Conforme o percurso sobre a constituição e expansão do paradigma científico dominante, vemos como o paradigma das ciências da natureza consolidou-se, por muito tempo, como fundamento de toda atividade científica. Trata-se de uma situação que ainda mantém resquícios, quando analisamos as prioridades de financiamento das instituições públicas na atualidade.
Nesta seção, ao discorrer sobre a constituição de um novo paradigma (o paradigma emergente), buscamos compreender a relação entre os paradigmas anteriores e as formas de caracterização da produção científica atual. Por essa razão, fazemos um percurso panorâmico que descreve a ascensão das ciências sociais em relação às ciências da natureza que, durante um grande período, dominaram e preteriram as investigações que problematizavam os aspectos sociológicos da comunidade. Para isso, desenvolvemos esta reflexão com base na perspectiva de que a revolução científica, desenvolvida ao final do século XX, alterou o panorama do paradigma, influenciando a prática científica que temos no século XXI.
Um exemplo da alteração desse panorama é a relevância dada as pesquisas aplicadas e com pautas sociais. Esses fenômenos mostram a desmarginalização das ciências sociais, ocorrida durante a crise do paradigma dominante.
1.1.3.1 A oposição de conhecimentos
A constituição do paradigma emergente tem como uma de suas principais características o reconhecimento das ciências sociais. Contudo, para que esse reconhecimento se desse, a partir e para a expansão desse paradigma, foi necessário reconhecer um fracasso da distinção dicotômica entre as ciências naturais e as sociais. É, por essa razão, que podemos dizer que sua verdadeira característica está no abandono da concepção mecanicista sobre a própria natureza, pois é, a partir disso, que o paradigma se altera e toma como “evidência, os conceitos de ser humano, cultura e sociedade” (SOUSA SANTOS, 1987, p. 37).
Essa forma diferente de se pensar o que é científico modificou a própria noção de conhecimento, que perdeu também a característica dualista e superou diversas distinções que eram tratadas como certezas, como a da experiência ordenada, algo que, até os dias atuais, evidencia uma característica das ciências da natureza, quando se trata dos experimentos laboratoriais que são tomados como parte da investigação, independente de resultados positivos ou negativos. Outra modificação é entre o modo de olhar oposições como natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado. São modificações que nos fazem ver como é preciso reconhecer novos sentidos e superar aqueles já cristalizados.
A construção de um novo paradigma, a partir do rompimento de dicotomias, pode ser associada aos estudos da linguagem, quando temos o desenvolvimento das críticas ao estruturalismo e ao formalismo, que se enfraqueceram com o fim de uma perspectiva científica sistêmica, dualista e pelo fortalecimento de áreas que tratam como objeto não apenas as estruturas, mas as práticas discursivas.
Sousa Santos (1987) ressalta que o nascimento da ideia de ciência que transcende dicotomias e tem como base as ciências sociais não foi o suficiente para caracterizar uma nova ordem de conhecimento dentro do paradigma, ou seja, as transformações não determinaram novas formas de se fazer ciência, mas contribuíram com a possibilidade de, a partir daquele momento, desenvolvermos interpretações sociais sobre fenômenos naturais.
Foi por meio da aproximação das diferentes perspectivas científicas que as abordagens sociais também se desvencilharam de suas amarras e mantiveram maiores contatos com as ciências humanas. Para Sousa Santos (1987, p. 43), “o sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica”. É esta noção que nos permite dizer que o paradigma emergente evidencia, assim, uma nova ordem das práticas científicas que não se caracterizou apenas pelo
fortalecimento das ciências sociais, mas as possibilidades de novas leituras, perspectivas e mesmo concepções sobre a produção de conhecimento, influenciando, também, a mudança da ordem epistemológica do paradigma em vigor nos dias de hoje.
A característica de enfraquecimento da dicotomia ciência natural e social possibilitou a promoção de investigações científicas que revalorizaram os estudos humanísticos e colocaram em evidência a resistência de uma leitura do mundo que não radicalizava a relação sujeito/objeto. Essa mudança do paradigma fortalece a posição do pesquisador como analista, que busca questionar seu objeto e que, para isso, desenvolve diferentes categorias de análise.
O paradigma das ciências sociais também está associado a noção de conhecimento como um sistema interligado, cujo mais específico é relacionado ao que tomamos como mais rigoroso e especialista o que analisa o objeto proposto. Conforme Sousa Santos (1987, p.46), “o dilema básico da ciência moderna: o seu rigor aumenta na proporção directa da arbitrariedade com que espartilha o real”, a partir de um conhecimento disciplinado, organizado e orientado, que desenvolveu novas disciplinas, no intuito de responder aos questionamentos e às problematizações que foram criadas anteriormente. Uma característica que, de certa forma, é resultado de manutenções do que já tínhamos.
Assim, por analogia, percebemos a manutenção de um mesmo paradigma científico para os dias atuais, que busca a fundação de disciplinas com o intuito de demarcar espaço e representação, mas que se mantém na resolução de questionamentos que poderiam ser problematizados por meio das disciplinas anteriores. A mudança ocorre nas formas, modos e noções de atividades científicas: uma transformação da prática científica, mas não do paradigma, que mantém grande parte de suas características.
A relação de conhecimento total e local está associada à ideia de que um paradigma se constrói por meio de temas que são recortados de um determinado meio e tempo, por específicos grupos que analisam a construção ou reconstrução de um lugar. É uma reunificação de fragmentos a partir de temas. Como dissemos anteriormente, não há grandes diferenças entre as disciplinas, a modificação maior está na incidência de temas e na prática de repetir problematizações anteriores, por meio de objetos diferentes daquele próprio de uma especifica área de estudo ou campo de investigação.
É a partir de todas as alterações dos paradigmas científicos que vamos ter o desenvolvimento das inovações as quais tomam como base a criação de novas situações. Estas, de alguma forma, tendem pela prática de metodologias diferentes daquelas de sua origem, considerando as alterações metodológicas como modificadoras de “estilos e gêneros da escrita científica” (SOUSA SANTOS, 1987, p.46). Trata-se de um reflexo da mudança de
paradigma presente na relação do sujeito/pesquisador com a teoria ou, mais especificamente, na relação do pesquisador com o discurso e o estilo de um autor fonte. São traços de uma formação presentes no modo de escrita e de investigação que será tratado como produção científica.
1.1.3.2 A relação de conhecimento e autoconhecimento
Um ponto importante para pensarmos a investigação que desenvolvemos é a concepção de ciência que toma todo conhecimento como autoconhecimento, um princípio presente no paradigma emergente das ciências sociais e que caracteriza grande parte das pesquisas da ciência da linguagem nos dias de hoje. É uma visão que se demarcou como característica da época e nos levou a compreender melhor a dicotomia sujeito/objeto.
É nesse paradigma que se descobre que a prática científica não é estruturada por descobertas, mas sim pelo “acto criativo3”, ou seja, pelo papel do cientista e grupos de criadores que nos fazem reconhecer o que é real e simbólico. Nesse período, temos a dissociação do juízo de valor da produção de conhecimentos.
Sousa Santos (1987, p. 53), há trinta anos, afirmava que, na atividade científica, não se tem muito valor a ideia de sobreviver, mas sim a de manter sabedoria sobre a vida, pois há sempre necessidade de formas de conhecimentos diferentes, compreensivas que não nos separe e sim nos una ao que estudamos. Trata-se de uma boa exemplificação do aprofundamento da relação do sujeito com o objeto presente no paradigma emergente. A constituição desse paradigma emergente passa por um processo que nos mostra o quanto o fenômeno pesquisado afeta o pesquisador que o investiga.
Numa proposta mais subjetiva que toma como princípio os aspectos sociais, vemos uma posição propositiva e de controle, mas que aproxima o discurso científico do discurso da literatura, considerando que o último evidencia a subversão da relação sujeito/objeto, desenvolvida pelo paradigma emergente.
Nesse paradigma se defende, ainda, a separação do isolamento do senso comum. Outra contribuição do paradigma emergente, o reconhecimento do valor do senso comum. Sousa Santos (1987, p. 54) afirma que o ato de conhecer passa pelo de desconhecer, ou melhor, da desconstrução de nossos conhecimentos, da desconstrução do senso comum. Nesse sentido, vemos uma diferença sobre como o senso comum é encarado no paradigma dominante e no
3 Fenômeno protagonizado por cada cientista e pela comunidade científica. No seu conjunto, tem de se conhecer
emergente. Enquanto no primeiro o senso comum era ligado a subjetividade do pesquisador que precisava ser suprimida, no paradigma emergente é preciso desfazer ou questionar o senso comum por meio da investigação científica.
Somente após anos de uma prática científica construída a partir da oposição ao senso comum, no pós-modernismo, que se iniciou uma discussão sobre uma prática cientifica com base na reabilitação de determinados conhecimentos, conhecimentos esses que podem também estar associados ao senso comum, seja pela aproximação das relações de causa e intenção, seja pelas características de ser um conhecimento prático e pragmático.