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Como já exposto linhas acima, as novelas de autoria de Hermilo Borba Filho vieram a lume em meados da década de 1970, em três livros aparentemente isolados: O general está pintando (1973), Sete dias a cavalo (1975) e As meninas do sobrado (1976). Com relação ao ano de publicação, o último título coincidiu, infelizmente, com o óbito do escritor. Não fosse o término de sua existência, aos cinquenta e oito anos, Hermilo provavelmente continuaria produzindo outras

narrativas nos moldes dessa forma literária.98 Em todo caso, nenhuma das cinquenta

e cinco novelas do escritor palmarense chegou a comparecer nas antologias brasileiras do assim chamado ―conto fantástico‖, mesmo nas mais recentes. Em vez disso, seus organizadores simplesmente alegaram que havia escassez desse tipo de ficção em nossa literatura: a título de exemplo, José Paulo Paes, na compilação

97 Tradução minha: ―Pelas obras épicas se interessava toda uma comunidade, enquanto as novelas tinham reservado para si um público muito mais seleto e que não devia ser muito diferente do da poesia amorosa que se escrevia na corte. Sabemos que muitas mulheres gostavam da leitura destas novelas nas quais o tema amoroso se desenvolvia extensamente.‖.

98 Para além dos títulos mencionados, sua produção incluiria também outras atividades. Dessa maneira, sua dedicação ao gênero novela não representa senão uma de suas múltiplas facetas como grande artista e intelectual que foi: ao longo da vida dedicou-se ainda ao teatro (como crítico, diretor e dramaturgo), ao jornalismo, à crítica literária, ao romance e ao ensaio, ademais de sua atuação como tradutor e professor universitário. Não por outro motivo o cronista Renato Carneiro Campos (CORREYA; ALVES, 2007, p. 73), certa feita o definira como um ―homem-orquestra‖.

Os buracos da máscara: antologia de contos fantásticos (1985), seleciona textos de apenas dois autores brasileiros (Murilo Rubião e José J. Veiga). Não deixa de chamar a atenção esse silêncio, não só em torno de outros escritores que poderiam enfeixar esse arco, mas sobretudo no que tange à criação de Hermilo Borba Filho, indubitavelmente um dos maiores escritores da língua portuguesa no século XX,

cujas obras foram publicadas em editoras de grande circulação no Brasil.99 Quanto

aos três volumes de sua novelística, embora publicados de maneira independente, basta uma primeira leitura para entendermos que integram o mesmo projeto literário. E mais: com a tessitura das cinquenta e cinco narrativas Hermilo engendra um novo lugar imaginário na ficção ocidental — a Palmares maravilhosa do vigia Pirangi e Donzela, do homem bissexto e do Morcego da meia-noite.

Praticamente inumeráveis, os seres e lugares imaginários pululam a literatura de todas as épocas, em livros e estórias que se multiplicaram ao longo dos séculos: entre eles, o A Bao A Qu, o basilisco, a esfinge, o hipogrifo, o unicórnio, a besta ladradora, o monstro de Frankenstein etc.; as ilhas de Avalon e Robinson Crusué, os reinos de Nárnia e a Terra-média, as cidades de Camelot e Macondo, a mansão de Baskerville e a caverna de Montesinos. Alguns escritores, movidos pelo fio de suas próprias leituras, passaram a registrá-los em livros que, pela índole desse objeto, padeceriam de contínua incompletude. Vejamos dois casos. Em 1957, quase à maneira dos bestiários medievais, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero chegaram a catalogar algumas dessas criaturas em seu Manual de zoología fantástica [Manual

de zoologia fantástica].100 A cifra daqueles seres, reconheceriam os organizadores

(BORGES; GUERRERO, 1966, p. 8), ainda que aponte para as infinitas possibilidades da arte combinatória, ―... ya que un monstruo no es otra cosa que una

combinación de elementos de seres reales ...‖ 101, paradoxalmente é menos

abundante que a ―zoología de Dios‖. Já no que concerne às paragens do imaginário, tal ordem de coisas pressupõe uma perspectiva invertida, i.e., o número dos lugares

99 Suas principais obras saíram pelas editoras Globo e Civilização Brasileira. No que concerne às antologias, vale mencionar a recente compilação organizada pela professora Maria Cristina Batalha, O fantástico brasileiro: contos esquecidos (2011), na qual também notamos análogo silêncio com relação aos textos de Hermilo e dos demais autores brasileiros analisados nesta tese.

100 Em 1967 essa mesma obra seria ampliada e reeditada com novo título: El libro de los seres imaginários [O livro dos seres imaginários].

101 Tradução minha: ―... já que um monstro não é outra coisa senão uma combinação de elementos de seres reais ...‖.

inventados chega a ultrapassar o de existência por assim dizer ―factual‖, como assinalam Alberto Manguel (1948–) e Gianni Guadalupi (1943–):

O mundo que chamamos de real tem fronteiras intransponíveis em que o velho princípio de que dois corpos (sem falar de duas montanhas) não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo é rigorosamente observado. Nosso dicionário, porém, trata de uma geografia mais

generosa, na qual há sempre lugar para mais uma cidade, uma ilha ou um

reino. (MANGUEL; GUADALUPI, 2003, p. 11). Grifos meus.

Esses autores, quiçá seguindo a senda do criador de ―La biblioteca de Babel‖, elaboraram, ao modo de um guia de viagem, um verdadeiro repositório de espaços situados unicamente nos territórios da fantasia, o The dictionary of imaginary places (1980) [Dicionário de lugares imaginários]. Em suas páginas, Manguel e Guadalupi emularam os dicionários geográficos do século XIX, indicando para cada entrada, sua possível localização, sua história, os hábitos e habitantes, pontos turísticos e também a flora e a fauna, ademais de muitos mapas e ilustrações. Mas como todo dicionário, este igualmente apresentaria suas limitações: primeiro, porque uma obra

desta natureza — assim como a anterior — estará sempre incompleta (quer pela

óbvia impossibilidade de acesso a todos os lugares já inventados, quer pelos que haveriam de suceder sua publicação); depois, pela deliberada exclusão de lugares ―fora‖ de nosso mundo, tais sejam paraísos, infernos, cidades do futuro ou o planeta Tlön, do conto ―Tlön, Uqbar, Orbis Tertius‖ (1940), de Borges; e finalmente, por duas

ausências inescusáveis, as cidades de Comala e Santa María.102 De qualquer forma,

dentre os lugares selecionados, sejam os mais vetustos ou os mais recentes,

impossível seria assinalar fronteiras entre eles: de Cocanha103 ao País das

Maravilhas o percurso duraria, seguramente, menos que um minuto. No Brasil, a

102 A meu ver, ambos os lapsos seriam desculpáveis não fosse um dos organizadores um escritor latino-americano, o argentino Alberto Manguel. A primeira cidade encontra-se num dos romances mais importantes do século XX, Pedro Páramo (1955), do autor mexicano Juan Rulfo (1917-1986); enquanto a outra abriga quase toda a criação romanesca do uruguaio Juan Carlos Onetti (1909– 1994).

103 De acordo com Jacques Le Goff (1998, p. 196), as primeiras referências acerca do país da Cocanha surgiram inicialmente no século XII, em narrativas orais e, sob forma escrita, em meados do XIII, no fabliau de Cocaingne. No texto de Manguel e Guadalupi assim está (2003, p. 110): ―COCAGNE. País de localização desconhecida [...], famoso por sua comida requintada, que não é cozida, mas cresce como flores. Doces e chocolates nascem na borda das florestas, pombos assados voam pelo ar, vinho perfumado jorra de fontes e bolinhos chovem do céu. O Palácio Real é feito inteiramente de açúcar de confeiteiro, as casas são de maltose, as ruas são calçadas com pastéis e as lojas fornecem mercadorias de graça. [...] Os habitantes gozam de uma espécie de imortalidade porque desconhecem a guerra e, além disso, quando atingem cinquenta anos, voltam aos dez anos de idade. Servem-nos uma tropa de silfos, gnomos e ninfas aquáticas‖.

edição do Dicionário foi aumentada, com a inclusão de alguns lugares de nossa literatura, entre eles, Antares, o Ateneu, Pasárgada, o Liso do Sussuarão e o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nesse sentido, bem faríamos em acrescentar nesse rol a cidade de Palmares, não aquela registrada nos conhecidos livros de história e

geografia, mas a que emerge — fabulosa e perene — do conjunto de novelas do

escritor pernambucano.104

Também localizada às margens dos rios Una e Pirangy, e vizinha dos municípios de Catende, Ribeirão, Água Preta e Joaquim Nabuco, essa outra Palmares é habitada por personagens por vezes misteriosas, caricatas, inusitadas, com ações que descambam geralmente para o modo maravilhoso. Nela os episódios perfilam eventos que em nada ficariam devendo ao Livro das mil e uma noites ou das Cento e uma noites: seja pela ascensão de Donzela (uma pedinte da cidade), cercada de querubins, anjos e arcanjos; a insuspeita ressurreição de um cachorro; o caso de uma vestimenta que se funde à epiderme do usuário; uma estranha rã que cresce até alcançar o tamanho de um corpo humano; um homem cujo pênis era tão fosforescente que, quando urinava à noite, atraía mariposas; ou pela aparição da máquina maravilhosa do pavão misterioso; ademais das metamorfoses de Roupa-Só, no ―Episódio do homem bissexto‖ (1973) e de Candinho-das-Amas, em ―Lindalva‖ (1976). Em um dos episódios mais representativos do primeiro volume, ―O arrevesado amor de Pirangi e Donzela ou o Morcego da meia-noite‖, a cidade inteira é tomada por uma série de acontecimentos prodigiosos, culminando com a derrogação da fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos:

... na mesma hora, precisamente às seis, uma travosa neblina se esparramou pela cidade, não era muito natural mesmo para o inverno, o sino do mercado começou a bater doidamente como num chamado de socorro, os que para ali corriam não conseguiam encontrar a praça, baratas tontas no mais denso da névoa, todos os relógios desandaram e não havia um marcando o que o outro [...], os pitus do rio Una cresceram dez vezes o seu tamanho e invadiram a Rua da Lama, eles mesmos entrando nas panelas de barro que também cresceram para cabê-los, as lavadeiras aceitaram o acontecido naturalmente e acenderam o fogo e ferveram a água e se banquetearam [...], o piano do Recreio Familiar começou a tocar

104 É igualmente possível falar de uma Palmares imaginária na obra de Jayme Griz — conterrâneo de Hermilo —, embora em seu aspecto rural, dos engenhos de cana-de-açúcar e das estradas mal- assombradas etc. Ver a respeito meu ensaio ―Fabulosa Palmares: um lugar imaginário na ficção de Jayme Griz e Hermilo Borba Filho‖, publicado no primeiro semestre de 2017 na Revista Investigações, do Programa de Pós-graduação em Letras da UFPE (p. 72-90).

valsas e logo se improvisou um baile na calçada já que as portas estavam fechadas e ninguém conseguiu abri-las, as luzes se acenderam sem que Amâncio, da Casa de Força e Luz houvesse acionado o motor, muitas famílias que viviam pranteando seus mortos queridos — avós, pais, irmãos, filhos — foram por eles visitadas e houve repulsa total, ranger de dentes, desmaios foram o de menos ... (BORBA FILHO, 1973, p. 44-45).

Em ―O portador‖, narrativa não menos paradigmática de sua novelística — presente

no segundo tomo —, uma sequência repentina de óbitos em certo momento deixa a

cidade quase desabitada: um estranho homem que visita Palmares sempre rindo transmite a morte por meio de suas infindáveis gargalhadas. Até que um dia, após a mais estrondosa de suas gaitadas, ele próprio ―encontrou-se com o único mal irremediável, a marca de nosso estranho destino sobre a terra‖. No dia seguinte, seu corpo fora arrebatado pelo vento, mas antes disso, ironicamente a vida riu por último, pois logo nasceram flores em alguns de seus orifícios:

E Belisário disparou na gaitada mais violenta que se possa imaginar, uma gaitada maior que o fragor das cachoeiras e o ribombar dos trovões, uma gaitada superior a tiros de cem canhões ao mesmo tempo, além de mil e quinhentas ronqueiras, uma gaitada sem parar, uma Paulo Afonso, dobrando-se e desdobrando-se em catadupas, emendando, uma onda na outra, abalando os alicerces da igreja matriz cujo sino começou a bimbalhar, os soldados, as putas e os jogadores [os únicos que evitaram o êxodo] dentro de casa batendo queixo, a gaitada entrando pelos olhos e ouvidos, pela boca, pelo degas, pelo meato urinário, alojando-se no estômago e sacolejando o ente, chacoalhando os miolos da cabeça, entrando, entrando cada vez mais, e atravessando campinas e vales, morros e outeiros, rios e matas, atingindo povoados distantes, insuportável, todos começam a gritar de dor, a gaitada subia e descia em faixas, acumulando-se, ribombando, os peixes boiaram mortos e as galinhas voaram pairando no ar, os bois mugiram e deitaram-se agoniados, os cavalos dispararam [...], e nesta ocasião a gaitada parou. Foi como se a terra inteira silenciasse de repente [...]. Quando o dia amanheceu, haviam nascido margaridas nos olhos, nos ouvidos, nas ventas e na boca de Belisário [...]. [...] já nesta hora alevantou- se um pé-de-vento descomunal, naquele mesmo momento foi Belisário carregado, sovertido, de nada ficou, só a lembrança ... (BORBA FILHO, 1975, p. 74-77).

Esses e muitos outros acontecimentos podiam suceder em plena rua ou em locais específicos, tais como o Clube Literário, o Cine-Apolo, a Loja Maçônica Esperança do Bem, a Casa Almeida Tecidos Ferragens Secos e Molhados, a Loja do italiano Nicolau, o café/bar de Nenê Milhaço, o Pátio central e o Mercado Público, ou ainda no Alto do Lenhador. Este último ponto da cidade é um dos mais mencionados nas cinquenta e cinco novelas: trata-se do bairro que abrigava o

boteco de Menelau Alves da Silva, vulgo Guará105, ademais da ―zona‖, ou ―casas de

tolerância‖ do baixo meretrício.106 Para os fornicadores de maior poder aquisitivo,

havia ainda as pensões ―de luz vermelha‖ de Quiterinha-Folote, Boca-de-Rã e Tudinha. Em verdade, na Palmares hermiliana há três núcleos principais ou três ―elementos enraizados‖, como nos revela o narrador em ―O portador‖ (BORBA FILHO, 1975, p. 74): ―Cabo Luís com o destacamento, Guará com as putas e Santos Barriquinha com os parceiros do pôquer‖, ou seja, a quase onipresença do Cabo

Luís — personagem que aparece em quase todas as narrativas —, a prostituição e a

jogatina.

Mas não somente o maravilhoso exerce protagonismo na imaginária Palmares. Essa cidade exala uma aura de persistente fartura, nos remetendo, em alguma medida, ao utópico país de Cocanha. A propósito da culinária, é sempre abundante, reunindo os principais pratos da comida regional nordestina, como vemos em vários episódios, sobretudo em ―As lagartixas indianas‖ (1973): fígado, bofe, presunto, mocotó, fatos, tripas, ovos estrelados, coalhada, carne-de-sol, canjirão de leite, cozido, couve, repolho, batata-doce, jerimum, chuchu, maxixe, macaxeira, pirão mexido, pimenta, mão-de-vaca, linguiça, piaba torrada, banana- prata, banana comprida, queijo de coalho, doce de goiaba e doce de laranja com requeijão. Mas no cotidiano de seus habitantes a gula excederia os prazeres da mesa, praticamente sem nenhuma solução de continuidade entre os deleites de quem se farta ―nas carnes vivas e nas carnes mortas‖ (BORBA FILHO, 1973, p. 30): aqui a prática sexual ou, nas palavras do narrador (BORBA FILHO, 1973, p. 96), a

―doce ocupação do beringote beringote‖, é muito frequente entre as personagens —

especialmente a fornicação. De quando em quando somos levados a presenciar algumas cenas com elementos desta natureza, sempre narradas com muita

105 É frequente, também, por parte do narrador, a utilização dos sinônimos ―bodega‖ e ―botequim‖ de Guará, para se referir ao mesmo estabelecimento.

106 A propósito das prostitutas da cidade, chama a atenção a curiosa formação de seus nomes, os quais remetem, em geral de modo chulo ou grotesco, a alguma característica da personagem. Vejamos as principais ocorrências: Doninha-Cu-de-Pato, Maria-dão-de-Graça, Zezé-me-Afranganhe, Anastácia Peito-de-Mamão-Caiana, Doroteia-Rabo-Peludo, Zuzu-Gogó-de-Ema, Ariqueta-Noites-e- Dias, Inácia Lambe-Lambe, Teodósia-Rabo-de-Galinha, Ana-de-Todos-Nós, Jesuína Guardanapo e Maura-Boca-de-Jasmim. Além das meretrizes, há ainda outros nomes não menos inusitados: Pinguelo, Zumba-Dentão (depois, Zumba-sem-Dente), Ismael-Três-Pernas, Fanhim Deixa-que-eu- Chuto, Alfredinho-Bom-de-Cheiro, Claudina culatrão, Boi-na-Chuva, Papagaio-na-Vara, Antônio Periquito e Tonho Bundinha.

naturalidade e sem pudores, como no início do episódio intitulado ―Hierarquia‖ —

novela de abertura do volume Sete dias a cavalo:

... aprochegou-se, brechou e viu o Anspeçada agarrado tal qual carrapato aos peitos carnudos e ebúrneos de Ariqueta-Noites-e-Dias, e os peitos na mamada ora cresciam ora diminuíam, eram uma melancia empinada ou uma laranja redonda conforme a chupada, o que o Anspeçada bebia nos peitos saía que nem repuxo luminoso por sua estrovenga, só que se desfazia no ar, em borrifos ... (BORBA FILHO, 1975, p. 2).

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