2. IKE Protocol Details and Variations
2.6. Cookies
Em situação análoga a do escritor capixaba Adelpho Monjardim (1903-2003), a obra imaginativa do pernambucano Jayme Griz (1900-1981) também permanecera por muitas décadas ignorada do grande público, bem como do que poderíamos chamar de crítica especializada. A propósito, este é um dos vértices desta tese, i.e, refutar a premissa da exiguidade defendida pelos principais organizadores de antologias brasileiras do chamado conto fantástico. Neste, como em outros, esses autores partilham pontos de aproximação: antes de ingressarem pelos meandros da narrativa ficcional, ambos exerceram a atividade de folclorista, com minuciosas pesquisas e algumas publicações na área. No que tange a Griz, neste campo específico chegou a publicar os seguintes títulos: Palmares, seu povo, suas tradições (1953), Gentes, coisas e cantos do Nordeste (1954) e Negros (1965).78 A propósito, afirmaria o sociólogo Pessoa de Morais, no ―Prefácio‖ de O cara de fogo (MORAIS, 1969, p. 13-14): ―Jayme Griz [...] tem o gosto pelo estudo de sua especialização folclórica ou de assuntos ligados [...]. Seus contos [...] resultam de acurado estudo anterior. De paciente busca no terreno da vivência regional‖. No
78 O escritor palmarense também foi poeta e compositor. No primeiro caso, publicou dois livros: Rio Una: poemas (1951) e Acauã: poemas (1959); no segundo, lançou em formato de LP o álbum Acauã: seus poemas, seus cantos regionais (1962), no qual musicou alguns poemas do livro homônimo.
entanto, atrelada a essa pesquisa, há igualmente, na construção de suas narrativas, o apelo da memória: muitos de seus enredos estão entremeados pelo halo de outros contadores, em alguns casos textualmente nomeados. De modo geral, os elementos
da oralidade estão presentes não apenas na própria urdidura da diegese — mais
próxima do ouvido que da pena —, mas nos temas e imagens recorrentes. Ou seja,
o vínculo de sua criação mais indelével com os idos da meninice é um dos principais traços de sua literatura. Os dois livros de ficção por ele publicados atestam esse ritmo manente: O lobisomem da porteira velha: histórias (1956) e O cara de fogo (1969), que em pouco ou quase nada diferem um do outro.
Filho do poeta Fernando Griz (1876-1931), Jayme nascera no Engenho Liberdade, em Palmares, onde passou a infância. Nesses primeiros anos, aclimatou- se às estórias contadas por Mestre Chico, um ex-escravo, como ele próprio afirma
na primeira parte de Gentes, coisas e cantos do Nordeste.79 Mestre Chico era uma
espécie de narrador institucionalizado, cuja presença e voz estabeleciam para os ouvintes imediatos a passagem para um mundo permanentemente carregado de malassombros, sapos encantados, cabras-cabriolas, vampiros e lobisomens. Mas não era um mundo mágico, à guisa de um conto maravilhoso; em verdade, dava-se o movimento inverso: aqueles seres eram alinhavados ao mundo dos receptores, afinal, entre eles, quem já não os vira? E foi à roda desse aedo emulado que o menino Jayme Griz forjaria o esboço de sua literatura fantasmagórica. Em não poucas vezes ele estivera presente a essas costumeiras reuniões noturnas, como ouvinte zeloso e privilegiado, como ele próprio confessaria:
No velho engenho [Liberdade], os dias agora são monótonos, tristes e soturnos. As noites, com a chuva roncando no mato, são molhadas, frias e escuras. [...] Na Casa Grande, agora toda fechada, há luz e silêncio. [...] E lá chega o preto Mestre Chico para contar histórias aos meninos da Casa Grande. É um ex-escravo carregado de anos, cheio de recordações dos antigos Senhores de muitas posses e muitos escravos. [...] E lá vem a história do Pé-de-espêto. Histórias de lobisomem. [...] A do morcego-vampa,
79 Era uma prática comum nas casas-grandes: em geral essa atividade era exercida por escravos ou por velhas que desempenhavam essa ocupação como um ofício, contando estórias para os filhos dos senhores de engenho, muitas vezes à noite, antes de dormir. No início de ―Meu cavalo deu um tope‖ o autor ratifica essa assertiva (GRIZ, 1969, p. 65-66): ―As mucamas cuidavam de muita coisa. Com elas contava Sinhá o ano todo [...]. Umas lavavam ou engomavam. Outras remendavam, cosiam ou faziam rendas. Outras, ainda, passeavam de manhã ou de tarde, no campo, com os meninos da casa-grande, ou lhes contavam estórias à noite. Muitas delas aprendidas de velhos contadores de estórias que duravam dias e dias, ou de velhinhas do mesmo ofício que viviam de engenho em engenho [...]. Eram estórias de caiporas, do pai-da-mata, da cabra-cabriola. [...] Estórias de almas do outro mundo, de mulas-sem-cabeça, de lobisomens, e tantas outras de estremecer‖.
que de noite chupa o sangue de quem dorme sem reza [...]. Conta então a história da Cabra-cabriola. E outras histórias. [...] As impressionantes
histórias de sapo que mestre Chico tão bem sabia contar. (GRIZ, 1954, p.
40-42). Grifos meus.
O adjetivo usado por Jayme Griz para qualificar tais estórias não poderia ser outro: elas o impressionaram de modo tão visceral que serviram de mote para algumas de
suas narrativas futuras, tais como ―O lobisomem da porteira velha‖ (1956) — que dá
título à primeira das duas publicações literárias; ―No Engenho Liberdade‖ (1956), texto que evoca idêntica conjuntura, na qual Mestre Chico é (novamente) convocado para contar ―histórias das suas‖, ou seja, ―de bicho e de assombração‖ — ao todo, quatro ―histórias de sapo‖ — para um ouvinte não nomeado, o alter ego de um Griz atemporal; e ―Meu cavalo deu um tope‖ (1969), narrativa na qual o monstro ―morcego-vampa‖ sorve o sangue de um cavalo, enfraquecendo-o para uma fuga de escravos.
Essa prática de contação noturna, cuja reverberação é inegável em sua escrita, assumiria também um papel capital na concepção de suas obras. Nesse sentido, já na abertura de O lobisomem da porteira velha: histórias, Griz nos deixa uma curiosa advertência (GRIZ, 1956, p. 17): ―Este livro deverá ser lido, de preferência, à noite‖. Ou seja, a literatura griziana não somente se filia à essa tradição oral do Nordeste, de recriação de estórias de malassombro, como também se insere noutra, ainda mais antiga: a tradição pré-islâmica dos asmār. Essa era uma forma de narração oral comum entre os árabes; literalmente, significa ―contos noturnos‖, e só podiam ser contados à noite. A estrutura do Livro das mil e uma noites e do Livro das cento e uma noites nos revela a força desse expediente narrativo: em ambos Xahrazad interrompe as narrativas sempre que a aurora se aproxima, para dar continuidade na noite seguinte. De acordo com a pesquisadora Djalila Chaib (2015, p. 10), na tese Estudio, edición y traducción del manuscrito mudéjar J63 «Latā’if qis as al-anbiyā’ wa fihi qis as al anbiyā’» (conductas ejemplares e historias de los profetas), os asmār constituíam ―... una narrativa oral que se desarrollaba en ‗as-samar/asmār‘ término que proviene del verbo ‗sāmara‘ para indicar las reuniones nocturnas, bajo la luz de la luna, donde la gente contaba
historias y cuentos diversos …‖.80 Portanto, a presença da noite, na obra ficcional de Jayme Griz, além de ser um elemento recorrente em praticamente todas as narrativas, deslinda seus elos com o terreno da oralidade. Dessa maneira, o narrador griziano, emulando os contadores já mencionados, encontra nas trevas
noturnas os fios para sua tessitura própria, não com o fito de afastar a morte —
como o fez Xahrazad —, mas sim o de conjurar alguns mortos. Em seus asmār
fantasmagóricos, os enredos são, com efeito, sombrios, ambientados em horas tardias, silenciosas e de muito escuro; e há, ademais, uma marcação temporal, enfatizando os dias, em geral as sextas-feiras, e os horários, sobretudo quando é meia-noite ou madrugada. Vejamos as passagens mais evidentes: ―Noite de sexta-
feira. Noite escura e chuvosa. Noite de correr lobisomem e mula-de-padre‖ (GRIZ, 1956, p. 23); ―Noite de escuro no engenho Liberdade. Escuridão fechada da gente esbarrar um no outro. Noite velha. Noite em que não se ouve nem um piu de bacurau‖ (GRIZ, 1956, p. 35); ―Era no mês de agosto. Noite de escuro.‖ (GRIZ, 1956, p. 54); ―De noite, luzes andam no ar, acima e abaixo, naquela solidão. [...] Redes passam carregando defuntos, como no tempo da peste, balançando em varais nos ombros dos fantasmas, acompanhadas de tochas de luzes mortiças, dentro da noite de trevas.‖ (GRIZ, 1956, p. 67); ―Onze horas da noite. Tudo era silêncio e repouso, àquela hora, no velho engenho. Sem que nem porquê, de um momento para outro, lá começa a cachorra Piranha, de mestre Rogério, a uivar, dentro da noite ...‖ (GRIZ, 1956, p. 73); ―Ia assim alta noite. Era certamente de uma para duas horas da madrugada. [...] Naquele momento, um mistério insondável envolvia o mundo e as criaturas de Deus.‖ (GRIZ, 1956, p. 93); ―Em certas noites de escuro, no Mata-Virgem, ouvia-se, ao longe, o ladrar do cão da Conha. [...] Começou a escurecer.‖ (GRIZ, 1969, p. 26-27); ―Era uma noite de escuro. Dessas em que parece que um gênio das trevas andara derramando breu pelos espaços infinitos de Deus. O céu estava escuro e ausente. As estrelas como que temerosas das trevas, sumiram‖ (GRIZ, 1969, p. 54); ―Era uma noite de começo de inverno. // Noite de escuro, de frio e de vento que sacudia a galharia das árvores lá fora. [...] Nessa hora de silêncio, de sono, e de treva ...‖ (GRIZ, 1969, p. 72); ―Às seis e meia, já escurecendo, ia entrando o aguardenteiro na mata com o seu pequeno
80 Tradução minha: ―... uma narrativa oral que se desenvolvia em ‗as-samar/asmār‘, termo que provém do verbo ‗sāmara‘, para indicar as reuniões noturnas, sob a luz da lua, nas quais as pessoas contavam histórias e contos diversos …‖.
comboio.‖ (GRIZ, 1969, p. 84); ―Ia assim alta noite. Era certamente de uma para duas da madrugada. Silêncio no céu. Silêncio das horas. Silêncio na mata.‖ (GRIZ, 1969, p. 116); ―Lá para meia-noite, a julgar pelo luzir das estrelas no céu distante, soprou um vento frio de leste para oeste e depois em sentido contrário ...‖ (GRIZ, 1969, p. 145); ―Eram onze e pouco da noite. [...] Dentro em pouco começaram os galos a cantar, ora perto, ora longe, anunciando a meia-noite no velho burgo [...]. A noite ia alta. De súbito, dentro das trevas ...‖ (GRIZ, 1969, p. 162-164). Grifos meus.
Jayme Griz, conforme assinalou Pessoa de Morais no ―Prefácio‖ de Negros (GRIZ, 1965, p. 22), foi, sobretudo, ―... um intelectual comprometido com os sortilégios‖. Seu mundo imaginativo transcorre na cidade de Palmares, mas em vez
de situá-lo na área urbana — como nas novelas de seu conterrâneo Hermilo Borba
Filho —, privilegiou seu entorno. Em grande medida, interessa-lhe as taperas, a
brenha das matas, o ermo das estradas e os engenhos propriamente ditos. Essa opção expressa, como já veremos, um olhar específico em torno do tema das almas- do-outro-mundo, bem como um dos vértices daquilo que constitui o subjectum para a formulação das fabulações de malassombro.