6.4 Estimation de l’émittance issue de la source
6.4.4 Applications et déduction de l’émittance du faisceau en sortie de source . 92
com especial referência ao período augustano
*A aplicação e interpretação de imagens animais do homem na sátira tende a concentrar-se na função disfemística, trate-se de vulgar vituperação ou de elaboração literária. No entanto, por muito frequente que seja na mobilização de satírico empenhamento, tal função nem sempre tem expressão simples, até porque nem sempre se traduz na deflação unívoca de uma criatura ou do género humano.
Os animais surgem muitas vezes na literatura como símbolos de pessoas reais, mas também de características positivas ou negativas do homem (veja-se, por exemplo, os bestiários medievais e a tradição homilética em que se inserem, nomeadamente, alguns sermões do P.eAntónio Vieira). Os humanos tendem a
denotar ambivalência na relação com os animais (e com a natureza em geral): entre o temor, o respeito, a atracção e mesmo a veneração susceptível de ir até à zoofilia – e várias formas de repulsa; entre o sentimento de inferioridade ou vulnerabilidade e o desejo de domínio. Os animais têm servido, ao longo dos tempos, para simbolizar aspectos específicos da humanidade, embora a relativa constância do seu padrão comportamental possa contrastar com a maior varia - bilidade do homem. O interesse desde sempre dedicado pelos “racionais” aos “irracionais” confirma, aliás, repetida observação dos psicanalistas: os animais representam simbolicamente (e por vezes de modo bastante complexo) as dimen sões inconsciente ou subconsciente da mente humana, o infrahumano ou o instintivo, as pulsões profundas, domesticadas ou “selvagens” do homem. Cão e cavalo contam-se entre os animais mais universalmente associados ao homem, em mitologias de todos os tempos e quadrantes, através de enorme variedade de projecções simbólicas. Em muitos casos, o respectivo destino surge insepará - vel do humano. Em certas culturas adquire grande relevo a metamorfose de um indivíduo em cavalo ou a sua representação com cabeça de cão; no primeiro caso para significar, designadamente, orgulho de poder ou domínio da razão
sobre a força instintual e, no segundo, a capacidade de orientação que faz do cão um bom guia do homem no dia e na noite, na vida e na morte.
Em Leis, VI, 777 b, Platão apresenta uma expressão que se pode considerar matriz-tipo de muitas imagens animais na sátira quando diz que o homem é um “animal com que é difícil lidar”; e em VIII, 840 d, prossegue implicação ética de contornos mais nítidos ao comentar que “eles, os humanos, deviam ser melhores do que os brutos animais”. Em República, VIII, 563 c, por outro lado, refere que, com o tempo, os cães se tornam parecidos com os donos – anotação também arquetípica que, nessa ou em diversa espécie animal, não deixará de ter notáveis descendentes miméticos17. Veja-se a identificação de Dom Quixote,
Sancho e Hudibras com as respectivas montadas, de Gulliver com os cavalos após a sua descoberta de Houyhnhnmland, a semelhança do semblante de Hogarth com o seu cão favorito que lhe faz companhia em auto-retrato de 1749 e efeitos análogos noutras obras.
Em antigas concepções tradicionais e genealogias que faziam proceder a sátira de longínquos rituais, a imagem meio-divina meio-animal do sátiro ocupava lugar central. Nas mesmas genealogias, a projecção emblemática dessa figura híbrida não raro revelava afinidades com a imagem do sátiro Sileno ou das caixas de bálsamo com idêntico nome (cf. a comparação, por Alcibíades, no Simpósio de Platão, entre Sócrates e tais caixas – cujo conteúdo, como se dizia da sátira na respectiva tradição apologética, pode ter efeito regenerador e apaziguador de males)18.
Em “Agression and Satire: Art Considered as a Form of Biological Adaptation”, Alvin Kernan compara a sátira e respectivas apologias tradicionais do satirista em relação à sua arte com a ambivalente mistura de gestos meio- defensivos meio-ofensivos de animais assustados por um inimigo19. A frequência
com que os satiristas propõem apologias das suas sátiras é, em si mesma, indicadora dos riscos de hostilização a que estão sujeitos por escreverem desafiando reais e potenciais adversários.
A irónica conotação do homem com o animal, especialmente o cão e alimá - ria de rédea ou tirante, entre os domésticos, o lobo ou a víbora e outros raste -
17Cf. as observações cit. em Plato: The Collected Dialogues including the Letters, ed. Edith
Hamilton e Huntington Cairns, Princeton (U. Press), 1961: Leis, VI, 777b, p. 1353, e VIII, 840 d, p. 1405; e República, VIII, 563 c, p. 791.
18Cf. Simpósio, ed. cit., 215 a e seg., p: 566.
19Cf. o artigo de Kernan em Frank Brady, John Palmer e Martin Price, eds., Literary Theory
jan tes, entre os demais, tem fortuna satírica tão correntia, inclusive na esfera lite - rária, que se torna dispensável adiantar muitos exemplos. Mais diferenciada é a observação de que os homens são ocasionalmente piores do que os animais por - que dotados de razão, capazes de sentido moral e de assimilação de princí pios éticos, o que agravaria as suas responsabilidades para o bem e para o mal. Obser - va ção já apresentada por Aristóteles (Política, I, 11) em típica expressão dicotó - mica:
Quando consegue certo aperfeiçoamento, o homem é o melhor dos animais, mas quando afastado da lei e da justiça é o pior deles. Ora a injustiça protegida pelas armas é a mais terrível; e o homem vem ao mundo armado de condições para adquirir prudência e vir - tude, podendo desviá-las para os piores fins. Logo, se for destituído de virtude, torna-se o mais desregrado e selvagem dos animais20.
Ao longo dos séculos e, em especial, de Chaucer a Johnson, a sátira inglesa recebeu frequentemente inspiração dos satiristas antigos, particularmente de Horácio e Juvenal, cujas imagens animais do homem são quase sempre consis - tentes no pressuposto de qualidade inferior nos irracionais. Assim, por exemplo, nas sátiras do primeiro, a figura aforística e caricatural do asno surge, inclusive por via de Esopo, para pôr em destaque quer um irrisório comporta mento humano quer um comportamento menos mesquinho noutro animal, com relevo para o cavalo, mas este último não deixa tão-pouco de ser referido para ilustrar (mais esporadicamente) acções humanas defeituosas21. Ocasional, nas
mesmas sátiras, é o registo sarcástico da baixeza de determinados alvos pessoais através de substantivos de aplicação adjectiva22. Neste caso, o epíteto pode
aparecer como parte de uma curta série de imagens afins e de cumulativa resso - nância, como nas linhas: “Admitamos que ladrou, e merecidamente, a alguém/ /Sendo que, ele próprio, se mostrava cão mui capaz e isento de defeitos”23. Por
vezes, é possível encontrar uma concentração mais alongada e individualizada de imagens animais, como sucede na Sátira I do Livro Segundo, em que Horácio debate as possibilidades estéticas da satura. Apresentando-se como “combatente
20Cf. o texto cit. em Pierre Pellegrin, ed. e trad. Aristote: Les Politiques, GF, Flammarion, Paris,
1990, 2.ª ed. 1993, pp. 92-3.
21Cf. H. R. Fairclough, ed. e trad., Horace: Satires, Epistles and Ars Poetica, “Loeb Classical
Library”, William Heinemann Ltd., Cambridge, Mass. (Harvard U. Press), 1926, reimp. 1966; por exemplo: I, 1, pp. 10-1, II. 90-1; I, 6, pp. 78-9, II. 20-3 e nota a; I, 7, pp. 90-1, II, 7-9; e I, 9, pp. 106-7, II. 20-1.
22Cf. Fairclough, op. cit., por exemplo I, 10, pp. 122-23, I. 78. 23Idem, II, 1, pp. 132-33, II. 84-5.
fiel às origens raianas”, o autor descreve a sua atitude de satirista como essen - cialmente prudente e “não ofensiva”. Em conformidade, o instrumento da sua escrita é “arma de defesa”, “espada embainhada” mas capaz de responder a uma agressão “com a eficácia dos chifres ou dentes de um animal”. E a mesma escrita satírica é caracterizada como denúncia de alguns critérios correntes no mundo: “Os lobos usam os dentes,/Os touros investem com os chifres…”; “nem atacam com as patas uns, nem mordem os outros”24.
Se as imagens de Horácio não sobrevalorizam os animais, o mesmo em geral se verifica com as de Juvenal. As comparações deste tendem a ser tão tradicio nal - mente disfemísticas para os dois géneros de criaturas confrontadas ou meta fo ri - camente associadas como as do satirista augustano25. Também em Juvenal não é
fácil encontrar passagens com extensiva acumulação de imagens animais visando um contraste com o género humano no seu todo. Onde o satirista mais se apro - xi ma desse contraste global é nas quinze linhas finais da Sátira XV, nas quais as referências e imagens se distinguem das que se tornam mais recorrentes nas suas obras e nas do seu antecessor; são menos breves, menos comuns e de incidência menos particularizada. Com efeito, essas linhas estabelecem um con fronto entre a globalidade dos animais ferozes e certos humanos: os primeiros primam por pacífica sociabilidade com os da sua espécie, enquanto os segundos, agidos por mons truosa violência, podem chegar ao canibalismo. Tal passagem não envolve, todavia, plena generalização negativa para a huma nidade. O cani ba lismo citado é um caso extremo; nem todos os homens são abrangidos pela degradação exempli - ficada e nem todos os animais merecem necessaria mente o mesmo ou grande apreço:
Mantêm as serpentes hoje maior harmonia E os felinos poupam os da sua espécie.
Onde se viu um leão tirar a vida a outro menos poderoso? Alguma vez na floresta foi ferido de morte um javali Pelos acerados dentes de mais forte rival?
Na Índia, em permanente paz convivem os feros tigres; Os cruéis ursos respeitam tréguas.
24Idem, II, 1, pp. 128-29 e 130-31, II. 34-46 e 47-55.
25Cf. Pierre de Labriolle e François Villeneuve, eds. e trad., Juvénal : Satires, Les Belles Lettres,
“Collection des Universités de France”, Paris, 6.ª ed., 1957 ; por exemplo : Sátira 2, p. 18, II. 79-81; Sátira 6, p. 69, II. 270-73; Sátira 6, p. 84, I. 642 ; Sátira 10, p. 134, II. 267-71 e 271-72. Na boa edição inglesa de Niall Rudd (Juvenal : The Satires, “ World’s Classics”, Oxford U. Press, 1992) não deixa de ser significativo que este use por vezes na tradução ima - gens animais ausentes no original latino (por ex. Sátira 2, p. 9, I. 22, e Sátira 9, p.82, I.1).
Só aos homens não bastam as antigas armas
Temperadas por maligno fogo. Usaram outrora os ferreiros As energias, fabricando apenas foices e enxadas,
Alviões e arados; não sabiam forjar espadas. Mas aqui temos um povo que não se sacia
Assassinando, e faz do tronco, dos braços e humanos rostos Nova espécie de repasto! Perplexo pergunto o que Pitágoras diria. Não fugiria para onde pudesse, ao ver tais monstruosidades, Ele que toda a carne recusava como se de corpo humano viesse, E até alguns vegetais alimentos a si próprio proibia?26
É o moderado teriofilismo destas linhas que me parece, em todo o caso, mais distintivo. Juvenal, como Horácio, dá geralmente às suas imagens animais como se disse, um ambivalente teor disfemístico. Aqui, no entanto, é visível alguma supremacia da qualidade animal em relação a determinado povo ou a tendências dos contemporâneos. No confronto apresentado, os irracionais parecem escapar a alguns aspectos de inferioridade e maldade que tradicio - nalmente os caracterizavam. Nesse sentido, a sequência citada é, em certa medida, precursora de um teriofilismo que se acentuará na literatura europeia durante a segunda metade do século XVII.
A mesma sequência representa, aliás, o culminar de um desenvolvimento de imagens animais no poema. Veja-se como este começa:
Volúsio, meu Bitiniano amigo: toda a gente sabe
Que monstros os loucos Egípcios adoram. Veneram alguns O crocodilo, fazem outros vénia ao íbis, com víboras engordado; sagrado é o símio de longa cauda e brilhante imagem dourada,
Lá onde o som da mágica lira faz vibrar a mutilada estátua de Mémnon, E a velha Tebas, com as suas centenas de portas, em ruínas se amontoa. Num lugar são os gatos, noutros os peixes de água doce,
Noutros ainda os cães – adorados por cidades inteiras que Diana esquecem.
É pecado e sacrilégio comer cebola ou alho-porro
(Santo país, sem dúvida, que na horta cultiva tais divindades!), Enquanto o quadrúpede de lã vestido
É estritamente evitado à mesa pelo convidado. É proibido igualmente um cabrito matar;
Mas comer carne humana é perfeitamente tolerado.27
26Cf. ed. francesa citada, p. 195, II. 159-75; e Niall Rudd, op. cit., pp. 139, II. 159-75. 27Cf. II. 1-15 (p. 131 na ed. de Rudd).
No seu conjunto, a presença de referências animais contribui para certa homologia entre o princípio e o fim do poema, além de permitir uma espécie de moldura ilustrativa. Mas os versos iniciais (muito próximos de passagem de Cícero em Debates Tusculanos, 5.78), longe de elogiarem a qualidade dos irracio - nais, sublinham tanto a sua inferioridade como a desadequação dos respectivos adoradores. O seu irónico e ambivalente disfemismo é mais tradicional do que aquele que unilateralmente atinge os humanos nos versos finais. De facto, a abertura desta sátira de Juvenal traduz uma disposição e uma perspectiva críticas muito semelhantes às de certas referências animais presentes, por exemplo, em textos do seu contemporâneo Luciano de Samósata.
É este, também, um autor muito influente na tradição inglesa da sátira, especialmente no período augustano, com especial ênfase para Swift e Fielding (veja-se, deste, as histórias de reincarnações em Journey from this World to the Next). Luciano faz intervir em várias das suas narrativas figuras históricas e da mitologia clássica, aproximadas por metamorfoses ou, mais propriamente, pelo fenómeno de metempsicose. Nesta aproximação, a função punitiva-sublimadora do processo de reincarnação funde-se com idêntica função da sátira. Em “Ménipo e Tirésias” (de Diálogos dos Mortos), por exemplo, alude-se aos mitos de Aédon, de Dafne e de Calisto28. O primeiro fala de uma metamorfose
requerida aos desuses e interpretável como auto-punição ou, eventualmente, como libertação, enquanto disfarce animal, de penosa expiação de culpas. O segun do ilustra metamorfose já não num animal mas numa árvore; e, agora, a libertação pelo disfarce sobrepõe-se, sem dúvida, a qualquer hipotético efeito punitivo. O terceiro contempla certa metamorfose que, segundo uma inter - pretação, constitui disfarce libertador e, segundo outra, é castigo; no conjunto das duas possibilidades de significação se confirma a ambiguidade de muitos confrontos da condição humana com a animal. Reflexão susceptível de ocorrer a propósito de outras histórias luciânicas. Em O Galo, por exemplo, o satirista sírio apresenta um protagonista envolvido no processo global de degradação- punição-sublimação, próprio das reincarnações29. Assim, passa por sucessivas
vidas de animais de diferentes espécies, além de experienciar várias incarnações humanas – sendo no presente um galo, identidade, aliás, em que é reincidente. Para lá de outros aspectos inerentes a diversas histórias luciânicas deste tipo,
28Cf. Bryan P. Reardon, ed. e trad., Lucian: Selected Works, “The Library of Liberal Arts”, The
Bobbs-Merrill Company, Inc., Indianapolis e N. Iorque, 1965. “Menippus and Tiresias” é o cap. 28 de Dialogues of the Dead, pp. 49-50. Cf. p. 50, II. 22-4.
depreende-se, por exemplo, que a vida de certos humanos não é melhor do que a de alguns não humanos (caso exemplificado na “vida de cão” do rei de uma das incarnações do galo, que suscita ainda a comparação do referido rei a uma estátua de Fídias – bela no exterior mas talvez contendo, no interior, viveiro de ratos e vermes). Igualmente se depreende que a vida de um animal pode ser mais segura e tranquila do que a de uma criatura humana. Este outro aspecto tem, de resto, frequente glosa satírica em múltiplas referências a Ménipo, “o Cão”, e a Diógenes de Sinope, “o Cínico”, nomeadamente em Diálogo dos Mortos (1;2;21) assim como em O Leilão dos Filósofos (a começar pelo facto de a palavra grega de que deriva a palavra “cínico” significar “cão”, cognome concedido, aliás, por Diógenes a si próprio)30. O mesmo cognome aludia e correspondia à tese
do filósofo de Sinope, segundo a qual a vida dos animais era, em muitos casos, modelo para a humanidade. É bastante claro que Luciano tira efeitos satíricos de tal tese e da variável posição a que os animais se prestam em comparações com os homens (inferiores ou superiores?). Neste sentido, aponta situações em que, por exemplo, determinados animais, e entre eles a víbora – mas especial - mente o cão –, eram adorados como deuses (cf. Cerberus, na mitologia clássica, e o comum dos cães em regiões do Egipto).
Outras imagens animais do satirista de Samósata variam de ênfase, mas o teriofilismo tende a atrair, nele, uma disfemística deflação, que encontra na figura do cão os termos de referência mais recorrentes. Quando o galo, na história a que dá o título, diz que o facto de falar não é mais incrível do que a recitação de versos e de profecias, em plena batalha, por Xanto, o “imortal” cavalo de Aquiles, pode - mos notar alguma apercepção crítica relativa a analogias entre animais diver sos ou entre estes e os homens. De acordo com tal aper cepção, essas analo gias, assim como as comparações e os contrastes teriofílicos, não são para tomar demasiado à letra. A liberdade literária que permite a Xanto falar em vez de relinchar (aproximação do animal ao homem) será mais poética do que a teriofílica com - pulsão que leva Gulliver a relinchar em vez de falar (aproximação do homem ao animal); em qualquer dos casos estamos perante improbabilida des ou impos - sibilidades que o talento imaginativo dos criadores literários procura acomo - dar, por vezes não sem ironia, às suas fábulas. Mas conclusão que se pode desde já tirar é que a observação dos efeitos alienantes da sobrevalo ração de paradigmas animais aproxima Luciano e Juvenal; e também que a ironia satírica de ambos a tal respeito não difere muito da de Swift quando expõe a alienação de Gulliver ao venerar os cavalos na proporção inversa em que despreza os homens.
Na literatura europeia medieval, a lamentação provocada pelos “males dos tempos” e pela inerente subversão de expectativas anda frequentemente associada a imagens de um mundo “às avessas” ou “fora dos eixos”. Assim, por exemplo, o burro, tradicionalmente tido por surdo aos apelos da razão e aos encantos da música, surge a tocar alaúde; o cavalo, em vez de puxar a carruagem, torna-se seu condutor; os herbívoros passam a comer carne, os lobos deixam os cordeiros em paz, os bois dançam, as corujas superam os cisnes no canto, os papa gaios inventam versos, as galinhas dão à luz cabritos, as cabras põem ovos… E mesmo fora do tempo em que, segundo a fórmula fabular, os animais falavam, eles são capazes de rivalizar com os homens na linguagem. Na tradição literária de tais impossibilidades (ou adinata), em boa parte derivada de Aristófanes (Pluto) e Virgílio (Écloga VIII), mas com importantes contributos de Ovídio e dos satiristas latinos sobretudo a partir do século XII, radica a iludida ironia de inversão sintetizada em inglês na expressão “world upside down”. Aspectos satíricos dessa inversão estão presentes em antigas imitações paródicas gregas da viagem ao Hades imaginada por Homero. Na mesma via irónica prosseguem Luciano, Rebelais (que, muito depois do satirista de Samósata, o toma por vezes como referência – veja-se Pantagruel, capítulo 30) e outros satiristas. Exemplos do “mundo às avessas”, com mais ou menos imagens animais, não têm contana literatura medieval; mas alvo comum desses exemplos é a afectação ou pre sun - ção de qualquer criatura ao querer um papel para que não está pela natureza talhada. Muitas das respectivas imagens adquiriram função aforística na literatura e na pintura (veja-se o quadro Provérbios Holandeses, de Breughel). Na história da arte, a imagem da repetida batalha entre antigos e modernos, ela própria, anda por vezes ligada à mesma tradição e à necessidade de des mi - tificar exageros na valorização quer dos “bons velhos tempos” quer das novi - dades que nem sempre são modernas ou tão modernas como parecem. Sobre este assunto nos elucida um capítulo do estudo mais conhecido de Ernst Robert Curtius31.
Alguns dos tópicos aflorados têm consideráveis implicações na tradição da sátira inglesa, embora isso nem sempre seja lembrado ou reconhecido. No âmbito do presente artigo, no entanto, creio ser possível sugerir, pelo menos e como exemplo relevante, que o antropomorfismo dos equídeos de Gulliver’s Travels, a par da inversão de papéis entre estes e o respectivo protagonista
31Ver, de Curtius, “The World Upside down”, cap. 5.7 de European Literature an the Latin Middle
Ages (trad. de Willard R. Trask, Routledge a. Kegan Paul, Londres, 1953, do original alemão,
1.ª ed. A. Francke A. G. Verlag, Berna, 1948), pp. 94-8. Ver também, de Ian Donaldson,
humano, não é absolutamente alheio à tradição do mundo “às avessas”. Comen - tário extensível, aliás, em certa medida, mesmo a sátiras teriofílicas em que um