Em suas análises acerca do debate eleitoral, Fávero e Aquino (2002) assinalam que o debate político-eleitoral se afigura como um tipo de contrato interacional que apresenta, necessariamente, um quadro participativo especial: trata-se, segundo as autoras, de um quadro
argumentativo:
O debate televisivo apresenta não só um quadro interacional específico, como também um tipo de argumentação especial. A argumentação, definida como meio de persuadir o interlocutor (Perelman e Olbrechts- Tyteca, 1983), desenvolve-se não para convencer o outro debatedor, nem o mediador, mas o público ouvinte, telespectador que, por sua vez, também apresenta especificidades: não se trata de um público especial, de uma só classe social, de um só gênero, pois são eleitores o jovem ou o idoso, o assalariado ou o empresário, todo o público, enfim, precisa ser alvo da persuasão (AQUINO e FÁVERO, 2002, p. 173).
Para Fávero e Aquino (2002), o quadro argumentativo configura-se como uma estrutura participativa interacional específica, na qual o propósito não é o de convencer o outro debatedor mediante o uso de argumentos, mas sim o de atacá-lo, rechaçando sua imagem, refutando-lhes as teses, dentre outros comportamentos verbais calcados no dissenso. Não obstante, em um primeiro momento espere-se que o destinatário seja o candidato oponente, é por meio de uma análise mais profunda da dinâmica em que se inscreve o quadro participativo do debate, que se pode observar para quem, de fato, os debatedores se dirigem: ao público telespectador, o qual, conforme as autoras, também apresenta características específicas, em função de sua complexidade:
Não se trata de um público especial, de uma só classe social, de um só gênero, pois são eleitores o jovem ou o idoso, o assalariado ou o empresário, todo o público, enfim, precisa ser alvo da interação (FÁVERO e AQUINO, 2002, p. 173).
Posto isso, Fávero e Aquino (2002) apresentam duas estratégias que norteiam a dinâmica e o desenvolvimento do debate político-eleitoral, instauradas, segundo as autoras, com “um duplo direcionamento”:
- provocar o adversário, fazendo com que exponha sua face publicamente;
- persuadir o telespectador a aceitar o candidato que está com a palavra (nesse procedimento, é automática a rejeição do adversário).
Considerando que os debatedores procedem ao uso de uma estratégia comum no debate eleitoral – que consiste em efetuar o ataque, em detrimento da busca de um consenso – pode-se afirmar que, dentro do esquema participativo trílogue, há que se observar a formação de um “duo”, o qual, segundo Fávero e Aquino (2002) constitui-se a partir de uma espécie de cisão dentro dessa estrutura triangular.
Fávero e Aquino (2002) observam que, em determinadas intervenções ou interpelações dos candidatos, a volatilidade dos papéis no debate eleitoral pode ser observada, sobretudo, nos momentos em que um candidato se volta para o oponente, tecendo-lhe acusações, dentre outros atos. Nesse caso, observa-se que, em um primeiro momento, o destinatário direto consiste no próprio rival.
Por outro lado, sobretudo nos momentos em que se visa a atingir o telespectador, nos turnos de abertura e de fechamento, nos quais os candidatos procedem à construção de uma autoimagem crível, por meio da apresentação de seus programas e propostas eleitorais, o destinatário direto passa a ser o eleitor/ telespectador.
De fato, é para o público que o debate é elaborado, ele condiciona sua existência; é por ele que os debatedores aceitam o convite e é a existência desse público e a imagem que os debatedores fazem dele que vai influenciar fortemente a forma como o discurso é elaborado (DOURY, 1995: 227). Contudo, esse verdadeiro destinatário fica excluído, muitas vezes, do cenário onde o debate se realiza, parecendo, por essa razão, um destinatário indireto. Assim, pode-se dizer que esse público é indireto, aparentemente; na realidade, ele é o principal – é a razão da própria existência do debate (FÁVERO e AQUINO, 2002, p. 169).
Diante disso, Fávero e Aquino (2002) chegam à proposição de que a forma de organização do debate eleitoral, em se tratando dos papéis participativos e de sua forma de recepção, configuram-se como, “não marcadas”46 e “flutuantes”. Consecutivamente, nesse tipo de interação – em que os papéis podem ser reconfigurados – outras formações, dentro da estrutura do quadro participativo do debate podem aparecer, como, por exemplo, a cisão do trílogo em “duos”.
A formação de duos, no debate eleitoral, confere a esse tipo de interação especificidades linguístico-contextuais que podem ser observadas nas intervenções dos candidatos e do mediador. Em outras palavras, cumpre observar determinadas intenções persuasivas, as quais subjazem às escolhas dos papeis interlocutórios assumidos pelos participantes da interação, na medida em que a deliberação por atribuir um tipo de papel interlocutório a um dado participante da interação) pode colaborar para estreitar relações ou, por outro lado, rechaçar a imagem do outro.
A atribuição de um outro papel a um dado participante pode ser observada nos casos em que se confere ao auditório, muitas vezes, a condição de destinatário indireto, em detrimento do debatedor, que passa a ocupar a posição de uma terceira pessoa – uma não pessoa (Benveniste, 2015). Ao atribuir-se a posição de destinatário privilegiado ao auditório, excluindo
46 Compreende-se como uma forma de recepção não marcada um tipo de interação na qual não há, de fato, limites
o debatedor da cena da enunciação, muda-se o tropo comunicativo (Kerbrat-Orecchioni, 2006), provocando alterações no quadro participativo47 do debate eleitoral, fato que será explorado na análise do corpus.
1.4.4 A formação de coalizões dentro dos trílogos: duo conflitual estratégico e duo