Zé Celestino, 59 anos, mas, no registro de nascimento, atrasado pelos pais, o faz ser mais novo, 56 anos, dos quais, 42 só de arte. No ano em que nasceu, o pai comprou a casa em que mora atualmente. Nunca tentou a vida fora de Juazeiro, acredita que seu renome é devido a Juazeiro do Norte, está ligado à cidade e é onde quer ficar. Não conseguiu o título de Mestre, apesar de ter entregado, segundo ele, todos os papéis necessários71. Fez de tudo da parte sacra, popular de tudo já fez. Há muito mestre que é velho, mas não tem o tempo de artesanato que ele tem.
Celestino foi um dos fundadores da AMAR, uma associação de artesãos que já não é mais ativa, junto com Stênio Diniz. Dentro da AAPC é um dos mais antigos. Casado desde os dezessete anos com a mesma mulher, teve oito filhos, criou seis, dois morreram “anjos72”, perdeu mais uma, só que já adulta. Desta última, cria duas crianças como se fossem suas.
Quando criança, afirma ter estudado até o Jardim, depois não conseguiu mais conciliar sua vida, trabalhando para ajudar o pai, com os estudos. Atualmente faz parte de um grupo de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Nesse projeto, está terminando o ensino médio, segundo ele: “Lá é tão bom que eu vou toda noite assistir aula, mesmo quando eu morava longe [...] Não tinha estudo, mas sempre quis ter, queria ter o conhecimento de outros lugares”.
Celestino começou trabalhando com o pai quando ele ainda era espingardeiro, junto com o avô e os tios. Quando foi proibida a produção de espingardas, começou a fazer “arremedos de lambú”, apitos que imitam pássaros comumente usados na caça. Trabalhou durante um tempo com o avô fazendo esses apitos e depois começou a fazer apitos diferentes de outros animais e, atualmente, só faz apitos os eróticos. Confessou-me rindo.
Noza morava próximo e deu umas dicas dizendo que quando fizesse um trabalho pusesse uma assinatura, pois o nome deles é o que daria o retorno e porque é o que dava o nome lá fora. Conheceu Noza depois que já estava velho, já tinha 60 anos só de profissão. Conheceu quando os Bezerra foram governantes do estado e fizeram uma cooperativa que, segundo Celestino, era “como uma cocada que cada qual tira um pedaço”. O Stênio Diniz é
71 Segundo Zé Celestino, ele nunca recebeu uma justificativa, mas vê que pessoas que não têm o mesmo tempo
de dedicação à profissão conseguem o título e ele não. Para ele, há uma clara motivação política, alguém que resolve apadrinhar determinado artesão.
72 No interior é muito comum chamar as crianças que morrem antes de ser batizadas de anjo. Daí, também, a
variação que se dá ao azul claro utilizado em caixões de criança, “caixão de anjo”, entre outras analogias feitas sobre o assunto.
que estava à frente, mas não deu certo, agora como e porque ela não foi pra frente eu não sei, sou mais de ficar em casa, não sabia o que acontecia lá por dentro.
Apesar de dizerem que muita obra de Celestino é melhor do que a de Noza, ele afirma que não, que é aprendiz de Noza e dos outros. “Eu não sou um grande artista eu sou uma pessoa que vivo guerreando a minha sobrevivência”. Atualmente se considera um conjunto entre artesão e artista, pois há momentos em que pode estar fazendo um artesanato ou uma escultura. Sobre a diferença, segundo ele o artesão usa a mão para fazer um móvel, qualquer coisa e tanto faz ser em madeira como em ferro, como em barro. Levantar uma casa... ele é um artesão. Agora quando se faz uma escultura, um santo está fazendo arte. Sobre como se sente, Celestino esquiva. “Eu me sinto um trabalhador o que der para eu fazer eu faço”. Em toda a sua vida só trabalhou com artesanato: como ourives, como fazedor de apito.
Dedé Tavares tinha uma oficina entre a Rua Alencar Peixoto e a Santa Luzia. Começou como polidor e, depois, passou a fazer algumas peças, mas nunca chegou a ser mestre ourives, pois não dava dinheiro porque era de classe menor, um polidor. Não tem ideia de quanto cobram por suas peças lá fora, e nem quer saber, o que importa é se vendeu e se vendeu tá vendido. O preço não está no tamanho, mas no acabamento da peça, se está no esquadro; se agrada o cliente, o tamanho não diz nada. Às vezes, uma peça pequena é mais cara do que uma grande. Toda semana vai ao CCMN.
Cada artesão tem uma opinião. Para ele, a AAPC valorizou o artesão porque é uma matriz e a pessoa vai lá e o pessoal ensina o caminho da casa da gente e a gente só ganha pelo que produz. Lá tem muito artesão que era menino de rua e hoje são grandes artistas. O artesão lá fora, depois da AAPC e do CCMN, tem muito mais valor, agora, depende do artesão.
Quanto aos programas de repassar o artesanato para os jovens do Horto, o caminho é trabalhar, não importa se é no artesanato. O problema dos programas, ele diz, é que as pessoas fazem mau uso.
O crescimento de Juazeiro fez crescer não só o valor do artesanato como de toda cidade, mas acredita que lá não tem público para isso; segundo ele, há pessoas que sequer sabem da existência do artesanato.
Celestino diz que vende para pessoas do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Estados Unidos e os principais meios são os que vão ao Centro, os que leem uma revista ou uma reportagem ou um catalogo. Sabe da existência de peças suas em museus pelo Brasil afora, já teve até oportunidade de vê-las em São Paulo. Entretanto, não sente vaidade quanto a isso, gostaria de ver suas peças ao lado de outros artesãos e artistas de Juazeiro, aí se sentiria feliz se tivesse o grupo. Porque isso ia ajudando a cidade a crescer, é o que importa.
De religião católica, Celestino, desde que nasceu, vai à missa todos os domingos e é devoto do Padre Cícero. A coisa mais preciosa que tem é um rosário que sua mãe lhe deu por uma promessa feita quando jovem. A promessa foi feita pela mãe em função de um momento difícil na vida do próprio Celestino. Ele narra que, certa vez, ao chegar do trabalho, morrendo de fome, ao tomar um caldo de carne muito rápido engoliu um nervo, se engasgou e quase morreu sufocado na mesma hora. Socorrido, foi levado às pressas para o hospital.
Na época, trabalhava para Pedro Gomes um comerciante de artesanato que vendia de tudo e ajudou muitos artesãos, inclusive ele, neste caso especifico, mandando chamar um médico. O caso, segundo Celestino, era tão complicado que o médico que foi chamado não via outra solução que não uma cirurgia. Enquanto esperava um anestesista, uma irmã, uma freira já idosa, se aproximou e disse à sua mãe que se soubesse uma reza para aquilo ela rezaria para ele ficar bom, ainda assim a freira saiu ensaiando uma reza. Para Celestino, crente nas coisas de Deus, aquele foi o momento de sua cura:
A fé dela e a minha foi tão grande que pus pra fora e não foi mais preciso operar, mas como feriu muito eu passei trinta dias só no líquido, e Pedro Gomes me sustentou durante trinta dias enquanto estava doente e foi nessa época que minha mãe fez uma promessa e esse rosário estava no meio da promessa pra eu usar.
Apesar da sua religiosidade e de toda a sua fé, a maior parte da obra de Celestino é pautada em outras temáticas, como mamulengos, animais e a mais conhecida são suas obras sobre a greve. Mas quando se trata de política, esquiva-se do assunto, acha que sua arte já é uma forma de participação política, porque tem que colocar as frases e segundo ele é neste momento que a sua obra é atual, pois: “Você coloca as frases que você quiser, então serve pra todo movimento”.
Quanto à ideia de trabalhar temáticas políticas, confessa que não foi sua: “Stênio deu a dica e eu lancei a obra”. A obra de uma greve com trinta peças é vendida por Celestino por mil reais. Sabe que é barata em relação ao que já ouviu dizer que cobram por ela em galerias de arte no Brasil afora. Mas ele não quer saber quanto cobram, o importante é por quanto ele vende e por quanto ele acha que vai conseguir vender melhor, mais rápido e com melhor valor. Todo o seu trabalho é natural, Celestino só lixa e passa cera, ele acredita que este tipo de tratamento valoriza mais, pois, quem não conhece, acha que é outro tipo de material.
Hoje em dia trabalha com umburana, mas, dependendo do cliente, trabalha com o que encomendarem. Se quiserem com pedra, garante que faz. Já trabalhou com pedra sabão, com pedra bruta. “Aprendi com um artesão lá em São Paulo que trabalha com ferro e fazia
escultura em pedra bruta. estive com ele no SESC Pompéia, é um cara jovem, é mineiro que mora em São Paulo, como é que é mesmo o nome dele...” Lembra Celestino sem vergonha de se dizer discípulo depois de velho.
Quando perguntado sobre as obras de alguns artistas, costuma falar bem de todos eles, justificando que tem de valorizar todos os trabalhos feitos no Juazeiro do Norte. Cada um tem seu estilo: “Tem gente que tem peça que não tem proporção, mas é o estilo dele e tem um porque de fazer daquele jeito.” Segundo ele, se pegássemos o desenvolvimento da escultura em Juazeiro do Norte você veria que Graciano começou copiando Nino, que antes da AAPC sequer fazia escultura, trabalhava com artesanato de produtos de casa, fazia pilões. Celestino narra que “quando Nino começou a fazer outras coisas, não tinha muita técnica de acabamento daí fazer aqueles animais meio sem forma e pintados com um monte de cor”.
Sobre o início do artesanato e da arte em Juazeiro do Norte, narra algumas histórias que lhe foram contadas pelo avô. Segundo ele, muita gente vinha de fora para Juazeiro e Padre Cícero apenas olhava pra pessoa e dizia o que ela teria que fazer para dar certo ali: “Vá pra cima da serra, vá plantar mandioca. O que ele mandasse a pessoa fazer, se a pessoa fizesse se dava bem”. Ainda sobre o artesanato nos tempos de Padre Cícero, segundo Celestino, “o meu padim Ciço era um artesão, ele fazia coisa em argila, fazia alguma coisa manual”.
Como exemplo, cita que quando seu avô chegou a Juazeiro com 40 anos, vindo de Patos, tinha até conhecimento com o pessoal do Cangaço, mas saiu corrido de sua cidade na Paraíba por causa da herança de terra que seu pai havia deixado e, segundo, ele Padre Cícero disse ao seu avô: “Aqui você vai renascer, e aqui ele ficou até morrer aos 103 anos”.
Segundo Celestino, o seu desejo não é ter é viver. Sua maior tristeza foi a perda de uma filha num acidente de moto, que até hoje ninguém sabe contar como aconteceu. Uma ferida que não cura. Sobre o Horto, Celestino diz que o pessoal que trabalhava no Horto com pouco dinheiro, não tendo a renda, acaba indo procurar coisa que dê mais produção e um dinheiro suficiente. Como se acostumou com pouca renda, quer só o suficiente para viver com a família. O caso que é que tem muitos que querem ter coisa que não está ao seu alcance.
O pessoal fica querendo o que não tem condições e fica buscando mais, fazendo o que não pode fora de seu limite. Tem que ter uma ganância, mas não uma ganância que lhe atrapalhe a vida. Sua grande parceria é com sua esposa, fala rindo que casou duas vezes uma primeira pra fugir e, depois, quando voltou casou no religioso.
Por fim, em relação as suas ideias, Celestino diz que, para fazer suas obras são tiradas um pouco dos antigos artesãos segundo ele, mas tem suas ideias próprias, o trabalho que ele faz não é pra ficar nem tão bem feita, nem mal feita. As mesmas peças ele faz com mais
detalhe. Celestino diz que se você faz um trabalho bem feito, as pessoas não querem porque acham que não é da pessoa, mas, se pedir, faz.