1.2 Theoretical understanding of cosmic rays
1.2.4 Long standing open problems
Após a necessária contextualização acerca de um dos exemplos mais evidentes da categoria aplicabilidade da classificação de risco – o questionário de estratificação – continuaremos nossas discussões a partir de outras subcategorias surgidas ao longo desse caminho. Apresentamos aqui a primeira característica referente à utilização de questionários e instrumentos de CR, a saber: o acesso e a aplicação multiprofissional.
Os dados coletados nos permitiram concluir que o QERSM é um instrumento de amplo acesso dos profissionais que o aplicam, ou seja, não é uma tecnologia restritiva a algumas categorias profissionais específicas. Embora sua aplicação necessite de conhecimento técnico e demais afinidades com o trabalho em saúde mental – competências que, evidentemente, encontramos em profissionais mais experientes – o QERSM é aberto a outros trabalhadores que por ele se interessam.
Podemos falar então de uma democratização do acesso a esse instrumento, não apenas do ponto de vista material (estando ao alcance de todos), mas igualmente e, até mais importante, uma democratização de saberes. Segundo os entrevistados, há uma facilidade na compreensão do instrumento, pois o mesmo é capaz de contemplar conceitos de forma clara e objetiva, sem expressões dúbias ou procedimentos mais complexos.
A gente tentou construir um instrumento que fosse prático, de fácil compreensão, e que pudesse ser utilizado por qualquer profissional, sem distinção, se é de nível superior ou categoria profissional específica. Porque isso é uma forma de aproximar as pessoas do instrumento de saúde mental. Não entrar no estigma “porque é da saúde mental, só quem pode é o doutor fulano, ou fulano da outra categoria. Então, nós temos um instrumento que até um profissional de nível médio, treinando o manuseio, ele pode aplicar; um técnico de enfermagem, um ACS. Obviamente, é que a intensão é de que ele não aplique só por aplicar (Gestor 1).
Conforme ressaltamos anteriormente, a estratificação de risco em saúde mental é ainda uma realidade nova, considerando seu processo de desvencilhar-se das práticas de estratificação hospitalar. Isso explicaria em parte o distanciamento dos profissionais para com esse instrumento. A aproximação se daria, então, pelo rompimento com a atenção exclusivista, ou seja: todos são responsáveis pela saúde mental.
Ademais, o fato do QERSM ser de fácil aplicação a diferentes categorias profissionais, incentiva igualmente o exercício do cuidado compartilhado. Ao citar, por exemplo, os agentes comunitários de saúde (ACS), o participante aponta para outra realidade extremamente importante, que é o envolvimento desses profissionais com as questões de saúde mental do território.
Observando toda a significância dos ACS para a linha de cuidado, entendemos que os mesmos são fundamentais também para a efetivação da atenção psicossocial de base territorial e comunitária. E o QERSM contribui fortemente para aproximá-los mais ainda da assistência aos usuários. A própria possibilidade desses profissionais aplicarem o instrumento já nos expressa um divisor de águas quando pensamos a gestão do cuidado. É possível compreender esse cuidado também a partir da relação entre o natural e o social, como produção de subjetividades aprisionadas, mas também como potencialidade de disrupção, de criação de novos territórios existenciais, de espaços de afirmação de singularidades autônomas. Essa compreensão ampliada é essencial para que se produzam atos de cuidado para além dos serviços de saúde, constituindo outra lógica assistencial em saúde mental, que produzirá novos lugares sociais para a loucura (BARBOSA; CAPONI; VERDI, 2016).
Sendo assim, afirmamos que a classificação de risco objetiva produzir exatamente novos lugares sociais para a saúde mental, sobretudo para os sujeitos “objetos” de sua intervenção. Há um exercício de ressignificar também o papel dos profissionais nesse processo, dando-os autonomia e capacidade para construir os planos de cuidado sob os moldes da co-responsabilização.
Constatamos pelos discursos a facilidade e praticidade do QERSM, conforme os respectivos trechos seguintes:
É um instrumento que qualquer profissional consegue fazer (Gestor 2). O instrumento é facílimo. E outra coisa: é rápido (Profissional 2).
No entanto, observamos também alguns conflitos de informações em relação a essa premissa, que se devem possivelmente a experiências malsucedidas entre serviços e/ou profissionais específicos. Em outras palavras, há situações que deliberam também cuidados e atenções especiais. Vejamos, por exemplo, o seguinte trecho:
Tem gente que até aplica, mas aplica errado. Então, são situações que demandam treinamento. Tem pessoas que a gente já apresentou o instrumento, treinou e aí, quando chega 4 meses depois, diz que nunca viu... já teve também, curiosamente. E não foi só uma nem duas né? Dizer que não conhece o instrumento já tendo participado de reunião, de apresentação, dado uma cópia na mão da pessoa... (Gestor 1).
Por essa razão, a dimensão do treinamento também é essencial para a consolidação do instrumento, mesmo que este seja de fácil manuseio e compreensão. As capacitações se referem muito mais à sensibilização para o “querer fazer”, este último representando entraves consideráveis para a evolução da tecnologia classificação de risco.
Outro aspecto importante acerca do acesso e aplicação multiprofissional refere-se à postura de estratificar pontual e estaticamente as demandas, sendo esse fator uma característica contrária aos objetivos do QERSM. Exatamente por isso o trabalho com o instrumento tem suas exigências consideráveis. Vejamos:
O que eles trazem de devolutiva pra gente: (...) muitos relatam que acham fácil o instrumento, só que sempre bato que essa estratificação não é estática... [que] eu faço uma vez e anexo ao prontuário (Gestor 3).
Assim, a aplicabilidade da classificação de risco (CR) se dá em caráter processual e dinâmico, devendo dialogar constantemente com as evoluções do prontuário. Por isso, o risco em saúde mental representa um retrato singular do sujeito, captado pelos diversos desdobramentos de sua subjetividade. Para usar uma metáfora, tal como uma sessão de fotografias, na qual se mudam cenários e contextos para expressar um recorte daqueles momentos, assim é o trabalho com a CR.
Cada sujeito, mesmo os supostos “doentes mentais”, partilham de seus modos de ser e estar nos espaços, e compreender suas relações com a saúde é fundamental. Sendo assim, o amplo acesso e as facilidades na aplicação do QERSM não podem justificar uma intervenção profissional sem qualidade e feita de qualquer forma.
As práticas clínicas de cuidado relacionadas ao adoecimento psíquico ainda se expressam em uma tecnologia de biopolítica de gestão, entendida como medicalização social, que se mostra difundida e aceita na contemporaneidade. As ações priorizam o diagnóstico orgânico, as terapias medicalizantes e, principalmente, medicamentalizantes, as quais perfazem caminhos unidirecionais em que, ao sujeito, não restam muitas escolhas além de adaptarem-se ao processo de cuidado oferecido (SILVEIRA; COSTA; JORGE, 2018).
Desse modo, o acesso ampliado à estratégia de classificação de risco procura afastar-se da lógica de cuidado sob a perspectiva do controle e dominação biopolítica. A participação de outras vozes e outros braços na construção da assistência e da política mostrou-se como necessidade fundamental para o trabalho em saúde. A atenção verticalizada e o olhar unidimensional apenas reforçam o viés essencialmente tecnicista e excludente, cerceando subjetividades individuais e coletivas.