Os indivíduos com transtornos mentais e outros que costumam se envolver em brigas, confusões em festas, eventos, considerados desordeiros, são monitorados pelos operadores porque podem apresentar comportamentos considerados inadequados, colocar sob suspeita a autoridade e a capacidade do chefe de controlar o território. Eles ainda podem quebrar o sigilo
e revelar fatos que comprometem a segurança e integridade da organização, e atrair a atenção da força policial para o local.
No decorrer da pesquisa foram relatadas diversas situações em que essa interação foi conflituosa e requereu intervenção do serviço de saúde: um alcoolista foi espancado porque teria dito a diversas pessoas onde estavam os donos da droga e não foi morto porque um morador foi ao seu socorro e pediu que parassem. Esse paciente foi encaminhado para o Centro de Acompanhamento Psicossocial (CAPS), acolhido e encaminhado para internamento. Outra situação foi a de um portador de transtorno mental, que, em franca atividade delirante, passou a acreditar e dizer que o pessoal da boca, que reside em sua rua, estava vigiando-o, perseguindo-o e planejando matá-lo.
Ele fica dizendo o tempo todo que eles vão matar ele, que falam dele quando passa, mas não é nada disso, eles moram tudo lá perto, uns na rua, a gente conhece eles desde pequeno... aí o patrão deles veio ate lá em casa e disse a ele, garantiu pra gente que não ia fazer nada, que era coisa da cabeça dele, que eles gostam da gente porque a gente não se mete em nada, mesmo assim ele não acredita. (NEIDE, 22 anos, Irmã de um portador de transtorno mental, Salvador)
No caso em questão, como a família era muito conhecida e querida, o chefe foi à casa do rapaz para garantir que nada iria acontecer e reiterar que todos gostavam muito dele e de sua família, o que trouxe certo alívio para todos. Muitos operadores dão avisos para as famílias levarem os doentes para tratamento, principalmente dos que são agressivos e abordam transeuntes, causando tumultos na comunidade.
A gente vê as famílias deixarem os doidos lá... largados, causando só problema, invadem casas, xingam, atacam mulheres, brigam, aí a gente avisa pra tirar, porque atrai problema pra área, porque também a comunidade passa a fazer queixa e a gente fica assim desmoralizado. Se a família não fizer nada, já sabe que a gente faz. (ENZO, 31 anos, dono de boca, Salvador)
O fato de perturbar a ordem pública faz com que muitos portadores de transtornos mentais sejam mantidos em suas casas ou levados para instituições para se tratarem, para não serem alvos de agressão física e morte. Este foi o caso de um paciente que tinha transtornos mentais e, quando entrava em crise, por se recusar a usar medicação e a família deixá-lo abandonado à própria sorte, tentou estuprar duas mulheres da comunidade. Após diversos avisos, o paciente recebeu dois tiros um na perna e outro no abdome, foi socorrido e internado, sendo que após a alta, a adesão ao tratamento psiquiátrico foi possível, em decorrência da concretização da ameaça e tentativa de homicídio, que, doravante se estende à
família, que, ao tirar o paciente de alta e o reconduzir ao bairro, assumiu a responsabilidade por ele.
Os portadores de transtornos mentais enfrentam problemas de adesão ao tratamento, estigma e preconceito, porém no contexto dos territórios ocupados pelo tráfico, a situação se agrava porque eles desafiam o poder das organizações e podem sofrer diversos tipos de sanções. (GOFFMAN, 1998)
Ele vai lá na boca dra. Ele fica com um celular enfiado na cintura dando uma de valentão, dizendo que é uma arma.. fala tudo que ele sabe e que não pode falar no bairro. Ele sabe que não pode... ele fica dizendo que vai tomar a boca, que vai fazer e acontecer, fica gritando, não dorme, bota a musica alta e eles disseram que vão pegar ele de novo, porque já deram surra nele e ele ficou gritando: venha, venha que ninguém é mais que eu, não! (ELZA, 35 anos, mãe de Rafael, 19 anos, paciente acompanhado por um serviço de saúde mental da região metropolitana de Salvador)
Trata-se de um adolescente com transtorno mental que, quando está em crise,não dorme, passa os dias pela rua, gritando nomes dos integrantes do tráfico, narrando as atividades destes, e fazendo ameaças. É uma situação extremamente delicada, porque ele coloca em risco toda a organização, além de desafiar os integrantes, que se sentem expostos e desmoralizados. Ainda assim, eles se utilizaram de surras e avisos para frear o comportamento inadequado do adolescente, mas sinalizam que a sanção poderá ser mais grave, se as providencias não forem tomadas, pela família. Nesse caso o internamento serviu para iniciar o tratamento e retirar o rapaz do bairro, visto que não tinha familiar que quisesse lhe oferecer abrigo.
Em contrapartida, os portadores de transtornos mentais que são considerados ‘quietos’, ou não tem alteração do comportamento fora do domicilio, podem passar suas vidas sem gerar esse tipo de intervenção por parte dos operadores do tráfico. Contudo, eles podem sofrer de outras maneiras, no interior de suas residências, cujos familiares, temendo esses problemas, podem construir quartos com grades, e mantê-los sob cárcere dentro de suas casas.
Eu tive que fazer um ‘quarto’[espaço com portão e fechadura que restringe a circulação da pessoa ] pra ele ficar, porque ele não toma o remédio certo, ele é quieto, mas pode sair e aprontar... e lá tem o pessoal das drogas que pode não gostar se ele fizer alguma coisa ou pode também ele ver alguma coisa que não deve e aí ser pior. Já pensou, se levam ele ou matam? (LIANA, irmã de REGINALDO, 45 anos, tem diagnóstico de esquizofrenia)
O cárcere privado13, crime contra a liberdade da pessoa, comum no passado, volta a ser cada vez mais presente por diversas questões, dentre elas está o medo que os portadores sejam vítimas diretas dos comerciantes de drogas.
Os “desordeiros”, que foram descritos como pessoas que causam confusão, se envolvem em brigas e, muitas vezes, fazem uso de bebidas alcoólicas, seguem o mesmo padrão de manejo dos portadores de transtornos mentais. Há relatos em que a família pede ao chefe para dar “um conselho” às pessoas, que são geralmente jovens que, segundo eles, não respondem mais aos apelos dos familiares ou dos conhecidos e passam a representar risco para todos.
“O chefe pegou ele lá, levou, bateu nos pés muito... ele tá com os pés todo inchado; ele disse [o chefe] que se continuar a fazer confusão e não ouvir a mãe, que a conversa vai ser outra, que não vai ser surra não...” (DANILO, colega de MARCEL, 12 anos, considerado problema no bairro) Esse caso é de um garoto que causa problemas no bairro, se envolve em briga, xinga muito, faz confusão, tem uma atitude desafiadora em casa e na escola, cuja equipe de saúde tentou por diversas vezes acompanhamento, com visitas domiciliares, solicitações da presença da mãe, o que acabou por não acontecer. Nesse meio tempo teve essa intervenção do chefe do tráfico, mas não se sabe qual o resultado.