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Association rules

Model specification

4.8 Local models

4.8.1 Association rules

Os modos de produção oral e escritasão sistemas complementares de compreensão do mundo. Na perspectiva da organização textual-discursiva, no entanto, é significativo conhecer as especificidades do modo de enunciação oral uma vez que, como Koch (2006), entendemos fala e escrita como duas modalidades, com características próprias, afastando a concepção de escrita como mera transcrição da fala.

Todo texto é resultado de uma coprodução entre interlocutores: o que distingue o texto escrito do falado é a forma como tal coprodução se realiza. No texto escrito, a coprodução se resume à consideração do outro para o qual se escreve, não havendo participação direta e ativa deste na elaboração linguística do texto, em função do distanciamento entre escritor e leitor. Consequentemente, inexistem marcas explícitas de atividade verbal conjunta. A dialogicidade aqui se estabelece por meio de uma relação 'ideal', em que o escritor desempenha o papel que lhe cabe, enquanto produtor do texto, assumindo, também, a perspectiva do leitor. No texto falado, por estarem os interlocutores copresentes, ocorre uma interlocução ativa que implica um processo de coautoria, refletido, na materialidade linguística, por marcas da produção verbal conjunta.

(KOCH, 2006, p. 40).

Na visão da autora, não há como negar que existe a participação de dois interlocutores – o produtor e o leitor/ouvinte – na produção de um texto, seja oral ou escrito, mas ressalta que a questão da presença/ausência destes últimos no momento de produção real do enunciado é um fator importante para compreensão das marcas que apontam para a produção oral ou escrita. Em outras palavras, podem-se entender no mínimo duas especificidades entre esses discursos: o próprio fato de um ser falado e outro escrito, e o contexto de cada uma dessas produções.

Essa visão permite o entendimento de aspectos da escrita, por exemplo, quando há uma relativa proximidade com o leitor – como no caso da escrita de um bilhete quando o interlocutor encontra-se muito próximo. No modo de produção oral isso também fica claro e a autora também sinaliza para isso ao afirmar que existem “diferenças de grau de manifestação da coprodução verbal conjunta.” (KOCH, 2006, p. 40).

Ainda entendendo a problemática das concepções estagnantes de uma visão dicotômica entre essas modalidades – como já apontado nesse capítulo – Koch procura apontar o que poderia ser considerado como características próprias da fala. Elenca, para isso, cinco aspectos.

O primeiro estaria ligado ao fato de a produção oral ser “relativamente não planejável de antemão” (KOCH, 2006, p. 45). Para nós, é significativo o uso do termo “relativamente” nesta definição, uma vez que permite a possibilidade de alguma forma de planejamento, distanciando-se da concepção apontada na época da grande divisa: escrita planejada e fala não planejada. Entender a fala como “relativamente não planejada”, implica em dizer que mesmo para a fala espontânea pode haver alguma forma de planejamento: do assunto, do uso vocabular adequado à situação, de formas linguísticas mais ou menos formais, e mesmo dos limites sobre o quanto se deve/precisa dizer em determinado momento.

O segundo aspecto apontado pela autora refere-se ao fato de o texto falado ser produzido em se fazendo, ou seja, a produção ocorre simultaneamente ao planejamento do texto. E, como resultado, podem ser observadas algumas marcas textuais que evidenciam o próprio processo de produção.

O terceiro ponto tem, de certa forma, uma relação com esse segundo: como o planejamento é constante, no decorrer de toda a produção oral, é possível que ocorram descontinuidades no fluxo discursivo. A sintaxe é, pois, menos linear e pode ser até mais complexa que a produção escrita, ao contrário do que se acreditava na visão dicotômica. Importante ressaltar que a ideia antes defendida de a fala ser mais simples possibilitava um entendimento de essas descontinuidades serem um erro, um problema, o que levava a crer que a fala era pouco organizada. Nessa nova visão, compreendendo os fatores interacionais de produção do texto, as pausas

ehesitações são vistas como naturais e possuem, muitas vezes, justificativas implicadas na própria situação discursiva.

O quarto tópico apontado pela autora (KOCH, 2006) diz respeito ao fato de o texto falado apresentar uma sintaxe característica, ainda que continue fazendo uso da sintaxe geral da língua. Assim, não se trata de uma nova língua, mas de uma modalidade que traz aspectos pontuais que precisam ser observados.

Por fim, para apresentar o quinto aspecto característico da fala, a autora retoma a metáfora de Halliday (1985, apud KOCH, 2006), relacionando a escrita a um quadro – portanto estático – e a fala a um filme, por sua dinamicidade. Mais uma vez o foco está relacionado ao momento da produção do enunciado: é o resultado de um processo, quando escrito, e é o próprio processo, quando falado.

Considerando esses aspectos, a autora conclui que a própria situação de interação face a face, em uma produção imediata, vai levar à construção de um discurso que muitas vezes sofre a influência de “pressões de ordem pragmática”, as quais “em muitos casos, obrigam o locutor a sacrificar a sintaxe em prol das necessidades da interação” (KOCH, 2006, p. 46). Como resultado desse aspecto, o texto falado pode apresentar não apenas “falsos começos, truncamentos, correções, hesitações”, como ainda “inserções, repetições e paráfrases, que têm, frequentemente, funções cognitivo-interacionais de grande relevância.” (KOCH, 2006, p. 46).

Para Marcuschi, tanto a hesitação, quanto a interrupção são fenômenos específicos da oralidade, visto que “se manifestam em todos os gêneros de textos falados e não são constatados em textos escritos prototípicos” (MARCUSCHI, 2006, p. 47). Para o autor, a hesitação pode ser entendida como uma estratégia para “ganhar mais tempo”, isto é, um recurso utilizado com vistas a repensar a própria produção do texto. A interrupção, por sua vez, teria objetivos diversos, dentre os quais cita a introdução de reformulação que fosse significativa para a progressão textual, e o acréscimo de informações – linguísticas ou contextuais – que colaborem para a compreensão do discurso produzido.

a) fenômenos prosódicos: pausas, geralmente prolongadas, e alongamentos vocálicos;

b) expressões hesitativas: éh, ah, ahn, mm;

c) itens funcionais: artigos, preposições, conjunções, pronomes, verbos de ligação;

d) itens lexicais: substantivos, advérbios, adjetivos, verbos;

e) marcadores discursivos acumulados: sei lá; quer dizer sabe; então

né ah etc.;

f) fragmentos lexicais: palavras iniciadas e não concluídas.

(MARCUSCHI, 2006, p. 50)

Com relação a sua funcionalidade, o autor aponta que apesar de a hesitação não ter um papel sintático pontual – visto que sua exclusão da sentença não implicaria em perdas gramaticais – seu uso está mais ligado a interferências de ordem discursivas, servindo, pois, de índice da formulação e evidenciando o maior ou menor domínio do falante em relação à tomada de turno no processo de comunicação. Dessa maneira, os que têm pouco domínio, acabam não fazendo uso da palavra, pois têm dificuldade para manter o turno. (MARCUSCHI, 2006).

No que tange ao processo de interrupção, Souza e Silva e Crescitelli (2006) evidenciam que esses inacabamentos são fruto de dois processos: (1) a autointerrupção, ocasião em que o falante decide fazer uma pausa no que está dizendo; (2) heterointerrupção, caso em que as paradas acontecem pela troca de turno forçada, ou seja, quando o interlocutor faz um assalto ao turno do outro que tem a palavra.

Para as autoras, a interrupção só pode ser considerada como tal quando temos, de um lado, um corte do que está sendo dito e, de outro, a sua retomada. Esses dois elementos caracterizariam os critérios fundamentais para evidenciar o caráter constante e sistemático da interrupção na língua falada. Em outras palavras, podemos dizer que houve interrupção em dois casos: quando há um corte e uma retomada, e quando há um corte sem a retomada. Este segundo caso seria menos comum que o primeiro.

As autoras ainda justificam o fato de a interrupção ser uma estratégia de produção do texto falado apontando que tal fenômeno não ocorre apenas com

determinados indivíduos ou situações, mas é o resultado da relação temporal simultânea entre o planejamento e a produção textual concreta da fala.

Por fim, acrescentam:

Como fenômeno sinalizador, a interrupção aponta, ainda, para o caráter reflexivo da linguagem, isto é, para a possibilidade que esta tem de poder olhar para si mesma, de se voltar sobre aquilo que acabou de ser dito ou antecipar o que ainda vai ser proferido.

(SOUZA e SILVA; CRESCITELLI, 2006, p. 86)

Compreendemos, assim, que a interrupção, como fenômeno próprio da comunicação oral, desempenha um papel interacional significativo que tem marcas linguísticas e regularidades suficientes para serem observados com mais atenção no processo de reflexão sobre a linguagem em práticas educacionais concretas, como as que são pensadas para esse fim, no livro didático de português.