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O trabalho de campo foi marcado por relatos de mortes de operadores. Muitos foram assassinados antes mesmo de chegar à prisão, ou após terem passado por ela. À medida que o estudo se desenvolvia, ficou evidente que os entrevistados faziam parte de um seleto grupo de sobreviventes do tráfico de drogas.

As justificativas fornecidas para que alguns fossem mortos e outros não, foram diversas, como o proceder, as contingências relativas aos desfechos dos confrontos entre policiais e operadores, nomeadas como a intercessão divina, obra ou a mão de Deus e a sorte, e o não cumprimento de acordos por parte de integrantes pertencentes aos níveis superiores das empresas criminais, como gerentes e chefes.

O proceder envolve a reputação, as atitudes e comportamentos que são exibidos pelo indivíduo frente aos demais, como ser uma pessoa que não se envolve em problemas que requeiram a atuação constante da polícia no local. No caso das contingências, as situações eram de extremo risco de morte iminente, como ferimentos graves por arma de fogo ou espancamentos, acompanhados de ordem para matar e que, pela ocorrência de algo imprevisto, resultou em outro desfecho.

Eu acho que tem Deus na frente. Eu mesmo já escapei da morte. A polícia me levou pra eu entregar a droga. Eu não entreguei e consegui correr, eles atiraram e não pegou em mim. Dessa vez, eles entraram em casa e me pegaram e uma hora, eles falavam: vamos levar e matar! Aí um deles disse: não mata não, vamos levar [pra delegacia]! Um deles lá que não deixou me matar. Eu fui pra delegacia e depois vim para aqui. É a mão de Deus, porque era pra uma hora dessa eu estar morto. Também tem o caso do camarada não bagunçar no bairro, não fazer o que sabe que não pode fazer, não ficar roubando, dando mole pra ir preso toda hora, porque aí cansa, né [a polícia]? Toda hora pegando o cara, levando. Aí não tem jeito... (ADRIANO, 23 anos, vendedor, Salvador)

O entrevistado fala das vezes em que foi abordado pela polícia e como conseguiu escapar da prisão e da morte, atribuindo o desfecho a algo que não consegue explicar de modo racional, pois diz respeito ao inesperado, que atribui à mão de deus, ou à sorte. Ele relata a

importância da reputação do indivíduo, sendo que tem mais chance de sobreviver quem não causa problemas no local e não provoca desgaste e desmoralização da polícia, situações agravadas pelas sucessivas prisões de alguns operadores que acabam sendo mortos.

O cara é um soldado e quer sair matando, começa aquela conversa, bradar, se botar que manda ali. A comunidade bate pra polícia que vem e lima [mata] ele. Tem que saber proceder. Ser pelo certo. Porque o certo é o certo. Ficar de quebrada, sem zoada. Porque alardear é problema... Prende, solta, faz tudo de novo e ainda sai com sangue no olho. Vai deixar vivo pra que? Não respeita ninguém... Tá com uma arma, fazendo e acontecendo, prende, solta... É quando eles [a polícia] pegam e dá fim mesmo. Porque eles mesmos ficariam sem moral. (FRANCISCO, 30 anos, chefe do tráfico, Salvador)

Percebe-se que a atitude francamente desafiadora representa um risco para os operadores, porque causa rechaço na comunidade e atrai a presença da polícia para o local. A referência ao “certo” como código de conduta do crime foi feita em várias entrevistas e é esperado que todos, operadores, comunidade e policiais ajam de acordo com seus princípios. Além disso, a prisão de reincidentes, que retornam à atividade do tráfico, sendo presos em seguida pelo mesmo motivo, funciona como um sistema de porta giratória que leva à desmoralização e ao desgaste da autoridade policial e aumenta o risco de uso de violência letal contra os operadores.

Outros fatores que reduzem as chances de os operadores serem mortos pela polícia foram: ter familiares no bairro, que podem presenciar e testemunhar a favor da pessoa, ser parente de alguém não envolvido, de boa reputação, ou possuir outra fonte de renda no mercado informal ou formal “Eu sempre trabalhei e todo mundo me conhece como pessoa honesta, séria, não faço bagunça e tenho minha família, meu horário de fazer minhas coisas.” (MÁRIO, 26 anos, vendedor, Vitória da Conquista)

Eu toco numa banda de pagode e vinha de um show e o que me fez não morrer foi a minha mãe... Eles [polícia] vieram pra cima de mim e eles levaram minha esposa... Achou a droga lá, armas também. Eu não faço nada de errado... Assim, tem uns que barbarizam, aí a polícia fica com sangue no olho [vontade de matar]. Na hora, eu fiquei na minha. Eles me bateram, deram uns tapas, pegaram minha mulher e minha cunhada e disseram: nós levamos ela e comemos [estupraram]e matamos ele...Isso faz com que muitos fiquem revoltados, essa não é a policia que a gente quer não... Mas eu fiquei quieto, então, não sei, eles deixaram elas e me trouxeram preso. (ALBERTO, 25 anos, vendedor, Salvador)

O entrevistado fornece exemplos das condições que o fizeram escapar da morte, como a presença da família, ter ocupação, bom proceder e, acima de tudo, saber se comportar na hora da abordagem policial. Nesse momento, o autocontrole é decisivo, pois uma resposta agressiva e por impulso frente às provocações da polícia poderia justificar facilmente a sua truculência e o abuso de poder, caracterizando a reação como resistência à prisão.

Outro fator é ocupar um cargo de liderança no tráfico que tenha visibilidade e cuja prisão transmita a imagem de eficiência da polícia na mídia e na opinião pública. Essas situações podem também decorrer da ruptura de acordos estabelecidos entre as forças policias e os chefes ou gerentes, que podem sofrer sérias retaliações, mas não existe justificativa, diante dos demais, para mataras lideranças.

Esses achados demonstram a fragilidade dos critérios e circunstâncias que cercam os atos que levam à prisão e à morte de suspeitos de envolvimento no tráfico. Ademais, muitas dessas ações têm o aval da comunidade local, pois alguns operadores são considerados pessoas indesejadas e causadoras de problemas. (CONCEIÇÃO, 2015; REUTERS, 2009; SOARES, 2007)

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