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O atual debate a respeito de como se estabelece a relação entre as audiências e os meios de comunicação de massa foi despertado pelos estudos culturais. Para anteceder a discussão acerca da proposta teórico-metodológica de Stuart Hall, vale um recorte dos estudos realizados pelo Center for Contemporary Cultural Studies britânico, vinculados à investigação da comunicação massiva. O intuito deste texto não é reconstruir o trajeto histórico dos estudos culturais, tão pouco revisitar o rico repertório de temas discutidos pelos pesquisadores com diferentes enfoques em períodos distintos; mas abordar pontos de vista, modelos teóricos e metodologias de investigação que contribuíram para formar o panorama dos estudos de recepção hoje.

Como movimento teórico-político, a Escola de Birmingham – fundada por Richard Hoggart, Raymond Williams e Edward. P. Thompson – construiu um campo de estudos com duas abordagens inéditas para aquele período: primeiro, a investigação social inserida e praticada no contexto cultural; segundo, a interdisciplinaridade que sinalizou para a convergência de diferentes visões e métodos “[...] a utilidade dessa convergência é que ela nos propicia entender fenômenos e relações que não são acessíveis através das disciplinas existentes [...]” (TURNER, 1990 apud ESCOSTEGUY, 1998, p. 88). Como movimento intelectual, o Center for Contemporary Cultural Studies (CCCS) firmou compromisso com as mudanças sociais que extrapolou os muros da academia e o território britânico para ancorar-se em diferentes países, englobando os da América Latina.

A Escola de Birmingham centrou esforços para compreender a relação dialógica entre comunicação massiva e cultura. A ruptura deste movimento intelectual e político está na perspectiva teórica alinhada às práticas sociais com foco nos produtos da cultura popular e nos mass media como forma de expressão da cultura contemporânea em oposição à cultura elitista e a investigação das relações entre meios e audiências como fenômeno mecânico e unidirecional (ESCOSTEGUY, 1998).

No campo acadêmico, este novo panorama teórico – interdisciplinar e contextualizado social e culturalmente – exigiu repensar as práticas de investigação; assim, nos estudos culturais a pesquisa passou a empregar metodologia qualitativa, com ênfase na etnografia,

para analisar com profundidade os modos de vida dos atores sociais ou para citar Ana Carolina Escosteguy (1998, p. 90), para compreender os sentidos da cultura na cotidianidade

Com a extensão do significado de cultura de textos e representações para práticas vividas, considera-se em foco toda produção de sentido. O ponto de partida é a atenção sobre as estruturas sociais (poder) e o contexto histórico enquanto fatores essenciais para a compreensão da ação dos meios massivos, assim como, o desprendimento do sentido de cultura da sua tradição elitista para as práticas cotidianas.

Compartilhando deste pensamento teórico-metodológico, Stuart Hall foi quem mais se dedicou aos estudos de recepção dos meios de comunicação massivos, em particular a televisão, e às práticas de resistência das subculturas. Deste ponto de vista, Hall questionou, por meio da crítica social, a manipulação dos mass media, a hegemonia cultural na televisão e o papel passivo da audiência.

Nesta perspectiva são estudadas as estruturas e os processos através dos quais os MCM sustentam e reproduzem a estabilidade social e cultural. Entretanto, isto não se produz de forma mecânica, senão “adaptando-se” continuamente às pressões e às contradições que emergem da sociedade, e “englobando-as” e “integrando-as” no próprio sistema cultural (ESCOSTEGUY, 1998, p. 91).

Alinhado com a intensificação do consumo das mídias no final dos anos 1960, Stuart Hall publicou, em 1973, Encoding and decoding in television discourse. O texto se tornou uma das principais contribuições dos estudos culturais para a investigação da comunicação social e, em particular, para os estudos de recepção.

Hall (2003) explica que Encoding and decoding in television discourse faz uma crítica ao modelo positivista que pensa a comunicação como fluxo unidirecional – um circuito entre emissor, mensagem e receptor isolados do contexto – no qual a mensagem que parte do emissor e chega ao receptor é transparente.

A mensagem é uma estrutura complexa de significados que não é tão simples como se pensa. A recepção não é algo aberto e perfeitamente transparente, que acontece na outra ponta da cadeia de comunicação. E a cadeia comunicativa não opera de forma unilinear (HALL, 2003, p. 354).

A noção de transparência da mensagem alerta para o fato de que o significado não está unicamente vinculado ao entendimento – ou não – do receptor em relação ao conteúdo midiático. Ao pensar desta forma unilinear, o positivismo despreza o repertório do interlocutor e o contexto em que se dá a comunicação. Nos processos de apropriação dos discursos midiáticos, a interpretação extrapola o sentido contido no produto cultural e deve ser pensada na chave da compreensão e não apenas na perspectiva da decodificação e da explicação.

A transparência entre o momento da codificação e a decodificação é o que eu chamaria de momento da hegemonia. Ser perfeitamente hegemônico é fazer com que cada significado que você quer comunicar seja compreendido pela audiência somente daquela maneira pretendida. Trata-se de um tipo de sonho de poder – nenhum chuvisco na tela, apenas a audiência totalmente passiva (HALL, 2003, p. 366).

Além do modelo teórico-metodológico anunciado em Encoding and decoding in

television discourse, que segundo o próprio autor é frágil do ponto de vista do rigor científico,

o texto traz uma reflexão política na qual contesta a imposição ideológica da cultura dominante pelos meios de comunicação. “É a noção de que o significado não é fixo, de que não existe uma lógica determinante global que nos permita decifrar o significado ou o sentido ideológico da mensagem contra alguma grade” (HALL, 2003, p. 354).

Hall (2003, p. 173), com base em Althusser, argumenta que “As ideologias constituem estruturas de pensamento e avaliação do mundo – as ‘ideias’ que as pessoas utilizam para compreender como o mundo social funciona, qual o seu lugar nele e o que devem fazer”. David Morley (1996) argumenta que a posição ideológica dos meios de comunicação não pode ser reconhecida tomando-se por base as dinâmicas de produção ou o texto, para reconhecê-la é indispensável o estudo dos trajetos de leitura e do consumo midiático. Partilhando da visão de que a ideologia concretiza-se na sociabilidade e na ritualidade, Hall (2003, p. 173) completa

Igualmente importante é o lugar dos rituais e práticas de ação ou o comportamento social, nos quais as ideologias se imprimem ou se inscrevem. A linguagem e o comportamento são os meios pelos quais se dá o registro material da ideologia, a modalidade de seu funcionamento. Esses rituais e práticas sempre ocorrem em locais sociais, associados a aparelhos sociais. E por isso que devemos analisar ou desconstruir a linguagem e o comportamento para decifrar os padrões de pensamento ideológico ali inscritos.

Desta forma, o sentido da mensagem é sempre multireferencial. “Logo, sempre existirão discursos na sociedade que são os meios pelos quais as pessoas tornam significativo o mundo, dão sentido ao mundo” (HALL, 2003, p. 262). Morley (1996) reitera este pensamento, sugerindo que os receptores imprimem um sentido particular ao sentido do mundo criado pelos meios de comunicação. Roland Barthes (2011, p. 54) também compartilha desta visão, especialmente, na significação das narrativas de ficção

A narração não pode com efeito receber sua significação do mundo que a usa, acima do nível narracional, começa o mundo, isto é, outros sistemas (sociais, econômicos, ideológicos), cujos termos não são mais apenas as narrativas, mas elementos de uma outra substância (fatos históricos, determinações, comportamentos, etc).

Neste sentido, Encoding and decoding in television discourse traz uma nova perspectiva para os estudos de recepção em virtude do mapeamento territorial, ou seja, dos processos comunicativos contextualizados culturalmente nos quais os receptores negociam os sentidos da comunicação, valendo-se da sua visão de mundo. Predominantemente, os conteúdos midiáticos carregam consigo a intencionalidade de uma ideologia dominante que poderá – ou não – ser legitimada pelo receptor.

A intencionalidade institucional contida na estrutura da mensagem, elaborada no campo da codificação, é o que Hall (2003, p. 366) denominou leitura preferencial, “um exercício de poder na tentativa de hegemonizar a audiência”. Para o autor, “O elemento da leitura preferencial se situa no ponto onde o poder atravessa o discurso, está dentro e fora da mensagem”. Morley (1996) amplia esta visão articulando a leitura preferencial ao interesse dos mass media em obter eficácia na comunicação e explica que, em razão desta busca pela efetividade, os meios de comunicação introduzem na estrutura das mensagens “direções” na tentativa de estabelecer uma leitura dominante. Morley (1996) e Hall (2003) concordam que, mesmo controlando os aparatos de produção, a pretensão de hegemonizar a audiência por parte dos meios massivos nem sempre se mostra eficaz porque a codificação poderá não comportar todas as apropriações e os significados descobertos pelo receptor na decodificação da mensagem.

Por outro lado, um texto – midiático ou não – nunca é totalmente aberto, desprovido de intenções. “Se não houvesse limites, as audiências poderiam simplesmente ler qualquer coisa que quisessem dentro das mensagens” (HALL, 2003, p. 399). Para Morley (1996) o processo de recepção é delineado pela interação entre duas estruturas que definem os parâmetros para a interpretação – os mecanismos internos ao texto que convidam a certas leituras e restringem outras – e a origem cultural do receptor.

Para contrapor a leitura preferencial, Hall (2003) descreve a leitura de oposição. Nesta posição, a decodificação da mensagem tem significado oposto ao preferencial; o receptor pode compreendê-la de maneira inversa ou pode, ainda, compreender a intencionalidade institucional e formar sua opinião contrária à leitura preferencial, rejeitando-a. Entre a posição preferencial e de oposição, está a leitura negociada que emana das subculturas nas quais se realiza a cadeia comunicativa. Para Hall (2003), a negociação organiza a maior parte dos processos comunicativos; quando as audiências operam na posição negociada, reconhecem a legitimidade da comunicação – a tentativa de hegemonizar – no entanto, criam regras próprias de significação, de acordo com a lógica situacional. Hall (2003, p. 371) esclarece que estas leituras – preferencial, negociada e de oposição – não são estanques, “As audiências movem-

se claramente entre as três posições; logo, elas são lugares em que se toma posição, não são entidades sociológicas. Cabe ao trabalho empírico dizer, em relação a um texto particular e a uma parcela específica da audiência, quais leituras estão operando”.

Considerando as três posições de leitura, a proposta teórico-metodológica formulada em

Encoding and decoding in television discourse sugere um processo comunicacional

sustentado pela articulação de momentos distintos e interligados que se desdobram em produção, circulação, consumo e reprodução das mensagens.

O processo, desta maneira, requer, do lado da produção, seus instrumentos materiais – seus "meios" – bem como seus próprios conjuntos de relações sociais (de produção) – a organização e combinação de práticas dentro dos aparatos de comunicação. Mas é sob a forma discursiva que a circulação do produto se realiza, bem como sua distribuição para diferentes audiências. Uma vez concluído, o discurso deve então ser traduzido – transformado de novo – em práticas sociais, para que o circuito ao mesmo tempo se complete e produza efeitos. Se nenhum "sentido" é apreendido, não pode haver "consumo". Se o sentido não é articulado em prática, ele não tem efeito (HALL, 2003, p. 388).

Nesta perspectiva, uma vez que os discursos midiáticos utilizam como fonte de informação outros discursos originados nas estruturas socioculturais, a produção cultural não está limitada às estruturas institucionais dos meios de comunicação. Em momentos autônomos, porém articulados, a recepção se torna também um processo de produção na medida em que novos significados e sentidos são atribuídos às mensagens e legitimados socialmente para, futuramente, serem reincorporados às práticas sociais (HALL, 2003; ESCOSTEGUY, 2007). No contexto da estética ocorre uma nova poética. Valendo-se desta abordagem, é factível admitir a comunicação como um processo de partilha, de comunhão.

Já que a nossa maneira de ver as coisas é literalmente a nossa maneira de viver, o processo de comunicação, de fato, é o processo de comunhão: o compartilhamento de significados comuns e, daí, os propósitos e atividades comuns; a oferta, recepção e comparação de novos significados, que levam a tensões, ao crescimento e à mudança (WILLIAMS apud HALL, 2003, p. 135).

Em discussão mais recente, José Luiz Braga (2006) propôs o “sistema de resposta social” que se aproxima do processo comunicacional sustentado pelas articulações entre produção, circulação, consumo e reprodução formulado por Hall, em 1973. Para Braga (2006, p. 28), o enfrentamento entre mídia e sociedade se dá na circulação dos sentidos, ou seja, na “movimentação social dos sentidos e dos estímulos produzidos inicialmente pela mídia”.

O sistema de interação social sobre a mídia (seus processos e produtos) é um sistema de circulação diferida e difusa. Os sentidos midiaticamente produzidos chegam à sociedade e passam a circular nesta, entre pessoas, grupos e instituições, impregnando e parcialmente direcionando a cultura. Se não circulassem, não

Esta circulação diferida e difusa defendida por Braga (2006) refere-se justamente à interação dos interlocutores capaz de provocar a ruptura temporal dos processos comunicativos, em outras palavras, por meio desta circulação, os produtos midiáticos produzidos em um determinado contexto histórico-social podem se propagar na sociedade durante um longo período e, mais tarde, serem novamente consumidos em uma nova época, possibilitando novas leituras.

Indiscutivelmente, o repertório teórico-metodológico formulado pelos estudos culturais promoveu o avanço da pesquisa social no campo da comunicação ao sinalizar que o ato comunicativo não se traduzia em um processo mecanicista focado no emissor e no suposto poder dos mass media e seus aparatos de produção. Houve na Escola de Birmingham um primeiro olhar para o papel relativamente autônomo do receptor na comunicação, ainda que operando em posições de leituras pré-determinadas (preferencial, negociada ou de oposição). Contudo, mesmo admitindo a recepção como processos de interpretação e significação pautados no contexto cultural, Encoding and decoding in television discourse manteve o foco de estudo na figura do receptor, ou seja, na audiência e não nos processos de recepção. Os termos codificação e decodificação indicam um esforço por parte do receptor para recuperar o sentido original – a intencionalidade institucional – do conteúdo midiático, especialmente, na leitura preferencial. Mais que decodificação, é preciso falar em interpretação e produção de sentidos.

2. Mediações comunicativas da cultura: perspectivas de Jesús Martín-

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