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Notre proposition : MMHC incrémental

Tarde de quinta-feira, mercado central de Fortaleza. Cheguei no meio da tarde e meu objetivo específico naquele dia seria aferir um dos prováveis meios de escoamento das peças produzidas pelos membros do Centro Cultural Mestre Noza. Nutria a esperança de encontrar um local, um ponto de venda, um box especializado em arte e artesanato popular regional. A ideia primordial era mensurar a valoração das obras por pessoas fora desta bacia imaginária.

Os “gringos”, como comumente são chamados os turistas-compradores do exterior e o pessoal do Sul, são identificados como os compradores da arte local. É válido explanar que para os artistas do Centro Cultural Mestre Noza os turistas-compradores do Nordeste são associados aos compradores de imagens de santo e ex-votos.

Após caminhar por todos os andares e com certo desânimo constatar a falta de espaço que é dada à produção artística do Cariri num dos maiores locais de comercialização de produtos típicos, ou seja, de produtos regionais, cheguei enfim a um box ao fim do terceiro e último andar do mercado. Já a caminho dos banheiros e fora dos corredores principais encontravam-se os dois vendedores exclusivos de esculturas (não só do Cariri) e seu respectivo acervo.

Passei em direção ao banheiro e numa primeira visualização identifiquei o box com maior variedade. De fronte aos boxes, encontravam-se disponibilizadas algumas esculturas grandes que, enfileiradas, não denotavam a qual dos dois pertenciam. Na volta do banheiro, entrei no de maior diversidade. Perguntei por uma imagem de Santo Antônio “estilizada”. A questão era colocada para identificar se o vendedor em questão conhecia a terminologia que comumente era empregada no Centro Cultural Mestre Noza.

Imagem 35 – Santo Antônio, autor incerto.

Fonte: Arquivo do autor.

Foi então que o vendedor de estatura magra e alta, com traços indígenas, caboclo em verdade, se dirigiu para as esculturas postas em frente ao box e pegou uma escultura longilínea, característica que tipifica a obra “estilizada” para a região do Cariri, entregou-me e disse: “Taí, é desse jeito que você tá procurando?” Afirmei com a cabeça e comecei a aprofundar a conversa perguntando-lhe: “É de Juazeiro? De quem é?” Ele olhou a estátua das mais diversas formas possíveis e constatou: “De quem é não tem dizendo não e nem eu me lembro. Mas eu acho que é de Juazeiro sim, pelo tipo, sabe?”

Após uma aproximação maior com o campo, pude constatar, por comparação, que o modo de exposição de santos realmente era originário de algumas peças produzidas em Juazeiro, comparando a imagem anterior com um Padre Cícero (imagem abaixo) que adquiri depois, feito por Everaldo, um dos principais “fazedores” de imagens do santo que trabalha no Centro Cultural Mestre Noza e que assina suas peças colocando na base suas iniciais JESF. Vi que bem poderia ser uma peça de lá, como também poderia ser uma imitação desse tipo de representação de santo tão comum em Juazeiro do Norte.

Imagem 36 – Padre Cícero de autoria de Everaldo

Fonte: Arquivo do autor.

Ele me entregou a escultura e eu repeti seu gesto como quem contempla algo, avaliando, mensurando... indaguei o preço. “É 80 conto essa daí”. Repliquei que achava caro, onde fui prontamente rebatido: “Mas rapaz isso é uma obra de arte, quem já viu obra de arte desse preço. Caro é umas que eu vendo aqui de vez em quando de 1000, 1000 e pouco... agora, essa daí tá de graça!”

Confesso que não repreendi o susto que tomei quando o vendedor disse aqueles valores. “Quanto?” O vendedor riu, dizendo que é porque depende de um monte de coisas e tem vezes que se chega a valores como esse ou maiores. Insisti para que me explicasse...

Maiores quanto? Era ele mesmo quem vendia? Foi então que me apresentei como um pesquisador da universidade que estava fazendo um estudo sobre a arte produzida em Juazeiro do Norte e que o fato de estar ali era para analisar as formas de venda, quem compra este tipo de peça fora do ambiente de produção. Pedi, então, para contar como essas coisas eram precificadas, como era que ele negociava com os artistas.

“Ah, então você vai gostar de ouvir essa. Você já ouviu falar de Cizin? Ele é de lá daquelas bandas.85 Pois o Cizin tem obra que o pessoal que negocia consegue vender peça até por uns 2000 paus, acredita?” Questionei o porquê dessa valorização. E ele começou uma narrativa contínua, um causo, sobre como precificou uma obra deste mesmo artista certa vez.

“Eu nem sei dizer, as peças dele são assim meio toscas sem acabamento. Mas parece que é isso que o pessoal gosta... Pra você ter ideia teve uma vez que ele veio aqui trazendo um bicho grande parecido com esse Santo Antônio aí.” Relatou ainda que, no dia, o artista já encostou em seu Box demonstrando aperreio, querendo saber se ele não queria ficar com a peça, mas pra comprar mesmo86.

Segundo o dono do box, Cizin chegou dizendo que se tratava de uma imagem de São Francisco e lhe havia estipulado um preço de 100 (cem) reais. Segundo meu interlocutor, o objetivo de Cizin era apenas voltar para sua cidade, no interior do Estado.

Enquanto eu conversava com ele chegou um cara brancoso e ficou olhando as coisas, antes de eu ir atender ainda perguntei o que é que tinha dado na cabeça dele pra ele fazer um São Francisco daquele sem passarinho nem nada. Foi aí que ele explicou que tinha tido uma raiva danada enquanto fazia o santo e que quando se fazia um santo não se podia ter raiva nem pensar em coisa ruim e que ainda tentou mais não deu pra terminar. Pois o cara que tava aqui na hora e tava só escutando pediu para ele repetir a história. Cizin repetiu e o cara se interessou pela obra. Quanto é e tal? Percebi logo que o cara não era daqui mas fiquei calado foi aí que o Cizin deu a deixa, fala com ele aí que é ele quem vende eu só faço. Dei logo o preço, 1200 reais. O cara começou a pechinchar e nos 1000. O cara saiu, voltou pegou e levou. Quando peguei no dinheiro quis dar uns 800 pro Cizin... ele não aceitou não, disse que o preço que ele tinha pedido era 100 e que só aceitava os 100, se eu consegui mais o problema era meu. Ainda insisti e não deu jeito... ele saiu só com 100. Tu acredita nisso?

85 À luz da época eu não sabia ao certo quem era a figura de Cizin. Cizin é um artista conhecido no Cariri

cearense. Apesar de ser considerado como sendo de Juazeiro do Norte, na verdade é de Aurora, Ceará. Houve um tempo em que Cizin esteve ligado à produção artística da região de Juazeiro, mas atualmente, já voltou para Aurora, onde reside com a família. A figura de Cizin como um grande artista deu-se por sua inserção em alguns trabalhos acadêmicos e porque sua obra tem sido vendida a galerias de arte em locais variados no Brasil.

86 É comum nesse tipo de negócio de arte popular o artista deixar a sua obra em consignação e, depois que for

vendida, fazer o acerto com o vendedor. Esse é o diferencial da questão contada. O artista queria não apenas vender a peça, mas queria logo o dinheiro.

Barganhei o Santo Antônio e comprei por 50,00 (cinquenta) reais. Sabia que o preço médio que se cobra num santo é de 1 (um) real por centímetro (a não ser em casos excepcionais como presépios ou outros trabalhos em miniatura de santos que demandam tempo), dessa forma não foi um mal negócio. Peguei um cartão do agora conhecido Daniel, que passou a ser meu contato numa das áreas de maior fluxo turístico e de venda de artigos regionais do Ceará, o Mercado Central.

Logo que saí, tratei de anotar os detalhes da conversa. Pensei em aproveitar a história para depois verificar a ideia de uma economia de ciclo curto, como Florence Weber (2002) observou entre comerciantes do interior da França, o que não deixa de ser. Mas a vivência com o campo me mostrou outras nuances possíveis de serem exploradas no causo em questão, como descreverei abaixo.

É por isso que esta narrativa, este causo, pode parecer descabida num subtópico que trate da religiosidade do artista. Em verdade, foi a primeira pista para um processo que acabei observando em outros artistas como Diomar das Véias. Certa vez, estava no Centro Cultural apenas observando o pessoal trabalhar, especificamente observava o comportamento de Diomar ao pintar uma obra que lhe fora encomendada.

Imagem 37 – Diomar pintando as “véias”.

Fonte: Arquivo do autor.

Diomar é um dos mais brincalhões, nunca fica por muito tempo parado, apenas trabalhando em suas obras. Normalmente, levanta, vai tirar uma brincadeira com um, com outro, com qualquer pessoa que esteja trabalhando no Centro no dia, bebe água e reclama de

fome. Passar uma manhã inteira quieto pintando? Eu ainda não o tinha visto fazer isso. Perguntei o que se passava para ele estar quieto daquele jeito e ele disse; “Rapaz eu recebi a encomenda desta obra e disse que entregava em 30 dias, segunda que vem faz 20 dias e eu quero ver se eu entrego antes do prazo. No caso aqui tem aquele negócio, eu já recebi a metade, mas não é por isso que vou fazer uma coisa de qualquer jeito”.

Diomar também é um dos artistas do Centro Cultural que mais demonstra uma visão comercial de seu trabalho, estava, sempre que podia, no Centro para manter o contato com o público. Além disso, é um dos que mais viajam para expor suas obras em feiras de artesanato. Com base nisso, dei rumo à conversa dizendo que ele fazia bem, afinal era o nome dele que estava na obra, era sua propaganda. Surpreso, fui retrucado de pronto:

Né isso não, é porque tem um pessoal que quando vende na encomenda lambuza a peça de qualquer jeito, não tem a preocupação de fazer com gosto se preocupando com cada cor que vai usar, de dar uma diferença pras outras que já fez... aí fica uma obra carregada e ele fica carregado também, as coisa começa a dar errado e ele fica sem vender por um tempo.87

Pude constatar que em outros casos esse ascetismo também é posto em prática, como não fumar enquanto está trabalhando ou evocar uma resignação a determinada situação, como numa época sem venda o artista se vangloriar que está trabalhando desde as 7 e 30 da manhã mesmo sabendo que não é uma época boa.

Há ainda a definição pelo oposto, como num caso contado enquanto falavam de suas primeiras viagens para as feiras ocorridas em locais distantes. Intitularam, numa dessas vezes, Hamurabi Batista como sendo de “pouca fé”, pois havia desistido de ir de pau-de-arara88 de Juazeiro para Belo Horizonte. Ele se defendeu dizendo que a cadeira de plástico que tinham lhe arrumado havia quebrado no retorno da estrada que leva pro Crato (a 11 km de distância de Juazeiro do Norte) e que, na verdade, viu que era um sinal para que não continuasse a viagem.

Não consegui deixar de comparar esses causos e chegar a pressupor que há na feitura da arte popular em Juazeiro um “ascetismo artístico”. Ascetismo aqui compreendido conforme a definição weberiana clássica, mas que é adjetivado pelo fazer da arte.

A ascese de onde deriva o ascetismo, etimologicamente, significa o exercício prático que leva à virtude, o termo foi apropriado por Weber (2005) no intuito da definição e

87 Entrevista no Centro Cultural Mestre Noza com Diomar, Verino, Maurício em maio de 2009.

88 Meio de transporte comum na região, constitui-se num caminhão de carroceria que coloca pedaços de madeira

de uma extensão a outra da carroceria fazendo-os de bancos para as pessoas sentarem. Há uma coberta de lona na carroceria que serve de proteção parcial contra o sol e a chuva.

compreensão do comportamento dos quackers, ascéticos religiosos de origem saxã. Weber, dessa maneira, construiu um ethos típico de uma linhagem de protestantes que irromperia no capitalismo, não como conhecido agora, mas um capitalismo originário. Weber o fez relacionando a religião e a economia, onde os envolvidos, ao seguirem seus preceitos morais e religiosos, acabam determinando novas formas de relações materiais a partir de um ordenamento imaterial.

O relacional se faz presente nos causos narrados e aqui comparados, especificamente a relação entre religião e o fazer artístico. Nessa relação pude constatar que há um conjunto de valores e normas transcendentes que são incorporados na prática da arte, algo que remonta à necessidade de pureza e resignação para atingir a virtude. A virtude da aceitação, do reconhecimento e da arte. O que impressiona nesse tipo de causo é que, na maior parte das vezes em que os artistas do centro dizem estar trabalhando numa obra, há arengas – troca de insultos e brincadeiras – entre eles. Mas há alguns momentos em que um deles se afasta e, calado, escava um pedaço de madeira até que a forma comece a aparecer. Durand (2002) diria que, nas relações sociais, os artistas parecem estar sob a égide de Dionísio e, na prática da sua produção artística, de Apolo. Como colocar duas situações contrárias dentro do mesmo ambiente? Oliveira (1983) já demonstrou como Lévi-Strauss resolveu esta situação em sociedades distintas, sistematizando a complementaridade. O que nos resta? Talvez aceitando o que intitulamos outrora de ethos barroco.

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