Finalmente, nesta última subcategoria relacionada à relação profissional-usuário, concluímos pelas entrevistas que, na visão dos participantes, essa mesma relação acontece por intermédio de outras vias, que não necessariamente seja a via dos instrumentos e questionários. Trata-se de um achado importante, uma vez que leva a compreender como os entrevistados veem a proposta do QERSM inserido em suas práticas de trabalho.
Partimos da hipótese de que a utilização de questionários e instrumentos em saúde mental representaria um distanciamento do profissional aplicador para com o usuário, uma vez que o elemento subjetivo desses dois se perderia ao longo desse processo. Nossa percepção era de que o uso descontextualizado desses questionários dificultaria o acesso à realidade sociocultural dos usuários.
No entanto, a fala dos sujeitos participantes levou-nos para outra direção acerca da compreensão desse fator. Observamos que o uso dos instrumentos, além de não interferir diretamente na relação profissional-usuário, fala-nos de uma outra realidade do processo de cuidado. Em outras palavras, os instrumentos não compõem essa relação, conforme notamos no seguinte discurso:
Eu não acredito que a relação profissional-usuário se dê pelo preenchimento de formulários. Não é isso que compõe a relação do profissional de saúde com qualquer tipo de usuário (Gestor 2).
A ideia aqui trazida ressalta a necessidade de não basear a relação subjetiva entre profissional e usuário apenas pela via do preenchimento de formulários e demais questionários no processo de cuidado. É importante considerarmos essa premissa diante das possibilidades de que o atendimento em saúde mental se reduza às frias e mecânicas burocracias advindas do acolhimento e/ou avaliação.
O vínculo profissional-usuário deve ser munido de uma série de fatores inter- relacionados, desencadeado a partir de relações dialógicas horizontalizadas, nas quais cada ser humano é protagonista da sua história, da sua saúde. Para que isso ocorra, os profissionais devem conquistar a confiança da população, que surge aliada ao reconhecimento do profissional como indivíduo que age a favor de sua saúde, tornando- se uma referência e fortalecendo a relação de vínculo (ILHA et al., 2014).
Essa relação pode ser considerada uma ferramenta que realiza a troca de saberes entre o técnico e o popular, o científico e o empírico, o objetivo e o subjetivo,
convertendo-os para a realização de atos terapêuticos, por considerar as singularidades de cada indivíduo bem como as de sua família. Nesse construto, o vínculo profissional usuário pode ser entendido como uma “tecnologia leve” das relações e interações profissionais. Parte-se, aqui, do princípio de que os profissionais se tornam responsáveis pela população delimitada em seu território de abrangência, mas que também responsabilizam os próprios usuários pela sua saúde através das atividades de educação em saúde (ILHA et al., 2014).
Mais que um meio para viabilizar relações, os questionários se direcionam para a organização estrutural do trabalho. Seu foco está nos aspectos práticos dos problemas de saúde que se propõem a resolver, e não nas questões relacionais. Observamos essa premissa também no trecho a seguir:
Esses questionários são um instrumento de trabalho, só pra facilitar a organização daquele atendimento. Ele não é um instrumento que possa aproximar ou distanciar qualquer usuário. O profissional que preenche um questionário desse, ele vai tá mais aproximado com o problema de saúde, não do usuário. Ele não traz nenhum tipo de estabelecimento de relacionamento. Ele facilita a questão do profissional de saúde se aproximar daquela questão (Gestor 2).
Aqui, depreendemos que, caso o profissional resolva basear suas intervenções apenas a partir da aplicação de questionários e instrumentos, seu trabalho será pobre e descontextualizado. Isso porque, na compreensão do participante acima, não há como ligar o campo dos instrumentos de estratificação ao quesito relação com o usuário, pois, seriam aspectos fundamentalmente diferentes.
O desafio seria então diferenciar o usuário atendido do seu problema de saúde, ou seja, não confundir a pessoa com o problema. Os sujeitos, embora inegavelmente tragam consigo uma carga de sofrimento proveniente de suas vivências e contextos, são pessoas também dotadas de autonomia e subjetividade. Por essa razão, devemos observar os devidos cuidados para não os definir a partir de suas queixas.
Aproximar-se do problema de saúde, na visão do participante acima apresentado, é apropriar-se das melhores formas de compreendê-lo para, assim, ofertar uma atenção mais singular e qualificada. Importante ressaltar que a aproximação com o usuário também é necessária – o participante não quis dizer o contrário – mas ela não assenta sua forma de ser em uma única perspectiva. As relações subjetivas são da ordem da micropolítica dos encontros e acontecem em espaços e momentos nem sempre tradicionais, aspectos que um simples questionário objetivo não consegue abarcar.
A esse respeito, o trecho a seguir também complementa essa informação:
Só que a gente precisa trabalhar numa medicina centrada na pessoa, e a pessoa não é seu problema de saúde (Gestor 2).
Trata-se, então, de um trabalho que dê conta da integralidade dos sujeitos, mesmo lançando mão de instrumentos que facilitem nesse processo. A correta utilização destes últimos passa pelo também correto entendimento de seus propósitos principais, pois, centrar-se no sujeito é não perder de vista a implicação do mesmo em seu processo de saúde-doença, bem como a gama de sentidos que são construídos ao longo desse percurso. Compreender o usuário somente a partir do seu problema equivale, exatamente, a instrumentalizar essa necessária relação subjetiva. Eis aqui uma de nossas maiores críticas: a artificialização/mecanização das relações em saúde. É por esse motivo que a classificação de risco deve ser continuamente posta em reflexão, pois seus efeitos pendem tanto para entraves como para potencialidades.
Desse modo, consideramos que a dimensão das relações é múltipla e afirmar que os instrumentos de estratificação de risco interferem diretamente nesse campo seria restringir essa compreensão. As análises devem ser complexas e pormenorizadas para que, assim, alcancemos um melhor entendimento dessas questões.
A seguir, apresentamos a nível de conclusão, uma representação esquemática dos resultados encontrados na execução da pesquisa. O intuito é auxiliar na visualização geral das categorias e subcategorias identificadas, bem como os pontos de discussão suscitados pelas mesmas.
Figura 5 – Representação esquematizada dos achados referentes à Classificação de Risco em Saúde Mental.
Fonte: elaborada pelo próprio autor.