ANNEXE 4 : LES PROCHES, LE BENEVOLAT D’ACCOMPAGNEMENT LE REPIT ET
5 UN NECESSAIRE ACCOMPAGNEMENT DU DEUIL POUR PRESERVER LA QUALITE DE VIE
Em 1988, Antonio Cândido escreveu um ensaio intitulado O direito à literatura. Nesse escrito ele fala sobre a importância concreta da literatura na melhoria das condições de vida social e espiritual das pessoas. Cândido (2004) começa fazendo uma observação sobre o assunto que lhe foi confiado. Ele deveria falar sobre ‘Direitos humanos e literatura’, segundo ele, um assunto aparentemente meio desligado dos problemas reais. No entanto, sua explanação clara e consistente vem mostrar que a literatura e os direitos humanos estão mais próximos da realidade do que se possa imaginar.
Antes de tratar da relação: direitos humanos e literatura, Cândido (2004) considera necessário fazer algumas reflexões prévias a respeito dos próprios direitos humanos. Em uma breve avaliação da sociedade moderna, o autor constata que os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria. “Todos sabemos que a nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização” (CÂNDIDO, 2004, p.170). Acreditava-se que a barbárie poderia ser extinta com o acesso à instrução, ao saber e à técnica. Porém, a instrução formal não foi suficiente para atingir esse objetivo. Ela conseguiu, contudo, diminuir o elogio à barbárie, promovendo uma mudança de discurso.
Entretanto, na visão de Cândido (2004), a sociedade moderna que se mostra constrangida com a imagem da injustiça social, disfarçando sua insensibilidade em face da miséria, não se empenha em promover uma distribuição equitativa de renda. É o discurso vazio da hipocrisia que procura esconder as chagas da sociedade, perpetuando as injustiças sociais para manter as regalias de alguns grupos. Mas quais seriam os direitos humanos? Logo se pensa em alimento, moradia, saúde, educação. Direitos básicos para garantir condições dignas de vida. Atender às necessidades mínimas seria suficiente para cumprir plenamente os direitos humanos?
De acordo com Cândido (2004), pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que se considera indispensável para si é também indispensável para o próximo. Apoiado no ponto de vista do sociólogo francês Louis-Joseph Lebret, o autor estabelece uma distinção entre bens compressíveis e bens incompressíveis. Bens incompressíveis seriam aqueles que não poderiam ser negados a ninguém, pois asseguram a
sobrevivência física em níveis decente e garantem a integridade espiritual. Na categoria dos bens compressíveis entraria o supérfluo como cosméticos, enfeites, acessórios. No entanto, os próprios critérios de incompressibilidade estão ligados à divisão da sociedade em classes. E inclusive a educação seria um instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra.
A literatura seria um bem compressível ou incompressível? Ela é uma necessidade que não pode deixar de ser satisfeita sob pena de provocar uma desordem pessoal? Tomando a literatura da maneira mais ampla possível, englobando criações ficcionais e poéticas de todos os níveis e modalidades, Cândido (2004) responde que ela é um bem incompressível. Esse posicionamento se justifica pela necessidade que o ser humano tem de se representar através da simbolização. “Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado” (CÂNDIDO, 2004, p.174). O autor entende que um indivíduo não consegue passar as vinte e quatro horas do dia sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, então, a literatura em sentido amplo seria uma necessidade que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.
Cândido lembra que a literatura não é uma experiência inofensiva, pois ela é imagem e transfiguração da própria vida. “A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” (CÂNDIDO, 2004, p.175). Alguns educadores temem o efeito dos textos literários, acreditando que eles possam corromper o caráter dos alunos. Cândido (2004), porém, diz que a literatura não corrompe nem edifica, mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o mal, ela humaniza em sentido profundo, porque faz viver.
No que diz respeito à experiência que a literatura pode proporcionar, o autor não separa a literatura seguindo uma ordem hierárquica de valor, colocando uma modalidade em posição superior a outra. Para Cândido (2004) é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita, a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominante. Seguindo o pensamento do autor, já se sabe que a literatura é um bem incompressível por ter um caráter humanizador. Mas cabe colocar uma pergunta: como esse processo acontece?
Cândido (2004) menciona três aspectos que compõem a função da literatura. A atuação simultânea dos três aspectos seria responsável pelo efeito que as produções literárias têm sobre o leitor. Em primeiro lugar, a literatura age porque ela é uma construção de objeto autônomo como estrutura e significado. Segundo, porque ela é uma forma de expressão, isto
é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos. E o terceiro aspecto, porque ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente. Dentre os três aspectos, o último seria aquele mais conhecido e valorizado pelo senso comum. Seria a ideia de que a leitura deixa as pessoas mais sabidas e com mais conhecimento. No entanto, o alcance da literatura vai muito além de fornecer conhecimento.
De acordo com o autor, o primeiro aspecto que corresponde à maneira como a mensagem é construída, senão é o mais importante, é com certeza crucial, porque é o que decide se uma comunicação é literária ou não. Por ser um objeto organizado, a literatura exerce um papel organizador sobre a mente. Ela é um modelo de coerência, um tipo de ordem que sugere a superação do caos. Por esse motivo, ela ajuda os indivíduos a organizar suas mentes e sentimentos e por consequência, torna-os mais capazes de organizar a visão que eles têm do mundo. Desse modo, a organização da estrutura literária seria o primeiro nível humanizador da literatura. Mas o que se entende por humanização? O autor responde da seguinte forma:
Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor (CÂNDIDO, 2004, p.180).
Nessa literatura que humaniza, também há níveis diferentes de conhecimento intencional. Seria nesses níveis que o autor injeta suas intenções de propaganda, ideologia, crença, revolta, adesão etc. Mas qualquer mensagem, seja ela de natureza ética, política, religiosa ou social, só tem eficácia quando for reduzida à estrutura literária, à forma ordenadora.
Por fim, focalizando a relação da literatura com os direitos humanos, Cândido (2004) estabelece dois ângulos de atuação. O primeiro enxerga a literatura como uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a nossa humanidade. O segundo vê a literatura como um instrumento de desmascaramento que revela situações de restrição ou negação dos direitos, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual. Conhecendo o poder transformador da literatura, o autor condena a segregação cultural que divide a arte erudita e popular de acordo com a classe social, pois a luta pelos direitos humanos abrange ter acesso aos diferentes níveis de cultura. “Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos
humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (CÂNDIDO, 2004, p.191).
O autor destaca a importância da literatura engajada, pois ela abre espaço para vidas proscritas, existências ignoradas e engolidas pela industrialização que a despeito da promessa de progresso e de melhores condições de vida para todos, acabou criando novas e mais terríveis formas de miséria. A literatura que, na visão de Cândido, torna o indivíduo mais humano, ajudando-o a compreender melhor a si mesmo e aos outros teve poder transformador nas vidas das autoras analisadas neste trabalho. Ela não só desenvolveu seu senso de humanidade como também serviu de instrumento de desmascaramento, revelando situações de restrição ou negação dos direitos.
Morrison, em O Olho Mais Azul, fala sobre a mutilação espiritual. Há também no romance a miséria material. No entanto, a forma mais devastadora de miséria nas vidas das personagens é aquela que as priva de experimentar o amor e o reconhecimento enquanto seres humanos. Os romances, em geral, tratam dos relacionamentos afetivos e de como lidar com os sentimentos. Seja para incitar conflitos ou para apaziguá-los, a temática amor é muito frequente na literatura. O romance de Morrison, entretanto, não trata o tema amor, e sim, sua ausência, levando a refletir sobre o que a total falta de amor pode provocar na vida dos indivíduos, e, o que um olhar com raízes no desprezo racial pode provocar, fazendo com que um indivíduo possa internalizá-lo e fazer disso um instrumento de autodestruição.
Carolina, por sua vez, fala sobre a miséria material, revelando através do seu diário sua própria condição de vida. A escritora era privada, até mesmo, dos bens incompressíveis citados por Cândido (2004), pois lhe faltava o alimento, moradia digna, trabalho, etc. No entanto, o que chama a atenção para o caso de Carolina é que mesmo passando por tantas restrições materiais, ela jamais rompeu sua relação com a literatura. Eram as palavras que a ajudavam a amenizar sua árdua realidade. “Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem” (JESUS, 2007, p.24).