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Ao discorrer acerca da formação de coalizões ou alianças no debate eleitoral, Blas Arroyo (2011) define-o como um esquema participativo no qual se observam a união entre dois ou mais atores que, por sua vez, procedem à adoção de uma estratégia em comum diante de um terceiro participante do contrato interacional.

Para Blas Arroyo (2011), considerando-se que, no trílogo, ocorrem formações de alianças ou coalizões, pode-se afirmar que os principais destinatários, isto é, os destinatários principais, são, de fato, o auditório e o moderador, para os quais os debatedores orientam o seu discurso.

Para Blas Arroyo (2011), há dois modos pelos quais os participantes da interação procedem à formação de coalizões dentro de um trílogo: as alianças formadas entre moderador e auditório e aquelas que se instituem entre um dos debatedores e auditório:

A natureza das coalizões pode ser, pois, muito variada. No contexto do debate, sua constituição póde ocorrer a cargo de duas figuras principais, o moderador ou algum dos contendedores. Contudo, em ambos os casos, o polo ao qual aderem é sempre o mesmo, a audiência. Desse modo, o falante se converte em aliado e porta-voz das ideias, crenças e aspirações do público expectador (BLAS ARROYO, 2011, p. 156).48 Importa acrescentar que, segundo o autor, há duas possibilidades no que tange à formação das coalizões no debate eleitoral: o auditório pode ora se manter neutro, ora estabelecer aliança com um de seus participantes, dando a sua aprovação, procedendo à adesão, às suas assunções. O auditório, que consideramos ser constituído pela platéia presente no debate

47 O quadro participativo em que o debate eleitoral se circunscreve apresenta uma estrutura complexa e dinâmica,

na medida em que, ao longo do processo de interação, seus participantes ocupam papéis voláteis, ocasionando mudanças frequentes no papel dos interlocutores, à medida que o evento comunicativo transcorre. Em outras palavras, os debatedores têm seus papéis no evento comunicativo continuamente reconfigurados, conforme a intenção discursiva dos participantes. Assim, a delimitação dos papéis interacionais é eminentemente fluída.

48 Tradução nossa da versão original em espanhol: La naturaleza de las coaliciones puede ser, pues, muy variada.

En el contexto del debate, su constitución puede correr a cargo de dos figuras principales, el moderador o alguno de los contendientes. Con todo, en ambos casos el polo al que adhieren es siempre el mismo, la audiencia. De este modo, el hablante se convierte en aliado y portavoz de las ideas, creencias y aspiraciones del público espectador (BLAS ARROYO, 2011, p. 156).

e, sobretudo, pelos milhões de telespectadores que não ocupam a cena fisicamente, configura- se, desse modo, em uma figura premente em interações trílogues. Com efeito, pode-se afirmar que esse auditório pode aderir a um ou outro debatedor, por meio de alianças e coalizões, mobilizando-se em favor de uma determinada tese que lhe é apresentada e, concomitante a isso, ser conduzido a refutar as demais, apresentando-se, pois, como um tipo de participante tão importante como o moderador e debatedores.

Entretanto, mais interessantes, do ponto de vista político, são as ocasiões nas quais a coalizão com a audiência surge de instâncias de um dos contendores no debate, [...] um dos índices verbais que mais claramente traduz esses intentos de coalizão é o representado pelas marcas dêiticas de pessoa, especialmente de um nós exclusivo, de cujo âmbito de referência se deixa o adversário deliberadamente à margem (BLAS ARROYO, 2011, p. 157).49

Marques (2017) pondera que, no discurso político eleitoral, a complexidade da estrutura de participação dos interactantes pode ser plurílogo, no sentido de agregar, segundo a autora, moderador, debatedores e o público:

Quanto ao número de participantes, o debate é um plurílogo, que agrega por um lado, o jornalista-moderador e os políticos-oponentes/participantes-adversários no debate, presentes no mesmo espaço físico da televisão, e, num outro plano, mas igualmente fundamental e atuante, o público, na função preferencial de eleitorado (MARQUES, 2017, p.18).

Partindo dos estudos de Zamouri (1995) e Caplow (1984), Fávero e Aquino (2002) procedem ao exame da formação de coalizões entre dois interlocutores, assim como à análise do papel desempenhado por um terceiro participante, dentro de quadros participativos trílogues. Segundo as autoras, em estruturas triangulares, como a que se verifica no debate eleitoral, pode- se observar, a formação de tipos distintos de “duos”, uma vez que há a possibilidade de uma cisão dentro do próprio trílogo:

Embora a interação social seja essencialmente triangular, uma das suas características é a possibilidade de cindir-se em dois mais um: A+B, A+C, B+C, ocasionando a formação de duos [...] (FÁVERO e AQUINO, 2002, p. 164).

De acordo com as autoras, os “duos” podem ser denominados das seguintes formas:

duos consensuais, duos conflituais ou duos instáveis. Assim, no exame do debate eleitoral, é

possível observar a formação de um “duo conflitual” entre os debatedores, os quais, por sua

49 Tradução nossa da versão original em espanhol: Ahora bien, más interesantes desde el punto de vista político

son aquellas ocasiones en las que la coalición con la audiencia surge a instancias de uno de los contendientes en el debate. [...] uno de los índices verbales que más claramente traduce esos intentos de coalición es el representado por las marcas deícticas de persona, especialmente de un nosotros exclusivo, de cuyo ámbito de referencia se deja deliberadamente al margen al adversario (BLAS ARROYO, 2011, p. 157).

vez, visam à formação de um “duo consensual” com o auditório, na medida em que o verdadeiro propósito da coalizão e da formação de um “duo conflitual” entre os candidatos é, de fato, o de persuadir o eleitorado – um terceiro participante –, tomando-o como uma espécie de aliado contra o candidato oponente (Fávero e Aquino, 2002, p. 171).

Posto isso, pode-se afirmar que, no debate eleitoral, procede-se à formação do que as autoras denominam de “duo conflitual estratégico”, na medida em que os participantes da interação estabelecem um embate de modo deliberado, isto é, um comportamento verbal marcadamente conflituoso, a partir do qual se instaura um tipo de interação em que os interlocutores assumem o papel de adversários, instaurando um duo conflitual com o propósito de conquistar a atenção do eleitorado mediante o estabelecimento de um duo consensual:

Não poderá ocorrer concordância quanto à posição apresentada por um debatedor; a discordância é a garantia da conquista do eleitorado, cujo número precisa ser ampliado quando do encerramento do debate (FÁVERO e AQUINO, 2002, p. 171).

Posto isso, pode-se afirmar que as críticas, acusações – dentre outros atos de ameaça – destinadas ao candidato oponente, cumprem finalidades persuasivas, visto que o destinatário real (o interlocutor privilegiado) é, de fato, o eleitorado que assiste ao debate. Instaura-se o conflito para, paradoxalmente, chegar-se a um consenso.

Nessa direção, a noção de “duo conflitual estratégico”, proposta pelas autoras, explica, de modo profícuo, o fato de haver argumentação em um tipo de interação na qual não se objetiva o consenso, como se espera em debates cooperativos (BLAS ARROYO, 2011), cujos propósitos são os de modificar crenças e valores do outro debatedor mediante o uso de argumentos ao fim da interação. O que ocorre no debate eleitoral é, justamente, o contrário: trata-se de promover e aprofundar o dissenso que, nesse caso, afigura-se como uma prática comum ao discurso de ambos os candidatos e que, por ser adotada por dois membros do trílogo, configura-se como o que se pode denominar como a formação de um “duo conflitual” de finalidades estratégicas, conforme já ressaltamos.

Nesse sentido, não se pode afirmar que o debate eleitoral se apresenta como um “diálogo de surdos” (Marc Angenot, 2012; 2015), uma vez que é possível observar finalidades argumentativas por meio do aprofundamento do conflito. Nesse caso, o dissenso, promovido pelo embate entre os interlocutores – cujas práticas verbais não visam chegar a um acordo – cumpre um fim, segundo as autoras: o de estabelecer uma aliança como o público a quem, de fato, estão orientadas. Em outras palavras, o estabelecimento de “duo conflitual” (Fávero e Aquino, 2002) cumpre finalidades discursivas de natureza persuasiva, porque os interlocutores, no caso, os candidatos que o compõem, fazem uso de estratégias comuns, em um complexo

trabalho de co-construção de um discurso polêmico, a fim de construir uma aliança com um dos participantes da interação. A esse respeito, cumpre observar a tentativa de instaurar o que as autoras denominam como “duo consensual”, que se estabelece, de modo estratégico, com o eleitor.

Blas Arroyo (2011) assinala que, no debate político, os interlocutores se dirigem a uma audiência bastante complexa, sendo estruturada em níveis distintos:

Desde o público que assiste ao vivo ao enfrentamento (platéia da televisão, parlamento…) e os telespectadores que o seguem em suas casas, até as pessoas que não presenciaram diretamente os debates, mas que estão a par de seu desenrolar por meio da imprensa. E, tudo isso, sem se esquecer da possibilidade de uma audiência, entretanto, mais ampla, que, no caso do debate eleitoral seria representada pelo conjunto do eleitorado (BLAS ARROYO, 2011, p. 43). 50

O debate político apresenta, assim, um tipo de estrutura participativa que nos remete ao teatro, no qual o público51 – verdadeiro destinatário da peça – encontra-se alheio ao espetáculo, na medida em que não participa diretamente do desenrolar da trama, mas é em função dele que o espetáculo, de fato, se desenvolve. Os atores encenam e parecem dialogar entre si, quando, na verdade, estão a dialogar para um público que se encontra ausente da encenação e para o qual todo o espetáculo se dirige. Nesse sentido, afirma Charaudeuau (2015), acerca desse tipo de interlocução, o seguinte: “o discurso político é um jogo de máscaras”.

Importa assinalar que, no debate político, o eleitorado, constituído pelos cidadãos a que se quer convencer, configura-se na principal instância da enunciação a qual o orador se dirige, conforme assinala Charaudeau (2015):

Sendo a política um domínio de prática social em que se enfrentam relações de força simbólicas para a conquista e gestão de um poder, ela só pode ser exercida na condição mínima de ser fundada sobre uma legitimidade adquirida e atribuída. Mas isso não é suficiente, pois o sujeito político deve também se mostrar crível e persuadir o maior número de indivíduos de que ele partilha certos valores. É o que coloca a instância política na perspectiva de ter que articular opiniões a fim de estabelecer um consenso. Ela deve, portanto, fazer prova da persuasão para desempenhar esse duplo papel de representante e de fiador do bem-estar social (CHARAUDEAU, 2015, p. 79).

50 Desde el público que asiste en vivo al enfrentamiento (platô de television, parlamento...) y los telespectadores

que lo han seguido desde sus casas, hasta las personas que no han presenciado en directo los debates, pero están al tanto de su desarrollo por la prensa. Y todo ello, sín olvidar la posibilidad de una audiencia todavia más amplia, que en el caso del debate electoral verdria representada por el conjunto del electorado (BLAS ARROYO, 2011, p. 43).

51 O discurso político, se televisionado, apresenta certas especificidades decorrentes do fato de ser formulado para

telespectadores diversificados, quer em razão da extensão territorial do país, quer dos diferentes níveis social, econômico e cultural da população. Caso esse discurso se configure como um debate televisivo, outras características o individualizarão, pois observamos que o detentor da palavra formula seus enunciados preocupando-se em interagir com seu adversário, com o mediador – ali presentes – e, principalmente, com a terceira parte, constituída pelos telespectadores – seu eleitorado em potencial. Assim, é preciso, antes de mais nada, persuadir, garantir a adesão dos telespectadores, seja de modo explícito ou velado (AQUINO, 2003, p. 197).

Nesse sentido, é possível afirmar que, no debate político eleitoral, é possível, sim, estabelecer um consenso engendrado pela realização do discurso político, conquanto a lógica desse evento discursivo seja a instauração do conflito entre os participantes da interação, conforme salienta Charaudeau (2015). Trata-se, não obstante, do estabelecimento de um consenso, isto é, “de pontos de acordo”, com uma terceira instância – “a instância cidadã” – a qual se quer persuadir por intermédio de um discurso que se procura legitimar – no caso, o da “instância política”.

CAPÍTULO 2- OS ESTUDOS INTERACIONAIS: AS CONTRIBUIÇÕES

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