Model specification
4.10 Non-parametric modelling
Mas qual o papel que assume esse dizer no centro de uma interação verbal? Para compreender essa questão é necessário retomar a crítica apresentada por Volóchinov(1929/2017) em Marxismo e Filosofia da Linguagem no que se refere aos estudos ligados tanto à vertente estruturalista, que trata a língua como abstração, quanto às relacionadas à estilística formalista, que têm o sujeito como centro da produção verbal, valorizando, portanto, a subjetividade na linguagem.
Para a primeira corrente – o objetivismo abstrato –, a língua é um sistema estável e imutável de formas linguísticas. Segundo essa linha de pensamento, estariam concentrados na estrutura da língua (fonética, lexical, morfológica, sintática) todos os recursos necessários para que a comunicação ocorresse. Como resultado disso, o sujeito não é entendido como necessário ou participante do processo de comunicação. Seu papel é o de apenas fazer uso dos signos linguísticos que fazem parte de um sistema fechado, que já vem pronto.
Volóchinov (1929/2017) critica essa abstração, argumentando que a palavra só assume seu verdadeiro sentido quando em uso, em contato com esse sujeito que produz o discurso e em relação com a situação social e histórica em que este se realiza. É nesse sentido que afirma:
Desse modo, a consciência linguística do falante e daquele que escuta e compreende não lida na prática ou na fala viva com um sistema abstrato de formas linguísticas, mas com a linguagem no sentido do conjunto de diferentes contextos possíveis em que essa forma linguística pode ser usada. Para o falante nativo, a palavra se posiciona não como um vocábulo de dicionário, mas como uma palavra presente nos enunciados mais variados de combinação linguística A, B, C etc., e como palavras de seus próprios enunciados multiformes de sua comunidade e das múltiplas enunciações de sua própria prática linguística.
Como resultado dessa nova forma de entender a linguagem, o autor vai reforçar a ideia de que existe um vínculo estreito entre o discurso produzido e sua realidade histórica, social e ideológica, na qual o sujeito está situado. É o primeiro passo na direção de se considerar a relação entre linguagem e sujeito.
Para não ser mal compreendido, no entanto, o estudioso vaiapontar que apesar da importância em se considerar o sujeito, não é nele que está todo o centro de produção de sentidos da língua. É por esse motivo que trará suas considerações acerca da problemática presente em um pensamento que idealize o indivíduo.
Conforme essa segunda corrente do pensamento linguístico da época – o subjetivismo idealista –, a língua seria resultado do mundo interior do sujeito e, por isso, reflexo de um processo criativo engendrado por ele. Coloca-se sob o indivíduo toda a responsabilidade pelo dito, mas não se consideram as relações desse dizer com a situação social e histórica em que ele foi produzido.
Volóchivov (1929/2017) vai discordar do ponto de vista trazido por essa teoria ao mostrar que toda forma de expressão do sujeito não é interior, mas exterior, uma vez que se situa no meio social em que o indivíduo vive. Além disso, vai mostrar que o conteúdo ideológico das formas linguísticas não se localiza no psiquismo individual do sujeito – como defendia o subjetivismo idealista –, mas tem natureza social.
Para o autor, nem o objetivismo abstrato, nem o subjetivismo individualista conseguem dar conta da dinamicidade e do caráter social e histórico da língua. Por isso, opõe-se a uma visão monologizada de língua trazida por essas duas teorias (que evidenciam a oposição sistema linguístico x subjetividade do sujeito, ambas entendendo a fala como individual) e propõem uma compreensão de linguagem mais ampla, uma síntese dialética, em que a fala – ou a expressão concreta de realização desse dizer – seja entendida na sua dimensão social, na sua relação entre interlocutores, tempo/ espaço e ideologias dentro de um contexto histórico e social mais amplo.
A linguagem, nessa concepção, tem uma natureza sócio-histórica, isto é, constrói-se no contexto em que se realiza, refletindo e refratando as ideologias que aí circulam. Para se considerar, portanto, a verdadeira substância da língua, importa antes considerar os fenômenos sociais por meio das interações, que os das
condições psicofisiológicas do falante/produtor, ou o estudo de sistemas linguísticos abstratos, isolados da situação concreta de realização da língua.
Essa visão enunciativa de linguagem está no cerne dos estudos bakhtinianos e, em matéria de ensino, evidencia uma nova forma de tratar a linguagem. Assim, entendida como resultado da interação com o outro, a língua passa a ser vista como mutável, flexível e dinâmica.
No que tange ao trabalho com gêneros orais na escola, essa maneira de ver, desloca um estudo centrado apenas no dizer individual (subjetivo) de cada sujeito – ou apenas na delimitação temática desse dizer –, e traz uma nova concepção em que este indivíduo precisa ser colocado em relação à responsabilidade do dito dentro do contexto sócio-histórico em que está inserido, consideradas aí todas as condições de produção/recepção e circulação do discurso.
A partir desse contexto de oposição às teorias linguísticas formalistas e de uma proposição sociológica de linguagem, podemos entender a concepção de enunciado concreto, também central nos textos do círculo.Para Bakhtin (1952- 53/2016, p. 28), o enunciado é a “real unidade da comunicação discursiva”, ou seja, é a realidade material da linguagem, constituída, por um lado, de uma parte verbal – a língua – e, por outro, de uma parte extraverbal, a situação comunicativa que o envolve, incluídos aí não apenas o contexto mais imediato da interação, mas também a cadeia histórica e social mais ampla de que este enunciado faz parte.
A concepção de enunciado proposta pelo autor aponta na direção de que só é possível compreendê-lo dentro de uma situação concreta da interação verbal e, por isso mesmo, ele sempre estará voltado para o outro, um interlocutor, quer este esteja fisicamente presente, quer seja apenas pressuposto no momento do dito. A constituição do enunciado é, portanto, dialógica, visto que ele não pode existir fora de uma orientação social.
Neste sentido,Volóchinov procura diferenciar o enunciado concreto da sentença, frase e oração. Estas, como unidades linguísticas abstratas, não vinculadas à realidade, integram um sistema fechado, monológico e, portanto, não podem prestar à significação. Por isso mesmo, alertam: “Enquanto o enunciado como um todo permanecer terra incógnita para o linguista, não se pode falar de uma
compreensão real, concreta e não escolástica das formas sintáticas.” (VOLÓCHINOV, 1929/2017, p. 242)
No nosso entendimento, as questões da oralidade vão no mesmo caminho: enquanto essa oportunização de fala restringir-se apenas ao reconhecimento de estruturas – como a forma composicional dos gêneros ou as tipologias textuais que neles podem ser observadas – estaremos ainda fazendo um ensino abstrato do oral.
Em Palavra na vida e palavra na poesia, Volóchinov (1926/2013) já mostrava a importância de não se observar apenas os fatores linguísticos para a compreensão do enunciado, uma vez que se perde muito da significação quando não se considera a situação extraverbal implicada no verbal.O autor mostra nesse texto que o enunciado observado apenas sob o ponto de vista linguístico não consegue evidenciar toda a significação que nele pode haver. Para comprovar sua tese, apresenta um enunciado (“bem”) e o analisa por dois ângulos: o linguístico (que não se pode compreender de fato) e o que considera também o contexto extraverbal (que realmente permite a compreensão do que é dito).
Duas pessoas se encontram em uma casa. Estão caladas. Uma delas diz: “Bem”. O outro não responde nada.
Para nós outros, que não nos encontramos na casa na situação da conversação, todo esse “discurso” é absolutamente incompreensível. A enunciação “Bem”, tomada isoladamente, é vazia e absolutamente carece de sentido. Não obstante, essa singular conversação entre os dois, que consta de uma só palavra expressivamente entonada, é plena de sentido, de importância e está perfeitamente concluída. [...]
Que nos falta? Nos falta, justamente, aquele contexto extraverbal no qual a palavra “Bem” apresenta um sentido para aquele que a ouve.
(VOLÓCHINOV, 1926/2013, p. 78)
A constituição desse contexto extraverbal, que integra o próprio enunciado, é marcada por três aspectos, segundo o autor: (1) o lugar físico em que estão os interlocutores; (2) o conhecimento comum da situação em que o enunciado é produzido; e, por fim, (3) o valor atribuído pelos dois à situação.
Nessa perspectiva, o enunciado é entendido na relação direta com a situação em que se deu o processo interativo. Em outras palavras, verbal e não-verbal estão
intrinsicamente ligados no todo do enunciado e compreender o que está nele subentendido é fundamental para gerar sua significação integral.
Sobre o exemplo apresentado, o autor esclarece:
No momento da conversação, ambos os interlocutores olharam pela janela e viram que começava a nevar [aspecto 1]; os dois sabem que é mês de maio e que faz muito tempo que devia ter iniciado a primavera [aspecto 2]; finalmente, aos dois o inverno tão prolongado é um mal; ambos esperam a primavera e a queda da neve tão fora de época entristece os dois [aspecto 3].
(VOLÓCHINOV, 1926/2013, p. 78)
Esta realidade é fundamental, no nosso ponto de vista, para os estudos sobre a oralidade com enfoque bakhtiniano. Se a proposta didática do LDP, para o ensino do oral, propõe apenas uma orientação temática para guiar o aluno sobre o que dizer, ou apresenta instruções ligadas à situação mais imediata da produção do discurso, decerto estará pecando ao não levar o aluno a perceber que esse dito, por estar situado na vida, dela não pode ser separado, daí a necessidade de se compreender também os valores implicados na situação comunicativa.
Mais que palavras sobre determinado assunto, o enunciado produzido possui uma valoração e a forma desse dizer carregado de valor axiológico – a entonação – deve ser considerada para se atingir a finalidade comunicativa, tendo em vista os interlocutores envolvidos e a situação mais ampla que envolve o enunciado. Buscaremos mostrar, em nossa análise do corpus, se isto acontece e, em caso afirmativo, como é concretizado na proposta didática.
Voltando à questão proposta no início desse tópico, é preciso ter claro que a linguagem, no interior de um ato de fala, assume um outro papel que foge tanto de uma visão centrada apenas no linguístico, como de uma concepção individual, dependente exclusivamente do enunciador. Considerada como um enunciado concreto, esse dizer só pode ser compreendido no interior de uma comunicação social efetiva e, portanto, não pode deixar de considerar seus interlocutores (e as relações hierárquicas entre eles), os embates histórico-sociais que dialogam com
otexto, constituindo-o, e as relações ligadas à situação comunicativa, seja mais imediata, seja a ligada à grande temporalidade32.
Compreendida a noção de enunciado, é importante refletir sobre quem é esse sujeito que faz uso da linguagem e mostra sua voz em uma dada situação de interação verbal.