2.4 Au-del`a des mod`eles EU
2.4.1 Mod`eles non EU dans le risque et sant´e
A primeira idéia a nos inquietar e nos despertar para a realização da pesquisa de mestrado foi sobre algum tema ligado à UTIN, nossa área de atuação como enfermeira e preceptora de alunos. No entanto, até definir que seria acerca da morte foi uma longa caminhada; talvez, pela nossa própria dificuldade em abordar o tema.
A verdade é que cotidianamente passamos por enfrentamento diante da morte de nosso paciente e, por vezes, indagações nos tomam os pensamentos sobre nossa prática assistencial.
Quando refletimos, por exemplo: agimos corretamente neste caso?, fomos frios em dar a notícia da morte do bebê para a mãe? Tal colega poderia ter-se colocado no lugar da mãe... Foi um pouco duro com ela. Somos, também, em algumas situações, tomados por uma ambivalência: Ora sentimos um certo distanciamento nesses momentos, ora nos vemos totalmente envolvidos emocionalmente com a família.
Esses questionamentos nos conduziram ao estudo sobre os sentimentos dos profissionais de enfermagem diante da morte do recém-nascido, embora saibamos que outras pessoas estão também diretamente envolvidas, como os pais, familiares, e demais profissionais que atuam na UTIN. Pensamos e optamos pelo cuidador de enfermagem, em sua experiência particular, diante do evento morte na sua vida profissional, talvez pela identidade que nos aproximam.
A partir de então, buscar o referencial teórico foi uma viagem pelo conhecimento que nos ajudou a dirimir parte das nossas dúvidas e apreensões em
relação ao tema. Estudar sobre a morte nos fez compreender que pouco sabemos e pouco conhecemos sobre a vida/morte que enfrentamos diariamente.
No entanto, a tanatologia ainda encontra-se restrita a alguns grupos específicos e outros curiosos, quando deveria ser bastante difundida entre cientistas da área, estudantes, profissionais de saúde, religiosos, educadores, enfim, entre todas as pessoas, pelo fato de tratar de algo que é intrínseco no homem: sua finitude.
Conhecer um pouco da história das civilizações e seu relacionamento com a morte, somados às crenças e valores envolvidos, nos deram subsídios para entendermos atitudes hoje tomadas no exercício de nossa profissão diante do evento morte. A filosofia, a cultura, o conhecimento científico, a tecnologia, a ideologia, o mercado, a religião, todos exercem uma influência sobre nosso modo de agir e perceber os fatos que nos rodeiam.
Assim, para nos aventurarmos na vivência dos profissionais de enfermagem diante da morte do recém-nascido, trilhamos os caminhos dos ensinamentos fenomenológicos, buscando, na subjetividade de cada um, o desvelamento do fenômeno, sua evidência.
Portanto, inspirado por nossas inquietações e questionamentos, guiado pelos procedimentos metodológicos e respaldado pelos autores nas áreas especificas do tema, o estudo se processa e afinal o fenômeno se desvela: afloram os sentimentos e o eu se desnuda. Conflituoso, inseguro, culpado, solitário, triste, afetuoso e carecendo de ajuda, por mãos e braços que também o acolham e acalentem suas dores emocionais e seus temores mais profundos. Na maioria das vezes, um eu solitário e silencioso na lida, no cuidado para com os recém-nascidos.
E, dessa forma, os sentimentos diante da morte do recém-nascido foram pouco a pouco emergindo, ora expressando fragilidades com conotação de fracasso, impotência, ora de força e coragem diante do sofrimento dos pais e demais familiares. Nas falas e nos semblantes dos respondentes, alguns sentimentos afloraram mais facilmente diante do evento morte: a perda, por exemplo, se desnuda como uma grande ruptura, algo pouco aceitável e doloroso, longe da aceitação e da compreensão no contexto pessoal e profissional de nossos participantes. A perda do recém-nascido como alguém que não teve direito à vida, assemelhando-se muito a um projeto frustrado para a família e que, segundo eles, igualmente, abala as expectativas da equipe de enfermagem. No entanto, reconhecem que o recém- nascido também pode morrer, porque a morte não tem idade nem obedece a uma cronologicidade determinada pelo ciclo vital.
A culpa aparece em todas as falas, como se houvesse no profissional a
condição infalível de salvar todas as vidas. A cada morte vivenciada fica um questionamento em nossos respondentes, como se algo pudesse ter sido feito para evitar essa morte. Este pensamento, em parte, pode resultar da cultura acadêmica, hospitalocêntrica, centrada no aparato tecnológico que transformou a doença e a morte em um problema eminentemente técnico, perdendo-se de vista os limites e a singularidade do ser humano. Talvez por esse caminho possamos entender os sentimentos de auto-reprovação e culpa por ocasião da morte do recém-nascido na UTI.
Outro sentimento desvelado pelos profissionais de enfermagem foi o
fracasso diante da morte de seu paciente. Em suas falas também foi identificado,
como impotência, fraqueza, frustração e incapacidade, o que denota e reafirma a influência do pensamento tecnológico que luta contra a morte e a desconsidera
como limite natural da vida. A morte, no contexto hospitalar, simboliza comumente o fracasso, rompe com o poder dos profissionais, por isso é comum o sentimento de impotência diante dela.
A negação, outro sentimento presente, aponta para um aspecto mais
introspectivo do ser-no-mundo, essa relação com a morte, porque, negando-se a morte do outro, está-se, em essência, negando a sua própria finitude. Aqui, o medo do desconhecido, do além, tem peso e influência nesta ocultação. Pode aparecer como um mecanismo de defesa contra a dor da realidade da finitude. Anestesiamos a morte para vivermos na ilusão da imortalidade.
O sentimento de compaixão reflete o ser-com-os-outros, na realidade em pauta, com o recém-nascido e seus familiares. A solidariedade, a afetividade, a generosidade, atos de profunda humanidade em direção ao outro, são bem significativos em relação aos familiares, conforme referimos, especialmente junto às mães que perdem seus filhos recém-nascidos. O compartilhar a dor com o outro, neste momento, evidencia uma (re) significação do papel do cuidador, como também o remete ao encontro com sua própria humanidade, agora expressa em amor pelo outro. Percebemos, portanto, que a morte do recém-nascido aproxima os profissionais do sentimento de compaixão.
A tristeza emerge como um sentimento indicativo de profundo sofrimento
diante da perda do recém-nascido; é considerada natural nesse processo de luto no dia-a-dia que se vivencia nas UTINs.
Contudo, devemos ressaltar que a idéia de destacar, neste momento final, alguns destes sentimentos, já por demais discutidos e considerados ao longo do estudo, prende-se ao fato de terem aflorado entre tantos outros, com forte carga emocional na interação entre a pesquisadora e o profissional participante do estudo,
no caso, o respondente, por ocasião da entrevista. Emergiram, uns, em meio a lágrimas, outros com choro, longo silêncio, atitudes de revolta, por vezes, mas também demonstração, por alguns, de profunda empatia perante os familiares, especialmente diante das mães.
Assim sendo, pudemos apreender da pesquisa que, além de todos estes sentimentos que emergiram com tanta intensidade, temos ainda que considerar, neste cenário, a dor e o sofrimento dos próprios cuidadores; no caso, os profissionais de enfermagem, por nós nominados de estrelas, pois são eles os que mais tempo convivem com a criança e seus familiares e terminam por iluminar seus medos, dúvidas e apreensões. Alguns falam da criação de vínculos, de laços afetivos que aprofundam o sofrimento na relação com a família, em particular, no momento da morte do recém-nascido. E, por essa razão, clamam por algum apoio institucional, por um suporte psicológico para assistir os cuidadores e ajudá-los no enfrentamento das situações conflituosas e adversas que se apresentam no cotidiano da UTIN.
No contato com os participantes, pudemos, igualmente, vislumbrar entre seus temores e amores o compromisso com o exercício profissional e a revelação de que se sentem pouco preparados em relação à morte. De alguma maneira, isso vem sinalizar para uma maior preocupação com o ensino na área da saúde, e, na enfermagem, em particular, em relação ao tema da morte e do morrer, preocupação essa que deve se estender a todos os níveis e a todas as instâncias de formação profissional.
Por fim, devemos confessar que nessa trajetória do curso de mestrado e, em particular, desta pesquisa, muito aprendemos; crescemos como pessoa, como enfermeira, como docente e como pesquisadora.
O caminho por nós empreendido e percorrido possibilitou um encontro com o nosso próprio eu, tornando-o mais sensível e acolhedor e, a partir do estudo sobre a morte, aprendemos grandes lições acerca da vida.
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