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No segundo ensaio biográfico que compõe o livro Personalidades do Espírito Santo, Maria Nilce (1980, p. 15) situa Adelpho Poli Monjardim (1903-2003) entre os ―intelectuais de maior cultura e relevo‖ naquele estado. Suas principais atividades foram no campo da política e das letras: no primeiro arco, além de deputado estadual, foi o primeiro prefeito de Vitória; no segundo, dedicou-se ao conto, ao romance de aventura, ao folclore, à biografia, à ficção científica e às fabulações de
malassombro — modalidade que atravessaria toda sua obra.82 Portanto,
diferentemente de Jayme Griz — cuja produção ficcional embora mais reduzida,
pode ser enquadrada numa mesma categoria —, a sua foi muito mais dilatada e
verborrágica. Entretanto, sua obra além de diversificada é desigual: entre os dezessete títulos de sua autoria, que inclui romances, biografias, uma coletânea de lendas e crendices do Espírito Santo e uma descrição geográfica da capital do estado, apenas quatro integram as narrativas curtas. Por ordem de publicação, são os seguintes livros: Novelas sombrias, A torre do silêncio, Sob o véu de Isis e Contos fantásticos.
Outro ponto, não menos visível e revelador do quadro a-reflexivo em torno da chamada literatura fantástica vigente no Brasil naquele momento, é a falta de clareza não apenas conceitual mas também na confusão de formas narrativas distintas, tais sejam a novela e o conto. Nesse sentido, Monjardim emprega equivocadamente o termo ―novelas‖ em um de seus livros: é evidente, em semelhante formulação, o pressuposto quantitativo segundo o qual a novela seria um gênero intermédio, com o número de páginas inferior ao romance e superior ao conto. Esse lapso, que desconsidera a configuração episódica e moldural da novela decorre, evidentemente, da própria conjuntura na qual o autor estava inserido, uma vez que tal nuance ainda não estava na ordem do dia nos estudos sobre narrativa
em nosso país. Por outro lado, também não está presente em seu trabalho — em
nenhum momento de sua escrita — qualquer delineamento em torno de uma
possível concepção do conto fantástico ou de algo que o valha.83 Nos primeiros
livros não há a mínima menção, nem mesmo nos títulos: não obstante, em Novelas
82 Entre os títulos publicados por ele, destaco os seguintes: o romance de aventura O tesouro da Ilha da Trindade (1942), Novelas sombrias (1944), Vitória física: geografia, história e geologia (1950), A torre do silêncio (1956), Bolívar e Caxias: paralelo entre duas vidas (1967), O exército visto por um civil (1968), o romance de ficção científica Um mergulho na pré-história (1976), O grande almirante (1976), Sob o véu de Isis (1978), Os imigrantes (1980), O Espírito Santo na história, na lenda e no folclore (1983), O Saldanha do meu tempo (1983), O preço da glória (1985), Brasil no ano 2100 (1988), Contos fantásticos (1990) e A entrevista de Guayaquil (1991).
83 Aliás, no que tange a esse vértice da questão, mesmo em outras partes do mundo, no início dos anos quarenta ainda não havia estudos sistemáticos acerca da literatura fantástica. Tais estudos se consolidariam na França, na década de sessenta, sobretudo com as contribuições de Louis Vax, Roger Caillois e Tzvetan Todorov, como exposto no primeiro capítulo. De qualquer maneira, já havia na Argentina, desde 1940, um sólido projeto de criação e valorização da chamada literatura fantástica: inicialmente encabeçado por Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, esse movimento esteve profundamente eivado pelas idiossincrasias desses três autores, de modo que, também entre eles não houve um critério preciso que demarcasse simultaneamente os textos de sua lavra e os que integraram a Antología de la literatura fantástica (1940), pedra angular para esse modo literário naquele país.
sombrias, o escritor capixaba, ao agregar esse adjetivo, parece querer aproximar seus textos das estórias de horror oitocentistas, embora nem todas as narrativas presentes nessa publicação se enquadrem em tal modalidade. Há, por exemplo, entre elas um conto policial, ―O estranho caso de Philippe Gringoire‖, cujo título claramente remete a um texto de Edgar Allan Poe, ―The facts in the case of mr.
Valdemar‖ — traduzido no Brasil como ―O estranho caso do senhor Valdemar‖. A
influência do autor estadunidense ainda é patente em outros momentos de sua
escrita, como nas narrativas ―O gato preto‖ (1990) — na qual uma das personagens
se chama Dr. Edgar —, ―O satanás de Iglawaburg‖ (1956) e ―A maldição de Franz
Scopell‖ (1978), estas últimas também próximas do gótico, com personagens com nomes estrangeiros e ambientação noturna e macabra, geralmente situadas em
cidades europeias.84
Mas um de seus livros — um dos últimos publicados, vale destacar —, à guisa
das antologias em curso em nosso país na segunda metade do século XX, fora intitulado Contos fantásticos (1990). Duas coisas ficam evidentes com essa
publicação: a primeira — e mais óbvia — é a inserção de parte da obra
monjardimiana na esteira da assim chamada literatura fantástica, mesmo que sobre
essa categoria paire uma vaga generalização; a segunda — que é um corolário da
anterior —, revela a falsa pressuposição de que entre nós, mesmo no fim dos anos
noventa, a expressão conto fantástico fosse clara como a luz do sol e, portanto, não precisasse sequer de uma conceituação. Esse livro de Monjardim, longe de ser uma coletânea de ―contos fantásticos‖, como sugere o título, é na verdade uma miscelânea de narrativas de cunho estranho, policiais, de ficção científica e também
daquelas que venho chamando de fabulações de malassombro.85 Nihil novi sub sole:
afinal essa era uma prática recorrente nas letras brasileiras, basta folhear as páginas de nossas quatro primeiras antologias do conto fantástico, a saber, Obras-primas do
84 Há ainda a clara influência do escritor alemão E. T. A. Hoffmann, um dos nomes mais representativos para a literatura fantástica, duas vezes mencionado em sua obra: ―Era a bacanal da morte! Hoffmann no apogeu da sua imaginação ávida de terror, jamais descrevera quadro igual ao que se oferecia aos meus olhos.‖ (MONJARDIM, 1956, p. 62), ―As suas histórias surpreenderiam ao próprio Hoffmann ...‖ (MONJARDIM, 1990, p. 128).
85 A indistinção entre esses modos literários foi compartilhada igualmente pelo editor: na capa do livro Contos fantásticos há uma ilustração que reproduz alguns elementos do conto policial clássico, à maneira do detetive Sherlock Holmes, a saber, uma lupa, um sobretudo, um chapéu e uma luva. Ou seja, transcorridas três décadas, ainda permanecia entre nós a mesma perspectiva exarada pelo crítico Renato Jobim, ou seja, a confusão entre conto fantástico e policial, quando afirmou que ―A história fantástica é um ramo da chamada história policial‖. Sobre o artigo escrito por Jobim em 1957, será analisado no quarto capítulo desta tese.
conto fantástico (1956), Maravilhas do conto fantástico (1958), O conto fantástico (1959) e Os buracos da máscara: antologia de contos fantásticos (1985). Ou seja, tanto para Monjardim quanto para os organizadores dessas coletâneas, o fantástico, menos que um modo literário específico, era uma colcha de retalhos. E entre nós, como sabemos, foi uma colcha urdida sob o prisma opaco de infundada escassez. Nesse sentido, a mesma indagação levantada anteriormente sobre a ausência das narrativas de Jayme Griz nas páginas dessas antologias também poderia ser apresentada agora: por que os textos de Adelpho Monjardim nunca foram
mencionados em nenhuma delas?86 O motivo mais óbvio, no que tange aos
antologistas em tela, decorre do grande desconhecimento da literatura produzida então em nosso país. A verdadeira escassez, repito, estava muito mais na formação do repertório de cada um deles, do que na esfera da produção. Mas eles, evidentemente, não representavam vozes isoladas no contexto brasileiro. Os críticos literários também repetiam a mesma cantilena da parcimônia: no ano de lançamento do volume A torre do silêncio, o jornal Diário do Paraná já antecipava o principal argumento de Jerônymo Monteiro, exposto no ―Prefácio‖ de O conto fantástico (1959). Vejamos um trecho retirado do terceiro caderno da seção ―Letras‖, datado de 21 de outubro de 1956, do aludido periódico, cuja autoria não foi registrada:
Adelpho Monjardim é um jovem literato brasileiro que se ocupa de contos, perpassados de mistérios e assombrações. A Editora A Noite editou recentemente uma coletânea de contos, sob o título de «A torre do silêncio», obra que, entre nós representa uma verdadeira novidade, tão
pouco e tão mal foi, até o presente, explorado o gênero no Brasil.
(ANÔNIMO, 1956, p. 2). Grifos meus.87
O ano de publicação era o mesmo de O lobisomem da porteira velha: histórias, de Jayme Griz, e da primeira antologia do fantástico organizada no Brasil, Obras-primas do conto fantástico, com textos selecionados por Jacob Penteado. Antes disso, porém, Murilo Rubião já havia lançado dois livros inteiramente dedicados ao fantástico, O ex-mágico (1947) e A estrela vermelha (1953), enquanto outros autores também o faziam de modo esparso, a exemplo de João Guimarães
86 Somente em 2003, ano da morte do autor, um de seus textos apareceria finalmente numa antologia brasileira: a cargo de Braulio Tavares, a narrativa ―O satanás de Iglawaburg‖ fora incluída na coletânea Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros — a meu ver, a melhor entre as concebidas no panorama nacional —, publicada pela editora Casa da Palavra.
87 Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=761672&PagFis=55952>. Acesso em 30 abr. 2019.
Rosa, Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz e Carlyle Martins. Portanto, quando confrontado à situação empírica, o propalado argumento da escassez perde inteiramente sua razão de ser. A seu lado, também vicejou outro ponto de vista que reflete os sintomas da mesma miopia reflexiva e do desconhecimento da literatura brasileira: a tendência de rastrear o fantástico (evidentemente, sem conceituá-lo) onde ele não estava, sobretudo na obra de autores consagrados, como Machado de
Assis.88
Agora sabemos que a obra monjardimiana atravessou a segunda metade do século passado numa condição duplamente periférica: se o então chamado conto fantástico não ocupava a centralidade de nossas letras, suas narrativas tampouco tiveram qualquer menção entre aqueles que se ocuparam dessa vertente literária no Brasil, na conjuntura do século XX. Porém, apesar do silêncio que a acompanhou,
parte de sua produção — sobretudo aquela que identifico dentro da categoria das
fabulações de malassombro — representa um dos principais capítulos no que tange à ficção do metaempírico em nosso país. Ignorar esse fato seria repetir os disparates dos antologistas e críticos supramencionados, cujo olhar apenas revelou a superficialidade do horizonte mental que carregavam. Esse modo narrativo não aparece em seus livros como o único núcleo de sua criação; entretanto, há uma continuidade e aprofundamento inegavelmente presentes: desde os textos de Novelas sombrias até Contos fantásticos, sua escrita evidencia, adamais da permanência temática, um maior domínio da forma. Portanto, a presença desse tipo de narrativas não é para ele um fenômeno esparso, como fora comum entre outros autores naquele momento. Longe disso, a maioria dos textos que configuram as quatro publicações já mencionadas expressam sua preferência pelo cultivo das fabulações de malassombro. Apesar disso, diferentemente de outros escritores
88 O principal representante desse fenômeno entre nós foi Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981), cujo intento forçado e insustentável levou-o a organizar uma antologia de contos machadianos, intitulada Contos fantásticos de Machado de Assis (1973): é curioso observarmos que, em seu empreendimento, ao tentar mostrar ―uma faceta para a qual a crítica pouco tem atentado‖ (MAGALHÃES JR., 1973, p. 9), Magalhães Júnior padece dos mesmos sintomas dos antologistas brasileiros, i.e., a ausência de uma concepção acerca daquilo por ele entendido como sendo literatura fantástica. De acordo com seu impressionismo crítico, constam na aludida coletânea, entre as onze narrativas selecionadas, ―Sem olhos‖, ―Um esqueleto‖, ―O imortal‖, ―A segunda vida‖ etc. Mais próximos do étrange todoroviano, se fôramos tomar aqui as diretrizes do búlgaro radicado na França, às mais das vezes esses contos machadianos revelam atmosferas oníricas, ou seja, antes dissolvidos que explicados, os eventos supostamente fantásticos se anulam com o despertar dos personagens, como no conto ―A chinela turca‖.
contemporâneos seus, como Murilo Rubião, José J. Veiga ou Hermilo Borba Filho, Adelpho Monjardim não tinha claro os contornos de um projeto literário, pelo menos no âmbito da narrativa curta: sua produção parece, em grande medida, emanar de uma motivação análoga à do palmarense Jayme Griz, ou seja, como um eco das estórias oralizadas que povoaram sua meninice na casa-grande de Jucutuquara, onde viveu até à adolescência. Nesse sentido, em seu conjunto, a maioria de suas estórias recria o universo fantasmal que conheceu nas noites da infância, como ele próprio nos informaria em uma de suas últimas publicações, O Espírito Santo na história, na lenda e no folclore:
Era prazer ouvir dos velhos criados as histórias de fantasmas, lobisomens e mulas-sem-cabeça, que surgiam às horas mortas das sextas-feiras. Ouvíamos apavorados, mas não arredávamos pé. Na hora de dormir a boa mamãe que nos suportasse. (MONJARDIM, 1983, p. 16).
São essas mesmas criaturas, agora compartilhadas com os leitores através de seus livros, que moldam o substrato para a fundação de suas estórias sombrias. À espera da noite que as desperte, ou de quem possa folhear suas páginas, revelam um mundo análogo ao de Jayme Griz. Daí, entre outros elementos, a evidente proximidade entre a ficção desses dois escritores brasileiros, como veremos a seguir.