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iMMHC pour les domaines de grande dimension

B.8 Etude expérimentale

B.8.2 Résultats et interprétations:

B.8.2.4 iMMHC pour les domaines de grande dimension

Vez por outra ainda me pegava em pensamento com as narrativas que me foram contadas, os causos e as prováveis formas de repetição que poderia encontrar desse comportamento de diferenciação. Uma das questões que ainda ansiava por compreender, por aprofundar a análise era a da relação entre o religioso e o artístico entre os artistas do CCMN. Buscava uma chave analítica para isso, talvez a encontraria na teoria do dom (MAUSS, 2005), onde minhas questões primordiais, que giravam em torno da relação entre o interesse e desinteresse, fossem iluminadas.

O caso de Diomar, a ideia de que a peça trabalhada, a obra em construção se tornaria “carregada” na sua constituição se o indivíduo nutrisse uma má vontade na feitura, desencadeando uma série de eventualidades como, por exemplo, a falta de vendas. Esse tipo de situação remete ao que o próprio Mauss (2005) descreve e analisa apoiando-se no conceito de retorno ao lar de origem, observado por Hertz em sua obra etnográfica:

Compreende-se logicamente, nesse sistema de ideias, que seja preciso retribuir a outrem o que na realidade é parcela de sua natureza e substância; pois, aceitar alguma coisa de alguém é aceitar algo de sua essência espiritual, de sua alma; a conservação dessa coisa seria perigosa e mortal, e não simplesmente porque seria ilícita, mas também porque essa coisa que vem da pessoa, não apenas moralmente, mas física e espiritualmente, essa essência, esse alimento, esses bens, móveis ou imóveis, essas mulheres ou esses descendentes, esses ritos ou essas comunhões, têm poder mágico e religioso sobre nós. Enfim, a coisa dada não é uma coisa inerte. Animada, geralmente individualizada, ela tende a retornar ao que Hertz chamava seu “lar de origem”, ou a produzir, para o clã e o solo do qual surgiu, um equivalente que a substitua. (p. 200).

Há uma vasta obra que atualmente, em Antropologia principalmente, busca uma saída para esta chave analítica da economia do dom. Em Juazeiro, há, nesse sentido, a obra etnográfica de Campos (2005, 2006), que, numa tentativa de encontrar uma compreensão para o movimento Ave de Jesus, busca nas categorias de penitência, misericórdia e caridade uma sociabilidade típica de Juazeiro do Norte.

Para Campos (2005), seguindo a tradição da antropologia da vida cotidiana, o grupo Ave de Jesus em sua prática cotidiana revela uma situação em que a penitência e a caridade são vividas de forma diferenciada, remontando aos tempos bíblicos. A autora ainda identifica este comportamento como uma das pedras de toque do tipo de prática católica de Juazeiro, que segue este mesmo princípio, isto constituíra um ethos para autora.

Essa religiosidade, esse ethos, segundo Campos (2005), caracteriza-se por um movimento em que os romeiros que vão ao Juazeiro do Norte, por acreditar que ali é o local “escolhido”, acabam ficando, é como se houvesse, através da religiosidade popular, uma força centrípeta, algo que cada vez mais os impele ao centro, ao interior deste espaço de sociabilidade. Uma busca para dentro, de interiorização na cidade: “Os romeiros que para lá se movem caracterizam o que Segato (1999a) descreve como um processo inacabado de interiorização, de busca voltada para dentro” (p. 157).

O ethos que permeia os romeiros é o que está no território; estar ali faz o modo de vida daqueles indivíduos ser da forma que é “Simultaneamente, essa forma de expressão religiosa parece ter estreita relação com a promoção de um ethos corporificado no lugar, que se torna para muitos uma maneira de viver” (p. 170). A autora abrange suas análises e conclusões acerca do grupo que estudou e o faz universalizando o ethos da penitência que havia identificado como sendo o valor informativo e formativo de toda a sociabilidade construída em Juazeiro do Norte, como se percebe em sua passagem a seguir:

E isso, acredito, significa que a estética e o modo de vida local sejam infundidos numa moralidade particular no sentido de que não é necessário ser um penitente para sustentar o valor dessas práticas sociais de fundo religioso. Desse modo, entendo que a mendicância não é apenas parte da penitência, mas, na verdade, um aspecto central do cenário cultural do Juazeiro do Norte. (CAMPOS, 2007, p. 222).

Porém, meus dados contradizem essa generalização. Contrariam a afirmação dada pela autora, haja vista ter presenciado a indignação de Everaldo quando lhe fizeram a proposta de R$ 0,40 por peça e a de Verino sobre as placas que lhe encomendaram e ofereceram uma “mixaria”, segundo ele, que ainda completou dizendo “O pessoal pensa que artesão é pedinte?”

São essas contradições entre o que foi dito e que é visto, entre o que dizem os artesãos e artistas e o que depois desdizem que servem de alavancas enriquecedoras das entrevistas e conversas feitas. Uma vez dito algo, pode-se voltar ao assunto um tempo depois e, aos poucos, a lírica e a poética vão desvanecendo. Isso se dá principalmente quando se está em situação de conversa em que um indivíduo desmente o outro, em que as falas são negociadas entre eles até chegarem ao que acreditam ser uma posição mais próxima da realidade do fato.

Seguindo as orientações de Becker (2008) e seu método de pesquisa de campo, um interacionismo simbólico não determinista, voltei à história de Cizin algum tempo depois das observações de campo acima descritas. Becker, em sua diferenciação de pesquisa de campo, sugere que a melhor forma de se chegar a uma percepção própria do indivíduo sem o ruído originário do viés do pesquisador é fazer as pessoas, os sujeitos estudados, falarem entre em si enquanto são inquiridos sobre algo, uma conversa que tire a situação do formalismo da entrevista e permita que discutam, levantando categorias lógicas de suas vivências ao defenderem seus pontos de vista.

Segui este princípio e logrei surpresas positivas. Acredito que a partir desse momento a pesquisa tenha dado uma guinada na compreensão de algumas situações de campo. Entretanto, é mister discorrer sobre a chegada a este ponto crucial.

Num dia de quinta-feira, no mês de setembro, em prévias para as eleições para governador e passada mais uma fase dos festejos e romarias religiosos da cidade89, como os

89 O calendário de eventos de Juazeiro do Norte traz as seguintes romarias: Santos Reis, que ocorre no dia 06 de

janeiro; a romaria de São Sebastião, em 20 de janeiro e a de São Francisco, em 04 de outubro. As mais importantes, as que atraem mais gente são: a romaria das Candeias do dia 02 de fevereiro, a romaria do nascimento do Padre Cícero, no dia 24 de março, e a do seu falecimento em 20 de julho, a romaria de Nossa Senhora das Dores, em 15 de setembro e, por fim a romaria de Finados, em 02 de novembro.

próprios artistas se referiam, eu estava de bobeira90 no CCMN, numa manhã fresca, pouco típica para época, fazia sol, mas não calor, havia uma brisa branda que junto com a sombra dos tamarindeiros e fraco movimento de visitantes convidavam aos ali presentes a ficar de bobeira também.

No dia anterior, Everaldo, especialista em feituras de Padres Cícero, recebera uma encomenda de duas pequenas peças de 30 centímetros para uma faculdade privada da região. Ao ligar para o CCMN, a secretaria responsável pelas prendas para dois professores visitantes inquiriu o preço pelo telefone. A companheira de um dos artistas que estava por lá e atendeu foi perguntar a Everaldo, que respondeu simplesmente 40 cada. Um minuto depois ela volta sorrindo e replica para Everaldo se era quarenta centavos. Everaldo sorriu e perguntou se se tratava de uma brincadeira no que foi logo negado o que o fez mudar seu semblante e dizer em tom sério: “É quarenta reais se eles pedirem mais de cinco aí eu converso o preço”.

Quando voltou, a mulher já perguntou sobre o prazo, sobre a possibilidade de entregar duas na manhã seguinte por volta das nove horas, o preço tinha sido aceito. Everaldo havia acabado de concluir uma peça e confirmou que podiam ir buscar que as obras estariam lá esperando. Já era 17 horas e Everaldo começou a machadar uma madeira. Perguntei se daria tempo e ele logo disse: “Quando tá acertado sempre dá tempo né não? Tem conta pra pagar”. Sorriu e continuou o trabalho. Às 17:30h naquele dia fui embora, a maioria dos artistas já havia parado estavam guardando seu material e Everaldo continuava lá.

Everaldo é conhecido entre os artistas por sua personalidade forte, não é raro ouvir histórias de brigas suas em bebedeiras, inclusive com a polícia ou com policiais a paisana que tentam impor-se mediante sua profissão. Relatou-me uma vez, com orgulho, que um policial a paisana numa festa lhe empurrou em meio a uma discussão e disse-lhe que era da polícia para que ele tivesse respeito, em suas palavras: “Ora aí foi que eu parti pra cima mesmo, dei uns murro e me atraquei no pescoço do fi de uma égua!”

É comum ouvi-lo contar estes causos sorrindo e fazendo os outros sorrir. As narrativas quase nunca combinam com seu estereótipo magro, de estatura média e um sorriso sempre no rosto. Mas há sempre testemunhas de seus casos. O caso do policial contado acima foi testemunhado por Diomar que vaticinou ser verdade e disse: “Não me meti por que sabia que ele iria se sair dessa, não era a primeira vez... isso né flor que se cheire não, de besta só têm cara!”

90 Para o vocabulário local, que acredito estender-se a maior parte do estado do Ceará, a pessoa está “de bobeira”

quando não esta fazendo nada de importante nenhum trabalho ou algo de mais útil está conversando sem pretensões.

Sorrindo Everaldo contou que se tiver “tomado umas” aí ele se transforma. E continuou:

Né minha mentira não, teve uma vez que eu e Deley fomo pro um açude ali pra banda de Caririaçu passamo o dia bebendo aí quando a gente resolveu ir embora pra outra festa que tava tendo aqui compramo uma garrafa de cachaça com os últimos conto que nóis tinha e acunhemo na moto. Ora num deu noutra esse filho da mãe perdeu o controle numa curva lá e agente caiu. Eu me lasquei todo daqui até (mostrando a altura do ombro) o pé mas num deixei a garrafa cair e quebrar e ele saiu rasgando a cara no chão de preto fico bem branquim na hora. Quando eu me levantei meio tonto que eu olhei todo arrebentado e procurei por ele só vi a gemedeira cheguei perto ai vi que ele só tava lascado comecei a rir e mostrei que tinha salvado a garrafa abri lavamos os ferimentos com a cachaça bebemos umas duas doses

montamo na moto de novo e fomo simbora. (Grifos nossos).

Aproveitei o momento de descontração e utilizei o truque que Becker (2008) preconizara para o campo, anteriormente explanado. Lancei na roda de causos o caso supracitado de Cizin. Ora, Cizin é membro da AAPC mesmo que um pouco afastado. Os presentes sabiam de quem se tratava e lhes contei a história de Cizin, relatado anteriormente, sem dizer-lhes a maneira como interpretei, de maneira religiosa.

Num primeiro momento referenciaram uns aos outros de quem Cizin se tratava. Foi quando Diomar gritou, sorrindo, que aquilo era uma mentira. Verino partiu em defesa dizendo que este tipo de atitude era típico dele. Deley completou a informação dizendo que era mais ou menos verídica a informação e explicou, sem esperar que lhe interpelasse, informando que se ele desse um preço numa peça e o vendedor obtivesse um valor muito superior sobre ela ele não falava nada, ao contrário de alguns que iam reclamar e chorar dizendo que foi roubado pelo CCMN ou pelo vendedor quem quer que este seja. Diomar não demora muito a interpelar a opinião de Deley, “Pois é, agora vai dizer que num caso desse ele não ia falar nada... Menino aquilo ali é como qualquer um de nós gosta de dinheiro...”

Aos poucos Diomar foi revelando uma imagem de Cizin que não havia até então sido mostrada a mim. A imagem de um homem que, como qualquer um dos artesãos ali presentes, gosta de tomar cachaça, de brincar com os outros e de lucrar o máximo possível em sua produção. Diomar ainda narrou de como Cizin havia se comportado depois que conseguiu “arrumar” um comprador fiel, no caso, Newton Freitas, dono da Oboé Financeira, patrono de alguns artistas através da galeria de arte que pertence à financeira. Segundo Diomar, Cizin ligava e pedia adiantamentos para obras que ainda ia fazer, bebia o dinheiro, depois ligava pedindo mais.

Nada próximo ao ideal ascético construído em cima do causo que me foi contado. Em verdade, podemos até, em uma tentativa de encaixe teórico-empírico, inferir que o ascetismo estaria presente apenas no momento de produção da peça, entretanto seria muito difícil empreender tal análise, na medida em que o fato ocorrido, se não vulgarizado, não valorizaria a peça. O ascetismo ideal está, na verdade, no olhar dos de fora, dos visitantes, dos compradores. Isto ficou claro nesta roda de causos daquela sexta à tarde.

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