Uma grande contribuição de Hermann Gunkel acerca do gênero literário foi perceber que a identificação do mesmo nos permite respeitar o escrito em sua intenção. A partir desta contribuição, a identificação do gênero literário tem sido de extrema valia na pesquisa exegética de textos bíblicos. Conforme José Severino Croatto238 a distinção do gênero é
236Apresenta em seu segundo m em bro a continuação da idéia do prim eiro m em bro, acrescentando- lhe novos aspectos ou explicações.
237Sendo um a variante do paralelism o sintético, desenvolve um pensam ento de m aneira gradual, em linhas sucessivas, até chegar a um clím ax.
238Apocalíptica e esperança dos oprim idos, contexto sócio- político e cultural do gênero apocalíptico, em Apocalíptica esperança dos pobres, Ribla nº 7, p. 15- 21.
importante, pelo fato do mesmo (seja qual for), acrescentar algo ao sentido do texto, uma vez que orienta sua leitura como um canal transmissor da comunicação entre o escrito e o leitor.
Ao tratarmos de textos com perspectivas escatológicas nos encontramos diante de uma pluralidade de gêneros literários, uma vez que o tema escatológico não se limita a um único e específico gênero de literatura. Ao contrário, essa perspectiva (como tema teológico) se encontra imersa em tipos variados de gêneros literários.
Isaías 24,1-6 apresenta uma escatologia marcada por um
apocalipsismo (conforme já tratamos) que não chegou ou alcançou
patamar de um apocalipse propriamente dito enquanto gênero literário. Conforme aponta Norman Gottwald239, diante de textos “proto- apocalípticos” ou “apocalipsistas”, como Isaías 24,1-6, nos deparamos com pelo menos duas matrizes, ambas no interior do profetismo pós- exílico, que mostram o crescimento de temas fundamentais na apocalíptica posterior; a 1ª está carregada do crescente conflito entre o bem e o mal; do julgamento numa dimensão universal e da transformação do cosmos e da história. Sua contribuição é acerca da perspectiva do oráculo dado por Deus; a 2ª emprega traços específicos, como: simbolismo, visões e um mediador (anjo) que as interpreta. Sua contribuição é acerca da perspectiva visionária, relativa à revelação direta de mistérios divinos por meio de visões.
Nossa perícope coaduna melhor com a primeira matriz, com característica oracular e não visionária. Por isso classificamos o gênero literário como “oráculo profético de julgamento ou admoestação”240.
239Norm an Got t wald, I ntrodução Sociolit erária à Bíblia Hebraica, São Paulo: Paulus, 1988, p. 542- 544. Para a 1ª m atriz aponta os textos: I saías 56- 66; 24- 27 e Zacarias 9- 14. Para a 2ª aponta Ezequiel e Zacarias 1- 8.
Esse nome utilizado na classificação do gênero é dado por Gunkel241 em sua análise de gêneros em Salmos, como um sub grupo de gêneros de representação em rituais cúlticos.
No estudo sobre os Salmos, Mowinckel considerou os oráculos de julgamento como liturgias, por entender que no culto encontra-se a matriz para a experiência da presença imediata de Yahweh. Para ele a celebração da realeza de Yahweh sobre a natureza e a história situa-se por trás dos hinos celebrativos da realeza de Yahweh e de ainda outros hinos, inclusive acerca de Sião.242
Porém, ao tratarmos do lugar vivencial desse oráculo isaiano, fazem-se necessários alguns outros elementos que transcendam os utilizados na discussão acerca dos Salmos.
Conforme a datação adotada neste trabalho e o ambiente histórico ao qual a mesma remete, que é o pano de fundo da redação de Isaías 24,1-6, consideramos de extrema importância alguns aspectos das experiências sócio-históricas vividas naquele contexto.
Lembramos da realidade fragmentária e conflitante dos judaítas no período da dominação persa como momento de frustração teológica e nacionalista, além da pluralidade de formas de se restabelecer como nação a partir dessa realidade de muitos conflitos internos e de grande diáspora243.
241 Norm an Got t wald, I ntrodução Socioliterária à Bíblia Hebraica, São Paulo: Paulus, 1988, p. 492.
242 I bid, p. 495.
243Devem os entender a questão da diáspora num sentido de espalham ento que se deu por m eios ou naturezas diferentes. Podem os considerar pelo m enos duas: por escolha própria e por im posição sócio-político- econôm ica. No prim eiro caso tem os a situação de quem preferiu se instalar em outras regiões no período do pós- exílio; no segundo caso, aqueles que se tornaram escravos de estrangeiros por endividam ent o e foram obrigados a se retirarem de I srael ( Judá) na condição de escravos.
Neste contexto, em particular com relação a Isaías 24,1-6, podemos considerar como produtores dessa perspectiva escatológica, profetas244 descontentes e desafeiçoados com a realidade de seu tempo.
As condições sócio-políticas extremas dessa época provocaram a necessidade de um realinhamento em linhas tradicionais para favorecer aos interesses étnicos e identitários do povo israelita, com o objetivo de salvaguardar um espaço judaico intacto dentro dessa situação, espaço este que se mostrou corrompido e em risco de extinção. Esse fim do espaço judaico tem sido considerado por muitos estudiosos como sendo, no imaginário dos grupos que adotam a perspectiva escatológica apocalíptica, o “fim da história” (como ponto final), por ser notória a distância entre a expectação e a realidade concreta, gerando com isso, uma real situação de privação, mesmo que relativa.
Entretanto, a perspectiva apocalipsista não se reduz à sensação ou expectação do fim da era como um todo, conforme entendem muitos estudiosos, na perspectiva de um escatón245; se assim fosse, estaríamos reduzindo-a a escapismo ou alienação por não surtir nenhum efeito concreto na realidade. Antes, tal perspectiva deve ser entendida como uma expectativa do fim das estruturas maléficas, com conotação de comprometimento com um novo início, talvez início de um tempo em que se faça necessário romper com tais idéias das estruturas vigentes que já estão interiorizadas no imaginário das pessoas, e não de acomodação ou validação dessas idéias e modo de viver. O fim é específico e não de tudo. Por isso a expectativa escatológica deve ser analisada sempre à luz da realidade sócio-histórica e nunca abstraída dela.
Diante disso, não é tarefa fácil perceber qual seria o momento vivencial em que esse escrito era provavelmente lido e ouvido, se em momentos de atos cúlticos ou ainda outros momentos específicos, mas
244A profecia brotando literariam ente do coletivo com o discípulos.
245Perspectiva da aniquilação da realidade m undana j untam ente com a im plantação de um a nova realidade cósm ica.
consideramos como elemento importante não apenas o momento na forma institucionalizada de transmissão da mensagem, mas também o ambiente que suscitou e possibilitou sua elaboração.
Sabemos que o momento vivencial tem o caráter de institucionalizar a transmissão da mensagem tendo como horizonte sempre o aspecto coletivo. Mesmo não sendo possível apontar com exatidão um único momento institucionalizado para a transmissão dessa escatologia, a mesma não deixou de ter seu aspecto coletivo que abrangeu grupo ou grupos de pessoas ao longo do tempo.
Por ser uma expectação marcada por ameaça e opressão, talvez sua transmissão tenha se dado de forma totalmente diferente das habituais, por serem essas modelos institucionais dominados pelas estruturas do poder vigente.
Arriscamos apontar como elemento importante acerca do momento vivencial de transmissão desse oráculo, os espaços religiosos no interior de agrupamentos de pessoas que vivem a realidade de privação e de ameaça à sua existência enquanto grupo em relação à sua identidade, sendo estes os porta-vozes e produtores dessa expectativa escatológica.