• Aucun résultat trouvé

Expression logique : connecteurs logiques

Ao refletirmos sobre as relações da universidade e a globalização, é comum vermos como todo o desenvolvimento da discussão caminha para a problematização da sociedade consumista, fundamentada no produtivismo. A globalização se desenvolveu em todas as relações sociais, quer em razão do mercado financeiro e do caráter consumista da sociedade moderna, quer em função de outras forças e formas de relações que não são passíveis de categorização. Isso, contudo, não é diferente no meio acadêmico e influencia diretamente a produção científica nos dias de hoje. Uma discussão que toma como questão as relações institucionais e o processo de consumo de conhecimento passa e tem como um dos principais pontos a noção de produtivismo.

Referenciados nos estudos de Bauman, podemos dizer que a situação atual reflete o resultado de uma nova modernidade que “busca controlar nossa memória e nossa linguagem” (BAUMAN, 2014, p. 161). Isso ocorre pelas normas e pelo controle social ou pelo controle de nossa produção intelectual, considerando que, nesse contexto, até mesmo o conhecimento e a informação são utilizados como meio de domínio e opressão.

Não podemos deixar de considerar que esse quadro impacta na universidade, aqui entendida como centros e/ou instituições com maior responsabilidade sobre a produção científica nacional. É a relação da nova ordem e paradigma com que nos deparamos. Na realidade, vemos que, a partir da utilização do conhecimento como forma de domínio, a universidade ganha papel estratégico no processo de controle, evidenciando um dos motivos de termos a inserção produtivista e consumista na academia de forma bruta, incisiva e repressora.

Essa situação, como um todo, nos faz pensar sobre a viabilidade das universidades nos moldes de uma instituição formalista que preza pelo desenvolvimento da educação e da

cultura. Considerando ataques de governos liberais, com alterações de projetos políticos que modificam prioridades e afetam a realidade universitária, em razão de uma nova ordem financeira que controla toda a sociedade consumista e promove o produtivismo acadêmico. Isso corrobora com Bauman (2014, p. 164), quando o sociólogo afirma que;

[...] O mais triste de tudo é que endossaram uma lógica de realizações e resultados rápidos. Em essência, uma universidade que em teoria deve seguir uma lógica (fielmente seguida durante séculos) de pensamento deliberado, criatividade paciente e existência equilibrada, é agora forçada a se tornar uma organização capaz de reagir depressa às flutuações do mercado, assim como as mudanças de opinião pública e do ambiente político. Esse é o preço que pagamos pela educação superior das massas numa democracia e numa sociedade de massas.

Vemos como esse modelo de instituição, fruto dessa perspectiva industrial da universidade, tem, por consequência, uma instituição que não representa mais a sociedade e sim o mercado financeiro, já que essa flutuação é permanente e visa a princípios totalmente diferentes daqueles defendidos pela universidade social que buscava, anteriormente, o acesso ao conhecimento e não o tratamento do saber como mercadoria, acessível apenas para um determinado grupo. Temos, assim, a burocratização da academia que é a transformação da formação acadêmica na construção de saberes tecnocratas que não problematizam e sim buscam respostas rápidas e gerais, sem análises do processo de causa ou consequência.

Bauman (2014, p. 169) explica que essas formas de relações que visam o conhecimento e a produção acadêmica são, de certa maneira, resultados e reflexos de uma modernidade líquida4, que flui extremamente rápida, que se pauta a partir da construção de redes sociais, cujas amizades ou inimizades significam cliques e curtidas. É um momento de produção caracterizado pelo:

Semear, espalhar, propagar e cultivar ‘a ambiguidade, a obscuridade e a insegurança’, como você corretamente afirma, é de fato a estratégia de dominação usada na modernidade liquida para pôr de lado as estratégias ultrapassadas, incômodas, conflituosas e caríssimas da disciplina mediante a supervisão meticulosa e detalhada regulação normativa.

É o tempo de uma sociedade de consumo, organizada por um sistema de experiências imediatas e instantâneas que tratam o acúmulo e o descarte como sinônimos, que visam, única e exclusivamente, à possibilidade de explorar uma nova satisfação. Quando esse processo

4

Concepção sobre a atualidade social em que vivenciamos a partir de relações pessoais e institucionais, as quais

operam por meio de uma lógica que se sobrepõe pela liquidez, fluidez, volatilidade, incerteza e insegurança social.

permite um relacionamento recíproco, quando há possibilidade de satisfação simultânea, temos as remodelações que se “baseiam sua persistência na vontade do indivíduo como único, embora volátil, alicerce” (BAUMAN, 2014, p. 179). Esta satisfação, contudo, pode vir pela articulação da reciprocidade de cada um, isto é, um jogo que permite construir um produto da relação ou da satisfação por poder fazer uso do produto do outro.

É quase uma relação entre consumidores: não há lealdade ou fidelidade. A busca é por satisfação e atendimento de nossos objetivos. A relação é estabelecida até que outro produto se disponha a resolver nossos problemas de forma mais rápida e melhor. “Todos os bens de consumo, incluindo os que são descritos de forma um tanto hipócrita e enganosa como ‘duráveis’, são substituíveis e descartáveis” (BAUMAN, 2014, p. 180). No consumismo, buscamos por algo que possamos fazer uso e depois descartar.

Ao abordar a universidade e o universo acadêmico, não podemos deixar de refletir que esses espaços também são influenciados pelas relações dessa modernidade líquida, seja porque o pesquisador se coloca como subalterno em relação aos órgãos financiadores, produzindo apenas o que é demandado por esses órgãos, seja porque cria pesquisadores que, ao invés de produzir conhecimentos, limitam-se a promover aqueles que os inserem na comunidade científica ou, neste caso, no mercado.

É o estabelecimento das relações de influências que constituem as relações de poder dentro do universo acadêmico-científico, demarcando o que Bauman (2014, p. 192) chama de “Ganges acadêmicas”. Situação que te leva a ser “identificado com uma delas enquanto faz referências ‘corretas’ e pertence à mesma terra santa de um método”.

Trata-se de um sistema que mantém sempre determinados grupos como representantes, detentores de saberes específicos. São grupos de professores e pesquisadores que controlam a produção de determinada área, fazendo com que o novo seja sempre produzido a partir de uma intervenção ou supervisão, ou seja, a formação passa pela preparação de novos pesquisadores que terão seus questionamentos e decisões contestados e validados.

O sistema moderno que vemos hoje e que Bauman (2014, p. 195) classifica como “modernidade líquida”, nos evidencia uma nova ordem de instituições de controle, que se fundamentam em paradigmas anteriores a revolução francesa e que marginaliza ou coloca em segundo plano a possibilidade do sujeito moldar o mundo a partir de suas próprias ideias.