É no contexto de expansão pelo interior, exposto acima, muito difundido por sertanistas bandeirantes na Bahia, que remontam as origens do povoamento de Feira de Santana. Sobre essa temática, Andrade (1990) realizou uma rica pesquisa sobre a atuação do bandeirante João Peixoto Viegas. A pesquisadora se junta a outros estudiosos, a exemplo de Godofredo Filho (1976), Galvão (1982), Boaventura (1989), Oliveira (2000), Freire (2011), entre outros, no sentido de desmitificarem o discurso sobre as origens do povoamento do município de Feira de Santana, associado tradicionalmente ao casal Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandão.
No âmbito da visão tradicional, tem-se a publicação de Poppino (1968). O brasilianista defende que a cidade se desenvolveu a partir da fazenda do casal Barbosa e Brandão, precisamente em torno da capela erguida em homenagem a seus santos padroeiros. “Bons cristãos, construíram uma capela próxima da casa de residência, dedicada a Santana e a São Domingos” (POPPINO, op. cit., p. 20). Em torno dela, teria surgido um povoado que deu origem à Feira de Santana, no século XVIII, visto que a capela foi se tornando ponto de encontro para o povo do distrito, bem como ponto de parada para os viajantes que transitavam para a Capital, Santo Amaro e outros lugares. De acordo com essa interpretação, no primeiro quartel do século XVIII, passou a existir uma feira periódica, que se tornou uma parte da vida econômica e social de toda a
circunvizinhança, principalmente após a decadência da feira do Capuame107, dando origem à Feira de Santana.
Por outro lado, os estudos que polemizam essa visão tradicional, e até mesmo mítica, em torno do casal salientam a necessidade de recuar ao século XVII as origens do povoamento do município. Andrade (1990), por exemplo, constrói sua base investigativa em torno de dois pontos de partida: o mito, em torno do casal Araujo/Brandão e o silêncio, pela omissão de João Peixoto Viegas no povoamento de Feira de Santana. Em linhas gerais, para a autora, o fato de o bandeirante português ser um cristão novo foi um motivo para ser banido como personagem principal desse processo histórico, em detrimento do “fervoroso” casal de católicos.
João Peixoto Viegas foi um português que veio ao Brasil e conseguiu angariar grande prestígio na colônia, tendo exercido, inclusive, vários cargos importantes, como o de tesoureiro e provedor da Santa Casa de Misericórdia, escrivão das Bulas, vereador, juiz ordinário, entre outros. Contudo, é possível afirmar que um dos motivos de sua prosperidade, além da influência dos laços que mantinha com a Coroa, foi a sua capacidade de guerrear e, em algumas vezes, de “apaziguar” o enorme contingente de índios paiaiás que habitavam a região. Segundo apontam estudos históricos, acumulou muitas terras, após ter comprado, por volta de 1650, a Sesmaria dos Tocós das mãos de João Lobo Mesquita que, por sua vez, havido comprado dos Guedes de Brito. A sesmaria incluía os Campos das Itapororocas, Jacuípe e Água Fria. No sítio das Itapororocas (atual distrito de Maria Quitéria), João Peixoto Viegas e sua família construíram sobrados, casas e fazendas, formando o Morgado de São José, que deu origem ao arraial e freguesia do mesmo nome. Mais tarde, no século XVIII, por questões de herança é que os descentes da família de Peixoto Viegas dividiram a sesmaria em fazendas, sendo uma delas a que deu origem a fazenda Sant’Ana dos Olhos d’Água, de propriedade do casal Araújo/Brandão.
Até o início do século XIX, Santana da Feira era apenas um distrito da Freguesia de São José das Itapororocas, vindo a se tornar povoado em 1819. Quatorze anos mais tarde, precisamente em 09 de maio de 1833, foi criado o termo da Villa de Santana (sem ter sido freguesia)108 e, em 18 de setembro de 1833, a partir do
107 Primeira feira de gado da Capitania, estabelecida por Francisco D’Ávila, em 1614. Localizava-se na
Paróquia de Santo Amaro de Pitanga, próxima a atual Camaçari, tendo grande prestígio até 1820 (cf. ANDRADE, op.cit., p. 41).
108 Para Oliveira (2000, p.10), o fato de se vincular o surgimento de Feira de Santana à fazenda de
desmembramento do termo da Vila de Cachoeira conforme resolução provincial do Conselho do Governo da Província instalou-se o Município. Em 1846, foi criada pela Lei Provincial n.º 243, de 19 de março, a paróquia de Santana, quando da transferência da sede da freguesia de São José das Itapororocas. E, em 16 de junho de 1873, a Vila de Santana foi elevada à categoria de Cidade com a denominação de “Cidade Comercial de Feira de Santana”, pela Lei Provincial n.º 1320 (Andrade, 1990, p. 33/34). A cidade teve o nome reduzido para Feira em 1931 e, finalmente, em 1938, passa a se chamar definitivamente Feira de Santana.
Da situação sócio-história do município de Feira de Santana, pode se presumir uma situação de contatos linguísticos e culturais diversos. Houve uma intensa atividade pecuária e comercial que propiciou um apurado tráfego de pessoas pelo sítio geográfico da cidade, destacando-se a figura do vaqueiro, certamente de origem indígena ou africana (negros libertos integrados nas relações socioeconômicas) ou, ainda, portuguesa de origem não nobre. 109
Tal contexto sócio-histórico, demográfico e econômico sugere uma realidade linguística polarizada, tal como esboçada no capítulo 2 desta tese, em virtude das diferentes culturas em contato, destacando-se as línguas dos indígenas, as dos escravos africanos e a do colonizador branco. De um lado, havia fazendeiros, comerciantes, representantes da Igreja e do Estado e militares graduados, subordinados aos modelos advindos de Portugal; do outro, vaqueiros, roceiros, meeiros e escravos, que adquiriram o português como língua materna a partir de um modelo adquirido como segunda língua por seus pais.
Na próxima seção, discute-se a situação de contatos linguísticos decorrentes da demografia histórica baiana e, especificamente, feirense. A intenção é trazer elementos para se discutir a formação e a consolidação da língua portuguesa na região estudada, além de oferecer embasamentos para melhor se interpretar os resultados
versão possui outros objetivos mais localizados, entre estes destacaria a necessidade da afirmação da ‘Petrópolis baiana’ [que] era o terceiro distrito de maior população perdendo para Santa Bárbara e para São José da Itapororocas, este a antiga sede administrativa”. Tal situação de desvantagens levou, segundo o autor, uma parcela da cidade a buscar meios para tornar Feira de Santana o principal sítio de significado da história local, a começar pela transferência da sede administrativa do poder político para o então povoado de Santana dos Olhos d’Água, quando ela não era nem sequer uma freguesia. Como poderá se comprovar adiante, bem como pela criação da Região Metropolitana de Feira de Santana, foi um projeto que logrou êxito, pois, não demorou para “Feira” ser, de fato, uma “princesa”, perdendo em importância sócio-econômica apenas para a “rainha” Salvador.
109 Acredita-se ser mais seguro afirmar que, pelo menos até o início do século XVII, os vaqueiros tinham
uma origem indígena, pelo fato de os índios possuírem mais habilidades em embrenharem-se pelos caminhos do sertão. Após esse período, os vaqueiros deveriam ser mestiços, com ascendência indígena, negra ou mesmo branca.
acerca da realidade sociolinguística atual da comunidade investigada nesta tese, precisamente sobre o uso variável da concordância verbal de número.
3.3 ALGUMAS QUESTÕES SOBRE CONTATOS LINGUÍSTICOS NA BAHIA: