Hardy et al. (2002) afirmam que embora a evolução do termo desenvolvimento sustentável tenha sido impulsionada pelo aumento da consciencialização ambiental nas décadas de 60 e de 70, pode-se defender que o conceito de desenvolvimento sustentável teve a sua origem muitos anos antes, assumindo três formas: uma visão para a conservação da natureza (a conservation vision), uma visão sobre o envolvimento da comunidade (a community vision) e na teoria económica (economic theory).
a) A conservação da natureza
Uma das primeiras manifestações da preocupação com o desenvolvimento sustentável no contexto do turismo pode ser encontrada na Mesopotâmia, milhares de anos antes de Cristo, com a criação de reservas de caça para a elite. Outros exemplos da antiguidade consideram-se antecessores da noção de desenvolvimento sustentável, na medida em
que revelam a tomada de consciência da necessidade de se preservar os recursos naturais para utilização no futuro.
É possível identificar, na história do mundo ocidental, em particular a partir de meados do séc. XIX, diversos períodos de preocupação com o ambiente natural. A visão romântica do séc. XIX – que valorizava os valores espirituais em relação aos materiais e que encarava os homens como parte da natureza e não como seres a ela superiores –, constitui um antecedente do desenvolvimento sustentável, na medida em que levou à criação dos primeiros parques nacionais, quer na América do Norte, quer na Austrália.
No séc. XX, no final dos anos 40 e início dos anos 50, evidencia-se um novo surto desta visão com a fundação de diversas organizações ambientais, tais como a União Mundial para a Natureza, em 1948 (que inicialmente adoptou o nome de International Union for the Protection of Nature, sendo hoje em dia conhecida por World Conservation Union) e o Fundo Mundial para a Protecção da Natureza, em 1961 (fundada como World Wildlife Fund e actualmente denominada por World Wide Fund for Nature) e o aparecimento de várias publicações a promover a protecção do ambiente, tais como
Tragedy of the Commons, de Hardin (1968, citada por Hardy et al., 2002) e Silent Spring, de Carson (1962, citada por Hardy et al., 2002).
A partir dos anos 70, evidencia-se um novo surto de consciencialização ambiental: entre 1972 e 1986, o número de organizações ambientais passou de 8 para 113 (Brown, 1996, citada por Hardy et al., 2002).
b) A teoria económica
O efeito do aparecimento, no séc. XIX, de uma corrente favorável à conservação da natureza e dos recursos naturais foi tão significativo que se estendeu à teoria económica. A investigação dirigiu-se para a produção, especialmente agrícola, e para os factores que afectam o respectivo rendimento, nomeadamente o ambiente, fazendo com que, em meados desse século, o enfoque fosse dirigido para a industrialização, para o crescimento económico e para a prosperidade.
Mais tarde, os modelos económicos do pós-guerra – que visavam a retoma económica dos Países Industrializados – também se basearam em pressupostos similares a estes, assumindo que os problemas da pobreza e do excesso populacional poderiam ser resolvidos através da tecnologia. Esses modelos – como por exemplo o de Myrdal, proposto em 1959 e o de Rostow, em 1960 – tiveram sucesso, em parte, na medida em que permitiram o aumento da produção industrial, mas por outro lado falharam porque levaram à escassez de factores agrícolas, devido ao aumento da população mundial. Assistiu-se à desflorestação, desertificação e urbanização massiva. A ocorrência de problemas sociais, como o aumento da pobreza e das desigualdades sociais, causados pela industrialização, foi inevitável, em particular nos Países em Desenvolvimento.
O insucesso revelado por estes modelos que assentavam nos pressupostos da economia do desenvolvimento – nomeadamente, o Plano Marshall e o Programa de Recuperação da Europa, que não tiveram resultados quando aplicados às colónias – alertou para a necessidade de se desenvolverem modelos alternativos que tivessem em conta as consequências ecológicas, ou seja, os impactes ambientais da expansão económica. Até essa altura, muitos economistas defendiam que os problemas do ambiente eram questões de falha de mercado e que uma simples aplicação da teoria do bem-estar serviria para curar todos os males, inclusive o desemprego e a pobreza.
Em meados da década de 60, é proposta a integração da economia e do ambiente num sistema único, na busca de um equilíbrio entre ambos. Em resposta a este desafio, e perante a falta de sucesso dos modelos anteriores, surgem numerosas publicações chamando a atenção para a necessidade de um desenvolvimento alternativo mais sustentável (Bernstein, 1973; Meadows et al., 1972; Hamilton, 1969; Mishan, 1967; citadas por Hardy et al., 2002). Entretanto, na teoria económica, dá-se início à avaliação dos efeitos ambientais. Aparece a “economia do ambiente”, que se debruça sobre o estudo das relações entre o homem e o ambiente e, mais tarde, nos anos 80, a “economia ecológica”, com a preocupação de integrar a gestão ambiental com o bem-estar das gerações futuras e incluir nos sistemas de contas nacionais aspectos como a degradação do capital natural e as dimensões sociais e culturais. A “economia ecológica” constitui, assim, um dos primeiros passos para a integração de diferentes disciplinas e teorias sobre o desenvolvimento sustentável, que vão desde o antropocentrismo ou tecnocentrismo, ao biocentrismo ou ecocentrismo.
c) O envolvimento da comunidade
Muitas vezes se afirma que a tentativa de conciliar a conservação dos recursos com o desenvolvimento económico foi precursora do conceito de desenvolvimento sustentável – e, por conseguinte, da noção de sustentabilidade do turismo –, esquecendo o papel que os aspectos socioculturais desempenham no desenvolvimento turístico sustentável. Ora, no âmbito da investigação em turismo, houve uma evolução considerável nas abordagens que têm sido efectuadas ao envolvimento e à participação da comunidade local no desenvolvimento do turismo.
Os primeiros estudos quase invariavelmente apontavam os benefícios que o turismo poderia trazer para a comunidade receptora, contribuindo para acelerar o desenvolvimento da sociedade ou, ainda, servindo como um instrumento de desenvolvimento das regiões periféricas, de acordo com a teoria da difusão (diffusion
theory).
Contudo, houve uma mudança de atitude a partir do momento em que certos investigadores começaram a denunciar a ocorrência de impactes negativos sobre as comunidades de destino. A atenção passa, então, a dirigir-se para o estudo dos impactes do turismo sobre a comunidade, dando origem à construção de modelos de desenvolvimento por fases ou por etapas (conhecidos na literatura por stage models ou
step models).
De acordo com Pearce et al. (1996), estes modelos incluem a tipologia de turistas de Smith (1978, citada por Pearce et al., 1996), que inclui sete categorias – do turista
explorador ao turista charter; o “irridex” ou índice de irritação de Doxey (1975, citada
por Pearce et al., 1996), que compreende quatro fases – euforia, apatia, irritação e
antagonismo; as Estratégias de Ajustamento ao Turismo por parte dos residentes, de
Dogan (1989, citada por Pearce et al., 1996), que englobam cinco fases – resistência,
retirada, manutenção de uma fronteira, revitalização e adopção; e o Ciclo de Vida de
um Destino de Butler (1980, citada por Pearce et al., 1996), que prevê as fases de
exploração, envolvimento, desenvolvimento, consolidação, estagnação e declínio ou rejuvenescimento.
A partir dos anos 80, começa a evidenciar-se uma nova tendência no sentido de valorizar o envolvimento dos residentes no turismo. Simmons (1994, citada por Hardy
et al., 2002) afirma que os residentes são uma parte importante da “atmosfera de
hospitalidade” do destino e um recurso fundamental para a sustentação do produto turístico; outros autores defendem, igualmente, que a comunidade é um recurso ou um parceiro estratégico, no contexto da gestão de áreas protegidas, tendo em vista o desenvolvimento sustentável do turismo (Bramwell e Lane, 2000; Dudley et al., 1999; Leverington, 1999; citadas por Hardy et al., 2002); outros, ainda, reconhecem a importância da participação da comunidade para se atingir a sustentabilidade do turismo (Joppe, 1996; Simmons, 1994; Ap, 1992; Liu et al., 1987; citadas por Hardy et al., 2002).
d) O modelo proposto
Hardy et al. (2002) ilustram a evolução do conceito de turismo sustentável a partir da combinação das teorias apresentadas por Clarke (1997), Jafari (1990) e Oppermann (1993), com o objectivo de fornecer um quadro metodológico para a construção de teorias mais substanciais, tendo em vista o desenvolvimento do conceito de turismo sustentável e a sua implementação.
Figura 2.15
O contexto conceptual e operacional onde evoluiu o conceito de turismo sustentável
Visão económica Visão
conservadora Visão comunitária
Resposta
académica Resposta do sector
1880 Industrialização e Crescimento Económico Visão Romântica (Hall, 1998) Protecção dos recursos (e.g. Parques Naturais) 1940 Paradigma do Desenvolvimento por Etapas 1946: Rostow 1947: Plano Marshall 1948: Formação da IUCN 1950 1951: Programa de Recuperação da Economia Europeia 1959: Myrdal Turismo de Massas 1960 1966: Economia do Ambiente 1967: Paradigma da Dependência (Frank) 1961: Criação do WWF 1964: Christaller Abordagem de defesa
1969: Hamilton apela ao desenvolvimento para conservar os recursos
1970 1972: Conferência de Estocolmo sobre o Ambiente Humano
1978: Economia
Ecológica (Holding) 1976: Modelo Irridex de Doxey 1979: Cinco fases de ajustamento de Dogan 1973: Thurot e a Plataforma de Precaução 1976: Miossec 1980 1980: Estratégia de Conservação do Mundo (World Conservation Strategy) 1983: Schlenke e Stewig Plataforma de Adaptação 1980: Modelo de Butler do Ciclo de Vida 1982: Paradigma da Dependência (Britton) 1982: Acordo WTO/UNEP 1987: Our Commom Future Apelo para um
turismo alternativo 1991: Preocupação com a Terra Plataforma Baseada no Conhecimento Científico
Guias para o sector com enfoque ambiental Popularização do Turismo Sustentável 1992: Cimeira da Terra (UNCED) Agenda 21 para o Turismo
1990 Ênfase no papel da comunidade (Simmons, 1994; Bramwell e Lane, 2000) Centro de Cooperação e Pesquisa para o Turismo Sustentável (Austrália)
Fonte: Adaptado de Hardy et al. (2002: 489-90).
De acordo com estes autores, este quadro permite esclarecer vários aspectos importantes.
Em primeiro lugar, o conceito de turismo sustentável evoluiu em reacção a três paradigmas dominantes: a teoria económica, o envolvimento da comunidade e a conservação do ambiente. Contudo, neste processo, os factores económicos e ambientais têm merecido maior atenção do que os aspectos socioculturais (Butler, 1999; Farrell, 1999; Twining-Ward, 1999; citadas por Hardy et al., 2002), apesar do enfoque das primeiras definições ser atribuído ao bem-estar e à equidade inter e intra-gerações. Esta situação fica a dever-se, provavelmente, às dificuldades associadas ao estudo do comportamento e das percepções humanas.
Além disso, as percepções sobre o turismo sustentável alteraram-se sobremaneira desde que o conceito foi utilizado pela primeira vez nos anos 80 (Clarke, 1997, citada por Hardy et al., 2002). Uma vez que o turismo sustentável é um conceito condicionado pelo contexto social, para que se atinja a sustentabilidade do turismo é necessário identificar e consultar todos aqueles que são afectados pelo turismo (stakeholders) e atender às suas necessidades subjectivas. Deste modo, esta abordagem integrada aos
stakeholders inclui, não só, os que representam os interesses do ambiente e do
desenvolvimento económico, mas também as comunidades e a cultura local. Apesar de se reconhecer, na literatura, a importância do envolvimento da comunidade local, só muito recentemente é que se começaram a incorporar os interesses das comunidades e da cultura local no planeamento turístico (Bramwell e Lane, 2000; Butler, 1998; citadas por Hardy et al., 2002).
Em terceiro lugar, a partir da leitura do quadro e tendo em conta a análise efectuada anteriormente às teorias em presença, Hardy et al. (2002) afirmam que é evidente que há uma diferença fundamental entre as teorias económicas e as teorias do turismo: enquanto as teorias económicas, tais como a de Myrdal (1959, citada por Hardy et al., 2002) e a de Rostow (1960, citada por Hardy et al., 2002), são proactivas e procuram dar resposta aos problemas existentes, facilitando a mudança, as teorias do turismo são reactivas, ou seja, desenvolvem-se, em grande medida, como uma reacção às teorias económicas prevalecentes e aos problemas ambientais, incluindo-se, neste processo, o conceito de turismo sustentável.
Atendendo a esta natureza “reactiva” do conceito de turismo sustentável, Hardy et al. (2002) chegam a questionar a possibilidade do turismo sustentável se desenvolver em termos teóricos e práticos, podendo nunca passar de uma retórica de reacção (reactionary rhetoric, Hardy et al., 2002: 490). Não há dúvida que, muitas entidades do sector, desde empresários a autoridades governamentais, têm adaptado a sua actividade, tendo em vista a sustentabilidade do turismo. Contudo, é discutível se esta actuação tem provocado alterações significativas no debate, ou apenas conduzido a meras alterações de cosmética (Mowforth e Munt, 1998, citada por Hardy et al., 2002). A não ser que se consiga demonstrar que é possível atingir a sustentabilidade do turismo por todos os grupos de stakeholders, corre-se o risco de que venha a acontecer o mesmo que aconteceu em relação ao ecoturismo, cuja banalização do termo levou a que fosse
conotado com pouco mais do que um argumento de marketing (Wight, 1993; citada por Hardy et al., 2002).
Em jeito de recomendação, Hardy et al. (2002) defendem que as futuras conceptualizações do turismo sustentável devem atribuir a mesma atenção à comunidade local, que à economia e ao ambiente, sendo isto possível de se atingir através de processos que fomentem o envolvimento dos stakeholders:
“Future conceptualisations must address whether sustainable tourism is a process whereby balances should be struck between the environment, economy and community issues or whether it is up to the community to decide where the balance should lie. In the context of sustainable tourism, this is a philosophical debate which requires resolving the potentially conflicting concepts of an empowered community versus ‘balanced’ decisions being made for the ‘greater good’. More discussion and research is needed to resolve this issue” (Hardy et al., 2002: 491)
Os autores sugerem, assim, uma abordagem de operacionalização do conceito que adopta uma perspectiva de Gestão e recomenda que se fomente o envolvimento de todos os stakeholders do turismo para que seja possível atingir um turismo sustentável: a denominada análise dos stakeholders, cujos fundamentos teóricos decorrem da teoria dos stakeholders. Por ser esta a abordagem perfilhada no presente trabalho de investigação, o tema será retomado no próximo capítulo, a propósito das abordagens de operacionalização da sustentabilidade do turismo ao nível dos destinos turísticos.