Foram inspecionadas 166 cabeças de veado no total, tendo-se detetado 84 indivíduos infestados. Assim sendo, a prevalência de infestação com uma ou ambas as espécies, P. picta e C. auribarbis, foi de 50,6% para um intervalo de confiança (IC) a 95% de ± 7,61%. Apesar das larvas destes parasitas já terem sido anteriormente observadas nos veados em Portugal (Vinhas, 2014), é a primeira vez que se estima um valor da sua prevalência e se faz a identificação das espécies.
Este valor vai ao encontro do que era esperado, visto que este tipo de parasitoses tende a afetar um número considerável de hospedeiros. Ficou próximo dos valores obtidos na região centro de Espanha por De la Fuente et al. em 2000 (41,89%), ou na Áustria por Leitner et al. em 2016 (57,6%). A prevalência mais baixa encontrada na bibliografia foi de 35,19% (Vicente et al., 2004), no entanto, a maioria das referências reportam prevalências muito superiores ao valor estimado pelo presente estudo: 85% (Bueno de la Fuente et al., 1998); 90% (Martínez e Palomares, 1993); 94,3% (Ruiz et al., 1993); 98,2% (Sugar, 1974). Na Tabela 6 apresentam-se as prevalências obtidas em cada ZC, e na Figura 14 a respetiva distribuição geográfica.
Tabela 6 - Prevalências de Oestrose nos veados em cada ZC Código ZC Tipo ZC Observados Afetados Prevalência (%; IC 95%)
2 A 5 1 20,00 ± 6,09 5 A 32 27 84,38 ± 5,52 6 A 2 2 100,00 7 M 2 1 50,00 ± 7,61 8 M 9 4 44,44 ± 7,56 9 M 8 4 50,00 ± 7,61 10 T 68 15 22,06 ± 6,31 13 T 17 14 82,35 ± 5,80 14 T 23 16 69,57 ± 7,00 166 84 50,60 ± 7,61
As populações de veados de Idanha-a-Nova têm uma distribuição maioritariamente a Este e a Sul do concelho, junto à zona de fronteira com Espanha, daí só se ter conseguido amostras nas ZC nesses limites (Figura 14). No resto do concelho também podem ocorrer veados, mas na maioria das montarias para Oeste o grosso dos animais abatidos são javalis. Na Figura 14 verificamos que as prevalências foram superiores a Nordeste (82,4%) e a Sudeste do concelho (84,4%; 69,6%). Coincidência ou não, as prevalências maiores ocorreram nas zonas de maiores densidades populacionais, junto ao Vale Feitoso e ao Rosmaninhal. A exceção surge na ZCT 10 do Rosmaninhal, onde se registou uma das prevalências mais baixas (22,1%). Talvez a proximidade a Espanha, seja um dos fatores que justifique as prevalências mais altas junto da fronteira. A prevalência de 100% que aparece no topo do mapa necessita de mais investigação visto que apenas foram observados dois indivíduos (ver Tabela 6).
A abundância média e respetivo desvio padrão (n.º total de larvas / n.º total de animais observados) foi de 5,76 ± 9,36, um valor semelhante ao obtido por Vicente et al. em 2004 (5,49 ± 12,12). Relativamente à intensidade média de parasitismo (11,38 ± 10,47 larvas por hospedeiro afetado), verificou-se que foi inferior à generalidade dos estudos. Deveria rondar valores na ordem dos 25 a 30 larvas por indivíduo comparando com os estudos feitos durante os meses de Inverno (Martínez e Palomares, 1993; Ruiz et al., 1993; Bueno de la Fuente et al., 1998), altura em que o grau de infestação é maior. Por outro lado, quando comparada com os estudos feitos ao longo de um ano integral (± 15 larvas/hospedeiro: De la Fuente et al., 2000; Vicente et al.,
2004) deveria ser superior, pois é espectável que a intensidade média anual seja mais baixa do que a intensidade média no período de Inverno. Apenas o estudo realizado entre abril e julho de 2014 na Áustria (Leitner et al., 2016) registou uma intensidade inferior (6,69 larvas/hospedeiro) à obtida no presente estudo. Contudo, é importante referir que esse período corresponde à Primavera, momento em que o tempo começa a aquecer e as larvas L3 começam a sair do hospedeiro para se converterem em pupa no meio exterior, pelo que é natural que se encontrem menos larvas no hospedeiro.
A maioria dos estudos feitos sobre esta parasitose em veados decorre durante a época venatória, que por coincidência corresponde à altura do ano em que os níveis de infeção são mais elevados (Vicente et al., 2004). Este estudo não foge à regra. Na Figura 15 apresentam-se as prevalências e intensidades de larvas de Oestridae nos três meses em que decorreu o estudo.
0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 70,00 80,00 90,00 100,00
Dezembro Janeiro Fevereiro
Prevalência (%) Intensidade Média (larvas/hospedeiro)
Figura 15 - Prevalência e intensidade em cada mês (as linhas verticais indicam o IC a 95% para as prevalências ou o σ para as intensidades)
Pelos dados da Figura 15 verificamos que a prevalência no mês de dezembro não ultrapassou os 20% (17,91 ± 9,18), tendo aumentado e atingido quase os 90% em janeiro (88,46 ± 8,68%), e em fevereiro diminuiu para cerca de 50% (55,32 ± 14,21). Vicente et al. (2004) também observou o seu valor mais alto em janeiro (71,79%), mas o valor obtido apresenta-se mais próximo do obtido por De la Fuente et al. (2000), que registou o seu máximo em fevereiro (85,71%). A prevalência de fevereiro continua elevada, típica de um mês frio. Em contrapartida, a prevalência de dezembro foi muito baixa, tendo apresentado um valor próximo ao apresentado por De la Fuente et al. (2000) para o mês de novembro. A intensidade de larvas de oestrídeos por hospedeiro foi crescente, tendo sido muito baixa nos primeiros dois meses (7,67 ± 9,84 em dezembro e 8,26 ± 6,62 em janeiro) e atingindo o seu máximo no mês de fevereiro (18,62 ± 12,78), valor próximo ao obtido por Vicente et al. em 2004 (19,39 larvas /animal). No entanto, a intensidade máxima não coincidiu com o mês em que a prevalência foi também máxima, o que contraria o que foi obtido por De la Fuente et al. (2000) e Vicente et al. (2004).
4.2.3 Prevalência e Intensidade de P. picta e C. auribarbis
A prevalência de P. picta (43,98 ± 11,39%) foi superior à de C. auribarbis (19,28 ± 13,67%) o que está de acordo com os resultados anteriormente encontrados por Gil Collado et al. (1985), Martínez e Palomares (1993), Ruiz et al. (1993), Bueno-de la Fuente et al. (1998) e Leitner et al. (2016). Por outro lado, os valores obtidos neste estudo estão longe de ser os mais altos (P. Picta: 100% na Polónia por Drózdz em 1961 e Espanha por Gil Collado et al. em 1985; C. auribarbis: 100% na Escócia por Cameron em 1932). A prevalência de cada espécie nas diferentes ZC encontra-se na Figura 16.
Figura 16 - Prevalências de P. picta e C. auribarbis em cada ZC (SIG)
A prevalência de P. picta foi superior à de C. auribarbis em praticamente todo o território, com a exceção no norte de Segura em que as prevalências foram iguais. Em três ZC, duas em Penha Garcia e uma em Segura, apresentaram exclusivamente infestações por P. picta, contudo foram também dos sítios onde menos animais foram observados, pelo que não se pode aferir com razoabilidade se a dispersão geográfica de P. picta é superior à de C. auribarbis.
A intensidade média de infestação por P. picta foi de 10,89 ± 10,25 e por C. auribarbis foi de 5,03 ± 6,83. É comum os valores de intensidade para P. picta serem superiores aos de C. auribarbis (Martínez e Palomares, 1993; Ruiz et al., 1993; De la Fuente et al., 2000), o que vai ao encontro destes resultados. O valor obtido é similar ao referido por Vicente et al. (12,98 larvas/hospedeiro), no entanto, a maioria das intensidades reportadas para P. picta são superiores a 20
larvas/hospedeiro. Relativamente a C. auribarbis alguns autores referem valores de intensidade semelhantes aos obtidos (Martínez e Palomares, 1993; Ruiz et al., 1993). Na Imagem 17 apresenta-se a intensidade para as diferentes espécies em cada ZC.
A par das prevalências, verifica-se pelo mapa da Figura 17 que também as intensidades de P. picta predominam. A exceção surge na região sudoeste do Rosmaninhal em que a intensidade de C. auribarbis foi o dobro da de P. picta, o que poderá ser um indicador de que mais estudos serão necessários para avaliar fatores que podem influenciar a variação de intensidade de P. picta e de C. auribarbis.