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Refletir sobre as condições de produção científica na universidade, nos dias de hoje, é algo que, dificilmente, não abordará o que tem chamado sempre a atenção e que se coloca como uma das questões de maior importância: o tratamento dado à produção de informação da sociedade contemporânea como conhecimento.

Não diferente da comunidade externa que vive essa nova noção de conhecimento e informação, a universidade também sofre alterações e consolida-se como uma instituição que nem sempre tem, entre suas preocupações, o seu papel de instituição social. Não é difícil observarmos, nesse âmbito, pesquisadores ou grupos de cientistas que tomam como base de suas relações institucionais problemáticas exclusivas de seus objetos científicos e que preterem outras atividades fins das universidades como o ensino e a extensão.

Em razão desse novo quadro, em conjunto com a transformação e atual forma de se pensar e produzir ciência hoje, temos um novo processo definidor da universidade: a heteronomia. Trata-se de uma característica que Bernheim e Chauí (2008, p. 08) descrevem como situação em que a instituição/universidade “produz conhecimento destinado a gerar mais informação para o capital financeiro, curvando-se às suas necessidades e à sua lógica”.

Com esse fenômeno, temos também o desenrolar de um afastamento do pesquisador em relação às ações diárias do trabalho universitário, corroborando com o que dissemos anteriormente sobre o pesquisador preterir a formulação de questionamentos que visem à resolução de problemas e necessidades da sociedade, ou seja, o mercado contribui para uma alteração da formação acadêmica, uma das atividades principais da universidade.

A busca por um conhecimento se afasta da subjetividade e desenvolve uma luta mais particular por reconhecimento exterior à comunidade científica. A pesquisa passa a se demonstrar como um jogo, cujo sujeito que mais informação absorve e produz, mais credibilidade pode conquistar.

A autonomia da universidade é um princípio que, pela relação institucional com o estado, sempre mantém suas complicações e, hoje, possui grande influência das questões políticas e institucionais que também adquirem certo perfil financeiro. Por isso, vemos uma universidade organizada, hoje, por regras de setores que se afastam da formação de conhecimento e desenvolvimento intelectual.

Sobre esse conceito, Bernheim e Chauí (2008, p. 12) afirmam que:

A heteronomia da universidade autônoma é evidente, com o aumento excessivo das horas de ensino, a redução do tempo dedicado à graduação de mestres e doutores, a avaliação baseada na simples quantidade de publicações, simpósios e congressos, o número crescente de comissões e relatórios etc.

Assim, vemos a possibilidade de que esteja se desenvolvendo uma pulverização dos pilares de sustentação das instituições de desenvolvimento de pesquisas, que podem influenciar, intervir, controlar a produção científica e regular a produtividade e a construção de novas noções sobre o que é produzido como conhecimento. Por isso, vemos o quanto é complicada a relação de estado e universidade, sendo as instituições de educação superior, entidades sociais que desenvolvem e fomentam políticas de e no Estado.

A formação universitária possui diferentes gargalos em razão de suas complexidades, conforme se vê nas diferentes relações que uma Instituição de Ensino Superior (IES) desenvolve com agentes de fomento, independente de serem instituições públicas, privadas ou de capital financeiro.

Um elemento que consideramos como ponto de partida para reflexões como a que realizamos é a representatividade que o processo de consumismo desenvolveu na sociedade. Não tratamos mais apenas de uma relação de acesso, mas de possível vício, que pode também interferir na produção científica, a partir do momento em que esse processo se introduz nas

universidades. Trata-se de um procedimento que impulsionou as pesquisas quantitativas, influenciando no aumento da identificação de problemas e não suas intervenções.

A contemporaneidade traz consigo o fortalecimento da relação custo benefício para o planejamento de atividades universitárias. É um aprofundamento das influências financeiras na relação das Instituições de Educação Superior (IES) com o estado, transformando as prioridades básicas da universidade (ensino, pesquisa e extensão), em elementos difíceis de relação ou, ainda, de desenvolvimento em conjunto, conforme podemos perceber em Bernheim e Chauí (2008, p. 28):

O equilíbrio entre as funções básicas de ensino, pesquisa e serviço é outro dos desafios enfrentados pela educação superior, que só é resolvido se todas as funções concorrerem para alcançar as metas educacionais de formar especialistas e acadêmicos profissionais com o necessário conhecimento e capacidade apropriada e, ao mesmo tempo, contribuir para o progresso, extensão e disseminação do conhecimento.

Além do equilíbrio que a autora destaca, é importante irmos além dos questionamentos quantitativos, não há possibilidade de dissociar o consumismo quantitativo de aspectos de ordem qualitativa, seja como método de avaliação, como diagnóstico de procedimentos, seja, ainda, como condição que determina e influencia critérios financeiros e publicitários.

Por essa razão, vemos que a cada dia, o setor produtivo se aproxima da educação superior com o intuito de fazer a universidade desenvolver pesquisas que respondam às suas necessidades por novas informações e isso até, nas ciências humanas, o que faz com que se interfira na relação custo/benefício e de prioridade social. É uma divisão e fragmentação do conhecimento que categoriza instituições e setores com fins contrários àqueles estabelecidos por instituições de pesquisa. Desse processo, vemos o nascimento de novas graduações, cursos e disciplinas que são, por muitas vezes, criados com o objetivo de fortalecer um determinado grupo.

Ao contrário disso, o estado, numa visão mercadológica, sucateia as instituições que possuem a função de produzir pesquisas e, consequentemente, conhecimento, isto é, desestruturam ou acabam com as universidades que são tratadas como ônus e não como investimento.

Vivemos num paradigma econômico-financeiro que visa não mais as relações de trabalho e a industrialização de matéria-prima, mas sim, a busca e domínio da informação e do conhecimento, como forma de domínio do trabalho e da indústria. Isso determina, hoje, as relações profissionais pautadas pela competição e pelo acesso às inovações, seja pela

centralização do poder, seja pelo domínio do conhecimento por quem possui mais riqueza. Não sendo diferente nos ambientes como centros de pesquisas e universidades, que a cada dia mais, também são controlados e financiados pelo mesmo capital.

Podemos dizer que há um avanço do mercado na produção intelectual e que estamos cada vez mais próximos da situação em que tudo está a serviço do capital e é tratado como mercadoria. O conhecimento é transformado em produto que só tem acesso aquele que possui condições de financiamento. É a universidade resultado de um governo mercantilista, no qual a sociedade tem como sistema de organização o próprio mercado.