• Aucun résultat trouvé

5.2 Conception fondée sur une approche pair-à-pair

5.2.1 Objectif et contraintes

Schillebeeckx julga necessário estudar o problema da distinção entre verdade-em-si- mesma e verdade-possuída-pelo-homem. Qual o valor dos nossos conceitos? É o que iremos analisar:

2.1- A concetualidade e o seu valor gnoseológico

Schillebeeckx afirma o “aspeto não-concetual do conhecimento e, portanto, “um dinamismo objetivo”, em que os conceitos remetem por si mesmos até ao infinito”462. Os conceitos são sempre relativos: “Os nossos conceitos remetem essencialmente para esta consciência não concetual como para o que querem expressar, mas que só podem expressar

459 Cfr,. SCHILLEBEECKX, E., Revelación y teologia…op. cit., pp. 261-263. 275-279. 460 Cfr., Ibidem, pp.264-265 com referência a São Tomás.

461 Cfr., Ibidem. pp. 266-267. “Entre os teólogos inspirados nele (Maréchal) figura, em concreto, K. Rahner;

por outro lado, a tendência de De Petter está prolongada em teologia pelo autor destas linhas” (Ibidem, p.262).

150 de maneira inadequada e limitada. Portanto, não é um aspeto extra intelectual – o dinamismo do espírito – o que nos faz ver a realidade dos conceitos, mas um aspeto não concetual do conhecimento, graças ao qual adquirimos consciência da inadequação dos nossos conceitos e passamos por cima do co- nhecimento concetual para alcançar a realidade de uma maneira que não é, no entanto, suscetível de expressão”463. O conceito

remete-nos para a realidade que ele não pode captar totalmente464.

2.2- A concetualidade no aspeto moral

Schillebeeckx aborda o valor dos conceitos morais ao estudar o sentido das normas abstratas gerais, problemática suscitada pela “moral de situação”. Ele afirma que a “moral de situação” criou um fosso entre as normas abstratas gerais e os “imperativos éticos” em função de uma situação histórica concreta465.

Schillebeeckx acha necessário saber o que é a ideia de norma geral e objetiva. Por isso, reflete sobre o dinamismo dos conceitos ético-morais466. O nosso autor coloca nestes termos o fundo da questão: “O problema fundamental, ante o qual se encontra tanto a ética de situação como a ética tradicional, é um problema epistemológico: os nossos conceitos abstratos constituem em si mesmos e por si mesmos uma captação da realidade? Ou constituem-na unicamente graças a um contato não concetual com a realidade concreta a que remetem objetivamente?”467 Para ele, “não há mais que uma só norma objetiva: a

mesma realidade concreta que está sugerida de uma maneira inadequada pelos conceitos abstratos”468.

Segundo o autor, as normas morais abstratas como tais não têm nenhum valor de realidade. “O seu caráter abstrato revela a impotência do homem para expressar de uma

463 Ibidem.

464 Ibidem. Schillebeeckx crê continuar a linha de São Tomás: cfr. Ibidem, pp.91-162.265. 465 Cfr., SCHILLEBEECKX, E., Dios y el hombre…op. cit., pp. 345-349.

466 Ibidem, p.346.

467 Ibidem.

151 maneira exaustiva a realidade”469, mas ao mesmo tempo este caráter abstrato é uma

dimensão do conhecimento humano enquanto que os conceitos são inevitáveis470. “O conteúdo do conceito abstrato, graças a um contacto concreto e existencial, não concetual com a realidade, adquire um valor de orientação intrínseca em direcção à realidade… As normas abstractas gerais remetem de maneira inadequada, mas real, à norma concreta que é a realidade”471. A norma abstrata possui um valor de expressão da norma ética concreta,

pois está orientada para a realidade.

Assim, para Schillebeeckx, desde o ponto de vista formal, o conceito tem um dinamismo intrínseco que nos orienta ou remete para a realidade, mas em si é limitado e inadequado para expressar a realidade.

2.3- A concetualidade no aspeto teológico

O teólogo Schillebeeckx aplica a sua conceção filosófica do conceito ao conhecimento sobrenatural da fé. Os nossos conceitos de fé não são puros símbolos permutáveis por outros, nem se reduzem a um simples conhecimento pragmático, ao contrário do que afirmava o modernismo472.

Os conceitos são necessários para o conhecimento intelectual de Deus, pois todo o conhecimento do homem aponta à verdade em e por meio de conceitos, mas estes são relativos, pois estão dependentes da situação histórica473. Mas no conceito existe um aspeto que supera o próprio conceito. O ato significante estende-se mais além da “ratio nominis” e supera esta “ratio” na direção que indica o conteúdo474. “No conceito natural

de Deus, os conceitos possuem uma abertura ao transcendente. No conhecimento de fé, os

469 Ibidem, pp.346-347.

470 Cfr., Ibidem, p.350. 471 Ibidem, p. 347; cfr., p. 349.

472 Cfr. SCHILLEBEECKX, E., Revelación y teologia… op. cit., p. 122.

473 Cfr. SCHILLEBEECKX, E., ‘La infalibilidade del Magistério. Reflexión teológica’, Concilium 83

(1973), p. 419.

474 Cfr., SÃO TOMÁS, Summa Theologica, I. q.4, a.3; q. 13, a. 4 e 5; SCHILLEBEECKX, E ., Revelación y

152 conceitos naturais adquirem, graças à revelação positiva, uma abertura às verdades sobrenaturais… O conhecimento objetivo de fé realiza-se num ato tendencial: nós não aplicamos, propriamente falando, a Deus o conteúdo de representação puramente conceptual de “pai” e de “filho”, mas na linha destes conteúdos concetuais, e em nehuma outra, podemos realmente alcançar a Deus. Mistério e compreensão objetiva caminham aqui a par”475. Afirma o nosso autor, afastando-se de Maréchal: “Enquanto que no nosso

conhecimento natural de Deus, os conceitos estão naturalmente abertos ao transcendental, no conhecimento de fé esta abertura resulta da revelação positiva. Aqui já não é a razão natural que tira do conteúdo do conhecimento uma perspetiva objetiva sobre Deus; é Deus que se revela de um modo humano e dá aos nossos conhecimentos humanos uma dimensão que não têm por si mesmos. A revelação abre no seio dos nossos conhecimentos concetuais uma nova perspetiva objetiva. A paternidade e a filiação situam-se realmente no prolongamento do significado que têm as noções de pai e de filho na nossa experiência; no entanto, é-nos impossível alcançar concetualmente a maneira como a paternidade e a filiação se realizam em Deus. Os conceitos de fé não são, nem puramente negativos, nem meras metáforas, nem comparações, nem não contradições; possuem um valor real de conhecimento, não nos proporcionam simplesmente um conhecimento pragmático ou simbólico”476.

Com estas reflexão sobre o valor dos nossos conceitos, Schillebeeckx procura salvar “o absoluto da verdade da fé”477 e reconhece “a grande margem de relatividade”478 do

conhecimento de fé, pois são conceitos inadequados para expressar o mistério de salvação. O autor abre-nos “a possibilidade do crescimento da nossa reflexão de fé”479.

475 SCHILLEBEECKX, E., Revelación y teología… op. cit., p. 266; cfr., pp.121.122.390-391. O dito vale

também para a “teologia negativa”: cfr. Ibidem, pp.275-421; IDEM, Dios y el hombre…op. cit., p. 199; PIEPER, J., ‘L´élement negatif dans la philosophie de Saint Thomas’, Dieu Vivant 20 (1951), pp. 35-49.

476 SCHILLEBEECKX, E., Revelación y teologia…op. cit., pp. 123-124.

477 Ibidem, p. 267. “Ainda quando os conceitos sejam inadequados e ainda que, por serem abstratos, não

possuam em si mesmos e por si mesmos valor de realidade, possuem em ligação com o aspeto não concetual, um valor de realidade inadequada sem dúvida, mas real, já que dão, só eles, uma direção e um sentido ao impulso que, a partir dos conceitos, nos leva até à realidade” (Ibidem , pp. 264-265)

478 Ibidem, p. 267. 479 Ibidem.

153

3- TODA A REALIDADE É DINÂMICA

Ao estudar a realidade, Schillebeeckx fá-lo como teólogo que procura entender a Revelação e a fé no contexto da modernidade.

3.1- O dinamismo da realidade no aspeto filosófico

Afirma Schillebeeckx que a experiência é o ponto de partida do conhecimento480, “mas a questão está em saber o que é que inclui a experiência humana”481.

Experimentamos a contingência do ser: “O que se percebe realmente é o dinamismo da realidade contingente experimentada, na sua referência objetiva ao mistério constitutivo absoluto de Deus”482.

A partir deste dinamismo da realidade483, Schillebeeckx pergunta-se pela valor das chamadas “provas” da existência de Deus484. “O espírito humano não faz outra coisa

senão seguir os vestígios – num ato que podemos chamar projetivo – deste dinamismo objetivo tal e como se encontra na própria realidade”485. É a partir da nossa vida humana

que podemos dizer que “a afirmação de Deus é uma auto interpretação da nossa existência”486

480 “Este princípio fundamental do humanismo não me parece falso, mas antes pelo contrário: admitem-no

atualmente todos os filósofos católicos como a verdade fundamental de toda a atividade filosófica” (SCHILLEBEECKX, E., Dios y el hombre…op. cit., p. 81).

481 Ibidem, 79. “O que se discute é o conteúdo da experiência humana no que diz respeito aos seus aspetos

explícitos e implícitos. E sobre este ponto, os caminhos do humanismo e da filosofia cristã separam-se entre si” (Ibidem 81).

482 SCHILLEBEECKX, E., Función de la fe en la autocomprensión humana, in Vários, Las questiones

urgentes de la teologia actual (Madrid 1970), p. 74. Também o humanista aceita a contingência do real e esse é o “mistério” da realidade. Anota Schillebeeckx: “Parece-me que se fala aqui demasiado depressa de mistério. Creio verdadeiramente que não se trata de um mistério, mas de uma contradição interna, a não ser que Deus exista” (IDEM, Dios y el hombre… op. cit., p. 86; cfr. pp.87-89.94-97).

483 SCHILLEBEECKX, E., Función de la fe…op. cit., p. 74.

484 Cfr. Ibidem, p. 74;IDEM, Diós y el hombre… op. cit., pp. 79-87.197-199. 485 SCHILLEBEECKX, E., Función de la fe…op. cit., 74.

486SCHILLEBEECKX, E., Dios y el hombre… op. cit., p. 197. “Esse excesso que há no homem, ou seja, o

154 Alguns seres humanos limitam-se ao horizonte puramente intramundano, limitando- se a um puro humanismo. Pelo contrário, o catolicismo chega a um “horizonte teísta absoluto”, remete para um absoluto pessoal. Nesta perspetiva, a antropologia abre-se à teologia, à transcendência487. Afirma Shillebeeckx que o catolicismo “remete acima de si mesmo até a um Deus pessoal… A realidade revela-se a si mesma ao espírito do homem como apontando para Deus. O espírito humano não faz mais do que seguir passo a passo, graças a um ato projetivo, o dinamismo objetivo que existe na realidade. Deste modo, o espírito é dirigido, não por uma projeção subjetiva, mas pelo dinamismo objetivo, ôntico, poderíamos dizer, da realidade, até à existência pessoal de Deus, sem a qual o conteúdo da minha experiência seria intrinsecamente contraditório”488.

Schillebeeckx afirma assim a abertura da realidade a um “horizonte absoluto pessoal”.

3.2- O dinamismo da realidade no aspeto teológico

Schillebeeckx aplica à realidade da Revelação, da salvação e da fé a atrás referida filosofia do conceito começando pelo dinamismo objetivo da salvação, quando trata da natureza própria do conhecimento concetual de fé. Na linha de São Tomás, este teólogo holandês afirma que “os conceitos de fé possuem um conteúdo que nos orienta positivamente para a realidade da salvação”489. O ponto de partida deverá ser a própria realidade, em “obediência às vozes silenciosas do ser” (Heidegger). A linguagem humana é meio de revelação dos segredos do ser, pois o homem não é o senhor do ser, mas o “guarda

motivo pelo qual afirmamos a Deus, é a repercussão do mistério íntimo deDeus no homem e no mundo” (Ibidem, 198).

487 Cfr. Ibidem, pp.198-199. 488 Ibidem, p.85.

155 do ser”490. “A revelação é, primariamente, uma realidade viva que vem até nós. A

compreensão crente consiste em dar resposta a um chamamento objetivo, real”491.

A realidade dinâmica que se nos oferece é a que tornou possível, tanto os textos primitivos do cristianismo, como as diversas formulações do Magistério e da teologia. Assim, está plenamente justificada a necessidade de uma orientação para a realidade de salvação dada, que nos faz continuamente elaborar novas formulações que vão aparecendo ao longo da história..

Uma vez que a realidade da salvação é dinâmica, a tarefa de a interpretar deve ser continuamente feita em cada época determinada.

3.3- Implicações nas hermenêuticas

Schillebeeckx relaciona o “dinamismo objetivo” da realidade de salvação com os problemas do sensus plenior e do desenvolvimento do dogma. “A verdade não existe formalmente num livro ou numa palavra, mas no espírito do que escreve ou fala, escuta ou vive”492. A revelação está formulada em palavra humana, pelo que contém uma “abertura

profética”, cujo significado só se alcança pouco a pouco na vida da Igreja. Isto torna possível que na Escritura surja o sensus plenior do sensus litteralis, mas o primeiro deverá colocar-se sempre no prolongamento do segundo493. Diz o autor: “O significado humano da Escritura, que o exegeta deve reconhecer, é precisamente humano na sua divindade. Há nesta palavra humana um plus, um dinamismo objetivo, do qual a Igreja só lentamente se torna consciente… Nos escritos, há um certo dinamismo objetivo que orienta obscuramente para o que será entendido mais tarde e expressado claramente pela Igreja

490 Cfr., SCHILLEBEECKX, E., Interpetación de la fe… op. cit., p. 55.

491 SCHILLEBEECKX, E., La presencia de Cristo en la Eucaristia, 2 ed. (Madrid 1972) 194. É a própria

realidade da salvação que nos urge e no seu dinamismo objetivo fundamenta o “sensus plenior”, a busca sempre atual de mais diversos níveis ( pp. 24.183-188); IDEM, Diós, futuro del hombre…op. cit., p.23.

492SCHILLEBEECKX, E., Revelación y teologia…op. cit., pp.182-183. 493 Cfr., Ibidem; cfr., p. 191.

156 como palavra de Deus… É uma explicação do que estava já presente de uma maneira vaga na consciência dos apóstolos”494.

À teologia compete explicitar o excesso de sentido da revelação. Foi o que fez toda a tradição cristã. O sentido literal do Antigo Testamento remete para Cristo. O Novo Testamento fala de “abertura de sentido” para entender o antigo (cf. Lc. 24, 45). O que foi escrito no antigo testamento foi dito também para nós (cf. 1 Pd. 10, 12), podemos contemplar sem véu a glória do Kyrios do Antigo Testamento (cf. 2 Cor., 3, 14).