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Na busca da compreensão do suicídio, podemos dar ainda espaço à psicanálise, que teve amplo desenvolvimento ao longo do século XX. Os dilemas da vida e a relação do inconsciente e consciente são algumas reflexões que ganham espaço nesta área. Um dos conceitos que consideramos relevantes trazer a esta

pesquisa é o apresentado por Sigmund Freud, denominado pulsão da morte14. Recuperamos a definição do Dicionário de Termos da Psicanálise que define os termos como “a ideia de algo poderoso e maior que dirige as ações do vivente ao nível da espécie e do indivíduo” (HANNS, 1996, p. 351). Para compreender o conceito, é preciso entender que Freud (1930) acredita existir o instinto de preservação da vida. Logo, essa é a força contrária. Assim, por suicidas, o autor entende “alguns neuróticos, em quem, a julgar por todas as suas reações, o instituto de preservação foi, realmente, invertido. Eles parecem nada mais ter em vista, senão o próprio dano e a autodestruição” (CUNHA, 1978, p. 204). Ainda na reflexão sobre o termo, Menninger avança, como descrito no trecho a seguir:

De acordo com esse conceito, existem desde o início em todos nós fortes propensões à autodestruição e essas propensões só se concretizam em verdadeiro suicídio nos casos excepcionais em que numerosas circunstâncias e fatores se combinam para torná-lo possível (MENNINGER, 1970, p. 21).

Nessa percepção, é preciso ainda esclarecer que a análise de Freud não é em relação à morte voluntária propriamente dita, mas tem como alvo a “intenção de praticar o suicídio” (MENNINGER, 1970, p. 30). Assim, esse conflito de emoções, que poderia desencadear um suicídio, estaria presente em todos os humanos por ser relacionado a duas tendências “construtivas e destrutivas da personalidade” (MENNINGER, 1970, p. 21). Elas estariam em duelo dentro de cada um de nós e seria impossível livrarmo-nos dessas pressões internas, mesmo conquistando um nível de compreensão maior sobre nós mesmos:

Uma espécie de equilíbrio, com frequência muito instável, é conseguida e mantida até ser perturbada por novos acontecimentos no ambiente, que causam uma rearrumação com resultado talvez muito diferente.

Com base nisso podemos compreender como é possível que algumas pessoas se matem rapidamente, algumas se matam vagarosamente e algumas não se matem, que algumas contribuam para sua própria morte e outras resistam valente e brilhantemente contra ataques externos à sua vida, diante dos quais seus semelhantes teriam logo sucumbido (MENNINGER, 1970, p. 22).

Por outro lado, Menninger constrói a sua concepção de suicídio a partir dos fatores psicológicos inconscientes. Acredita que o ato em si está relacionado a três elementos: o de morrer, o de matar e o de ser morto. Com esta base, ele desenvolve a sua lógica de entendimento do tema. Para o autor, há dois tipos de morte voluntária: o crônico e o focal. Ao invés de relacioná-los com a sociedade, como Durkheim, os fatores determinantes estão voltados a como o homem provoca a sua autodestruição. No caso do crônico, o suicídio ocorre aos poucos, como a questão do fumo e da bebida alcoólica, as desobediências ou os comportamentos agressivos. São situações em que a própria pessoa se coloca em risco e que podem culminar na sua morte, mesmo que não de maneira rápida. “O indivíduo adia a morte indefinidamente, à custa de sofrimento e diminuição de função, o que é equivalente a um suicídio parcial - uma ‘morte em vida’ é verdade, mas ainda assim vida” (MENNINGER, 1970, p. 90). O focal, na visão do autor, está relacionado aos casos de automutilação e a certos acidentes inconscientemente propositais. Segundo o autor, nesse grupo, a atividade de autodestruição “se concentra sobre o corpo e geralmente sobre uma parte limitada do corpo” (MENNINGER, 1970, p. 207).

Na argumentação desenvolvida por Menninger, fica evidente que os atos, como de automutilação, têm explicações mais subjetivas e carregam consigo bagagens emocionais que fazem o indivíduo realmente colocar a sua vida em risco, mesmo que não compreenda totalmente a sua atitude. Ele utiliza, como exemplo, um caso de automutilação em que um homem cortava sozinho o seu cabelo, até gerar um efeito repulsivo, mesmo sem necessidade. Na análise, relata Menninger, foi identificado que o indivíduo, de cabelos pretos, tinha problemas de relacionamento com o pai e com o irmão, que era loiro, e representava isso na sua compulsão em cortar o cabelo, o que também se refletia na vida. “Em outras palavras, ele repetia vezes e vezes a fórmula de atacar seu irmão, desafiar seu pai e incorrer em punição. Punia diretamente a si próprio ou fazia-se punir pelas agressões que praticava contra várias pessoas em lugar de seu pai e seu irmão” (MENNINGER, 1970, p. 221-222).

Retornando à análise de Freud (1930), apropriamo-nos de outro conceito de sua investigação: a geração do sofrimento. Em O Mal-estar na civilização, o psicanalista aprofunda a análise sobre as origens do sofrimento no homem, indicando três fontes principais: a fragilidade do nosso próprio corpo; o mundo externo; e os nossos relacionamentos. Ao se aprofundar na questão, Freud (1930) analisa as ações

que adotamos para evitar tais dores, sendo um dos caminhos a moderação da felicidade, entendida como o que provém da satisfação. Como alternativas estão o isolamento voluntário, a intoxicação, a sublimação dos instintos, renegar a realidade e a religião.

A que está associada aos relacionamentos é a que resulta no sofrimento mais penoso. Isso porque os outros dois casos (a fragilidade do nosso corpo e o mundo externo) não podem ser controlados, porém, esse, especificamente, poderia:

Quanto à terceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa atitude é diferente. Não a admitimos de modo algum; não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós (FREUD, 1930, p. 43).

O psicanalista aponta que existem benefícios e desvantagens na vida em civilização. Do lado negativo, o homem precisa renunciar aos seus instintos, para, em troca, encontrar uma certa comodidade de viver sob uma ordem coletiva, o que, segundo Freud (1930, p. 51), conserva as suas forças psíquicas. Apesar disso, as desvantagens têm sido mais sentidas pelos indivíduos, que estão cada vez mais frustrados e perdendo o prazer de viver nessa civilização, apesar de todos os avanços tecnológicos e inovações para ampliar o tempo de vida. Assim, o autor reflete: “de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?” (FREUD, 1930, p. 40).

A reflexão de Freud, pelo viés da psicanálise, sobre o fato de a sociedade gerar sofrimento ao indivíduo, ao nosso ver, se relaciona com o pensamento trazido por Durkheim, pela base sociológica, da influência social nos casos de suicídios. Assim, a sociedade desempenha papel relevante quando se trata desse fenômeno, e, automaticamente, nas buscas de ações de prevenção.