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Les niveaux de maturité de processus

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7 – AUTRES REFERENTIELS

2. Les niveaux de maturité de processus

A fim de contextualizar o sítio arqueológico que é objeto de nosso trabalho, faz- se necessário uma abordagem, ainda que superficial, das pinturas rupestres que encontramos na Serra do Cabral.

As pinturas rupestres são os vestígios arqueológicos mais abundantes na Serra do Cabral, estando presentes em todos os sítios arqueológicos, sendo que na sua esmagadora maioria constituem o único tipo de vestígio humano encontrado. Não foi encontrada nenhuma gravura até o momento, somente pinturas em abrigos, sendo as grutas raras neste tipo de formação geológica.

As pinturas ocorrem geralmente no teto ou no fundo das lapas, como se denominam os abrigos no local. O principal tema das pinturas rupestres da Serra do Cabral são os zoomorfos, representações de animais, que correspondem a 58,3% das representações, seguidas dos signos ou ideomorfos, que somam 37,5%, sendo 4,2% imagens antropomórficas (SEDA, 1998).

Foi devido a esta temática que resolvemos comparar esta arte com aquela encontrada em sítios paleolíticos europeus. A comparação com uma arte tão estudada pode trazer à tona alguns padrões de comportamento, já que ambas são parte de crenças

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de povos caçadores-coletores13, sendo que neste caso específico estamos perante a fauna atua

Morales trabalha brilhantemente a problemática da subjetividade na identificação dos temas de arte rupestre (MORALES, 1994). No caso da Serra do Cabral, acreditamos ter diminuído um pouco esse problema, pelo menos no que tange aos animais.

Deve-se ter presente que a região ainda é reconhecida como um local propício à caça, sendo considerada, até recentemente, riquíssima nesse aspecto. Por outro lado, a arte rupestre parece testemunhar que isto também acontecia no passado e com certeza ainda com maior abundância, com uma fauna não totalmente igual, mas bastante semelhante a atual. Merece destaque também, o fato dos zoomorfos da Serra do Cabral poderem ser considerados bastante realistas, apresentando uma série de detalhes que permitiram sua identificação, além de outras informações. A tendência realista foi outro dos fatores que nos fizeram crer ser válida a comparação com a arte paleolítica européia.

A Serra do Cabral até hoje é ocupada de forma sazonal.15 Ela é frequentada por caçadores, coletores de flores secas para a indústria de ornamentação, garimpeiros de cristal de quartzo e pastores que levam o gado para o alto da serra no período da seca. Foi constatado que as pessoas locais que acompanhavam os trabalhos arqueológicos identificavam, natural e espontaneamente, os animais representados. A partir dessa percepção, procurou-se sistematizar este processo de identificação, baseado em dois

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Tanto a temática das pinturas como o material proveniente dos sítios indicam que se tratam de bandos de caçadores-coletores. Voltaremos a esse tema posteriormente.

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A datação mais antiga da região é de 1650 BP. 15

  O que também devia ocorrer no passado, pois até o momento não foi encontrado nenhum sítio arqueológico que demonstre uma ocupação muito prolongada. Isso será melhor exposto posteriormente.

       

supostos básicos: primeiro, que os animais retratados na arte rupestre da região seriam, muito provavelmente, os mesmos ali existentes e caçados; segundo, que a experiência dessas pessoas, muito mais próximas do universo da Serra do que nós, poderia fornecer uma identificação mais próxima do real. A identificação, procurando transformar uma informação empírica em informação científica, seguiu algumas etapas e cuidados.16

Os informantes explicavam o que havia permitido identificar o animal. Muitas vezes a razão era bastante evasiva, mas, por outras, muito objetiva e coerente. Os fatores de identificação apontados foram: a forma geral do corpo, a forma da cabeça, detalhes anatômicos (galhas e orelhas, por exemplo), cauda, patas, casco, manchas e malhas e a atitude do animal (forma característica de correr, pular, posicionar a cabeça, entre outras). Além disso, havia casos em que também eram fornecidas informações quanto ao sexo e à idade do animal, o que igualmente era anotado, bem como os fatores que levaram a tal conclusão (SEDA, 1998).

Em nenhum momento tentou-se a classificação por espécie, uma vez que os animais não são detalhados a tal ponto e mesmo quando o identificado possui uma única espécie (caso do mocó, Kerodon rupestris), não sabemos se no passado isto também acontecia. Dessa forma, a classificação mais específica foi por gênero, utilizada para animais que possuem um único gênero (Tayassu sp, por exemplo, empregado tanto para o porco-do-mato-cateto quanto para o porco-do-mato-queixada). Já a classificação por família foi utilizada para animais semelhantes, mas com gêneros diferentes (caso do tatu, família Dasypodidae), ou ainda para identificações insuficientes, comportando vários gêneros (caso do macaco, família Cebidae). Por fim, algumas classificações

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 O método proposto e as primeiras identificações foram apresentados, detalhadamente, na IV Reunião da Sociedade de Arqueologia Brasileira, em 1987 (SEDA e ANDRADE, 1989).

       

foram extremamente vagas, não se permitindo ir além da classe do animal (como, por exemplo, peixes, classe Osteichthyes) (IDEM).

Seda afirma que “nossos informantes, se não têm na caça a sua subsistência, ainda a praticam e encaram como uma atividade importante e repartem praticamente o mesmo meio ecológico daqueles que realizaram os desenhos” (IDEM: 142).

Percebe-se que os mamíferos representam 40,8% do total, seguidos dos peixes, com 39,5%. Em menor percentual aparecem os répteis (13,3%) e as aves (5,3%). Os mamíferos são sobretudo cervídeos (60,4%), principalmente fêmeas (Ozotocerus sp, 38,5%), enquanto as aves são basicamente emas (Rhea sp, 85,7%) e os répteis, tartarugas (Família Pelomedusidae, 83,3%). Os peixes, na sua maior parte, só puderam ser identificados pela Classe (73,9%), embora os bagres (Família Pimelodidae, 14,8%) tenham uma boa representatividade17 (IDEM).

Quanto às cores empregadas na confecção das pinturas, predomina o vermelho (84,8%). Temos também o amarelo (12,4%), o branco (2,4%) e o preto (0,3%). Quanto à perspectiva, há um predomínio absoluto do perfil relativo, que são figuras em perfil com algumas partes vistas de frente (IDEM). Não foi feito um estudo do pigmento, mas nos sítios arqueológicos escavados foram encontradas muitas pelotas de hematita, uma inclusive raspada para uso. Sabe-se que a hematita proporciona as cores vermelha e amarela, justamente as que predominam. Em alguns painéis, é a própria hematita que parece ter sido aplicada diretamente na rocha, ou seja, um dibujo, mas a grande maioria são pinturas provavelmente confeccionadas com o dedo ou com ajuda de pelo ou fibra

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 A identificação pela Classe ou Ordem foi feita quando os informantes assim identificavam ou quando o animal recebia identificações diferentes mas dentro da mesma Classe ou Ordem (por exemplo, ser identificado como cotia, mocó e paca, neste caso classificado como Roedor ou ser identificado como piranha, peixe e peixe, classificado então como Peixe).

eeman:

       

vegetal. Às vezes a figura é totalmente preenchida pela pintura, mas o mais característico é ter-se o contorno e o interior preenchido por traços.

Alguns sítios arqueológicos da Serra do Cabral têm outros vestígios além das pinturas rupestres, tratando-se quase que exclusivamente de material lítico.18 Esse material aparece em cinco sítios somente na superfície, em dois aparece numa profundidade maior, mais ainda assim muito superficial, e em outros dois aparece em profundidades consideráveis. Um desses sítios será abordado neste trabalho. Porém a grande maioria dos sítios só possui como vestígio humano a arte rupestre (89 sítios). Isso levou a que se considerasse estes sítios, bem como aqueles 5 sítios com apenas material superficial, como “sítios-cerimoniais”19 (SEDA, SILVA e MENEZES, 1983/4). Isto está de acordo com a definição de “santuário” de Fr

“Definirei santuário como um “lugar sagrado”: um lugar simbolicamente estruturado, separado das atividades da vida cotidiana, e dedicado ao desenvolvimento de atividades que estabelecem interações, culturalmente estruturadas, com um postulado sobrenatural, incluindo atos para promover a assimilação e reflexão do comulgante de crenças sobre a relação entre o mundo natural e o sobrenatural. (…) O fato de que os santuários habitualmente estiveram separados das atividades cotidianas, se sugere pela ausência neles de restos de atividades estritamente económicas (…)” (FREEMAN, 2005: 164).

Quanto à filiação cultural, a terminologia empregada no Brasil define como “tradição rupestre” o conjunto de elementos temáticos, técnicos e morfológicos que

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Também aparece cerâmica superficial, mas como trata-se de cerâmica tupiguarani e neobrasileira, e constituindo-se de pouquíssimo material, não a vamos abordar aqui por não pertencer ao grupo que estudamos. Um pouco desse assunto já foi abordado anteriormente.

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Dos 4 sítios restantes, 2 tiveram ocupação efémera, tendo pouquíssimo material. Os outros dois tratam- se de oficinas líticas e serão abordados posteriormente.

definem a arte. Para Prous, as pinturas rupestres da Serra do Cabral se enquadrariam dentro da Tradição Planalto, que se estenderia desde a fronteira dos estados do Paraná com São Paulo até o estado da Bahia, embora seu foco principal esteja no centro de Minas Gerais. Utilizaremos aqui a transcrição completa de como o autor descreve esta Tradição devido ao fato de ele ser o único a tentar uma classificação deste tipo para a arte rupestre do estado de Minas Gerais:

“A quase totalidade dos sítios só apresenta grafismos pintados, geralmente em vermelho (mais raramente em preto ou amarelo, por vezes, em branco). As figuras destacadas são sempre zoomorfos monocrômicos, cuja frequência pode ser muito alta, sendo raramente inferior à dos sinais geométricos; aparecem antropomorfos, também monocrômicos, em pequena quantidade, a não ser quando muito esquematizados; neste caso, formam conjuntos de pequenas figuras filiformes, que parecem cercar os zoomorfos. Entre os animais, os quadrúpedes são os mais representados, particularmente os cervídeos (até dois terços dos zoomorfos em alguns grandes sítios, a totalidade em outros, menores). Em certas regiões, os outros animais frequentes são os peixes e/ou pássaros. Raramente, são encontradas figuras de tatus, antas, porcos-do- mato e tamanduás. É notável a ausência de animais como emas ou cobras, característicos de outras tradições figurativas. As cenas explícitas são raras; em Lagoa Santa e na Serra do Cipó, são quase que exclusivamente formadas por um quadrúpede flechado, cercado por pequenas figuras filiformes em forma de que são certamente antropomorfos, pois uma delas geralmente segura um dardo. (…) No entanto, parecem existir cenas “implícitas”, ou seja, associações repetitivas e portanto significativas: grupos de três animais evidenciando por vezes características de macho, fêmea e cria, que chamamos “tríades familiares” (Lagoa Santa); associação constante do peixe e do cervídeo, que chega a contituir um verdadeiro mitograma; conhecemos até uma figura

cujo corpo e cabeça são de veado, as pernas sendo substituídas por peixes (Serra do Cabral) (vide figura 7). Pudemos verificar no centro mineiro (…) a existência de vários estilos regionais, alguns com fácies locais. Alguns deles se caracterizam pelo tratamento dos zoomorfos, mais ou menos cuidadosa e naturalisticamente tratados (algumas figuras do alto Jequitinhonha ou da Serra do Cabral têm alto valor estético), enquanto os antropomorfos são apenas esboçados. Outros evidenciam quase exclusividade das representações de cervídeos e peixes. Os sinais geométricos podem ser “nuvens de pontos”, bastonetes, “pentes”, etc. Em regiões fronteiriças há existência de influências externas (…)” (PROUS, 1992: 515-521).

Fig. 7 – Associação peixe-cervídeo citada por Prous.

Seda reconhece a grande semelhança entre os sítios da Serra do Cabral e aqueles do alto Jequitinhonha, também na Serra do Espinhaço, mas propõe que a arte rupestre da Serra do Cabral represente uma transição entre aquela de Lagoa Santa (Tradição Planalto) e aquela do norte do estado de Minas Gerais (Tradição São Francisco), o que seria apoiado pela própria posição geográfica da Serra, a meio caminho entre as duas regiões. Para ele existiria um primeiro momento em que as pinturas seriam muito semelhantes às do alto Jequitinhonha, enquanto num segundo momento receberiam a

influência da Tradição São Francisco (SEDA, 1998). Isto se justificaria pela grande ocorrência de signos abstratos e pela presença de pássaros (principalmente emas), cobras, sáurios e tartarugas, típicos desta tradição. É no primeiro momento que reconhecemos algumas convergências com a arte paleolítica européia, pelo menos no que se refere a uma tendência ao realismo nas representações (vide figuras 8 e 9).

Fig. 8 – Cervídeo da Serra do Cabral com tratamento realista. SEDA, 1998: 289

Fig. 9 – Bisontes da Cueva de Covaciella, em Astúrias, Espanha. CLOTTES, 2007: capa

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