso a especialização e a segmentação da profissão, além do surgimento de novos integrantes desse sistema, como os assessores de imprensa, é admissível que o autor tenha razão.
Um dos pesquisadores a apontar esse conflito no campo teórico, Hagen (2006) afirma que um dos perigos é esse afastamento do jornalista com seu público, e a poluição desse sistema pode provocar repetições de modelos. Segundo ele, o jornalista, em relação a seu público:
Imagina-o a partir de si mesmo, através de sua cultura, de seus mitos, de suas experiências de vida e projeta essa imagem no leitor. No jornalismo com abordagem, principalmente, nas soft news, em que o relato biográfico/autobiográfico produz um deslocamento entre o público/privado e o real/imaginário, o texto produzido apresenta um efeito em que a reversibilidade é constitutiva e geradora da escrita (HAGEN, 2006, p. 11).
Se pensarmos o esporte como uma editoria mais próxima ao entretenimento do que ao
hard news, essa concepção se prova urgente. Afinal, não estaria o jornalista buscando
reconstruir no público o que está construído em sua mente? No caso de rivalidades e dicotomias tão fortes como o futebol no Rio Grande do Sul, isso não influenciaria na construção das notícias? A questão não é enxergar se há uma manipulação explícita de um jornalista que tem afeição por um clube em detrimento ao outro. O problema, como evidenciado anteriormente, é buscarmos entender se não há um condicionamento na escrita feita a partir desta idealização de que o público é dual e necessariamente ligado a um ou outro time, Grêmio ou Inter.
A análise de discurso, portanto, visa avaliar como a construção do texto jornalístico pode suscitar interpretações díspares mesmo, e principalmente, quando é emocional e engajada com um público supostamente participativo. Para Pêcheux, o controle total da situação emocional não possível e é justamente nessa intencionalidade que a análise de discurso se faz necessária:
A consequência do que precede é que toda descrição […] está intrinsecamente exposta ao equívoco da língua: todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro (a não ser que a proibição da interpretação própria ao logicamente estável se exerça sobre ele explicitamente). Todo enunciado, toda sequência de enunciados é, pois, linguisticamente descritível como uma série (léxico-sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar a interpretação. É nesse espaço que pretende trabalhar a análise de discurso (PÊCHEUX, 1990, p. 53).
Sobre emoção, em especial, a análise de discurso, de acordo com Charaudeau e Maingueneau (2004b), costuma ocorrer por dois vieses: psicológico e da linguagem. A nós, neste trabalho, cabe a segunda possibilidade. Nesse caso, os autores enfatizam a necessidade de se distinguir uma comunicação emotiva de uma comunicação emocional. Para eles, a narrativa emotiva é intencional, enquanto a emocional não é intencional, ou seja, “a emoção desloca o discurso – ou o reestrutura” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004b, p. 188). Além disso, eles sugerem que o analista de discurso não pretenda oferecer critérios de avaliação, mas buscar explicar o funcionamento dos elementos emocionais na construção do discurso.
A assimilação do jornalismo esportivo como mais emocional do que racional fez com que Gaúcha ZH assumisse essas características e invertesse a lógica jornalística de um jornalismo mais afastado para um jornalismo engajado. Para tanto, propomos uma estratégia para tentar entender como o portal Gaúcha ZH se apropria de uma rivalidade presumida para dirigir seu discurso a um público idealizado.