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7.4 Caractérisation du GPIB

7.4.1 Mode refroidisseur uniquement

em Gulliver’s Travels

*

I – Gulliver’s Travels no conjunto da produção literária de Swift

a) Pontos de relacionação com outras obras do autor

É possível distinguir quatro fases na vida literária de Swift. Na inicial, ainda no século XVII, avultam A Tale of a Tub e textos conjuntos publicados em 1704, mas escritos na maior parte entre 1696 e 1699, ano da morte do seu primeiro patrono, William Temple, cujo espólio literário editaria, pouco depois, em quatro volumes. A preocupação com abusos na religião e na actividade intelectual motiva desde logo uma vocação satírica que atinge melhor expressão na prosa do que no verso e que, em ambos os casos, é claramente devedora a Samuel Butler e a aspectos do ethos restauracionista. Numa segunda fase sobressai a sua intervenção pública e política, nomeadamente como panfletário e jornalista (whig entre 1700 e 1710, tory nos quatro anos seguintes, os últimos da rainha Ana, mantendo-se todavia sempre fiel aos princípios politico- ideológicos do regime de soberania partilhada, anti-absolutista, decorrente da Revolução Gloriosa ou Whig, de 1688). O seu primeiro panfleto desta época, A Discourse of the Contests and Dissentions in Athens and Rome (1701) é inteira - mente escrito numa perspectiva whig, que se irá esbatendo e modificando à medida que o autor verifica serem os seus pontos de vista de clérigo anglicano conservador e high church mais compreendidos e apoiados pelos tories. É já a favor destes que escreverá The Conduct of the Allies (1711), uma das mais célebres peças da história do jornalismo político inglês, apoiando a paz com a

* Texto-base da lição de síntese apresentada em provas de agregação na Faculdade de Letras de Lisboa, 1994. Reunidas com o título “Utopia e distopia em Gulliver’s Travels”, partes deste texto foram publicadas em artigo da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 18, 5.ª Série, pp. 129-143. O texto completo saiu no volume de homenagem a Maria Helena de Paiva Correia, “So Long Lives This And This Gives Life to Thee”, Departamento de Estudos Anglístico, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2009, pp. 337-64.

França na Guerra da Sucessão Espanhola, começada em 1702. Escritos como Short Character of His Excellence Thomas Earl of Wharton (1710) e outros documentam a sua permanente verve satírica de grande impacte retórico. Numa terceira fase (vivida em Dublin, de 1714 a finais de 1727) afirma-se sobre - maneira o patriota irlandês. O que é tanto mais de relevar quanto é certo o seu reconhecimento das raizes familiares, culturais e políticas inglesas, assim como o seu sentimento de desterrado na Irlanda, certamente não mitigado por uma colónia de britânicos predominantemente adversa no seu acirrado whiggism. São diversos os textos em que Swift dá provas de invulgar energia, honestidade e coragem, além de talento literário, ao defender direitos de cidadania e a inde - pendência económica dos irlandeses, não obstante não pôr em causa o estatuto colonial da sua terra natal e os princípios mercantilistas vigentes. Mas o mais famoso desses textos é, sem dúvida, Drapier’s Letters (1724); e se é manifes ta - mente datada a sua motivação histórica imediata, a presença daquelas caracterís - ticas torna o patriotismo de Swift bastante próximo da sensibilidade hoje predominante, ao invés dos aspectos mais conservadores da sua ideologia social (exposta, por exemplo, no sermão On Mutual Subjection, só publicado em 1744). Após cinco anos de escassa produção literária (até 1719), esta terceira fase acaba por se revelar também como de maturação da sua sátira em verso e em prosa. Alguns dos seus melhores poemas foram então escritos, como é o caso da tríade “The Progress of Love”, “The Progress of Poetry” e “The Progress of Beauty” (1719-20); e a sua obra de dimensão mais universal, Gulliver’s Travels, iniciada em 1721, é publicada (anonimamente, em Londres) no ano de 1726. Uma quarta fase, após 1727, segue-se à última viagem do autor a Inglaterra. Apesar do declínio na saúde, da separação de alguns amigos e da morte de outros (a de Stella ocorreu em 1728), a sua energia como escritor e homem empe - nhado na coisa pública permanece até 1737. Com Sheridan, lança em Maio de 1728 o jornal The Intelligencer, de que saem dezanove números; e frequentes são os seus escritos desta época, sobre a situação do clero, a pobreza na Irlanda, a política e a economia, além de poemas e cartas. Entre os mais relevantes ou típicos da sua disposição irónica contam-se A Modest Proposal for Preventing the Children of Poor People from Being a Burthen to their Parents or Country (1729), Polite Conversation (1733) e Directions to Servants (1745).

Sendo incomportável aqui uma análise pormenorizada dos textos, a caracte - rização sucinta destas fases poderá ajudar a contextualizar e articular Gulliver’s Travels com outras obras do autor. A conexão mais óbvia e geral é a continuada vocação satírica; mas, na realização desta, três aspectos principais poderão documentar mais especificamente a referida articulação: estratégia de publica - ção, matriz formal e orientação temática.

Como Swift diz numa carta a Pope, a sua estratégia literária essencial, confirmada desde A Tale of a Tub, é “to vex the world rather than divert it”131;

e, ainda que aparentemente secundarizado nesta afirmação, o segundo ele - mento, de diversão ou comédia, tem papel importante e anda frequen temente associado nos seus escritos ao primeiro elemento, de provocação ou sátira. O conceito de diversão informa a própria imagem, por assim dizer tauromá - quica, de que deriva o título daquela obra; e é ainda no duplo sentido do termo divert que se orienta a escrita e publicação de Gulliver’s Travels. Mais adiante se falará de vários sentidos da recorrente comédia swiftiana. Por agora bastará talvez salientar que nela se integra, com maior importância do que poderá parecer ao leitor desprevenido, o deliberado anonimato da primeira publicação da maioria das suas obras, incluindo A Tale. Quanto a Gulliver’s Travels, a sua autoria nem do primeiro editor, o londrino Motte, era conhecida em 1726. Analogamente, e convergindo na referida estratégia de comédia satírica, é acrescentada uma carta preliminar, datada de 1727 mas só incluída na edição de Faulkner de 1735, assim como uma acumulação paródica de subsídios editoriais noutras obras. Por tal meio, o autor imita ironicamente um gosto “moderno” que se vinha generalizando desde Dryden e que era tipificável quer na emergência da chamada crítica profissional dos neo-clássicos quer na proliferação de chaves, notas, comentários e recensões das mais diversas prove - niências e competências. O parodístico aparato editorial constitui ainda um elemento verista acrescentado à caracterização de personae inventadas pelo satirista, a qual participa, não raro com uma faceta de mistificação, na comédia de perplexidades também destinada a envolver os críticos. Tal aspecto insere-se, aliás, no espírito e no programa do Clube dos Scriblerianos que, em 1713, congrega Swift, Arbuthnot, Parnell, Gay e Pope; e concorre para uma tradição, já alimentada pelos wits da Restauração, não só de sátira ao pedantismo em geral e aos modernos em particular, mas também de auto-protecção e desafio através do anonimato. Logo em 1701, na sua primeira obra, Contests and Dissentions in Athens and Rome, a obliteração da autoria visava reforçar a tonalidade supra-partidária, de imparcialidade e razoabilidade magistral numa análise histórica cujo confronto com a situação presente poderia suscitar reacções adversas. Em Sentiments of a Church-of-England Man, de 1711, a mesma tonalidade é sublinhada com uma chamada de atenção para o carácter

131Carta a Pope, de 29-IX-1725, cit. em Denis Donoghue, ed., Jonathan Swift, Penguin Critical

Anthologies, Harmondsworth 1971, p. 47; ver também Harold Williams, The Correspondence

impessoal e não meramente individual do posicionamento tomado, em parte também com a justificação de não pretender favor político. Mas que as aludidas facetas de mistificação e desafio geralmente não andam longe é observável no caso, por exemplo, de outra obra de 1711, Miscellanies in Prose and Verse: apesar de reiterados protestos de que nem contribuira para a sua publicação nem a consentira, sabe-se hoje que nela se empenhara. Para além dos aspectos tradicionais do anonimato e da diversão, sobretudo no caso da sátira, Swift procuraria, ao adoptar tal estratégia em Gulliver’s Travels, testar o acolhimento do público. Evita condicioná-lo pela imediata identificação ou hostilização decorrente de prévias intervenções polémicas suas, assim como fomentar a ficção de que Gulliver (noutros livros outras personae) era o autor real. Se na sua poesia mesmo mais realista, segundo diz Ricardo Quintana, Swift permanece “self-conscious” e “self-centered”, e se nalguns dos panfletos o seu empenha - mento pessoal se expressa numa argumentação linear e directa, em obras e sátiras principais a ocultação autoral não é menos significativa.132Ela permite,

de facto, uma indirecção e refracção imprevisível na comédia de descon - tinuidades das respectivas personae, dentro da estratégia apontada, através de elementos de fantasia e humor. Tal imprevisibilidade, aliada aos restantes aspectos sugeridos, produz um efeito mais característico em obras maiores como A Tale of a Tub, The Drapier’s Letters, A Modest Proposal e, sobretudo, Gulliver’s Travels; e por tal via superam estas obras possíveis riscos de monotonia que uma extensiva ironia sustentada com deliberados propósitos satíricos e uma orientação ética tradicional poderiam envolver.

Quanto à matriz formal, não se deve ignorar uma característica que, como a anterior, relativa à dupla estratégia observada, é frequentemente mal compre - endida. Desde as origens, a tradição da satura assenta no conceito de variedade; e na expressão clássica dos satiristas latinos que mais contribuiram para a formação de Swift e outros augustanos, a desejada variedade repartia-se num confronto bipolar entre uma realidade negativa e um ideal ou modelo positivo. Confronto que, aliás, é princípio estruturante também da utopia dialógica clássica como More a interpretou e ela própria indissociável, como se sabe, de motivações e elementos satíricos. Numa fase posterior da tradição, as obras de Rabelais, a sátira Menipeia e outras contribuiram, quer pela extensão narrativa da sua prosa quer por outros meios, para diluir a simetria dos dois planos

132Ver Ricardo Quintana, Swift: An Introduction, Oxford (U.Press), 1955, reimp. 1965, pp. 41

contrastivos. Mas, no processo, contribuíram também para ampliar a variedade e até a heterogeneidade dos ingredientes constitutivos e exemplificativos. Como comédia e fábula satírica, Gulliver’s Travels terá de ser compreendida à luz deste desenvolvimento. Se, no que tem de mais essencial, a obra vive do tradicional desfasamento irónico entre um desejo de ser ou progresso do protagonista e a constante verificação dos seus limites ou frustrações, a forma que assume, permea da de elementos de um humor por vezes rabelaisiano e mantendo ainda alguma simetria na sequência quadripartida, aproxima-se da expansividade menipeia. Por um lado, é conservadora nas suas raízes satíricas e no ataque à dispersão da cultura moderna. Por outro, não deixa de reflectir na sua forma narrativa algo dessa mesma modernidade – ao adoptar, nomeadamente, mo de - los recentes de viagens reais e imaginárias, uma linguagem directa e factualista, um protagonista seduzido pelo crescente empirismo cientifista, uma certa descon tinuidade nas máscaras que lhe empresta, nos relatos que lhe atribui, nos cenários e alvos em que o situa. Apesar da aludida simetria sequencial, as “irregularidades” presentes desafiam quaisquer expectativas neo-clássicas. A frequente dificuldade dos críticos para justificarem, por exemplo, o perfil episódico da terceira Parte será, talvez, o caso mais flagrante; mas outros exemplos nos poderão interessar, como é o da presença, em qualquer das Partes, de passagens aparentemente avulsas de utopismo, num enquadramento global de forte teor distópico – o que, mais adiante, procuraremos esclarecer.

Estamos agora em melhores condições para perceber uma razão de fundo pela qual A Tale of a Tub e textos conjuntos são, talvez, a melhor introdução à restante obra literária do autor, incluindo Gulliver’s Travels. De facto, não o serão apenas por pertencerem a uma fase inicial, mas sobretudo por teste - munharem desde logo, no conteúdo e na forma, o aludido confronto entre o antigo e o moderno num período historico-literário em que a própria sátira sofre inci dências da modernidade que pôe em causa. A expansividade e a desconti nuidade menipeia são até mais patentes naqueles textos iniciais: pela multipli cidade e variedade de partes, digressões, excursos, máscaras e alvos; pelo hibridismo de padrões, em que à narrativa histórica se justapôe a narrativa alegórica, a fábula, o ensaio utópico ou visionário e o heróico-burlesco; pela prevalência de uma sátira indirecta e paradoxal com elementos de uma comédia favorecida pelo grotesco, pela ironia de boomerang e pelo contraste entre o direito e o avesso das máscaras intervenientes. De A Tale a Gulliver’s Travels, tais componentes de expansividade e descontinuidade apoiam-se numa grande energia e desenvoltura de linguagem. O que, aliado à capacidade de criar personae com um idioma e um ponto de vista próprio, cuja vulnerabilidade como alvos satíricos não se torna prevísivel ou imediatamente óbvia, confere à

respectiva construção narrativa, e em particular à personagem de Gulliver, uma apreciável feição dramática. O próprio problema de encontrar uma classificação adequada quer para A Tale of a Tub quer para Gulliver’s Travels releva de um traço comum. É que qualquer destas obras reúne uma considerável variedade de elementos derivados de padrões diversos a que só a ironia de um oculto satirista confere plena consciência e unidade. Enveredar pela prosa mista tornou- -se mesmo objectivo programático dos Scriblerianos; e se, como veremos, não é essa a única marca de identificação entre Swift e os outros escritores do seu tempo, ela também não é das que menos confirmam a estratégia de desafio e provocação de perplexidades antes apontada.

No que respeita à orientação temática, são também reconhecíveis alguns traços fundamentais de articulação entre Gulliver’s Travels, A Tale of a Tub, textos conjuntos e outras obras do autor. Para além de diversas e variáveis ocasiões pessoais de sátira, são sobretudo alvos gerais que nelas tendem a recorrer: religio - sos (sectarismo e fanatismo dos puritanos, deísmo, materialismo); intelec tuais (cientifismo, progressismo visionário e outros aspectos de auto-convencimento dos coetâneos acerca da suposta excelência da sua civilização); e políticos (por exemplo corrupção, militarismo, tirania). A respectiva ilustração assenta frequen temente na oposição entre “antigos” e “modernos” e permite destacar uma grande área temática preferencial: orgulho e irracionalidade dos chamados animais racionais, sobretudo em versões e exacerbamentos identificados com a modernidade europeia e inglesa.

Em A Tale of a Tub, o padrão positivo de razoabilidade e senso comum aflora na fugaz voz de um satirista (não exactamente Swift) submersa pelas diversas vagas negativas de outras vozes: de Wotton, Bentley (críticos de William Temple, autor de um ensaio em defesa dos “antigos”) e várias máscaras de “entusiastas”, publicistas e projectistas visionários que subscrevem as sucessivas secções narrativas. Em Battle of the Books, os cavalos da batalha travada entre os autores dos dois campos misturam-se com outros animais num cenário de fábula de burlesca magnitude. Em Gulliver’s Travels, a “norma” negativa é, antes de mais, representada pelo próprio protagonista que, de viagem para viagem, se vê cada vez mais ostracizado, diminuído, alienado, ao sentir a desproporção entre o que é e o que julgava ser; enquanto a “norma” positiva é sugerida por duas vias. Em primeiro lugar, por algumas personagens (os antepassados dos agora corruptos Lilliputianos; a jovem Glumdalclitch e o rei de Brobdingnag; Lorde Munodi e o célebre sextunvirato constituído por Sócrates, Epaminondas, Catão, Júnio, Bruto e Thomas More, revisitados na terceira parte; e, na última viagem, pelo capitão português Don Pedro de Mendez, que leva Gulliver, após mais um naufrágio, não são mas salvo, de regresso a casa). Em segundo lugar, por passa -

gens e cenários de utopia presentes em todas as viagens. O carácter problemático e eventualmente irónico de tal utopismo merece, no entanto, posterior aprofun - damento.

O apego de Swift à sabedoria dos antigos não é indiscriminado nem resulta de espírito geométrico. Já em Contests and Dissentions, o usual paralelo apre - sentado radica na noção de que a história, se não se repete, permite, pelo menos, analogias aproveitáveis ao presente; e de que o passado, se não deve ser idealizado, tão-pouco favorece idealizações da actualidade ou do futuro. Nem pri mi tivismo de uma Era de Ouro, nem progressismo utópico – o conhe - cimento da história ensina antes a maior probabilidade do erro, da anarquia e do despo tismo, numa palavra: do degradacionismo. Mas muitos textos do autor, de natu reza histórica ou não, entre os já citados e outros, não só apresentam, naturalmente, exemplos modernos positivos, como defendem o sistema de soberania partilhada (por rei, nobres e comuns), emergente em 1688 e então o mais moderno na Europa. Tal defesa radica, aliás, em quatro componentes principais, antigas e modernas, que concorrem na formação do autor: a clássica teoria de Políbio sobre o estado monárquico misto; o equilíbrio de poderes através de um dispositivo de checks and balances, conforme o proposto por teorizadores whigs que pretendiam, a propósito, aduzir supostos precedentes na constituição “gótica” de alguns estados do Norte da Europa; a visão hobbesiana de uma psicologia individual e de grupo com tónica no egoísmo e na avidez de poder, propícios à anarquia; e a aspiração à liberdade, contrária não só ao arbí - trio proposto pelo filósofo de Leviathan, mas também à grande concentração de poder num só homem, num pequeno número, ou na multidão.

A mesma posição, simultaneamente tradicional e realista, se nota na teorização sobre a vida social, de que On Mutual Subjection é típica síntese. A comuni dade ideal, para Swift, exclui a idealização utópica de precedentes, antecedentes ou projecções. Corresponde de perto à ordenação de graus, funções e relacio namentos segundo o modelo hierárquico de uma tradição patriarcal afecta a valores amiúde associados à propriedade da terra e ao meri - diano da fé anglicana. E não atribui à riqueza nem à pobreza as marcas de uma preferência ou de uma rejeição divina, contrariamente à convicção de alguns puritanos. De facto, um dos mais persistentes pontos de relacionação de muitos textos do autor com Gulliver’s Travels é a detestação de todas as formas, antigas ou modernas, de ilusão, falsa expectativa e visionarismo. O próprio apego à liberdade, que o celebrizou, por exemplo, como patriota irlandês, visa uma aplicação muito específica a situações e causas de motivação também imediata; e tanto no plano individual como no comunitário, limita aos colonos britânicos e sobretudo anglicanos os direitos e privilégios reconhecidos em Inglaterra, com

o objectivo, designadamente, de eliminar a sua dependência e um injusto arbítrio econó mico. Neste sentido, as ideias e o apelo de liberdade contidos em Drapier’s Letters e noutros escritos de Swift poderão ter raízes antigas; mas têm certamente também feição muito concreta, indissociável de uma razão prática e de um senso comum testados na recente experiência histórica vivida pelos ingleses, antes e depois de esgotado o regime absolutista com os últimos Stuarts.

b) Traços de articulação com obras de outros autores

Desde o início da sua recepção que Gulliver’s Travels suscitou grande interesse na identificação de fontes, influências e relações genéricas ou específicas. Em certa medida, o próprio anonimato inicial da autoria e outros elementos da estratégia de publicação terão dado algum contributo nesse sentido. Não preten - dendo apresentar um estudo justificativo de fontes e influências, apenas nos deteremos sucintamente no que hoje é possível saber com segurança sobre tal matéria para melhor chegar a dois objectivos mais essenciais ao tema que nos propomos: a compreensão e caracterização da originalidade da obra em apreço. E ao visar tal propósito, desde já devemos acrescentar que reputamos insuficien - tes e até por vezes ilusórios certos estudos que, com variável fundamentação, sugerem paralelismos verbais, de situações, incidentes e personagens – quer para estabelecer uma determinação de tipo positivista, quer uma dependência, quer ainda uma falta de originalidade de Swift em relação às alegadas fontes, estipulando uma superficial filiação de Gulliver’s Travels em modalidades e tradições. Por também precaver contra tais tendências, é de salientar o exemplar estudo de Milton Voigt, ‘The Sources of Gulliver’s Travels’, em Swift and the Twentieth Century133. De forma sistemática, este scholar apresenta uma relação

historico-crítica da evolução da pesquisa das fontes de Swift para a criação daquela obra e, passados trinta anos, ainda mantém pertinência na informação e no comentário. Para ele remetemos quem queira desde logo iniciar e